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BABEL

A falsa fábula de Os Bruzundangas*

Para Jarisa Augusto

Quando você lê Os Bruzundangas nem precisa que te informem que se trata de ficção, de uma realidade imaginada e, portanto, falsa. Mas não é por ser ficção que se conclui que a história é falsa, mas porque você percebe que aquela terra do livro é a nossa, esta na qual pisamos o chão em que tudo dá e onde vemos um céu pintado com todas as cores da nossa esperança de país de futuro. O escritor carioca Lima Barreto, autor da obra, sabia que não estava falando tolice e que estava dizendo exatamente isso. Daí que essa sátira foi e continuará sendo o símile literário perfeito para representar o Brasil de ontem e de hoje.
Bruzundanga é um “país imaginário” onde as coisas nunca acontecem a favor dos menores, dos pequenos, a sempre maioria de uma sociedade, onde a vida é sem importância e onde as pessoas são tratadas como na verdade do universo da ficção, ou seja, como jogo ou invenção. Algum paralelo com o Brasil? Na verdade, nada mais longe que um país de mentira, nada mais mentiroso. De viés, ao fim e ao cabo, em Bruzundanga o que temos é uma república real que se descortina ao olhar incrédulo de quem não apenas a imagina, mas a vive à luz clara de uma realidade social que já dura bem mais de quinhentos anos. Em Bruzundanga gozamos com uma festa de situações às vezes tão incomuns, tão exageradamente irônicas e engraçadas que nos espantamos, bobões: ah, este país eu conheço!
Lima Barreto surpreende ao construir um mundo que, a partir de uma situação sócio-histórica real, datada, serve de reflexão para entender uma outra situação mais de oitenta anos depois, a nossa, em que nada ou quase nada mudou. Para mim, Os Bruzundangas são um espetáculo de desvendamento artístico a nos garantir que a melhor arte supera os limites de tempo e de espaço.
Em princípio, os Estados Unidos da Bruzundanga pode ser lido como o Estado Oligárquico da República Velha brasileira onde a nata da aristocracia rural e semi-industrial vivia a amordaçar as liberdades mais elementares do povo brasileiro; onde conflituosamente viviam os herdeiros da Casa-Grande e os remanescentes da Senzala, mas principalmente onde reinava uma elite historicamente preconceituosa de cultura mediana (não politizada, mas politiqueira, não completamente emancipada, mas poderosa) na periferia de um capitalismo atrasado num país explorado por bandidos sem-nenhum-caráter.
Foi contra esse painel de políticas e ideologias que Lima Barreto escreveu Os Bruzundangas. Painel de Belle Èpoque, talvez o quadro mais angustiante porque passou o escritor brasileiro crítico e combativo como o criador de Policarpo Quaresma. Após Machado, o país vivia infestado de artistas amorfos e medíocres a se entregarem a futilidades as mais diversas, numa prosa empolada e ideologicamente aristocrata. Era uma época em que a intelligentsia fadava ao conformismo e estava em total desacordo com as mazelas sociais de seu tempo. Em síntese, o mundo do formalismo parnasiano havia arrastado a reflexão crítica para bem longe, por isso a arte brasileira, a literária em especial, era carente de melhores representantes.
Eis que não de repente, porém atentos às mudanças e aos problemas de natureza interna porque passava o país nas três primeiras décadas da primeira república, surgem escritores mais combativos e interessados em discutir os problemas brasileiros, entre os quais Lima Barreto, famoso amanuense de carreira e escritor por vocação e genialidade. Nesse momento, migramos do país empolado e alienante do Estado Oligárquico - das faceirices modernas das classes cultas, das imundícies sociais e futilidades culturais - para um país real onde habitavam os brasileiros sem história e as classes privilegiadas que se esbaldavam no mormaço das idéias e na exploração do povo mais simples.
Como lembra Lucia-Miguel Pereira ao reconhecer a importância de Lima Barreto em seu Prosa de ficção (de 1870 a 1920), em meio ao sorriso superficial da alta sociedade, “ressoava subitamente uma voz áspera e amarga, o drama interrompia a opereta, a revolta explodia no seio da amenidade, um atormentado reclamava o direito de se fazer ouvir dos descuidados”, e esse atormentado era o Lima Barreto de Os Bruzundangas.
Herdeiro de Machado de Assis? Lucia-Miguel se pergunta se o professor não haveria de conhecer o aluno, se não descobriria nele, bem antes da crítica tê-lo esquecido em vida e após a morte durante muito tempo, se não reconheceria em Lima seu substituto primeiro: “Terá o velho Machado tido notícia do jovem Lima Barreto, e sentido que, malgrado irredutíveis diferenças de temperamento e opiniões, era esse outro mulato quem o iria substituir?”
