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BABEL


Ninguém escreve ao Coronel


A solidão tem sido tema freqüente na história da literatura ocidental. Tanto que um dos mais importantes livros da América Espanhola, de Gabriel Garcia MÁRQUEZ, chama-se Cem anos de solidão. Sobre o autor já falei em outro texto, mas não me furto a comentar uma pequena novela do escritor colombiano que tem como tema primeiro a solidão existencial. Aliás, Márquez, mestre do realismo mágico, é, sem dúvida, mestre também em inventar criaturas cuja solidão é a forma e o fundo de suas existências.
Alguns disseram de Ninguém escreve ao Coronel (1957) que se tratava de uma grande alegoria política contra a burocratização da vida comum. Também acho, mas vejo que na novela a questão da solidão existencial predomina entre outras: as dificuldades de sobrevivência em meio à escassez de recursos, a velhice, a fome, a pobreza, etc, vêm em seguida a esse problema maior.
O enredo é bem simples. Um coronel reformado espera religiosamente a chegada de uma carta do governo que lhe renderá a pensão por méritos de guerra, mas esta (a carta) nunca chega. Daí que uma vez por semana ele vai ao cais ver a lancha que traz as correspondências na esperança de obter a tão sonhada ordem burocrática. Em dias de ir ao cais, inquieta-se como um prisioneiro de guerra, arruma-se, cria as mais puras expectativas, e ao final, descobre que ninguém escreve ao Coronel, ninguém. Passam-se quinze anos, e é onde estamos quando o livro começa. Morando com a companheira e um galo de briga herdado do filho morto, o Coronel leva os dias acreditando na possibilidade de driblar a solidão a que se confinou depois que o governo lhe nega o mais importante à sua vida: comida e dignidade (reconhecimento pelo trabalho prestado à pátria como soldado).
Assim, o Coronel passa a viver de ausências, de forma solitária e vazia: ressente a ausência do tempo glorioso das guerras, do filho revolucionário morto pelo governo a quem serviu, da saúde e da juventude, mas não despreza uma espécie de orgulho autoritário de que se gaba. São muitas as vezes em que, tentado a resolver o problema da falta de recursos para garantir ao menos a alimentação diária, procura vender o galo, falar dinheiro emprestado, solicitar favores. Mas entra e sai e a luta continua. Até o final do livro.
Não tenho dúvidas de que essa situação, de caráter nitidamente kafiano, dá ao personagem uma espécie de insegurança contra si mesmo, porque de repente passa a não se conhecer, aos poucos se confina e se anula sem saber por que, que motivos o levaram a viver tal experiência. Garcia MÁRQUEZ, leitor de Kafka, faz lembrar através do Coronel o rebaixamento metafísico a que se impõe o sujeito quando a realidade, quando a existência de repente se reduz a nada.
Através do procedimento de um narrador em certos momentos sádico e irônico percebe-se que a solidão do coronel é de tendência metafísica. A voz narrativa é silenciosa, as frases parece serem ditas em tom de galhofa, por meio de sussurros cuidados, lentamente expressos, próximas à fala da esposa do coronel, dona Lola, de início uma humilde senhora, asmática e calada, depois uma consciência realista para as coisas práticas. Esse sussurro narrativo dá ao livro o tom do vazio existencial do Coronel, exposto ao absurdo de que é vítima, a cada linha um homem revoltado, nos termos de Camus, embora contido por conveniência e orgulho. O governo fora bom com outros, como ao rico Dom Sabas, mas a um dos seus melhores soldados, derrubou da montaria em sua mais importante batalha, reflete o Coronel. Como sorrir, ser feliz, não tornar-se um solitário? Esperar quinze anos por uma mesma coisa, não consegui-la, adiar sempre a sua vinda e ainda ter esperanças? É o máximo a que pode um homem.
Chegamos ao fim da novela e concluímos: a história da mais solitária das personagens de Gabo parece ser a de um homem que não tem história. Mesmo com ares de um imponente guerreiro (o coronel lutara ao lado de Aureliano Buendía, herói de Macondo) a personagem parece não ter história. Pelo menos, diga-se de passagem, Aureliano Buendía tem uma história, uma trajetória, aliás, uma extraordinária trajetória, de importância épica. A vida da personagem da pequena novela de Garcia MÁRQUEZ, ao contrário, é trágica, dramaticamente limitada a uma mesma peleja ao lado da esposa Lola, sem mais que isso. Porque sua luta agora e enquanto existir a novela é a de um solitário que estará sempre a agarrar-se a esperanças.
O livro também virou filme. El Coronel no Tiene Quien lo Escriba é de 1999, e foi dirigido pelo cineasta mexicano Arturo Ripstein. Fez algum sucesso, principalmente por apelar para a caricaturização das personagens. Lembre-se a cena em que o Coronel responde à insistente pergunta da esposa, já ao final da história: “Diga, o que nós vamos comer?”
E o Coronel, no seu orgulho, faz uma cara entre triste e irônico:
- Merda!

Imagem: http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/

Adal, me perdoe por não comentar o texto. Li, mas ainda estou na fase aguda do subjetivismo.
Quero mesmo é agradecer suas palavras, agradecer o privilégio de ter feito parte do Miolo e desejar, de coração, que o projeto continue firme. Conte comigo para qq ajuda nos bastidores... vc sabe que pode pedir, né?
Um grande beijo.

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