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Babel

Lula, Vitorino, Zé Amaro

Releio Fogo morto, romance de José Lins do Rego, cuja obra esmera-se de notável valor social e humano. Suas histórias compreendem aquilo que de melhor têm os grandes textos literários, a representação simbólica de uma época por meio de uma estruturada e programática literatura e o desvendamento e estudo da natureza humana. A estrutura do esqueleto social do Nordeste agrário de inícios do século XX apresenta-se em temas básicos que o escritor paraibano desenvolveu ao longo de sua obra com devido bom gosto e humanidade, o que o torna, sem dúvida, um dos mais importantes autores brasileiros de todos os tempos.
Publicado em 1943, Fogo morto narra, à parte, o colapso dos engenhos nordestinos frente ao surgimento das primeiras indústrias usineiras no Nordeste. Digo à parte porque o substancial se evidencia na grandeza humana de três instigantes personagens para os quais aponta a narrativa.
São elas: Coronel Lula de Holanda, senhor de engenho, Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, espécime de político e defensor dos injustiçados, e Mestre José Amaro, seleiro. Três personagens que se entrelaçam e se entrecruzam hesitando, no percurso ficcional, se aproximarem, dando a impressão de não pertencerem a um mesmo e único universo. Zé Lins consegue esse efeito através de um jogo de composição ficcional fabuloso, caso raro na história da narrativa brasileira que, embora lembrado, não exploraremos. Tratemos das personagens. Não há uma personagem principal nessa narrativa, há personagens-destaque. E nenhuma apaga as demais, sendo, por isso mesmo como se a síntese de uma só personalidade.
Em que diálogo teórico e crítico se sustenta a assertiva? Em nenhum. Pelo critério da comoção apenas. Isso mesmo, em Fogo morto todos as personagens-destaque, por sua incontável humanidade, são assaz comoventes; talvez como em nenhum outro romance de Zé Lins. Isso elimina qualquer diferença entre elas, tanto enquanto elementos ficcionais distintos na narrativa como na hierarquia do sistema social representado internamente na obra. Somadas as características humanas que mais se ressaltam, ter-se-á a medida da comoção que elas causam no leitor.
Zé Amaro sempre esperançoso, sempre orgulhoso e com ares de renegado social. É jocoso, sem sombra de dúvidas. Muito e irritantemente quixotesco, como se observa a distâncias. Coronel Lula de Holanda, nem tanto. É de todos talvez o menos quixotesco; mas conta-se o extremo realismo de sua maldade e a melancólica invalidez que o afasta de exercer o “poder do engenho”. Capitão Vitorino chama a pequenas culpas, mas sua vivacidade de espírito e sua cara de tacho, atrapalhado, Papa-Rabo, vale o riso mais a piedade do leitor.
Fixo minha leitura na famosa passagem do romance em que, chamado por Lula de Holanda Mestre José Amaro hesita vir às ordens do coronel, já que este nunca o falou, sequer parou em frente à casa do seleiro para uma conversa. Resolvendo ir, sabe previamente que o velho está lhe arrumando as malas para que saia do engenho. O clímax é dado quando o senhor de engenho, disposto a mostrar-se “superior” diante do agregado (irônico, o narrador mostra que os dois conversam em posição diferente no terreiro da casa-grande – Lula “gigante em cima dos batentes de pedra”, e Zé Amaro “lá embaixo”, na calçada), pergunta:
- Quem é que manda neste engenho, hein, mestre José Amaro? De quem é esta terra, hein, mestre José Amaro?
O mestre não demora na resposta, mas responde como empáfia e desdém, embora terrivelmente vencido pela pequenez de seu “lugar” naquele sistema social:
- O senhor sabe melhor do que eu, coronel.
Afinal, quem manda em quem? Eis um único exemplo do romance, entre tantos, em que de modo simples e quase imperceptível somos levados à beira de questões universalmente nossas: a decadência moral de todos os homens, o exaspero de nosso aparente poder uns sobre os outros, nossa insignificância por isso; nesse simples diálogo, não só à decadência de uma época; não só a dos engenhos de fogo morto e a do patriarcalismo rural que se assentava há anos na autoridade exercida tanto pelos mandões de engenho como pelos senhores comuns de nosso mundo – personagens cuja humanidade levam-nos à comoção por nós mesmos nas pessoas de Mestre Zé Amaro, Capitão Vitorino e Coronel Lula de Holanda.

Foto:
José Lins e Austregésilo de Athayde - 1955 - www.mundocultural.com.br

Na verdade Lins mostra um Brasil mais verdadeiro, o das desigualdades sociais e dos governos elitistas.


(mais uma vez a observação que fiz em outro post. A coluna "últimos comentários" do blog está travada, não corresponde a ordem de chegada).

Muito legal o blog de vocês! O template é finíssimo.

Pois é, a literatura brasileira está cheia de visões duras e realistas sobre o Brasil. Mas às vezes a realidade parece ficção, vide o páis como está agora.

abs

Caro Amigo,

Agradecemos sua visita constante e apoio ao nosso blog. Se você tiver alguma sugestão que melhore o nosso trabalho ou alguma dica que aumente o nosso tráfico na Internet,algum projeto ou programa que conheçam, por favor nos diga.
Um grande abraço dos amigos da Lata:
Odilene & Willam

Falar sobre José Lins do Rego é sempre difícil, pelo fato de sua obra já estar sobejamente comentada e criticada.
Você, entretanto, escolheu um viés, ou um recorte excelente, pinçando e realçando personagens bem adequadas para o realce do sentido da obra.
E, conseguiu transportar para o nível da universalidade os problemas regionais e marcados, da época do romance.
"Ser o dono" é uma questão puramente social e econômica, tanto lá, como hoje em dia, e como sempre. Os homens nascem livres. Tornar-se "dono" é uma postura "adquirida". E, muitas vezes, distorcida, cruel e injusta para com os demais que não tiveram a mesma sorte(?).
Texto inteligente e atual.
Abraço para você.
Dora

Muito bom e não poderia ser diferente. Bem, eu não sou especialista,não consigo fazer uma análise literária a sua altura de seus leitores, apenas uma opinião de mera leitora. Na obra de José Lins do Rego, prefiro os romances que tratam o ciclo da cana, da decadência dos engenhos pelos novos modos de produção,que mudou definitivamente a condição social e econômica dos senhores feudais.

Adalberto, ainda espero por uma visita sua na Santa e no Arte Incomum.

Portugal perdeu! snif snif snif
Agradeço a todos os brasileiros a força que nos deram!
Um abraço amigo e obrigada pela visita tão gentil!

Vê-se o domínio literário. Outras obras de autores brasileiros poderiam passar por sua análise.

As relações de poder e as desigualdades no Brasil continuam tão vivas como se os personagens de José Lins saissem do livro e assumissem formas humanas.Parabéns pelo texto.

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