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BABEL

Entre o filme e a obra
Adalberto dos Santos

Entre o filme e a obra, há certa distância. Mas ambos podem provocar a curiosidade e servirem como ótimos objetos para a reflexão e o debate na sala de aula. Costumo utilizar o filme nessa perspectiva: para efetivar o domínio crítico de conteúdos. E ainda que o aluno tenha do filme a idéia de que se trata de um produto cultural que está mais para o lazer que para a prática didática, faço o seguinte: deixo-o pensar. Quando mais, a idéia muda e aprendemos quanto o cinema pode fazer pensar.
Entre o filme e a obra, a prática mais comum é escolher o filme. Aliás, na escola a regra é levar o filme para a sala, nunca a obra. Se esta não foi lida pelo aluno, o professor como facilitador facilita que ela seja “lida” através do filme. Assim, se o filme for visto, o aluno livra-se da obrigatoriedade de ler a obra. E se a obra for grande, um romance longo como, digamos, Guerra e Paz? Aí estaremos falando do melhor resumo para o vestibular.
Na verdade, não é a mesma coisa ler a obra e ler o filme. Cinema é cinema, literatura, literatura: formas de artes diferentes e por isso construídas a partir de procedimentos diferentes. Nem precisa ser expert em intersemiótica para tirar essa conclusão. No cinema, a adaptação pode mudar a “cara” da obra, a transmissão de valores e ideologias pode ser outra no filme, a visão sobre o mundo, as pessoas, etc: tudo provocado pela perspectiva do cinema, coisa bem diversa da obra.
Digamos que lá no fundo, bem no escurinho do cinema, o filme acrescenta sempre algo a mais ou a menos à obra. Não que a adaptação desfaça por completo desta, mas pelo fato de que esse processo cria uma outra linguagem: tradução, transposição, mudança. E que há de negar que não seja assim? Temos de lembrar que uma coisa é um roteiro, uma narrativa especial exclusivamente escrita para o cinema, e outra a obra literária adaptada.
Entre o filme a obra, ganha quem puder ler os dois. Na escola, o problema está em fazer gostar da obra e evitar que o cinema seja utilizado apenas como forma de driblar a oportunidade de o aluno puder conhecer a obra literária. Aliás, sugiro que os professores façam ler primeiro a obra e em seguida tragam o filme para que sejam apreciadas as diferenças e semelhanças entre as duas linguagens.
Às vezes a gente pensa que por ser o filme um produto cultural mais próximo do cotidiano cai com facilidade no gosto do aluno, mas a literatura, como arte complexa que é, afasta o aluno dos conteúdos. Então, exibe-se o filme para que o aluno conheça a história. Só isso? È importante ler a obra, depois ver o filme e estuda-los juntos, enriquecendo o debate com questões que levem a compreender o filme e a obra enquanto objetos cada um com sua linguagem própria. As reflexões em torno da obra podem atingir o filme, e não é a só a história, o enredo, que está em jogo. Por fim, em relação aos dois objetos nada deve ser dispensado.
Vou dar um exemplo. No filme O Quinze, adaptado de Rachel de Queiroz, tanto no romance quanto no filme, é fácil identificar como o drama natural da seca atinge todos os personagens. Mas o clássico problema da divisão de classe, no filme, ganha uma roupagem diversa da que vemos no romance.
Na obra é mais difícil perceber o tratamento romantizado que a autora dá às relações de classe. Já no filme é mais fácil. Pela interpretação dos atores, pelo carisma transmitido pelos figurantes que fazem os imigrantes e empregados das fazendas de Vicente e Tia Inácia. No fundo, a gente percebe, através do filme, como eles idolatram o patrão e orquestram o velho dilema: a alienação submete a consciência à palmatória. Há uma coisa no problema da seca que eles não conseguem ver, e por esse motivo o romance sutilmente rouba-nos de atuar com eles. Mas não no filme, embora neste como na obra só consigamos ver, em primeiro plano, o problema da seca como fenômeno exclusivamente natural. Afinal, do que estamos falando? Eis a primeira questão para iniciar o debate entre o filme e a obra com a turma.

Imagem: Cena de O Quinze. Direção: Jurandir Oliveira.

Acho que ainda tem outro aspecto. Na leitura, a gente faz a imagem que quer... viaja. Dá formas aos rostos, aos cenários... e conforme o nível de criatividade, vai longe, muito longe. Quando se assiste o filme antes, as coisas ficam limitadas, as personagens tem "aqueles" rostos e acabou. Eu prefiro ler primeiro, sempre. Quando não dá... eu sofro!
E, invariavelmente, acho que eu faria um filme melhor! MAs como diz uma amiga minha, "pra imaginação não tem regulagem no orçamento!"

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