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Babel


O caráter revelador do romance

Milan Kundera, em suas reflexões sobre a estética do romance, faz, angustiado, a seguinte pergunta: poderá o romance resistir a um mundo totalmente oposto ao seu, tempo em que tudo conspira contra a própria razão do romance?
Pergunta difícil, mas a resposta está nos arredores da “razão de ser do romance”. Segundo Kundera, esse gênero literário existe, e além de tudo, para a iluminação das coisas humanas, como forma de desvendar o que se esconde nas aparências do ser e pô-lo à prova do conhecimento. Essa a sua moral. Por sua vez, o romancista é o que descobre uma porção até então desconhecida da existência. Se não o faz, não pode assim chamar-se. Ironicamente, reservam-se outros nomes para o escritor: filósofo ou historiador, por certo, dependendo do alcance da sua escrita.
A narrativa dos Tempos Modernos, como escreve Kundera, tem extrapolado os limites do psicologismo e não é raro encontramos autores com bizantinismos técnicos, beirando os limites do experimentalismo. Às vezes, experimentalismo e psicologismo caminham juntos em alguns autores: química perfeita que dá ao romance certa incompreensão múltipla. E nos referimos ao romance como a prosa baseada na ação e como tentativa dessa possibilidade de revelar uma parcela do mundo humano, seus aspectos ainda não revelados.
È indiscutível que alguns romancistas levaram às últimas conseqüências a liberdade concedida ao domínio artístico na época moderna. Ainda hoje muitos artistas folgam na tentativa de se colocar distante de tudo o que esteja “fora da modernidade”. Para eles, uma obra de arte não é, senão, a que rompe os antigos modelos, portanto, com a história das realizações anteriores.
O romance, como arquétipo vivo da experiência reveladora da arte ocidental, não tem história, diz-nos o autor de O livro do riso e do esquecimento. Sua história é uma sucessão de descobertas a que se pode denominar de história do romance: “Um por um, o romance descobriu, à sua própria maneira, por sua própria lógica, os diferentes aspectos da existência”, explica-nos. Assim devemos a Rabelais, Cervantes, Balzac, Flaubert, Tolstoi, Proust, Faulkner, Joyce, Thomas Mann e Kafka, tanto quanto ao próprio Kundera e outros tantos autores dos Tempos Modernos um pouco da compreensão do ser do homem.
Ora, o romance é, antes de tudo, arte. A arte do romance é de natureza reveladora, como toda boa arte. Contemporâneos de Kundera, no entanto, concebem a o romance como uma simples diversão e não como arte. É muito bonito um romance cuja compreensão pertence unicamente a seu autor, ou cujas descobertas limitam-se ao reino do insignificante e do óbvio.
Felizmente, o caráter revelador do romance não é para todos. Kundera o observa quando se refere aos que por excessos ou faltas realizam obras: “’Do esboço à obra, o caminho é feito de joelhos’. Não posso esquecer este verso de Vladimir Holan. E me recuso a pôr no mesmo nível as cartas a Félice e O castelo.”

Imagem: Alonso Quijano, leitor de Romance – In: DUBITO ERGO SUM - Caderno de Literatura e Filosofia

Acho que o mundo não está oposto ao romance, e sim, menos poético. Mudam os planos de fundo mas o romance jamais deixará de existir.

Faz parte do texto, da história, da dor e até mesmo das tramas mais absurdas que pode-se imaginar. O romance é um recurso indispensável na construção do homem como um todo. Sem esse caráter não dá!

Abraço, Adalberto.

O seu artigo é como uma bálsamo aos nossa alma, a minha em especial, bastante abalada com os ataques em SP.Um abraço.

Uma aula!

Não sou da área mas lendo seu post dá para entender porque alguns romances ficam na nossa memória.

Caro Adalberto. Não compreendi muito bem seu texto.
A partir da teoria de Milan Kundera, o romance não conseguirá sobreviver ao nosso tempo, onde tudo conspira contra a razão de ser do romance. Até aí, entendi... E a razão de ser do romance, como gênero, é a iluminação das coisas humanas...etc...Mas, a poesia também "existe" para isso. O conto, também. A novela,idem.Ou, melhor, a verdadeira ficção artística ( romance, conto, novela, etc..) independente de "gêneros", tem a essa função "iluminadora".
O romance, como "gênero", surgiu no século XVII e não tinha as características que hoje apresentam romances como os de Joyce, por exemplo. Discute-se, por isso, a morte do "romance" como gênero, justamente porque essas características se diluíram e tomaram novas formas. Mas, a intenção de "iluminar as coisas humanas" permanece em todas essas obras da Modernidade, que são ainda denominadas de "romance".
Não entendi mesmo o texto...
E nem você irá me entender. Fui confusa. Em outro momento, quem sabe eu ainda fale com vc sobre a idéia do texto.
Grande beijo.
Dora

Adalberto, sem entrar no mérito da estética literária pois (já disse) não sou especialista. Traço paralelos com outras formas da arte. Contar eternos temas como a vida, o amor, a morte, a comédia e a tragédia humana, exige do autor a capacidade de redesenhar e dar a cada um desses temas um novo arranjo estético e, o oferecer ao apreciador mais um dos mistérios da criação artística.
Um abraço.

O seu texto está ótimo, Adalberto, didaticamente bem escrito. Mas, para mim, o romance se faz arte pela linguagem,pelo modo de utilização da linguagem, revelando-se a si mesma como "monumento", como algo que se faz permanente por seu valor intrínseco. Para falar do mundo em suas diversas problemáticas, existem os tratados, os ensaios, as teses, os compêndios de toda espécie. A prioridade da arte é ser arte. Por tudo isso, julgo muito pouco ou nada pertinente esse tipo de colocação, de preocupação, como a do Milan Kundera. Salvo engano, Adalberto.

Adalberto!! O Francisco Dantas veio me salavar!!! Leia como "minhas" as palavras dele...É isso! É isso!
Seu texto é sempre bem escrito, mas a preocupação do Kundera é que está deslocada para o meu entendimento...
Obrigada, Dantas.
Beijos para você dois!!!
Dora

Adalberto, boa provocação! Percebe-se pelos comentários.Pena que os visitantes do Palimpnóia não comentem o seu artigo.
Enriqueceriam.

Apesar de Kundera, o romance sobrevive:))

Caro Adalberto,
Passa lá no blog. Aviso que não é nada prazeroso comparado com a arte do romance.

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