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Palimpnóia


Cardápio: Trivial

Dizem que mineiro adora contar um “causo” Não vou fugir à regra, ainda que não seja uma boa contadora de histórias. Mas este “causo” vale a ousadia.

Zé é um cidadão brasileiro de idade média, felicidade média, vida média. Irmão do meio de uma família tipicamente brasileira, tem nas veias aquela mistura sagrada que dá o tom da pele, o humor e o sorriso da nossa gente. Tem também aquele ar brejeiro de garoto esperto.
Mas Zé não foi sempre assim. Quando criança era tímido, encardido e quase invisível. Cresceu meio moleque, meio menino sério. Não estudou muito, mas aprendeu direitinho a ter notas que o passassem de uma série para outra. Nunca foi difícil enganar os professores e dar uma “coladinha básica”.
Começou a trabalhar cedo. Mas não parava em emprego nenhum. Era completar um ano e dava um jeito de ser demitido. Pegava o fundo de garantia, as férias e seguro-desemprego. Ficava um bom tempo tomando cervejinha nos finais de tarde (às custas do governo, é claro). Tinha sempre outros na mesma situação dele. E falavam de futebol, de política e ficavam olhando as saias que passavam pela calçada. Depois voltava ao “trampo”. Até que criou juízo. Apaixonou-se, casou-se e virou homem sério.
Subiu na vida, o Zé. Mas batalhou muito para chegar onde está e todos os dias agradece a Deus por isso. É bem verdade que precisou usar vez ou outra a lei da vantagem, mas coisa boba. Nem era muito diferente de tudo que sempre fizera. Um conhecido ali que o ajudara a entrar numa firma, outro que dera as dicas da concorrência, aquele político que fez sua carta de apresentação, o sogro que facilitara a escalada na empresa. Era honesto. Nunca roubara nem prejudicara ninguém.
Hoje Zé tem uma vida quase tranqüila. É grande leitor de bons livros e de uma revista semanal. Lê dois jornais diariamente e, sempre que a mulher dá uma folga, corre a olhar aqueles sites de sexo que proliferam na internet. Cuida do corpo, veste-se bem e adora receber os amigos nos fins de semana. Domingo é seu dia preferido. Reúne-se com os amigos num farto churrasco à gaúcha, à beira da piscina. E o papo rola solto. Piadas engraçadas, a mulher do vizinho, o gay do salão de beleza, a roubalheira do governo. E Zé se entusiasma. Sente-se no direito de cobrar e de se indignar. Afinal, foi um dos que colocou lá aquele sapo-gordo-mentiroso-aproveitador-ladrão. E no meio da sua indignação, se a campainha toca, a empregada já sabe: dá logo alguma coisa ao pedidor de esmola e não estraga o domingo que é dia sagrado.
Zé não gosta de política, nunca gostou. Depois da grande decepção que foi o governo que elegeu, não confia mais em nenhum político. Vai anular o voto, com certeza. Talvez vote apenas naquele conhecido que vai ser candidato a deputado. O resto, é xis vermelho da urna eletrônica. Andam dizendo que se todo mundo anular o voto, a eleição é anulada. Não está muito preocupado com isso, que elejam quem se lá quem for. Sua preocupação agora é outra. Por culpa do incompetente do contador, vai cair na malha fina. Tem absoluta certeza. Precisa arrumar rápido uns recibos ou vai ter que morrer numa grana feia. Pagar mais a este governo corrupto é que não vai. De resto, a vida vai bem. Ainda faltam alguns passos para ser um vencedor, mas com sua inteligência e sua esperteza conseguirá chegar lá.

Pois é, esta é a história de Zé. Uma história que nem de longe se parece com a minha, com a sua, com a de qualquer pessoa das nossas relações. Uma história que nem mesmo se parece com Zé.
Talvez porque o Zé escrito não seja nada bonito.


Fotografia conceptual de Vasco Jorge: Eu, Eu e Eu (Um ataque de egocentrismo)

Olá Helena! Tudo bem contigo? Adorei o seu blog! Bem bonito, informativo, de muito bom gosto! Fiz uma visitnha também no Blog da Santa! Faz um tempo que não nos falamos! Beijos e tudo de bom para você!

Mas tá cheio de Zé por aí. Dá pra contar mais de um em cada dedo das mãos e ainda dos pés, até pedir dedos emprestados. rsss
Mas a palimpnoiada da Euza conta causo muito bem que dá vontade de que as linhas continuem com mais escritas. Ainda conta causo com moral. Conta mais, conta!

