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Palimpnóia




Em meio a papéis, múltiplos exemplares do mesmo livro e a inexorável contagem do tempo, recebi a notícia: morreu Frederico Paz. Morreu como um passarinho. Foi como me disseram. Por segundos, pensei: quem será Frederico Paz, meu Deus? Se estão me dizendo é porque devo saber. Quem sabe até devo me entristecer? Insistiram: Frederico Paz, o leiteiro. Seu Derico! Entristeci. Mais que isso, me senti culpada por nem sequer ter sentido sua falta. Só então me dei conta de que havia mais de um mês era outro a trazer meu leite.
Esta constatação me fez pensar nas diferenças sociais. Até mesmo em relação à morte. A maioria das mortes é anônima e não tem nenhum significado para o mundo. Outras têm o poder de entristecer um país inteiro – ainda que sejam de pessoas que conhecemos apenas de nome e mídia. Lembrei Fidel. Dizem que está em estado terminal. Certamente a morte de Fidel não será como a de um passarinho. Nem será anônima como a do leiteiro, seu Derico. E dividirá o mundo. E me dividirá. Porque há uma parte em mim que cultua a revolução e que tem em Fidel a romântica figura do revolucionário. Quase tão admirado quanto Che. Mas a outra parte não reconhece o regime totalitário. Uma ditadura que se fez em nome da liberdade e igualdade, solidificou-se com a morte de milhares e milhares de pessoas e perdura cerceando o direito de escolha de um povo. Não foi neste socialismo que acreditei e pelo qual lutei.
Será que chorarei dividida pela morte de Fidel? Uma lágrima comprida em apenas um olho. No outro, o brilho de alívio pela liberdade de um povo que não tem o direito de escolher se quer jantar BigMac com coca-cola (por mais que eu desgoste de americanismos, não abro mão desta dupla). Mudei eu ou mudou Fidel? Mudamos nós. Não sou mais revolucionária, mas também não sou reacionária. Não sei o que sou. No entanto, me acho no direito de dizer o que Fidel é. Um julgamento um tanto incoerente, confesso. Mas baseado em fatos, o que é menos mal.
Fidel ainda não morreu e já estou imaginando como me sentirei. E ainda nem levei em consideração o que acontecerá a Cuba, ali tão pertinho do grande predador Bush. Talvez por isso já sinta uma certa tristeza. Mas é melhor nem deixar o pensamento pisar este caminho ou verdadeiramente me entristecerei. E tristeza agora é para a lembrança do sorriso constante e desdentado de seu Derico, que durante dois anos trouxe um leite espesso, engordativo e delicioso para o meu café da manhã. E eu nem imaginava que se chamava Frederico Paz.
Pela minha introspecção entra a voz de Lulu Santos. Fidels e Dericos viram música e fazem caminhar a humanidade. Em passos lentos ou corridos. Com dentes ou sem eles. Lembrados ou esquecidos. Em ditaduras ou democracias. Esperando, cantando, fazendo, chorando. Vivendo.
Não é assim que caminha a humanidade?


Foto: Museu da Revolução de Teotonio Roque - Galeria Olhar sobre Havana

Morrer como um passarinho é a pedradas?

Não minha linda´,não é. Não é só esperando, cantando, fazendo, chorando, altou concluir: A humanidade ainda caminha tropeçando na morte. Por enquanto...
Apreciei o começo e a continuação da crônica.
Beijos

Fidel para mim é a prova contundente que me faz desacreditar em políticos. Depois que eles exercem o poder são todos iguais. O poder corrompe o ser. Eles não almejam morrer como passarinhos custe o que custar.
Assim caminha a humanidade... em todos os tempos.
Beijos Euza

Choremos pois a morte de Fidel cada uma com um olho e completemos o pranto com big mac e brindemos com coca cola[também não suporto americanismos, mas amo essa dupla], respeito Fidel, sonhei em visitar Cuba enquanto ele no poder, agora não mais, pois virará uma pequena provincía cheia de dólares e Mac Donald's e carros de último tipo.
O mundo corre querida o que nos faz não perceber a mudança do leiteiro mesmo bebendo leite todos os dias.
lindo dia flor
beijosssssssssssss

amiga Loba.Saudades daqui.Ando no sufoco mas sem esquecer os amigos.belo,grande o texto de hoje!Che é um icone.Fidel um ídolo(decadente)da esquerda que ainda nada ,nada e morrerá na pria como todas as esquerda,devoradas pelo liberalismo Tio Sanico?!Essa comparaçao entre o grande líder doente e o leiteiro9anônimo)comovente e lindamente literario :uma cronica do nosso tempo que cruza todos os tempos na dimensao da luta social(de classes);da revolta que nao quer ceder a imposiçao egoísta que separam humanos em categorias de ganho,raça,sexo,cor,crenças.Mas..idealismo revolucionario e ao ato em si traz a diferença das oposiçoes,dos interesses que ficam e fincam base nos subterraenos da alma ou dos interesses particulares(privados)que perdem e querem o seu retorno.Todas as revoluçoes sao sangrentas ,terriveis.Politica é interesse de classe,infelizmente.Fidel morrendo o idealismo(obtuso)irá cair.Novos formas de fazer politica coletiva deverá nascer.o capitalismo tambem é um monstro devorador,predador dando uma suposta liberdade ,desde que nao mexa com o sagrado do capital assim vale vender mae,irma;todo comercio,mercado para se alcançar status material ,vale! Tambem treme em sinal de morte?bem,o texto emociona por isso:o leiteriro morreu anonimo,silencioso sem ser sentido;mas se tivesse vivido com respito humano,seria uma conquista,algo que duvido devido a indiferença social.usamos os fracos como lacaios e só.Amiga,parabens pelo livro e toda sorte do mundo na caminhada.Voltarei sempre mesmo que demore.Beijo amigo.Dexy.

