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Palimpnóia


De saudade para saudade

Outra vez a noite de segunda me chega vestida de cansaço e um rasgo de saudade anônima. E outra vez me vejo a uma longa distância dos pensamentos coerentes, das palavras significantes. Mas é dia de escrever para o Miolo-de-Pote. Deitar água no espaço branco que espera ser maculado. Hoje esta água tem cheiro e som de memória enfeitada pelas saudades de mim.
Em meio ao caos do corpo que quer cama, lembro-me de ter lido em algum lugar que a memória está estritamente associada às emoções. Por defesa devo ter me esquecido das emoções negativas. Porque a saudade anônima tem um furtivo gosto de morangos e fantasias. Enfeites da última história que guardo comigo. Éramos jogadores. Nossos movimentos eram como um jogo de xadrez. A cada tirada inteligente, um cavalo se movia. Cada beijo imaginado, uma dama caía. E assim foi por longo tempo. Sem cheque-mate. Ambos os reis eram intocáveis. Não queríamos terminar o jogo. E dizíamos que nos amávamos.
Ainda me pergunto se era mesmo amor. Pode ser que sim. Amor é sentimento tolerante. Dentro dele cabem infinidades de gestos e sentires. Uns brilham espelho, outros alternam trilhas sonoras e caminhos penumbrosos. Mas se estou me lembrando deste amor de tabuleiro é por saudades dos arrepios. Era tão incoersível o que ele causava em mim. Parecia que todo dia eu nascia. E era um nascer novo como de boneca partida que ganha vida. Ferozmente arrepiada.
Mas esta não é saudade de alguém. Saudade é do maravilhamento de estar amando. Amando de qualquer jeito. Daquele jeito poético de mãos que se beijam ou daquele jeito de jogo de xadrez que faz pele atrair pele. Porque amo no outro o meu próprio amor. E meu amor é terra sem bandeiras.
Agora os dias andam pragmaticamente bobos, redondos e iguais. O tempo, antes parceiro, deixou de bailar na minha janela. Por isto esta vontade de ter novamente os pés à beira do abismo. Viver no limite da emoção. Talvez um longo voo de parapente. Ou quem sabe apenas um bom sono que restaurará as energias para encarar um cheque-mate do coração. E o gozar dos olhos pagãos.
E se você disser que não existe saudade de futuro, não vou discutir. Mas não posso concordar.
Que outro nome eu daria a esta estranha vontade de rasgar bandeiras?

Imagem: Tela de Flávio Freitas

Num credo!!!!
Primeira por aqui???
Uia!!!!
Péra, vou me recompor de tanta emoção e já volto!

oxe, saudade do futuro existe sim. quem diz que não, é gente sem futuro. adorei o texto, lobinha. xero e cheiro

Interessante vc falar que a memória esta ligada às emoções,LOBA.
Num rapido vasculhar ,pude comprovar isto mesmo. Só me lembro do que esteja relacionado a elas...
Muito interessante isto.
beijos!

Oi, Loba! Reparei que a "lembrança" selecionou "os arrepios"...Mais que o objeto deles, mais que o companheiro do jogo de xadrez...o que vc recorda é a emoção, a sensação de estar viva, a vibração, o "maravilhamento"...né?
Já lhe disse uma vez que você ama o "Amor" em si. (lembra-se do Eros?)E eu complemento: você ama a sensação de plenitude que experimenta quando está "amando".
Minha mania de "psicologizar" parece aumentar dia a dia...rs
Mas, é apenas o que sinto, quando a leio: há essa constância de tema, essa recorrência...E eu deduzo o que acabei de dizer.
O assunto é bonito demais!
Beijo para você.
Dora

De arrepiar é isto aqui:
"Porque amo no outro o meu próprio amor. E meu amor é terra sem bandeiras."
Duas frases que apontam em várias direções e dariam belos textos, cada uma delas.
Deixo a sugestão: faça-os. Com sua fluência e elegância de estilo arrasará para o deleite dos seus leitores.
Beijos nordestinos

Loba!

Bonito texto, falando de saudades, emoções e amor, este sentimento maior que cerca o ser humano e suas ilações. Olha: ainda estou no aguardo dos exemplares.

