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Babel

Machado-Bentinho ou
Dom Casmurro para iniciantes
Semana passada falei de Machado de Assis. Esta semana volto ao autor, dessa vez para observar o narrador do Dom Casmurro. Como se sabe, o narrador-protagonista do livro de Machado não é de confiança. Há mais de um século que os leitores fazem a mesma pergunta: Capitu traiu ou não o Bentinho? Para o narrador-personagem, Bento Santiago, sim. E dessa forma também para o leitor comum do romance, vítima da atuação da voz discursiva do narrador.
Para Jose Veríssimo, crítico atuante à época de Machado, e para os primeiros críticos do romance é impossível que Capitu não tenha traído o marido. Mas há interpretações que vão contra essa visão.
A partir de um estudo realizado pela norte-americana Helen Caldwell, publicado em 1960, se declara que os indícios propostos pelo narrador do Dom Casmurro não evidenciavam que a heroína havia traído o marido. Como se sabe, o clímax da história é relevado quando Capitu chora junto ao corpo morto de Escobar. É nesse momento que o personagem-casmurro passa a desconfiar de um suposto caso entre Capitu e o seu ex-companheiro de seminário. A desconfiança aumenta quando Betinho julga perceber no filho traços físicos do amigo. Daí em diante Bentinho tece comentários que pretende levar a si e ao leitor ao convencimento da culpa da esposa. Passa acusá-la; dá a Capitu ares de adúltera. Mas a que atribuir as acusações de Bentinho contra Capitu?
Segundo a visão de Caldwell, no ensaio Brazilian Othello of Machado de Assis, as acusações se fundamentam no excessivo ciúme que Bentinho nutria pela amada. A esse fato ela acrescenta que Machado usou de um habilidoso artifício literário na própria construção da obra, dando ao narrador a sutileza de mostrar a história de Otelo e o castigo que este deu a sua amada Desdêmona, vítima dos ciúmes do mouro no enredo shakespeariano.
Em 1984 o inglês John Gledson, aproveitando as idéias de Caldwell, argumenta que as acusações de Bentinho, além de relacionadas ao caráter emocional do narrador, têm ligação principalmente, com assuntos de ordem social: seria por puro preconceito que Santiago veria em Capitu uma mulher calculista e ambiciosa; capaz de tê-lo traído. O crítico de origem austríaca, residente no Brasil, Roberto Schwarz, aproveita as interpretações de Gledson e Caldwell e sintetiza no Dom Casmurro o fluido entre duas diretrizes. Segundo ele, a tensão individualista do narrador provocada pelo autoritarismo patriarcal da época se incorpora às prerrogativas estéticas e inovadoras utilizadas por Machado na composição do personagem. Por aí se vê que há muito mais que um simples acaso no Dom Casmurro.
Machado nesse romance tem duas faces: a dele, como escritor, e a do personagem; ou seria somente uma única: Machado-Bentinho num só?
Como resultado de muitas leituras é impossível que não haja esse vínculo. Basta que se sobressaiam essas três interpretações apresentadas sobre o romance. A cumplicidade existe a partir do momento em que escritor torna-se vulto de intenções. Machado é o próprio Bentinho quando ousadamente dramatiza o caráter e as aptidões contrastantes da inteligência brasileira, tornado-se o porta-voz da crise da sociedade patriarcal. A natureza ambígua de sua narrativa serve como pano de fundo para exteriorizar os valores sociais da época. O que vem adiante é uma compreensão crítica do significado da vida local. De um lado a objetividade do desmascaramento social e de outro o capricho da expressão individualista.
O certo é atar as duas pontas e Machado será outro. Não há como partir uma fisionomia que é única: o clima do romance é o de atitudes que escondem absolutos interesses. Ao ler Dom Casmurro o leitor comum deve olhar de um outro ângulo. Não aquele da ilusão intelectual provocada pela emoção dominadora dos ciúmes de Bentinho, mas o que esconde ressonâncias obliquas e dissimuladas. Desmistificando a primeira idéia, difundida pelo narrador e há muito aceita pela crítica conformista, é possível entrar no campo de uma especulação mais profunda, como o fizeram Gledson, Caldwell e Schwarz.
Quando os primeiros críticos estudaram o Dom Casmurro eles pretendiam duas coisas: buscar a verdade sobre a culpa ou a inocência de Capitu ou provar que não haveria nenhuma verdade sobre o adultério. Dessa forma, pela história contada por Bentinho seria impossível afirmar que houve traição. Mas o que se inscreve no enredo não é se há ou não há verdade. Há primeiramente um jogo de afirmações sutis sob uma ótica totalmente individualista e autoritária, facilitada pelo engenho e pela ideologia machadiana. Poderíamos dizer que Bentinho não é marido traído, mas provamos a infidelidade de Capitu? Com certeza não. Dom Casmurro é o relato de um marido ciumento que tenta condenar a mulher a todo custo e defender suas intenções.
Ora, o narrador-personagem pode distorcer os fatos caso queira. A primeira pessoa como foco narrativo é única testemunha dos acontecimentos. É quem dita a história de acordo com o seu ponto de vista. Como Machado prefere a não-onisciência, resulta daí uma técnica que autentica a ambigüidade do comportamento de Capitolina, mas não a condena a nenhum veredicto. O réu, o acusado (e não culpado) na história seria Bentinho e não Capitu. Puni-la precipitadamente é enterrar a dúvida; inocentá-la, da mesma forma. Melhor que se deixe de querer tentar desvendar o mistério do Dom Casmurro.
Além do mais, esse livro não existiria sem a ambigüidade, sem esse conflito, sem a confusão que provamos quando o lemos. Mas, importa não esquecer a retórica de Machado-Bentinho, sedutora e atraente como os olhos de ressaca de Capitu.

Imagem: Elisa Lucas como Capitu. Retirada de http://www.brasileirinho.mus.br/palco/fotos/teia-capitu.jpg

Caro Adalberto. Por coincidência, li, há uns dias atrás, no jornal "O Estado de São Paulo", um artigo sobre o livro do professor John Gledson, " Por um Novo Machado de Assis". São ensaios, onde o professor dialoga com críticos e ensaíastas brasileiros que analisaram a obra de Machado. Os ensaios discutem aspectos pouco explorados do nosso escritor, especialemnte a sexualidade e seu posicionamento ideológico.
E há um trecho exatamente sobre D. Casmurro, onde o professor fala de uma ousadia moral no contexto do livro. Essa "ousadia moral" reside em "mostrar que as pessoas mais normais e convencionais, "virtuosas" enfim, até podem, empurradas e condicionadas por uma sociedade(que acredita em bizarrices como o celibato sacerdotal)destruir as suas vidas e as de outros.
E, no ensaio sobre Capitu, Gledson afirma que a "primeira coisa que se deve dizer, ao abordar o assunto "trair ou não trair", é que não saberemos nunca a VERDADE, já que Machado construiu seu romance de modo a não deixar-nos chegar a uma conclusão positiva.
Capitu, segundo ele, talvez seja a mulher mais ousada da ficção machadiana, aquela que,com mais inteligência e sutileza,tentou superar as limitaçãoes nessa sociedade( mas, que falha...).
Desculpe-me o exagero da extensão do comentário, que nem é exatamente "comentário"...rs
Beijos.
Dora

capitu, rameira impudente

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