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Babel

Letras brancas sobre um fundo escuro

A poesia dá trabalho. Ao leitor iniciado, nem tanto. A este a poesia parece corresponder de maneira exata àquela famosa idéia de Fernando Pessoa que diz ser o poeta um fingidor, e a poesia, fruto desse fingimento, não deixa que esse leitor atente ao engano da facilidade. O leitor iniciado entende que a poesia pode ser tudo, menos fácil de ler. Ao leitor comum, no entanto, é mais difícil envolver-se no tecido poético com autonomia e visão crítica, daí que até o que não é poesia para ele é. Assim, o poema torna-se fácil de ler, porque não exige outra coisa além de uma facilidade já previamente buscada.
Faço essas observações porque há uma ou duas semanas tenho lido os poemas de os Guarda-chuvas esquecidos (Lamparina Editora, 2005) do poeta paraibano Antonio Mariano e, confesso, não se trata de leitura fácil. Na verdade, li o livro de Antônio Mariano com uma incrível dificuldade. Não que seus textos sejam herméticos, de difícil compreensão, mas porque a tensão semântica de sua poesia dá a medida de como é difícil abstrair os sentidos da forma lapidada pelo poeta. Sem trocadilhos, em certo sentido, o sentido certo do poema nunca se abre à primeira leitura do leitor. Precisa escutar mais fundo as palavras para saber o que elas dizem e até onde.
Essa tensão de que falo pode ser vista num poema muito significativo para o conjunto dos textos de Guarda-chuvas e que, por sinal, tem no seu título a melhor das definições da linguagem poética: escreve-se um poema em “Letras brancas sobre um fundo escuro”, sempre. Ou seja, um poema dá sempre a impressão de que o comunicado é algo claro, mas isso confunde, porque a cor do texto (a forma) não é tudo, mas é o fundo (conteúdo) que esconde a verdadeira mensagem. Lição banal de poesia, é claro, embora o jogo poético não seja para todos. E Antonio Mariano o sabe, porque aos agrados da falsa poesia ele surpreende no vigor poético de uns versos como estes: Às vezes, me fecho / quando sou claro, do mesmo poema.
Nesses versos a certeza de que, no claro-escuro da poesia, na procura do poema, o poeta deve traduzir as mil faces secretas das palavras (Drummond), e o mais eficazmente possível, se puder. É virtude, pois, saber transformar a linguagem, confundir com letras brancas, escrever sobre um fundo escuro, para que, na palavra, as sensações mais humanas e universais ganhem a transcendência própria da arte. Nessa transformação da linguagem o mais difícil para o poeta talvez seja a transposição da linguagem comum à linguagem poética. No Modernismo era isso o que os artistas buscavam e hoje, mais que nunca, os poetas sentem a necessidade de fazer da fala do dia a marca de toda a linguagem poética. Antonio Mariano consegue isso com naturalidade. Daí que em meio a profundas reflexões sobre a vida, salta um verso como este, que busca confundir a explosão dos sentidos no fundo escuro do poema: Indecisos suicidas / voltam para casa (de “Cromossomos”).
Diríamos que em sua poesia, como que troçando do aforismo poético de Pessoa, as coisas não sabem fingir, e o poeta menos ainda. Tudo é tão puro de vida e fala tão perto ao leitor que, se aquele se desespera no poema, este também; se aquele suspira, também este, e o acompanha no inconformismo como na meditação, na seriedade como na ironia, na alegria como na angústia; em outras palavras, Mariano faz uma poesia tão viva que o dito encontro raízes na fala e na memória do leitor. O poema nele é para o encontro, porque poema e leitor se fazem nos entremeios da fala mariana, como dois que conjugam as mesmas paixões e que por isso se encontram no mesmo universo.
Em Guarda-chuvas esquecidos há achados poéticos fantásticos. Como este da série de haicais de DESORIENTAÇOES, o número VII: Um coqueiro aceso? / Que nada. A Lua, excitada, / brinca de esconder-se. Ou o belo XVIII: Lençol escuro sobre o céu: / contra a janela aberta, / a tarde chora em mim.
Capto ainda em Mariano a palavra enxuta, sem excessos, poeta que muitas vezes exerce a conduta cabralina do jogar-se fora o leve e o oco, a palha e o eco das palavras que sobram no poema (“toda palavra boiará no papel”).
Talvez sua melhor faceta seja a erótica, aí onde o poema, como uma criança astuta, se encolhe e se agiganta em sua carga de poeticidade e ironia. Há, no entanto, poemas mais sérios e profundamente meditativos em Guarda-chuvas esquecidos, como “Exceção à teoria”, “História Universal”, “Existencialismo”, “Da eternidade”, “Poema limpo”, “Lot & Perseu”, “Aula de comunicação’, “Navegadores”, “Alquimia do ódio” e “Coveiro filosófico”, que são de uma universalidade sem par. No poema “Da eternidade”, que fecha o livro, se lê com olho ainda mais sério que a mensagem de todo poeta é, ou deve ser, antes de tudo, de esperança, ainda que esta, como a eternidade, seja "feita de pássaros que riem do vôo em falso dos homens". A conclusão é séria, mas (in) segura: O futuro tem asas, / repete o poeta, / timidamente.
Antonio Mariano é, alem de poeta, contista, membro do Clube do Conto da Paraíba e, no gênero, autor de Imensa asa sobre o dia (Editora Dinâmica). Com mais de duas décadas de atividades artísticas, sabe suficientemente o que é a literatura: palavra sempre re-inventada para a comunicação, alguma sempre-comunicação com os homens. Nessas duas décadas, sua obra já foi lida por nomes como Ronaldo Cagiano, Nelly Novaes Coelho, Paulo Henriques Britto, Jose Paulo Paes, Fabrício Carpinejar e Cláudio Daniel. Além, claro, da crítica paraibana, que o tem entre os melhores autores da sua geração.

Adalberto. Um crítico de poesia, na minha concepção, PRECISA ser poeta. Falo do "bom crítico"...
E você demonstrou aqui, ao meu atento olhar, que é um poeta, na medida em que "dialogou" com os escritos de Antonio Mariano, de forma íntima e desenvolta.
Já li poemas desse autor e concordo com você.
E digo mais (até com certa tristeza invejosa...rs): ser poeta é um dom inato. Pode-se tentar, pode-se desejar, pode-se exercitar...a poesia é quem escolhe seus eleitos. Essa é uma das poucas crenças que tenho.
E você é poeta, tanto quanto ele. Outra afirmação em que acredito.
Esta sua resenha (posso chamar assim?) a confirmou para mim.
Grande abraço e minha admiração para ambos.
Dora

Adorável blog.
Voltatei mais vezes.
Abraços

Adalberto, fui ao mais Belo Jardim, mas não me enontrei com o Jota, que, ao contrario do Quintana, preferiu ser republicano, abandonando o Hotel. Grande abraço.

Caríssimo Adalberto, muito grato com o diálogo com minha poesia em texto tão enxuto, você que já demonstrou em outras leituras ter íntima convivência com a matéria. Muita poesia e boa prosa.

Belo ensaio! O mesmo poema faz nascer quem quer viver e mata quem quer morrer, isso me parece valer também para o crítico. Ainda assim considero abrir a obra um gesto de grande generosidade. Grande abraço!

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