Um beijo de emoções...

eu as vezes sinto saudade do futuro (e do presente tambem).
beijos

Hum...que delícia voltar depois de um tempo e encontrar um texto tão legal. Saudade do futuro, pés no abismo...sensações conhecidas. Parabéns pelo texto e beijos muitos, querida!

Totalmente acordo contigo em cada linha que regeste com tanta maestria. Amamos o amor, a sensação que exerce em nós. Amamos o fogo aceso e lhe damos um rosto que o completa.
sublime texto, beijocas querida

O tema que você desenvolveu hoje causou em mim um estado de contemplação protofilosófica: Emoções boas, momentos de paixão e prazer é o que se guarda até na memória da célula. O outro lado de esquecer as coisas ruins, esquecer o que revolve o estômago e planeja a dor, é a repetição do erro. Mas no amor, na paixão, não pode haver erro. A alma não erra e a natureza também não. Por isso o seu efeito (do amor e da paixão) é para sempre. Nascemos exatamente para isso. Está inscrito nos gametinhas da espiral que determina o que somos, para que somos, onde e quando somos. Mesmo sobre qualquer uma das nossas compulsividades. Nosso destino é experimentar a vida em todos os seus extremos, baby.

Há muito que já sofro de saudades de coisas futuras de que não poderei usufruir. Creio que nisto está o sofrimento de quem sonha demais em manter viva a chama do bem-querer. Crônica crônica. Muito boa.

se cansada e com saudades saiu este belo texto, imagina quando estás sem cansaço?

te beijo


Taís Morais

ps. chegaram os livros! amei

Mestra dos mestres, excelsa criatura, dos sonhos e do futuro, eis que o passado se agarra com a força de um titã e perde-se em suas circunvoluções de onde aflora como o encanto feito gente, a mãe de Corpo e Alma em Prosa e Verso, a mui amada que gestou de homens e mulheres a coletânea linda, o livro, o “tal filho seu que foi gerado em grandes e belas surubas literárias”. Embora “o parto tenha sido da mamãe aí, a concepção veio de várias cabeças!”, como disse-o bem. /Beijos

Loba, dizer que seus textos são um apanhado verborrágico seria puro desplante.
Teus textos são, na verdade, cascatas de palavras de único sentido que, tal como cupido, acertam direto a central dos nossos sentimentos, nos causando arrepios e languidez.
Ler teus textos me proporciona um reencontro magistral com a POESIA mesmo estando no formato de PROSA.
Beijos.

Querida Loba, as coisas andam meio esquisitas por essas bandas ou sou eu que ando perdido e não sei? Já comentei esse texto sobre saudade e não vejo meu comentário, e fui o primeiro, agora vejo que a Cherry é a primeira. Por outro lado não encontro lá no teu blog o espaço para comentar, onde iria dizer que não vou entrar no Amigo Oculto pra não atrapalhar, sou muito roda-presa nessas coisas, mas desejo que seja um sucesso para todos os que participarem, todos merecem, principalmente você. Beijos.

Euza, querida!

Saudades do futuro, amar o amor, amar amar... maravilhar-se com o ato de amar o próprio amor. Esta crônica está mais para a poeta (hoje com raras aparições) Loba, que tanto nos maravilhava com seus versos. Esta crônica, na verdade, é um belíssimo poema ao amor e ao ato de amar. Não creio que encontre alguém que a desafie, descrendo na saudade do futuro... afinal, onde andam nossos sonhos?

Beijos, repletos de carinho.

Ando precisando de muita emoção!!!!

=/

Beijo, tia Euza.

Euza

Que texto liiindo! A exaustão, por vezes, é o caminho para a descoberta do mais genuíno de nós...no teatro usamos alguns treinamentos de exaustão, física e emocional, para ativar a nossa essência e a sua veio em palavras entrelaçadas com uma beleza emocionante.....saudade dói, seja presente, pretérita ou futura e nos mostra o tamanho de nossa impotência as vezes né?
Um grande beijo
Carol Montone

Puxa Lobinha! Valeu esperar para ler um texto seu sobre saudade....Me vi espelhada nele....Saudades do futuro....Quanta! Pois colocamos no futuro tudo o que foi bom no passado, o que é bom hoje....E ai dele se não for! Vira logo passado, risos....
Adorei Loba! Um beijo!

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