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Babel

20 anos sem Orígenes Lessa

O ano da morte de Mario Quintana, 1994, foi também o do piloto brasileiro de Fórmula 1, Ayrton Senna, que aliás morreu quatro dia antes do poeta gaúcho. Lembro a comoção que tomou conta do país e o destaque dado à morte do piloto pela mídia, imprensa e televisiva. Àquela altura, Senna era indiscutivelmente o “fenômeno” da velocidade, daí ter sido bastante explorado pela televisão, que o patrocinava e foi responsável por sua rápida aceitação pública e pela “sensação” mítica que se criou em torno do piloto após sua morte. O poeta Mario Quintana não era fenômeno, nem de mídia nem de venda, era um simples poeta. Daí a televisão ter dado pouco destaque à sua morte, como o perceberam artistas e jornalistas à época, em artigos publicados em jornais e revistas e em declarações feitas em diversos meios. Se não me engano, no Jornal Nacional, uma pontinha com uma informação sem imagem. Enquanto para Senna, honras num funeral que quase durou uma semana na tela da tv Globo.
Fizeram injustiça com o Mario Quintana, diziam naqueles dias. De fato, fizeram injustiça com o poeta gaúcho, tão importante para a nossa cultura e tão merecedor de louros como o herói da Fórmula 1. Mas hoje, na data do centenário de Mario Quintana faz-se injustiça a um outro nome. Trata-se de Orígenes Lessa, escritor e jornalista nascido em Lençóis Paulista, São Paulo, de quem muitos leitores brasileiros ainda desconhecem a obra (talvez nem saibam que o autor é pai do - mais conhecido - escritor Ivan Lessa).
Não é porque o centenário de nascimento do escritor paulista já tenha se passado (foi em 2003) que nesse mês de julho ele não tenha sido lembrado, e porque devido a data dos 100 anos de Quintana as atenções tenham se voltado para o poeta, mas porque esqueceram-se que em julho deste ano também completaram-se 20 anos da morte de Lessa, curiosamente ocorrida um dia após o escritor ter completado 83 anos, em 13 de julho de 1986.
Nascido no dia 12 do mês sete de 1903, Orígenes Lessa era jornalista de profissão, mas foi principalmente na literatura que se destacou, realizando uma importante obra de ficção, excepcional entre os escritores de sua época. Foi um autor que começou cedo, tendo escrito contos, novelas, romances e ensaios desde a juventude, a partir dos anos 20 do século passado, chegando a publicar ininterruptamente por mais de seis décadas. Só diminui mesmo o ritmo de produção após o avanço da idade, e mesmo assim, ainda trabalhava muito, mesmo após sua eleição em 9 de julho de 1981 para a Cadeira n. 10 da Academia Brasileira de Letras.
Orígenes Lessa, para além do trocadilho com o nome, era um escritor muito original. Um mestre na narrativa curta e um excelente observador da cena brasileira do século XX, que ele soube retratar muito bem através da caracterização de seus personagens e da técnica de construção narrativa que o consagrou na literatura brasileira: o uso do diálogo bem construído, parte inconfundível do seu estilo de narrar. Como lembrou o escritor Antonio Olinto em solenidade de homenagem a Orígenes na ABL, em julho de 1999, “poucos escritores, não só do Brasil, mas de nosso tempo, tiveram o domínio do diálogo como Orígenes Lessa. A contenção e a rapidez dos diálogos de Orígenes fazem pensar em terem sido gravados, extraídos da própria vida de personagens reais”.
Além de obras de ficção, Orígenes Lessa escreveu reportagens e foi um dos principais nomes da redação publicitária no Brasil. Consagrado como romancista, publicou O feijão e o sonho, romance de 1938 (adaptado para a televisão), João Simões continua (1959) e O evangelho de Lázaro (1972), entre outros. De contos trataria de acolher os leitores brasileiros em diversas histórias, muitas delas de teor reconhecidamente biográfico, como as que aparecem nos volumes de Garçon, garçonnette, garçonnière, (1930); Omelete em Bombaim (1946); Balbino, o homem do mar (1960) e Nove mulheres (1968).
Lessa também escreveu livros infanto-juvenis. São mais de trinta obras ao todo, entre os quais os títulos: O sonho de Prequeté (1934); Memórias de um cabo de vassoura (1971); Seqüestro em Parada de Lucas (1972); Memórias de um fusca (1972); Napoleão ataca outra vez (1972) e A escada de nuvens (1972).
Em tempo: antes de Jose Saramago ter se saído com suas Intermitências da morte (2005), Orígenes Lessa escreveu um livro, em 1948, cujo título é A desintegração da morte. Trata-se de uma novela de ficção científica cujo assunto é o mesmo do romance do escritor português ganhador do Nobel: uma sátira admirável sobre os limites da condição humana, quando o homem se vê diante do inusitado. Em ambos os casos, a falta de perspectiva do homem diante da vida, para quem a morte agora é ausente. Na novela de Orígenes, um cientista chamado Klepstein consegue desintegrar a morte, sumir com ela, fazer com que desapareça da história com o único propósito de diminuir o sofrimento e a dor da humanidade. Resultado: com a “morte” da Morte, a vida humana vira um caos, e os mais inesperados problemas começam a aparecer: como observa o ensaísta Gilberto Mendonça Teles, problemas sociais, a exemplo do desemprego (fecham-se farmácias, hospitais, funerárias, fábricas de remédios etc) e religiosos, já que, não morrendo mais o ser humano estaria condenado a não mais ter a “divina esperança de gozar um dia a bem-aventurança do céu”. Nessa novela, ainda segundo Teles, Lessa parece se antecipar a alguns temas que são objetos de preocupação científica, como é caso dos transplantes – nos dias de hoje, lembraríamos a clonagem de órgãos e outros avanços da ciência. Mas bem mais, Lessa parece ter antecipado toda a estrutura de uma obra que só seria escrita quase sessenta anos depois. Coincidência ou não, vale conferir os dois textos: Saramago e Orígenes. Este em primeiro lugar. Ou aquele.
Bem, não importa. Já são 20 anos sem Orígenes!