Creio que de Machado de Assis Lima não herda os requintes formais de investigação psicológica que fizeram o Bruxo do Cosme Velho pôr a nu as contradições estruturais das elites brasileiras de fim de século (como já observado no clássico estudo de Roberto Schwartz, Um mestre na periferia do capitalismo, de 1990), mas em verdade lhe apura o realismo crítico de forma a desmascarar, revelar e converter a pátria de todas as oligarquias na República de Bruzundanga.
Conhecido na sua época como “escritor mulato”, Lima Barreto não fora aceito como o grande escritor que é: confundiram o artista e o homem. Como se sabe, Lima era alcoólatra, enfrentou internações em hospícios; e principalmente: não escreveu para as elites. Era um gênio rebelde, por isso socialmente incompreendido. Ora, aos gênios não se pergunta a cor. Mulato, sim, como mestiço o fora o próprio Machado, Lima teve infância pobre, juventude pobre e passou a vida pobre e miserável, sobrevivendo a duras penas entre a genialidade de escritor e os fracassos de homem. Mas os dois, Machado e ele, com igual mestria, souberam adentrar os labirintos da psique sócio-ideológica do Brasil entre o final do Império e os limiares da República Velha, e isso sem que se perdessem lá. Tanto que um nos deu Brás Cubas, cujo DNA ainda infecta a ordem política e moral de nossas elites, e o outro nos desvendou vários tipos sociais brasileiros reinventando o país cultural e sociologicamente através de romances exemplares e da falsa fábula dos Bruzundangas.
Digo falsa fábula porque em Os Bruzundangas, como seria normal, a ficção deveria funcionar na esteira de um “como se não fosse, embora sendo”, devido à formalização do processo de construção artística. Mas, neste caso, o relato extrapola os limites da invenção para sugerir o quadro de uma realidade que “é como é”, real e por inteira. Como exemplificação, leia-se essa famosa passagem comparado-a com a atual cena política de aumentos salariais exorbitantes dos nossos camaradas parlamentares:
“Não há lá homem influente que não tenha, pelo menos, trinta parentes ocupando cargos do Estado, não há lá político influente que não se julgue com direito a deixar para os seus filhos, netos, sobrinhos, primos, gordas pensões pagas pelo Tesouro da República.
No entanto, a terra vive na pobreza; os latifúndios abandonados e indivisos; a população rural, que é a base de todas as nações, oprimidas por chefões políticos, inúteis, incapazes de dirigir a cousa mais fácil desta vida.
Vive sugada, esfomeada, maltrapilha, macilenta, amarela, para que, na sua capital, algumas centenas de parvos, com títulos altissonantes disso ou daquilo, gozem vencimentos, subsídios, duplicados e triplicados, afora rendimentos que vêm de outra e qualquer origem, empregando um grande palavreado de quem vai fazer milagres”. (grifos nossos).
Assim é o Brasil de Bruzundanga, mais real impossível. Assim também seu autor, ainda mais real que a própria vida de privações e preconceitos de que foi vítima. Não esqueço a conhecida descrição do velório de Lima Barreto: na sala onde velavam seu corpo, estavam apenas uns dois ou três amigos; da mesma forma durante o enterro. Já os funerais de Machado, 14 anos antes, ficaram conhecidos pela opulência das pompas e homenagens. Conta-se que o cortejo arrastou multidões: uma verdadeira nota de que o valor social do autor de Brás Cubas antes de morrer estava em alta, figurão que era das letras nacionais. Em 1908 quando o jovem Lima Barreto estava começando a escrever os primeiros romances, Machado morria, mas morria com o status de um verdadeiro pop star, hoje tranquilamente comparado aos famigerados autores que a burguesia mais medíocre e a grande mídia apadrinham lá e aqui em Bruzundanga.


NOTA:
___* Devo todas as citações e a idéia geral deste artigo ao professor Luiz Ricardo Leitão que publicou recentemente o livro Lima Barreto: o rebelde imprescindível (São Paulo, Expressão Popular, 2006), que acabei de ler.

Grande Adalberto, isso não é um texto, é uma aula!

Parabéns

Textos como o seu e do de Ricardo Leitão me estimulam cada vez mais a trabalhar com Lima Barreto, o nosso Mulato de Todos os Santos não deve passar mais um século silenciado pela homegeneizização de uma fala histórica.

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