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Babel

Relendo um clássico

Quando lemos é sempre por preferência. Ninguém lê um livro por obrigação, e ainda que o façamos essa leitura não se torna agradável e em conseqüência proveitosa. Daí que livros lidos sem que o leitor tenha a experiência da escolha, da preferência e do prazer de ler, não se tornam importantes.
Mas se os textos nos são apresentados respeitando nosso apreço por eles, vale a pena. É ler uma vez e querer ler de novo. A releitura é, pois, determinada, em principio, pela livre experiência tida com o livro. Outra forma de reler é ser questionado pelo livro, é ser inquietado após lê-lo. Os que muito lêem sabem que a aventura da leitura é uma coisa como um jogo: o leitor é perguntado, o livro espera resposta. Ninguém fecha um bom livro sem que fique assim de questões, senão não valeu, jogo perdido.
Assim com os livros, assim com os autores. Estaremos sempre relendo os grandes que nos marcaram. Costumamos reler autores como Goethe, Camões, Flaubert, Dostoievski, Balzac, os clássicos. Principalmente os clássicos. Por que? Primeiro porque, como disse Ítalo Calvino, um clássico é um livro em que se está debruçando sempre por mais de uma vez: livro cheio de aberturas, o leitor preso em seus questionamentos. O leitor obriga-se a voltar ao livro porque caso não o faça ficará preso dentro dele. Não quer ficar preso, aí se debruça e o lê novamente. É possível ler uma única Shakespeare, Cervantes? Diante desses nunca dizemos: estou lendo, comenta Calvino, mas: estou relendo.
Outra definição de clássico do escritor italiano: “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha pra dizer”. Essa idéia mais que aquela diz mais sobre as obras clássicas. Na verdade, quando se procura reler um livro clássico não é apenas porque a obra tenha esse estatuto, mas porque, com certeza, ela nos deixou algo indefinido em suas páginas, algum mistério, um pouco de segredo que só o desvendamos a cada vez que voltamos ao texto.
Machado de Assis: este não há quem não o tome por clássico. Em alguns de seus melhores livros somos levados a relê-los não apenas pelo gosto (que é infindo), mas por essa qualidade que os faz serem obras que nunca nos disseram tudo o que gostaríamos. Tomo Machado como exemplo para relembrar uma de suas melhores obras, Dom Casmurro. A propósito há algum tempo escrevi um sobre esse romance (quando do centenário da primeira publicação) e outro a respeito de um livro de poemas que procurava exercitar a releitura da obra machadiana através de um critério bastante curioso: a da retomada de um texto inconcluso que aparece no próprio Dom Casmurro. Trata-se do livro Olhos de ressaca, do poeta cearense Francisco Carvalho, publicação restrita a alguns amigos do poeta.
O exame de releitura é interessantíssimo pois parte do entendimento de que há um texto latente nas entrelinhas do discurso do narrador de Dom Casmurro, e assim entendido toma-o com forma e acabamento, num exercício arrebatador de construção estética que acaba nos convencendo, leitores, de que o texto descoberto é mesmo do próprio narrador.
Para relembrar os leitores de Dom Casmurro, os versos em questão são aqueles do capitulo LV do romance, versos escritos por Bento Santiago no quarto do seminário a que foi mandado se fazer padre a contragosto e a contragosto de Capitu. Ali o narrador dizia não se consolar por não ter conseguido completar o soneto que tanto desejou fazer, e, com sua habitual desfaçatez desafia o leitor a tomá-los e concluir o poema. Os versos são esses três: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura! e Perde-se a vida, ganha-se a batalha!/ Ganha-se a vida, perde-se a batalha!
Francisco Carvalho, pois, aceita o desafio de Machado, digo, de Bentinho, e escreve não um mas dez sonetos a partir desses três versos. O resultado é bem isso de que vimos falando: vem à tona o escondido, o embutido nos espaços do texto, até então não visto pelo leitor. Ora, a todo o momento Bentinho tenta convencer o leitor de que não acha motivo para o seu texto. E assim como procura fazer o leitor cúmplice da ciumeira por Capitu, quer nesse momento do texto apostar que a flor do céu cândida e pura não é a Capitolina, que poderia ser, mas que não é, que talvez fosse “qualquer outro conceito a que coubesse o conceito da flor”, como a religião, a poesia, a virtude.
Em 1999, quando da publicação de Olhos de ressaca, escrevi: “Francisco Carvalho sabe o instante da palavra. O livro é um retrato de Capitu feito com a tinta daquele ‘fluido misterioso e energético’, cuja imagem reflete na pena de Carvalho”. E acrescentava: em Olhos de ressaca, Capitu é revisitada, recapitulada, poetizada e amada pelo poeta. O mesmo que fazemos nós aos clássicos, relendo-os.

Imagem: Capitu pintada por J. da Rocha. IN:

Ninguém é o mesmo depois de ler um bom livro, ninguém sai ileso ...

Eu até acho que uma leitura obrigatória pode se tornar prazerosa se o livro é realmente bom. Mas sem dúvida a escolha é fundamental para que se curta uma leitura. E esta escolha pode vir através de vários instrumentos, né?
Fato é que os bons livros sempre nos convidam a releituras - especialmente Dom Casmurro. E via de regra cada leitura traz um prazer novo.
Beijos

Os clássicos permanecem.

reler um clássico é memso indispensável. porque daí, vc descobre que vai mesmo precisar saber mais sobre eles. afinal, o que há de tão mal nisso? e quem nunca leu? e se inebria do mesmo jeito ao descobrir que alguns escritores, detinham um poder especial para suas épocas: decobertas e amostras das mesmas. impossível não se deliciar e ainda hoje, redescobrir o detalhismo de um Machado. seja em que obra for. reler um Rilke, outra língua, outro tempo e cultura. e no entanto, descobrir ainda assim, que há muito por saber e pensar. pensar é um modo de elevar-se. e não me refiro aqui, àqueles pensamentos ínfimos, sem sal ou cor. enfim, eu releio tudo, sempre que cedo ao meud esejo incansável e egoísta de que querer saber mais. falei, falei e não queria deixar passar: muito bom o texto, a reflexão e os argumentos.

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