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Babel


Mulheres leitoras
Conta a lenda que durante muito tempo a leitura predileta delas foi o romance. Quem há de negar a tradição? Ninguém, ir contra essa verdade é cometer erros. No caso brasileiro, por exemplo, quando os romances começaram a chegar às livrarias ou mesmo quando ainda havia espaço para publicação de histórias nos velhos jornais, as mulheres liam bastante. Aliás, logo no início do surgimento do romance nas sociedades letradas, as donas de classe média, pequenas burguesas e sabedoras das letras consumiam mais romances que os próprios homens.
Está na historiografia. Até os escritores dão testemunho. Aqui e ali, em poemas e romances do século XIX, encontramos infindáveis referências às mulheres leitoras. Álvares de Azevedo e Castro Alves são nomes. Alencar, o gênio do romance oitocentista brasileiro, ora ou outra faz referência à leitura de romance por parte das fêmeas e a importância do gênero na sociedade carioca do século XIX. Em Como e porque sou romancista, o autor de Senhora descreve sua formação de escritor, mas principalmente dá a conhecer o ambiente cultural e social que acolhia a novidade do romance no seio da corte fluminense. Criador de tipos femininos consagrados (o que ia de acordo com os interesses das madames e mademoiselles leitoras de romances), a certa altura o escritor informa da receptividade que uma obra sua (Lucíola, 1862) teve entre os leitores e, em especial, entre as mulheres: “Apesar do desdém da crítica de barrete, Lucíola conquistou seu público, e não somente fez caminho como ganhou popularidade. Em um ano esgotou-se a primeira edição de mil exemplares, e o Sr. Garnier comprou-me a segunda, propondo-me tomar em iguais condições outro perfil de mulher, que eu então gizava”, diz Alencar.
Num dos mais conhecidos contos de Machado de Assis, “Missa do Galo”, em certo momento do breve e denso diálogo entre o estudante Nogueira e a esposa do escrivão Chiquinho, Dona Conceição, o leitor é surpreendido com a citação de dois famosos romances, um de língua francesa, de Alexandre Dumas, Os três Mosqueteiros, e outro de língua portuguesa do famoso romancista romântico Joaquim Manuel de Macedo. A referência não é gratuita, a personagem Conceição é leitora de romances, e nessa passagem Machado mostra o quanto era comum as jovens, mocinhas e senhoras lerem a mancheia. Conceição observa Nogueira a conduzir o livro Os três Mosqueteiros e depois questiona se o estudante conhece o livro de Macedo, A Moreninha, à época em que se passa a história (por volta de 1861/62), um dos mais famosos e lidos romances brasileiros.
- Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros?
- Justamente, é muito bonito.
- Gosta de romances?
- Gosto.
- Já leu a Moreninha?
- Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
Outra Conceição, dessa vez personagem de O Quinze de Rachel Queiroz, também adorava uma leitura. O sertão velho arretado comendo o couro do seu pretendente, o proprietário Vicente, homem rude e sem letras, e ela comendo os livros deitada numa rede. Em quase todos os momentos do romance Conceição está de livro aberto, inclusive lendo obras de cunho político e social.
Mas isso são casos que mostram mulheres lendo no século XIX e no XX. Claro que entre as mulheres o hábito de ler é bem mais antigo. Imagens de vasos do mundo clássico, já na Grécia de Homero, dão prova de que as gregas gostavam da leitura. Mulheres esposas e cortesãs da época são vistas lendo enquanto as observam os seus bravos maridos guerreiros. Em Roma também. Não o grosso das mulheres, mas as senhoras de classe social alta liam a medonho. Lembro a figura da irmã de Calígula, Julia Drusilla, retratada nas páginas da história (contando-se o cinema também) como uma figura de extrema sensibilidade e conhecimento livresco.
