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Babel

Aula de literatura

Numa aula de literatura o mais importante é o texto literário e o leitor desse texto. Em torno do ritual que se estabelece até que a literatura mesma seja a protagonista da experiência de sala de aula, só ficam duas coisas: a compreensão do texto, ou seja, a apreciação da obra literária enquanto forma de linguagem mediadora de mensagens e significações que vai além da linguagem comum que todos usamos cotidianamente e o leitor educado para a leitura dessa obra.
A conversa em torno da relação entre historiografia e o conjunto da obra do autor, dados em torno da biografia ou do tempo histórico a que o autor está ligado, as observações sobre temáticas e pontos de vistas, os conceitos estéticos e ideológicos de alguma tendência, nada sobrevive tanto quanto a experiência do leitor com o próprio texto literário. Ora, é esse o objetivo último do ensino da literatura: criar leitores capazes de ler satisfatoriamente o texto literário, apreciando-o com posicionamento crítico e compreendendo sua especificidade enquanto produto de uma linguagem tida universalmente como artística.
A leitura de obras em conjunto pode dar mais trabalho que a leitura de um único texto de um autor. Por isso que em aulas de literatura preferem-se os textos menores que, por questões de tempo e por necessidade de se avançar na disciplina, levam ao reconhecimento da importância da obra de determinado autor, ou podem sugerir futuras leituras desse ou de outros autores de igual período. O certo é que se tratando ou não de leitura obrigatória (leia-se vestibulares e afins), o estudo sistemático do texto na sala de aula pode provocar posteriores experiências com a literatura.
Já vi muitas vezes a aula de literatura se transformar numa atividade tão prazerosa quanto qualquer outra que o aluno em idade jovem venha conhecer. Claro que pode haver o contrário, de os alunos não se interessarem por literatura. E aí a culpa pode ser das escolhas que todos fazemos, alunos e professores. Pode ser que a leitura do texto não tenha sido agradável, que ele não tenha sido bulinado o suficiente; também pode ser que, em princípio, ninguém haja sabido tirar do texto seus significados e, com isso, o que ele tem de mais importante: a beleza poética contida nos interstícios do objeto-linguagem.
Mas onde se encontra a beleza do texto poético ou literário? Como reconhecê-la? Para quem está começando a entender o texto literário nada mais certo que retomar a famosa frase do poeta e crítico norte-americano Ezra Pound, segundo a qual literatura é linguagem carregada de significado até o máximo grau. Um professor de literatura que queira dar uma aula de introdução aos estudos literários tem aí uma das melhores definições didáticas para a literatura. Não que esta tenha validade universal, mas convenhamos que, ou Pound ou Poe, essa idéia de literatura entra mais fácil na cabeça de um aluno brasileiro quanto na de um chinês. Quando um leitor consegue “descarregar” os significados escondidos em meio aos textos, é possível que fique satisfeito, pois é de esperar que ele encontre a tão procurada beleza dos textos literários.
A aula de literatura é, pois, a hora do texto e a hora do leitor de literatura, mas principalmente a hora da formação desse leitor. Saber se o leitor continuará ou não como apreciador da literatura é uma outra questão, não diz respeito à função primeira do professor de literatura que é, como se disse, ensinar a leitura do texto.
Ninguém garante que todos os alunos de literatura continuarão lendo mais à frente, em outras etapas da vida. Isso, no mínimo, vai depender de como os professores iniciam os seus leitores na arte de ler a literatura. Alguns o fazem sem paixão, sem entusiasmo pelo texto, sem dar provas de que lêem literatura e que a apreciam com competência. Outros sequer lêem, ou sequer sabem que não sabem ler. Há os que, levados por critérios não muito claros, começam com os clássicos, e outros que aproximam os jovens dos autores contemporâneos, partindo daí para trás: dessa forma buscam tirar proveito de temas mais próximos aos jovens leitores e facilitar a acessibilidade destes à linguagem literária já que, segundo acham, é mais fácil fazer um jovem gostar de literatura lendo os escritores mais atuais.
Borges em O oficio do verso diz o contrário. Para o autor de Aleph, quanto mais tarde os jovens lerem os clássicos mais difícil a experiência prazerosa da leitura: “Há escritores que se deve ler quando se é jovem, porque se a pessoa chega a eles quando está velha, grisalha e entrada em anos, essa leitura dificilmente pode ser prazerosa. Talvez seja uma blasfêmia dizer que, a fim de desfrutar Baudelaire e Poe, devemos ser jovens. Mais tarde é difícil” (O oficio do verso. 2000: 112).
Realmente, a leitura imediata e intransigente, de clássicos ou de contemporâneos, que não reflita os aspectos lingüísticos e estéticos do texto, segundo Northrop Frye , que não passe pelo conhecimento da linguagem e da língua em que o texto foi escrito, não pode ser proveitosa, muito menos prazerosa. Urge que a leitura busque, primeiro através desse meio, os caminhos que levam à floresta dos significados. Porque estes são parte da existência do texto literário. Afinal, repetindo Pound: “grande Literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível".