Sabe, tia, eu não choraria por Fidel. Não por nada pessoal, rs, é coisa de ser humano. Eu nunca senti nada por ele, nem amor, nem ódio, nem nada. É neutro. Quando somos neutros perante a alguém, como sentir algo? Quando é a morte dos que amamos, a coisa é diferente, bem diferente. Quando eu era pequeno ficava pensando que as pessoas da minha família poderiam ser imortais, hoje eu vejo diferente, a morte é só um afastamento no aqui. Lá, no depois, a gente se encontra de novo. Morte não é fim, mas o começo. ;) beijos enormes.

Melhor eu ficar quieto e sair de fininho daqui,LOBA,heheheh
Beijos!

Choro a morte do leiteiro, Sr. Frederico Paz. Nome bonito! Como lamento a morte de uma grande mineira, a escritora e professora Alaíde Lisboa, irmã de Henriqueta Lisboa. Dona Alaíde morreu como um passarinho, na paz de seus 102 anos de idade. Tive prazer de trocar correspondência com ela, grande professora, pessoa amável e atenciosa. A morte de Fidel... deixa pra lá. Será um déspota a menos.

Loba! Sei que sua intenção primeira foi falar sobre a diferença entre as mortes: a do leiteiro, morte anônima, restrita e a outra,de Fidel, que terá repercussão mundial.
Ambos nasceram iguais e se "diferenciaram" socialmente. A atividade do leiteiro será julgada menos "importante", lógico! Mas, eu não derrubaria nem uma lágrima por Fidel Castro, e talvez chorasse por esse obscuro leiteiro...
Fidel reprsentou, um dia, o sonho do socialismo, mas, ele mesmo traiu esse sonho. Cuba é hoje apontada, ainda, pela relevância no Sistema de Saúde e Educação. Porém, à custa da perda da liberdade, sob um ditador, um homem despótico, responsável por milhares de mortes. E que figura entre as 15 maiores fortunas do mundo!!! Como chorar por um tirano que "determina" a sorte de um povo, que virou massa de manobra nas mãos dele? E como chorar mesmo por Che, que é apenas um mito e que foi, na verdade, o braço direito das "loucuras" do ditador Fidel Castro?
Não aceito o totalitarismo, em hipótese nenhuma. Ele é mais que ditadura, que despotismo, que tirania. Seu objetivo é a dominação total dos indivíduos, em prol de um ideal inacessível.E Fidel, prá mim, se compara a Stalin, a Mao e a outros "bem-intencionados"...
Fugi do seu assunto...
Mas, a morte vai "igualar" os dois seres: Fidel e "seu" Derico. E o saldo negativo de uma existência ficará por conta de Fidel Castro.
Beijos!!
Dora

Esquecer ou não. Quando a pessoa se torna uma constante em nossa vida, uma pessoa querida, sentimos muito a sua perda. De fato, é dificil sentir a de alguém que pouco conhecemos.
Talvez esteja aí uma falha nossa.

:)

Para mim, cada qual tem seu papel digno a ocupar no universo. Por isso, de alguma forma, ao partir, lágrimas vai deixar entre àqueles a quem protagoniza lembranças. Para àqueles que se tornaram algozes, embora pouco crístico, deixam as lágrimas do alívio. Creio que grande parte da população cubana terá estas últimas lágrimas.


Olha, eu tinha perdido seu endereço. agora que achei, voltarei sempre. Abraço.

A morte... a morte, esta senhora que sob um aspecto nos iguala a todos: a finitude do Ser. O Ser... todos somos, mas quantos são, no sentido do existir, para nós? É, de alguma forma, assustador saber que detemos o existir de muitos em nossas vidas. Quantos passam por nós todos os dias e não os sabemos por não reconhecê-los como Seres, individualidades? São apenas mais um alguém; um alguém com um rosto que nos esforçamos para lembrar e sem um nome para chamar.
Bjus, Euza!

Há muitos heróis anônimos como Seo Derico que partem sem alarde. Alguns, como meu saudoso avô, nunca morrem - mesmo quando o corpo pára - porque deixam sementes que vez ou outra brotam na cabeça dos transeuntes desta parte da jornada sabe? Muita gente não teve o privilégio de conhecer Seo Tonhinho, mas à todos aqueles que a vida deu esse presente ficaram várias lições eternas de amor e esse é o grande mérito da existência. Gostei muito das suas reflexões. Devagar e curisosa começo a decifrar essa loba e gostar do que vejo. A propósito também não sei oq eu sou...."não so mais revolucionária mas também não sou reacionária"
Um beijo
Carol Montone

Bela crônica...

