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Babel


Direito de não ler?

Por que os jovens não lêem? Porque eles podem. Assim como podem não vir à escola, mas se, podem não participar da aula, podem não estudar, podem não fazer a prova, portanto, podem também não ler. Eles têm o direito de não ler. Nas escolas é famosa a frase do escritor Daniel Pennac (não originalmente dele, mas vá lá) que diz que o primeiro e grande direito do leitor é poder não ler. Ou seja, quer ter do leitor a possibilidade de que leia, assuma que ele é livre para não ler.
A verdade da frase de Pennac (digo, dita por Pennac nos seus “Direitos imprescindíveis do leitor”, in: Como um romance. 4.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.) soa estranha para quem sabe que todo e qualquer leitor, em princípio, deve ler. É óbvio, é claro, é mais que certo, diz você, leitor, e qualquer outro. Como ser um leitor que não lê? Parece que uma coisa nada tem que ver com a outra.
Olhando mais a fundo a frase, a idéia combina perfeitamente com o seu contrário, que é: apesar do direito de não ler, os que lêem temos o dever de ler, e, paradoxalmente, esse dever não é o dever que a gente chama obrigação. Entendeu? Não? É por que a leitura não é exatamente essa.
Quero dizer que, sabendo ler e escolhendo não ler, perdemos muito. Ficamos atrás, deixamos uma vida de valores e significados culturais que podem nos servir mais que se decidirmos jamais continuar lendo após os primeiros e mais significativos passos da nossa história de leitores.
Esta semana, numa aula de literatura, falei sobre o problema com os meus alunos. Os questionei sobre se não havia algo errado nessa coisa de algumas pessoas não gostarem de ler. Como se fosse preciso que uns lessem e outros não, que a humanidade se dividisse entre intelectuais e não intelectuais, entre sabedores de textos e outros que por mil razões não saboreiam textos, mesmos os que já conhecem a palavra escrita. Que dirá da palavra-mundo? Que dirá da leitura de mundo? Da abertura de significados maiores que não está apenas na experiência do registro da palavra escrita... etc, etc.
Não sou maria-vai-com-as-outras, mas há quem pense que o leitor Leitor tem um dom especial, e às vezes dá vontade de crer que é verdade. Pode ser que o leitor Leitor seja um iluminado, uma espécie de escolhido pelos deuses das linguagens para a função de descobridor das infinitas mensagens que nos cercam. E quem me convence são os próprios, alguns leitores Não-Leitores que dizem não haver jeito de lhes fazer entrar na cabeça a idéia de que ler pode ser bom e de que eles podem aprender a ler, mesmo abertos a essa possibilidade democrática de que assim como eles podem tudo, podem também não ler, e ponto.
Fico pensando em meu trabalho de formador de leitores. Difícil, talvez a mais árdua das tarefas do educador em qualquer nível de ensino. Ensinar a ler é duro (uns dizem que a leitura é o osso duro da escola), às vezes você pensa que não vai conseguir. O leitor Não-Leitor (esse que o Quintana chamou de verdadeiro analfabeto porque prefere não ler) fica repetindo, falando ou não: professor, ler é chato, acaba com isso. Por outro lado, tentamos mostrar o contrário de forma a passar a bola, a garantir que os alunos leiam e que gostem de livros, porque uma vez gostando jamais deixarão de ler.
Pennac tem razão ao dizer que o “direito de não ler” está mais para os leitores que não sentem necessidade de ler, “seja porque tenham coisas demais para fazer (o que dá no mesmo, é que essas outras coisas os obturam ou os obnubilam), seja porque alimentem um outro amor e o vivenciem de maneira absolutamente exclusiva”.
Ainda assim, temos que infundir nos alunos o direito de ter direito a gostar de leitura. Se procurarmos fazer isso, basta. Quem decide o depois são os alunos. É o próprio Pennac quem diz: “O dever de educar consiste, no fundo, no ensinar as crianças a ler, iniciando-as na Literatura, fornecendo-lhes meios de julgar livremente se elas sentem ou não a ‘necessidade de livros’. Porque, se podemos admitir que um indivíduo rejeite a leitura, é intolerável que ele seja rejeitado por ela.”
Aos professores, resta-nos ser responsáveis a ponto de oferecer o máximo de experiências leitoras para que os alunos sejam capazes de entender que o “direito de não ler” é como o direito de não querer viver: alguns desejam, outros não têm certeza, muitos fracassam e se arrependem.

