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Babel

Eliot e o verso livre

Dramaturgo, ensaísta e poeta americano, Thomas Stearns Eliot (1888-1965) é um dos mais importantes e influentes nomes da literatura de língua inglesa do século XX. Nascido nos Estados Unidos, em St. Louis, Missouri, Eliot foi talvez o poeta que mais soube tirar proveito da mais importante conquista formal da poesia moderna: o verso livre. Poucos valorizaram tanto esse tipo de verso e a partir dele construíram tão extraordinária obra como o autor de Four Quartets, obra prima da literatura de tendência místico-religiosa do Ocidente, publicada pelo autor em 1943, e que tem no uso do verso livre um importante recurso.
Li recentemente a Poesia Completa de Eliot. Do primeiro ao último texto do livro não me saiu da cabeça a impressão que tive do poeta, de quem tanto já ouvira falar por citações e referências, mas de quem não tinha provado ainda o sabor do poema. Impressionou-me o feitio prosaico que Eliot dá ao verso livre, indo muito além das primeiras experiências poéticas que todos conhecemos nos poemas de mestres modernistas como Bandeira, Mario de Andrade e Oswald de Andrade, por exemplo. No Modernismo, não esqueçamos, o verso livre era o recurso ideal para aproximar a poesia da mais comum das linguagens: a cotidiana, a linguagem diária das massas.
Enquanto poeta modernista, Eliot fez do verso livre um experimento incomum na poesia moderna. Na sua obra a linguagem ganha na renovação do estilo literário porque dá ao leitor a sensação de experimentar a um só tempo dois registros lingüísticos: o prosaico e poético. Poema que se lê como prosa e prosa que se lê como poesia, como pregavam os modernistas. Mas muito mais: o idioma de Eliot é, diferentemente, livre dos excessos de estilizações poéticas e de estilizações prosaicas, típico de um parnasiano, num caso, e de um primeiro modernista, no outro. Ou seja, a linguagem eliotiana encontra a medida exata, o equilíbrio ideal entre uma e outra forma de registro, conseguindo uma expressão, diria, pouco comum em termos de linguagem literária. E isso sem que se observe prejuízo semântico de nenhuma natureza.
Tem um poema do Eliot que eu acho fantástico. Simplesmente uma das peças que considero das mais bem escritas em língua inglesa. O poema é de seu primeiro livro, Prufrock and Other Observations, de 1917, e chama-se “Morning at the window” (Manhã à janela). No poema Eliot procura descrever uma cena de rua comum no cotidiano da sociedade americana de início de século XX: enquanto cai a neblina, passeiam as pessoas em suas simples e tristes vidas. Mas o poeta vai além de uma simples descrição do prosaico cotidiano.
Em “Morning at the window” um observador coloca-se em posição voyeur à frente de uma janela onde, inesperadamente, capta o sorriso “sem destino” de uma passante com saias enlameadas que surge entre as “retorcidas faces” das ruas. O quadro é cinematográfico: o poema desenvolve-se num movimento de câmera que parte da intimidade sentimental do sujeito lírico que olha da janela para a rua e desta em direção ao “sorriso sem destino” que modifica completamente sua manhã.
Na versão original do poema, são duas estrofes que totalizam 09 versos, assim divididos: na primeira, quatro versos de total prosaísmo; nos outros cinco da segunda estrofe, recursos estilísticos sonoros e poéticos dão aos versos a carga semântica própria para o equilíbrio entre a prosa e a poesia dos versos.
Para o que estamos dizendo, vale a transcrição do poema, traduzido por Ivan Junqueira: Há um tinir de louças de café / Nas cozinhas que os porões abrigam, / E ao longo das bordas pisoteadas da rua / Penso nas almas úmidas das domésticas / Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviços. // As ondas castanhas da neblina me arremessam / Retorcidas faces do fundo da rua, / E arrancam de uma passante com saias enlameadas / Um sorriso sem destino que no ar vacila / E se dissipa rente ao nível dos telhados. Singularíssimo o equilíbrio entre o prosaico e o estritamente poético. Notem que o verso livre age nesse sentido: tão importante é para a construção do poema que por pouco não captamos a mensagem poética nuns versos quase que completamente prosaicos.
Acostumado a poetas da língua pátria, quando você começa a ler um outro poeta reconhece o quanto a poesia tem de universal, o quanto a linguagem poética extrapola limites geográficos, estéticos, políticos, sociais e ideológicos. A obra de Eliot assim me parece. Cultor do verso livre, crítico e renovador da literatura inglesa do século XX, o poeta aprofunda os questionamentos da tradição poética do Ocidente revelando um mundo de possibilidades poéticas ainda pouco em voga na poesia moderna. T. S. Eliot, para além do exímio poeta do verso livre, traduz a justa medida dos movimentos da modernidade. Sua poesia é, ao tempo que crítica e impactante, mística, de sabor metafísico e filosófico. Sem contar as incontáveis referências culturais que perpassam seus poemas e sua, às vezes, negativa e humorística visão de mundo – formidável!
Em certo sentido pode-se dizer que na ponta de lá (1917) está o poeta de cá (dos últimos poemas, de 1956 em adiante). É o que diz o próprio Eliot em dado momento de Four Quartets, “In my beginning is my end” (Em meu princípio está o meu fim). Mas suas palavras ainda se movem, como ele queria: “antes do princípio e depois do fim”.

