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O Martelo e a Bigorna


Duprat e a balada de finados

O céu hoje acordou de ressaca, tamanha foi a farra em celebração a todos os seus habitantes no dia de ontem. Ao som da tropicália, a festa foi uma homenagem ao recém chegado maestro Rogério Duprat, que deixou o mundo dos vivos na semana passada ao embarcar do Hospital Premier, na zona sul de São Paulo, rumo a uma espécie de caixa preta que poucos desejam conhecer apressadamente. Como não precisou fazer check in em nenhum aeroporto nacional, o embarque aconteceu como estava previsto, a saber, às 15h35 de quinta-feira, 26 de outubro.
Acompanhado de perto por músicos como Tim Maia, Nara Leão, Tom Jobim, Nelson Gonçalves e tantos outros que ali se fizeram presentes, Duprat deu o tom da comemoração. A música de abertura foi Domingo no Parque, seguida de mais algumas canções, das quais o maestro participou como arranjador.
De longe três exóticas pessoas chamavam a atenção pelo comportamento meio que inadequado, era Vinicus de Moraes conversando com Cássia Eller e Raul Seixas, sentados envolta de uma cova rasa, com as pernas para o ar, jogando pedra na cruz e soprando as velas que na terra eram acessas pelos parentes vivos . Esse foi, podemos assim definir, o halloween celestial.
Estavam todos vestidos de preto e cercados por velas de todos os lados. O cheiro de flores se misturava ao de parafina. Existiam até camelôs vendendo óculos escuros e colírio. A mídia fez a sua parte, anunciou com antecedência a festa dos mortos ao estilo halloween, tendo Duprat como atração principal e convidado de honra deste ano.
Enquanto no céu todos cantavam e dançam uma mistura de rock in roll com bossa nova, na terra familiares e amigos rezavam e pediam proteção aos seus finados. Essa é a festa dos mortos, um prato recheado de preto, óculos escuro, colírio, música de primeira e conversa de botequim, além de muita oração.
A morte é uma festa, já dizia João José Reis. Enquanto eles comemoram lá em cima, ficamos nós aqui em baixo pedindo a absolvição de seus pecados. Assim é o dia de finados, uma visita que a vida faz à morte.

Sob esta ótica, podemos dizer que a morte é a anfitriã da festa e os vivos são barrados chorosos? Ótima crônica! Apreciei devéras.
Abraços

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