Falar em cinema, numa recente adaptação da história do mito de Casanova, que se passa na Itália do século XVIII, a mocinha lia, discutia intelectualmente com os homens e escrevia sob pseudônimo. O filme dá a medida do charme e encanto da mulher leitora. A personagem de Sienna Miller, Francesca Bruni, é tudo de bom: linda e especialmente inteligente para os padrões da época. Tanto que é a única em toda a Veneza a resistir aos encantos sedutores do famoso Casanova. Mas não age assim à toa, é sua tendência à reflexão sobre os problemas morais da sociedade veneziana e o viver metida em livros de toda espécie que a faz escritora e forte o suficiente para enfrentar a ira da Inquisição Italiana e o preconceito dos marmanjos de plantão.
E que dizer da pintura que retrata a mulher leitora? Simplesmente fantástica. A imagem da mulher leitora feita por alguns pintores é de uma excelência sem par. Novamente o século XIX sai na frente. São muitos os quadros dessa época em que donzelas inimagináveis são vistas lendo pelos cantos das paredes, encostadas sobre árvores, sentadas em leitos de rios, em paisagens naturais, distraídas em sensações mirabolantes de prazer proporcionado pela leitura, às vezes até adormecidas com um livro ao colo.
Vendo esses quadros, penso em leitoras maravilhosas como Emma Bovary, Eugênia Grandet, Madame Ana Karenina, Luisa Mendonça, Madalena Honório. Não são mulheres exatamente reais. Há as mulheres reais e as inventadas, mas estas e aquelas são uma só. Tomando a personagem de Flaubert como modelo e o conseqüente e discutido termo bovarismo, jamais me pareceu que as mulheres fossem tontas alienadas que, ao lerem, nunca soubessem o que buscam. Se não sabem, ainda assim, ao se entregarem ao êxtase de um romance ou ao prazer da reflexão pura, em livros de outras áreas, estão sempre em busca de alguma coisa. Não estão?
Uma mulher real: Sóror Juana Inés de la Cruz. Conta Octavio Paz na biografia Sóror Juana Inés de la Cruz: As armadilhas da fé que a poeta queria muito aprender, era seu sonho desde muito jovem tornar-se uma intelectual. No México do século XVII uma mulher intelectual não era tão comum. Mas Inês não economizou esforços para tal. Antes de tornar-se freira, Juana teve a ousadia de pretender vestir-se de homem para poder freqüentar a universidade que, nesse tempo, era privilégio da cambada masculina da sociedade. Louca? Talvez. Devota dos livros, Inês dedicou-se com afinco à literatura; e mesmo após ter renunciado ao estudo das letras, antes de morrer havia se tornado uma das principais poetas da língua espanhola.
Hoje, as fêmeas ainda lêem muito (o que me espanta), apesar de não tanto quanto as do passado. Ora, mocinhas de antigamente não tinham a Internet, nem a televisão, às cinco e quinze da tarde não começava a Malhação. Tampouco as moças malhavam. Sem essas novidades modernas, era a leitura quem as tirava da mesmice diária levando-as ao conhecimento, à fantasia, ao delírio, às viagens emotivas e aos sonhos de todos os tipos.

Imagem 1: Sóror Juana Inés de la Cruz.
Imagem 2: Reprodução de vasos gregos (detalhes).

Interessante essa reflexão. Belos e válidos exemplos. Citaria ainda a Florbela Espanca, imprescindível para tal discussão. Mas as mulheres não trocarão as páginas inebriantes dos grandes romances pelas futilidades modernas, isso jamais. Nossa alma naturalmente poética sempre rogará por boas leituras, não tenho dúvidas. Valeu, moço. Belo artiguete...rs.

Por tradição, as mulheres sempre foram melhores leitoras que os homens. Daí por que quando são escritoras têm talento igual ou superior aos escritores de sua época. Na contemporaneidade vivemos uma crise de leitura. As mulheres continuam lendo mais que os homens, as mais das vezes escrevendo. Basta ler um pouco do que se escreve hoje no Brasil em termos de poesia. "Concretamente" dá uma vontade de jogar o livro fora!

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