Imagem: http://content.answers.com/main/content/wp/en/thumb/3/3b/180px-Tseliot.jpg

Li Eliot e me encantei justo pela simplicidade,harmonia,ritmo,conteúdo;e ,acma de tudo pela facildiade de entende-lo.O simbolismo cultiva metáforas que as vezs parece “oráculo de Delfos”,são palavras e mutas palavras que para revelar algo parece querer ocultar.Fica difícil saber aonde o poeta quis chegar(por vezs).Dizia um crítico(?) que os excessos de metáfora escondem,por vezes, o vazio das idéias.(!).Possivelmente sim.Um autor confessou certa vez isso: que no dia seguinte ao ler seus textos(poemas)não sabia o seu significado!O próprio poeta tinha que fazer uma espécie de tradução da sua poesia simbolista! Os admiradores desse g~enero poético:simbolista,enfiam uma fieira de palavras complexas,dificieis;misturam figuras de linguagem(metáforas difíceis,por vezes belas,mas sem nos dar o alcance da alma ou do seu significado.Ficamos assim passeando no escuro ou num tipo de labirinto de espelhos,e o que vemos?o virtuosismo literário querendo aparecer mais que a essência do poema(o dizer).Fico angustiando assim,Confuso também.Belas imagens e no entanto,a impossibilidade de alcançar o conteúdo!O parnasianismo assim também! Gosto de ler e entender.Bandeira nos dá isso com genialidade prosaica;Drummond também. Whitman e Elliot fantásticos.Aprendo com eles que a simplicidade na forma não significa um conteúdo menor,pelo contrário! É possível e de forma poética,artística revelar conteúdos ao alcance de todos.A função da arte é emocionar mas só emocionamos quando tocamos e revelamos,senão...(virá masturbação mental)adoração ao próprio umbigo!Na prosa literária, Ernest Hemingway é o mestre da simplicidade genial.Até pensei e já rabisquei (não sei se post)um conto em que Hemingway vista um novato a escritor e passa a ele algumas informações básica do bom escritor.Achei interessante,E com esta crônica,me deu até vontade de postar. Fico aqui pensando,professor : Primeiro dominar o idioma(o que eu positivamente não faço(meus erros são muitos!);depois ter um bom nível de cultura para ampliar a escrita,perceber o mundo por vários ângulos;depois talento,aprimorar estilo ou forma. Não sei se a seqüência é bem essa.O talento vem primeiro e depois a formação técnica? No fim,o exercício de escritor e poeta passam pela exigência do idioma e o talento (a criação).Básicamente Os poetas aprendizes(como eu) que querem se tornar bom poeta e escritor,deveriam ler com atenção as obras desses mestres da simplicidade mas com muito conteúdo,com atenção.Dizer com arte é a essência da poesia,penso.ter conteúdo é a importância do escritor.Abraço.dexy.Observação:Professor,seria bom que nos explicaSse a diferença entre ESTILO E FORMA.GRATO.

Olá, Adalberto. Interessei-me em ler Thomas Eliot quando o jornal(acho que era a Folha de S. Paulo) publicou os cem melhores poemas dos últimos anos. Do mundo inteiro...
E em primeiro lugar figurava " The Waste Land", publicado em 1922, de Eliot. O poema é um livro. Linguagem difícil, porque invoca" uma dissonante gama de culturas e obras literárias". Não sei ainda dizer minha opinião. Cansativo, porque demanda muito esforço e estudos periféricos.
Mas, assim como a obra Ulisses, de James Joyce (da qual o poema de Eliot é um reflexo poético) a poesia dele é uma referência da literatura moderna.Vc analisou bem essa característica.
Por causa da densidade literária de Eliot, há que se proceder à leitura de sua obra, como se faz na leitura de Ulisses. É preciso adentrar o universo de ambos munido de uma visão atenta para o inusitado e o novo.
E ter uma bagagem enorme às costas, sobre o mundo literário.
E apreciar com todas as forças a arte da literatura.
(Estou lendo Ulisses, e quase choro, às vezes...Acho que vou ter aulas particulares para apreendê-lo!!!)
Beijos.
Dora

Pois! já está tudo dito desta grande "figura" não há dúvida que:

"Eliot fez do verso livre um experimento incomum na poesia moderna".

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

(excerto do poema "Os homens ocos")

Excelente escolha. Belo post.

Beijinhos

O que Li de Elliot é tão pouco que não saberia falar sobre. Ao contrário do Dexy, achei uma leitura dificil (talvez eu tenha lido num péssimo período para tal).
Mas achei o seu texto tão bom que deu vontade de retomar o mesmo poema que achei complicado. Quem sabe agora eu vou curti-lo, né? rs..
Beijos

a fragmentação (peça estrutural e enunciado de seu pensamento) é a chave para o entendimento de eliot, q geralmente é tido como poeta "difícil". de toda forma o esforço é necessário, you say i am repeating something i have said before, i shall say it again

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