De certa forma, vc está respondendo às minhas angústias! rs...
Não sei se concordo que há tempo para se buscar prazer em determinados escritores, porque tenho encontrado este prazer em novas leituras a cada descoberta. Mas concordo inteiramente com a afirmação final de Pound e na verdade esta é uma das minhas buscas!
Excelente texto, viu?
Beijos

Adalberto! Quase posso dizer que você lê pensamentos...rs Pelo menos, os meus...
Exatamente o meu ponto de vista sobre "como ler literatura"!!!
Ler e se deter no TEXTO. E tirar dele todo seu sumo.
E passar esse prazer ao aluno: esse entusiasmo, essa viagem em rumo da "densidade" vivencial que cada texto pode trazer!
A definição de Pound ainda é válida, não?
Mas, quanto a ler textos clássicos, acredito que, pelas próprias características da juventude, a fruição maior fica, realmente, para os anos de mais amadurecimento, em todos os sentidos. Não me refiro à senilidade...rs Digo isso, por experiência própria, já que reli com supremo enlevo os clássicos, os quais eu havia quase desprezado nos meus anos de colegial...Como podia um D. Quixote "falar" alguma coisa a uma menina de 15 anos?
Enfim...Como não discordo de nada aqui, não adianta ficar repetindo suas idéias.
Claro que apreciei demais seu texto.
E vou guardá-lo devidamente impresso.
Um abraço enorme!
Dora

Olhe aí, Adalberto, um jovem professor se revelando mais do que amadurecido ao apresentar, didaticamente, uma visão formulada a partir da leitura dos melhores autores. No final todos têm suas razões. Devem-se ler os clássicos por serem responsáveis pelo estabelecimento de valores lingüístico-literários que servem de modelo aos mais novos; devem-se ler os contemporâneos, que, seguindo as novas tendências, se amoldam aos gostos de seus contemporâneos. E assim marcha a história. Parabéns, Adalberto, por mais um excelente texto. Um abraço.

lembro das minhas aulas de literatura no segundo grau... tomei horror de livro... só um ano depois que saí da escola pude descobrir o que de bom havia em Rosa, Machado, Murilo Mendes, Eça...

Tive dois professores geniais de literatura no colégio, um deles formado pela unicamp transformava a sala numa grande sala de leitura e incentivava a livre interpretação da obra de acordo com a vivência de cada um, e maturidade de cada um que na época era pouco. O outro professor transformava a aula em uma experiência inesquecível, me recordo de uma a respeito de cantigas de amigo onde ele conseguiu um LP que tentava reproduzir como seria as tais cantigas ao mesmo tempo que nos apresentava o texto. Enfim, acho que ambos conseguiram cumprir seu objetivo. Hoje, apesar de minha formação em engenharia, sou um leitor voraz, lia em média 3 livros ao mês até encontrar a obra Ulisses, de James Joice com suas quase mil páginas pelas quais trafego pelo menos nos últimos dois meses.
E com relação aos clássicos, acho que não precisamos gostar de todos e podemos nos dedicar mais aos escritores que mais nos cativam..
Dois clássicos que recomendo e adorei: O vermelho e o Negro - Stendhal; e Don Quixote - Cervantes

Renato

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