Beijos na minha cronista predileta

Com a minha se parece pelo menos nesse "olhar as sais que passam", já que não tenho melhor opção. Longa vida ao Zé. E que venham mais causos.

EuzaLoba...

Eta esse Zé, é mineiro uai.., baiano, paulista, paranaense, gaúcho, carioca e tantos outros, o Zé é bem brasileiro, é o homem dos dias atuais, que vive uma vida simples, comum, buscando dar conforto à família. Não quer mudar nada, nem participar de nada, apenas viver sossegadamente. Deixo aqui um abraço ao Zé e a você um beijão.
Espero ter entendido sua mensagem.. é mais um ótimo conto da dona lobinha.

Vai começar a lista de coemntaristas (?) de auto-elogios aos textos publicados aqui.Menos, menos...

E quem não tem alguma parecença com o Zé? Se não dei uma coladinha básica, ajudei a colega a fazê-la, né? E quem sabe entro na anulação do voto? Assim, pareço mais com Zé Brasil. Meu abraço, Euza!

esse zé aí tá mais pra luis ignácio

Que atire a primeira pedra aquele que não tem sequer uma mão do seu Zé!
Muito inteligente da sua parte. É um bom momento para que nos vejamos neste espelho escrito que não é nada bonito.
Abraços

O texto está bem escrito, mas esse Zé está mais brasileiro da igreja universal do que pra mineiro. Mas gostei mesmo foi das chamadas políticas e das colocações da frustração de muitos brasileiros pela eleição do sapo gordo barbudo metido a burguesão. Um beijo.

Alguma ironia no último parágrafo!! (rs*) Conheço muitos brasileiros medianos iguais ao Zé.
Beijus

é a realidade.
beijo

Loba, cada dia melhor! Como bom mineiro, me indentifiquei com esse zé em alguns momentos... rs* Adorei!

Loba!!! Eu conheço esse Zé! Aliás, conheço vários, tão parecidinhos...Não entendi. Você os conhece também? rs
Sabe. Esse tipo "médio",mediano, morno, nem cá, nem lá, é o mais comum de ser encontrado. Mas,quem se diferencia "muito" desse estereótipo? Em alguns momentos,pelo menos, somos todos iguais ao Zé!!!
Beijos!
Dora

Olha que blog tão giro!
Obrigada pela visita, tive muito gosto em recebê-lo!
Um abraço amigo da Dani

este olhar é bem reflexo! zes é o que o Brasil mais tem.vai cuidando de si,o resto vê depois...Boa critica do perfil do brasileiro.De manha a maioria se encontra na frente do espelho(se reconhecem?!!!)eis a questão.Abraço,Loba.

Alguém já comentou e eu repito...Quem não foi Zé umdia que atire a primeira pedra.
Cumprimentos Tugas (Não sou zé)

O Zé no início dava uma de Mané. E acabou subindo na vida. Coisas da sorte, destino(que não acredito) ou o quê?
Beijos, gatona!

PS - postei o Episódio 2 da minissérie DULCINÉIA.

Nossa sociedade valoriza a desonestidade e mediocridade.
http://dudu.oliva.blog.uol.com.br

Num é por nada não mas teve um cara aí que te chamou de Helena...rs
Tu mudou de nome amiga?
Bem, falando do texto...o Zé...um cara que todo mundo conhece, em forma de João, Mané, Tonho...
O Brasil e seus Zés...rs
Amiga, eu tentei comentar no Corpus e num dei...ops, dei não, deu...tá com problema?
Beijos

Pelo jeito o texto não agradou aos comentaristas que só sabem elogiar. Vai ver não gostaram de se ver no espelho que deu a eles. Ponto pra vc.

Euza, desculpa a demora. Estou com problemas para digitar.

A “coladinha básica” lembrou uma pesquisa recente feita por uma universidade portuguesa, ao demonstrar que alunos costumeiros a "colar" são mais afetos a corrupção (rss).

Um abraço.

olá Loba querida!

é.... infelizmente no nosso querido e amado Brasil não faltam esses "Zés"... infelizmente!

um país onde muitos se vangloriam de usar a tal "Lei de Gerson"... maldita Lei!

beijo grande.

Euza...

Você é demais. O texto é de uma essencia fabulosa. Eu não sei porque algumas pessoas aqui se afastaram dessa figura. O Zé existe, e somos nós. Uma grande parte de nós.

Textãooooo... gostoso uai!

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