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Babel | Esses rudes símbolos trêmulos

“Vamos construir para nós uma cidade e uma torre cujo topo toque o céu e vamos nos dar um nome para não dispersarmos sobre toda a terra”. Então o Senhor desceu das alturas e disse: “Eles agora são um só povo e todos têm uma única língua, enfim iniciam a sua obra. Agora tudo quanto quiserem será possível”.

Verdade, depois de Babel o Deus enxergou que o homem tinha muita vontade (mais do que Ele?) e perguntou o que havia. Perguntou com linguagem, que o Deus também tem linguagem. Foi quando desceu das alturas o Senhor e em linhas tortas escreveu: “sendo assim...” Como um pai que não se conforma da precoce gravidez da filha mais nova, como Adão infeliz por ter sido o último e por ter ficado solto, bicho solto na terra, tão pequeno.

Por razão, nada mais certo. Pós-Babel, o Deus e sua generosidade pondo o homem embaixo, bicho solto. Aí a vida alcançou uma meta: tudo cheiro a ilusões e palavras (sic). Porque era bom dar ao homem o som e a alma das coisas que ele não via. Era só o que faltava. Está na Bíblia: Babel é o cálculo do acúmulo e do alcance do homem aos mistérios do Universo, do descanso infindo do Universo, negócio como ócio e vida como arte. Mais do que o mito é a vida quem vos fala em Babel, sempre.

Borges

Babel é a história, o tempo, o labirinto, o espelho dos mundos. Borges comunicou isso, incansável. Está em tudo: de línguas e escritas, somas de gestos para o homem interpretar as coisas, é a engrenagem que gira a roda da existência. Melhor se corromper por ela que pelo silêncio das coisas que não existem. A língua é a vida, o homem; a escrita são os homens; o Universo, os livros, a biblioteca. Assim a vida existe ab aeterno. Escrita ab aeterno.

- Dessa verdade cujo corolário imediato é a eternidade futura do mundo, nenhuma mente razoável pode duvidar. O homem, o imperfeito bibliotecário, pode ser obra do acaso ou dos demiurgos malévolos; o universo, com seu elegante provimento de prateleiras, de tomos enigmáticos, de infatigáveis escadas para o viajante e de latrinas para o bibliotecário sentado, somente pode ser obra de um deus. Para perceber a distância que há entre o divino e o humano, basta comparar esses rudes símbolos trêmulos que minha falível mão garatuja na capa de um livro, com as letras orgânicas do interior: pontuais, delicadas, negríssimas, inimitavelmente simétricas. Suspeito que a espécie divina - a última – estava por extinguir-se quando o Deus, trêmulo, formulou: “sendo assim...” E falo como se estivesse confuso, como se suspeitasse da suspeita. Assim como se tocasse no ponto secreto de todas as coisas:

Senhor, a certeza de que tudo está escrito nos anula ou nos fantasmagoriza?

Na foto: Jorge Luis Borges - retirada do Mundo Latino

nos fantasmagoriza, adalberto. por isso temos que continuar escrevendo. como você, lembrando borges. parabéns pelo texto

O seu texto é de um cronista profissional, experiente.
A leitura é agradável, o que não seria expectável para o tipo de tema abordado, quase sempre enfadonho e lamechas. Fez o que se chama em gíria dar a volta ao texto, literalmente.
Parabéns pela qualidade da narrativa.
Um abraço de irmão lusitano.

Texto de quem sabe do que está falando. De quem sabe usar a linguagem para nos convencer da validade imprescindível da linguagem.
Citações podem levar à dificuldade de compreensão, mas, com suas explicitações, a clareza ficou brilhando.
Parabéns, cronista.
Abraço enorme!
Dora

Vim porque a Luma falou da sua nova atividade, cronista! Gostei da sua forma de escrita quando ia comentar entrou esse novo texto Babel, melhor ainda. Bom ver Borges que na semana passada fez 20 anos que nos deixou.

Sua estréia no Miolo só confirma o que venho dizendo há tempos: vc é um cronista formidável! É um prazer enorme ser sua parceira, viu?
Sucessos muitos e sempre!
Beijocas

Esqueci de uma coisa: além de ser um grande prazer dividir este espaço com vc, sem dúvida será uma forma de eu aprender a ser cronista, né? Porque esta sim é uma verdadeira crônica! rs...
Mais beijos.

Dizer o Quê... "Hein!?"
Massa! Coisa fina!
Estou até comedo de domingo.


E a criança começa a engatinhar! Sucesso para o Miolo.

Adalberto, ainda bem que, via internet, Cajazeiras hoje faz parte do mundo e seus textos podem ser apreciados sem limites geográficos. Gosto quando V. escreve suas crônicas sem querer assumir variantes de linguagem que não são suas. Gosto do seu prazeiroso estilo enxuto. Um abraço.

Uffa! Há vida inteligente nos blogs.Parabéns Adalberto, que estréia!

Bjs

Li seu comentário no blog da santa e aqui estou. Excelente o artigo. O blog Miolo de Pote é novo, certo? Então, já temos alguma coisa em comum. Sucesso a todos.

Muito instigante o texto. Foi certamente pensando nisso que Rousseau, no seu Ensaio sobre a Origem das Línguas, afirmou que elas nasceram das paixões, dos rancores herdados dos tempos de Babel.

Administrar um blog solo não é fácil, imagino com tantas cabeças pensantes. Sucesso é o que eu desejo.

Parabéns!!! Um blog com miolo já um bom começo:))

Bela homenagem a Borges. Bom começo!

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O comentário excluído foi meu. Desculpe. É que estava com 2 janelas abertas e comentei errado. Mas vamos ao Miolo: Não tenho muito a dizer que acrescente ao que já foi dito. Um blog cuidadosamente preparado, o que significa de cara respeito ao seu leitor. Percebo que é a primeira semana de vida. Então, vida longa ao Miolo de Pote!

Um abraço.

Parabéns conterrâneo.

Excelente!

www.blogdopatrick.blogspot.com

O blog ficou muito bom mesmo, Adalberto. e vc nos brindou, como sempre, com um excelente texto. Abraços!!!

Excelente crônica. Excelente estréia. Vc é grande, Adalberto. Parabéns!!!!

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