Bem, eu espero que esteja no Blog certo e escrevendo para a pessoa certa. Suponhamos que não. Neste caso, dei sorte : tive o imenso prazer de ser apresentado a uma autora de talento, dona de um estilo que me agrada porque me "pega" pela emoção. E emoção é algo que começa a rarear nesse mundo. Se for a Loba, fico duplamente feliz e agradecido. Agradecido por sua (dela) visita ao "politicamente..." e pelas palavras que recebeci como estímulo. Tentei, em vão, encontar no "Corpus et Anima" um lugar para "comentar" e nada. Valeu a pena. Tive que ir me deliciando pelos textos, até ser conduzido até aqui.
Seja ou não a Euza/Loba a pessoa a quem me dirigo, só tenho a agradecer pelo texto e pela beleza do blog.
Boa noite e um beijo afetuoso.

Olá, Loba!


Para qualquer revolução olha-se a evolução, as vezes ela tarda, mas não falha.

Um beijo

Todos os dias me pergunto se a humanidade esta camninhando para melhor ou pior...

Fidel,
não sei a cor das flores
que nascerão sobre teu túmulo
mas por certo, não serão
as flores do sonho
dos filhos desta ilha.
Filhos que se vestiram
de razão e camisetas
e cantaram hinos de paz.
De tudo ficará o travo,
o espinho na garganta
e a certeza de que a utopia
ainda vive em muitos corações.

Beijos de Assis Freitas

A humanidade caminha, caminha, caminha.... porem não se sabe para onde! Pequenos detalhes do nosso dia-a-dia passam tão despercebidos que tornam-se insignificantes e perdem totalmente o seu valor, a vida assim como a morte são tratadas apenas como mais alguns número nas estatísticas.
Transcorria tudo perfeito o leite fresquinho continuo sendo entregue todas as manhã, mesmo com a morte de Seu Derico, porque??
Certamente para alguns o nome “Frederico Paz” tinha um significado, o entregador de leite não estava sozinho, havia um leque de pessoas no seu convívio que tinham o conhecimento dos seus deveres como cidadão, eram sábios de suas responsabilidades como entregador, tanto é que o seu compromisso diário não foi abadanado.
Assim como Fidel que por trás de seu poder absoluto, também possui pessoas que vão da continuidade ao seu trabalho e não vão permitir que o americanismos tome conta da pequena ilha Caribenha...e se tomar??? Se choraria por mais esse leite derramado? ou “ficaremos acordados imaginando alguma solução” como já diz a letra de Renato Russo.
O nascimento é um ponto de partida onde todos nós somos anônimos, mas a medida que vamos crescendo nossa vida toma rumos diferentes uns tornam-se entregadores de leite outros tornam-se Ditadores, porém todos nos temos uma revolução dentro de nós para eclodir onde nela morreremos como pássaros, mas ressurgiremos das cinzas como um grande Fênix, que se torna imortal na memória de todos aqueles que por um dia presenciaram nossas palavras, nossos sorrisos, nosso amor, a nossa companhia em um café com leite em mais uma bela manhã de Batalha.....

Querida, que coisa romantica essa do leiteiro trazer o leite em casa! Onde você mora? rs*...

Qto ao Fidel, depois que estive em Cuba minha opinião mudou radicalmente: não chorarei sua morte, não.

beijos, linda

MM

É. Mas caminhará diferente quando Fidel morrer, o mundo não será mais o mesmo. Fidel é o único ditador a quem perdôo, sem ditadura Cuba voltaria ao que era no tempo de Fulgêncio Batista, quintal dos States. Muito boa tua crônica de hoje, choremos primeiro a morte de seu Derico, depois veremos o que fazer quando vier a do Fidel, vejamos se é possível mandá-la pra Casa Branca. Meu beijo.

Euza,

como sempre, me comovo com suas crônicas, que começam assim, como quem não quer nada e nos levam direto ao coração de uma mulher como poucas.
Creio que a humanidade anda caminhando cada vez mais sem saber o caminho a seguir - ou seja, às tontas - pelo caos que parece tentar espalhar-se e estabelecer-se neste mundão de meu Deus.
Felizmente ainda existem, em alguns lugares, pessoas como Seu Derico, que fazem calados e tranquilos o seu trabalho cheio de dignidade e, quando se vão, mal são percebidos. Só mesmo a sensibilidade aguçada de uma loba acaba notando sua falta e homenageando-o num texto tão terno.
O Fidel é um caso à parte. Um romântico revolucionário de muiiitas décadas atrás que se permitiu ser corrompido pelo poder e acabou virando um tirano, um déspota, que mantém um povo em estado de pobreza e proibido em seu direito de ir e vir, enquanto engorda sua fortuna pessoal. E ainda prepara seu sucessor para quando se for. Será chorado? Não sei.

Grande e afetuoso beijo, minha querida.

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