A VEZ DO COLUNISTA

Falando em direito de não ler, tenho observado que ultimamente os leitores do Miolo não respondem aos textos do Pablo Capistrano, colunista que nos recebe com os excelentes artigos e crônica que escreve toda segunda-feira. Professor e escritor, Pablo é romancista premiado, além de excelente articulista. Suas crônicas e artigos são de uma propriedade raríssima na internet. Não sei por que seus textos não provocam os leitores, ou, se provocam, não entendo a razão de COMENTÁRIO ZERO na maioria das semanas que seguem. E já faz tempo que está conosco. Acho que já é a vez do colunista.

NOVO NOME

A coluna parabeniza Carol Montone, jornalista e atriz, novo nome que engrandece a equipe Miolo de Pote. Já na segunda semana, sempre um ótimo texto, de grande originalidade e inteligência. À Carol, assim como ao Pablo, está faltando resposta.

GRACILIANO RAMOS

A revista Entrelivros deste mês traz extraordinário dossiê sobre Graciliano Ramos. Na edição, cinco especialistas analisam os mais importantes livros do escritor, São Bernardo (1934), Angústia (1936), Infância (1945), Memórias do cárcere (1953), e sua obra-prima, Vidas secas (1938), que este ano chega à sua centésima edição.
Alagoano de Quebrangulo, considerado um dos maiores escritores brasileiros, nome de envergadura do chamado romance de trinta, Graciliano é, na exata medida, o modelo do escritor artífice. Enquanto artista sempre estivera preocupado com a forma que assumiria a linguagem de toda obra que publicava. Estilo seco, enxuto, apurado, substantivo. Linguagem de quem sabe que a arte de escrever é, como diria, Drummond, a arte de “cortar palavras”, apurando o verbo na procura de evitar as extravagâncias que comprometem certos estilos, certas poesias e prosas ditas “vulgares”.
Vale a pena comprar a revista. Nos últimos tempos tenho visto várias publicações jornalísticas especializadas em literatura tratar da obra do escritor, mas até agora poucas trouxeram tanta informação e qualidade nos textos quanto a Entrelivros desta edição. Destaco o ensaio do escritor Miguel Sanches Neto sobre Vidas secas e o artigo do jornalista e escritor Manuel da Costa Pinto, sobre Angústia, além da reportagem de Julián Fuks sobre a vida e a obra de “O homem sábio do sertão”. No texto de Fuks só senti falta da expressão “Velho Graça”, forma como era tratado pelos amigos o grande Graciliano.

Imagem 01: http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/publico2-791935.jpg
Graciliano Ramos:
http://www.vidaslusofonas.pt/graciliano7.jpg

Adalberto. Você colocou muitos assuntos. Falando sobre o direito de "não-ler", eu fiquei em dúvida se vc se refere apenas à leitura de "literatura". Porque conheço inúmeros leitores de textos não-literários que consomem avidamente tratados científicos, por exemplo. Ou, como meu filho que lê jornais e revistas, desde pequeno, e não gosta de ler literatura.
Eu, particularmente, acho sempre que a arte literária enriquece sobremaneira a experiência de viver. Mas, concordo que há outras linguagens que "ensinam" o mundo.
Também já me senti muito frustrada em meu tempo de professora, com a rejeição de alunos pela leitura de textos, de literatura, principalmente. Questão complexa essa...
Outro assunto é a falta de comentários aos articulistas do Miolo. Eu leio todos eles. Não os comento, entretanto. Sinto que minhas palavras caem no vazio. (Já comentei, encantada, o primeiro texto do professor Pablo. Fiz-lhe uma pergunta. Deixei-lhe meu endereço de e-mail, porque não sabia como contatá-lo. Ele não me deu nenhum retorno. Talvez nem tenha lido meu comentário).
Gostei de ver que Carol Montone responde aqui mesmo. Vou passar a comentá-la.
Loba e você agradecem aos coemntários, por exemplo.Isso é gratificante.
E, quanto à revista Entrelivros, leio-a na Internet. Ainda vou ler sobre Graciliano Ramos, porque vc deu essa ótima indicação
Deixo-lhe um enorme abraço.
Dora

Adalberto

Obrigada pela menção acolhedora e honrosa de minha chegada ao Miolo. À todos os colunistas manifesto aqui minha admiração. Tenho prazer em lê-los sempre e daí a responsabilidade, ainda repleta de ansiedade, em não destoar nesse saboroso cardápio. Sim porque leitura é fome. Deve ser muito frustrante para educadores conviverem com os “novos valores” de uma geração cada vez mais apressada e telegráfica, que inclusive criou uma nova língua cheia de absurdos para comunicar-se....mas acho que o prazer é a base de tudo. Aos professores talvez só reste sinalizar os prazeres inúmeros escondidos no mundo dos livros em geral. O educador e escritor Rubem Alves, inclusive, fala muito disso...do prazer como o contraponto da obrigação e portanto via para acessar essas criaturinhas “analfabetas por opção”...gosto muito do trabalho dele
Um grande abraço
Carol Montone

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