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Babel


Gabo para iniciantes

Romance mais popular de Garcia Márquez, traduzido para quase 40 idiomas, com mais de 30 milhões de exemplares vendidos no mundo inteiro, Cem anos de solidão (1967) narra a trajetória dos fundadores de Macondo ao longo de um século de história. Aldeia imaginada por Márquez, localizada num ponto remoto e distante de toda civilização, em Macondo conhece-se os Buendia (Úrsula Iguarán, José Arcadio, Amaranta, José Arcadio (filho), o coronel Aureliano Buendía, protagonista, Rebeca Montiel, Melquíades - os dois últimos, espécie de Buendía por adoção) e mais não sei quantos personagens que entram e saem de Macondo, morrem, desaparecem, enlouquecem e testemunham os mais extraordinários acontecimentos. Situações que extrapolam o convencional, aquilo que razoavelmente aceitamos como lógico e temos como próximo de uma realidade plausível.
Há vários exemplos na narrativa, como a epidemia de insônia que afeta toda Macondo, deixando a população sem dormir, sem lembrar os nomes das pessoas, dos objetos e da própria identidade, o dilúvio que dura mais de quatro anos, ininterruptamente, mortos que conversam com vivos, moças que voam, personagens que sobrevivem a seqüências de pestes e doenças de todos os tipos. Diante de tais episódios, inevitavelmente a pergunta: como é possível?
Diríamos ao leitor surpreso, em linguagem atual, que ele está diante do que se pode chamar de “efeitos especiais da ficção”. Aí a ficção dá um giro maior que o mundo real do leitor e por isso o espanta. Acuado, ele não foge: é decifrar a charada ou perder a aposta. Em linguagem crítica, explica-se que se trata de uma realidade estritamente literária (apesar de poder ter sua origem em dados reais, vividos pelo escritor e recriados a seu modo), mas nem por isso menos real ou lógica que não possamos entendê-la.
O estranho dos acontecimentos responde pelo poético nome de “realismo mágico”, ou “realismo fantástico”, prática ficcional de que faz uso Garcia Márquez em seu trabalho artístico e que consiste, segundo João de Melo, numa atividade simples e simultaneamente deslumbrada, recorrendo aos grandes temas sociais, sem dúvida, mas envolvendo as realidades descritas numa auréola de sonhos, crenças e rituais lendários. Assim, no mundo imaginário criado pelo artista, tudo é possível, e tudo se explica, os acontecimentos mais improváveis ganham uma lógica própria, porque possíveis e explicáveis no próprio contexto da narração. E há uma definição de Gabo para o romance que se encaixa perfeitamente na descrição de “realismo fantástico”: "Acho que um romance é uma representação cifrada da realidade, uma espécie de adivinhação do mundo. A realidade que se maneja num romance é diferente da realidade da vida, embora se apóie nela. Como acontece com os sonhos" (palavras de Márquez em Cheiro de goiaba, 1982).
Por “realismo mágico” entende-se ainda grande parte da arte feita na América Latina na década de 50 do século XX por autores que juntavam a tais procedimentos estéticos o diálogo com a realidade latino-americana, daí ora ser chamado de “realismo mágico latino-americano”, com estatuto de gênero literário surgido quando do lançamento de Cem anos de solidão.
Embora a noção de um procedimento que explica a existência de alguns acontecimentos na ficção de Garcia Márquez, temos que as experiências de vida do escritor de alguma forma também lhe tocam a obra. Não por pura confissão, mas, como disse Gabo (apelido do escritor), porque a história da vida de cada um não é apenas o que se viveu, mas o que se lembrou e o que se contou sobre ela. As palavras de um escritor num romance podem ser, pois, parte de sua experiência real, como muitas vezes sugeriu o Nobel de 1982.
Macondo, sabemos, Macondo não existe, mas vive nas lembranças do escritor como um reflexo do povoado da costa atlântica da Colômbia chamado Aracataca, onde Márquez nasceu aos 06 de março de 1928. Jose Arcadio Buendía, pai do protagonista, Aureliano, é um pouco o avô de Gabo, o coronel Márquez, e, de alguma forma, o próprio Aureliano, herdeiro da solidão dos Buendía e personagem recorrente nos romances do colombiano. O coronel Aureliano Buendía torna-se tão importante na obra de Gabo que o encontramos em mais dois de seus livros, El coronel no tiene quien le escriba (1961) e Crónica de una muerte anunciada (1981). Recentemente li que o personagem também aparece num conto do escritor intitulado “Los funerales de la Mamá Grande".
Bem, Arcadios e Aurelianos à parte, é sempre um prazer ler a literatura de Gabo: é como adivinhar o mundo, magicamente.
Imagens:
Garcia Marquez: www.ilcollediscipio.it
Livro: Editora Dom Quixote

Cara Adalberto

Como sempre um excelente artigo.

Cara Adalberto

Como sempre um excelente artigo.

Nota dez, Adalberto. É um prazer ler seus textos. Grande abraço.

Ler Gabriel García Marquez é sempre mágico, e esse romance, em especial, vai nos envolvendo numa torrente de surpresas fantásticas. Parabéns pelo belo texto. Abraços!!!

Ler seu texto me fez voltar no tempo. Me lembro de como este livro me envolveu. E exatamente pelo que vc chama de efeitos especiais de ficção. E me fez perceber a liberdade que a literatura proporciona à imaginação.
Gostei de te ler. Muito.
Beijocas

Não fosse a adesão de Garcia Marques a Fidel Castro...

Super color scheme, I like it! Good job. Go on.
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Mais um excelente artigo. Eu li Cem Anos de Solidão. Levei meses... :)) Apesar dos vários momentos de extrema beleza do livro,não considero como muitos o consideraram o melhor do século.

Parabéns pelo artigo sobre o excelente Gárcia Márquez.

Espero uma forcinha sua para me ajudar a fazer parte no Miolo de Pote!

Abraços

PATRICK GLEBER
www.blogdopatrick.blogspot.com

Adalberto! "Cem anos de solidão" foi o primeiro livro de Garcia Marques que li, ainda muito mocinha. Tive que fazer uma espécie de esquema da árvore genealógica dos Buendia, para não me perder...Mas, depois, percebi que não era tão importante assim ater-me aos fatos exatos. Porque a obra se afigura como uma realidade "sonhada", onde tudo se mistura na atmosfera onírica.
Fiquei extremamente impressionada com o "realismo mágico", na época. Depois, li tantos autores que recorreram a esse jeito de re-criação do mundo, que me acostumei.
Boa lembrança você me trouxe, com seu texto sempre bem cuidado e elucidativo.
Grande abraço.
Dora

a descrição do livro e o comentario sobre o realismo fantastico estão, para não dizer de uma maneira melhor, perfeitos!!!

Parabens.

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