Imagem: Foto Orígens Lessa - www.lpnet.com.br

Um dos primeiros romances que li foi "Rua do Sol", do Orígenes. Tinha eu uns 12 anos. Gostei. Li o romance por conta do título, pois que havia uma rua com esse nome em minha terra. Origenes foi um excelente escritor. Notabilizou-se pela apurada técnica nos diálogos em suas obras.
Já Quintana, poeta na alma, foi sempre sacaneado. Preterido para a ABL algumas vezes. DE uma das vezes, perguntado sobre o episódio, respondeu:"Eles passarão. Eu passarinho". Alguns críticos não gostam do trocadilho. Não importa.
O fato, conterrâneo Adalberto, é que neste país imberbe culturalmente, o esquecer de Orígenes, Quitanas é corriqueiro. Infelizmente.
Parabéns pelo texto e pela lembrança.
Aroldo Camelo de Melo

Adalberto,

parabéns pela lembrança e pelo belo e bem construído texto. Realmente é uma pena que honras sejam reservadas - geralmente - para pessoas que aumentam o ibope dos meios de comunicação, em detrimento de outras, tão (ou mais) ilustres quanto aquelas. Merecidíssimas as homenagens ao Mário Quintana e infeliz o esquecimento dos vinte anos sem Orígenes Lessa, um dos primeiros escritores brasileiros que lí.
Abraços.

Bom dia!
Venho retribuir e agradecer a visita de Helena de Troia ao I&I e descubro um blog interessantissimo, com excelente qualidade. Parabens!
Tornar-me-ei assidua!
Bjicos!

Atualizando a leitura, me deparo com esse texto, que inclusive, já foi tema de nossas conversas ao pé da calçada. Pois é, Adalberto, alguns escritores seguem quase anônimos na cena literária nacional, injustiçados quase sempre. Bela lembrança a sua. Ao Quintana, ao Lessa e ao Saramago, sempre vale a pena ler. Um grande abraço.

Adalberto

Além da televisão, a mídia escrita também foi discreta durante os eventos. Poucos são os que escrevem resgatando a dívida aos poetas. Eis que, aqui, encontro um brilhante artigo sobre. Parabéns.

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