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BABEL

Jobim e a literatura

O jornal O Globo está perguntando qual a música mais marcante do maestro Tom Jobim. São muitas, e de minha parte prefiro lembrar uma de lembrança especial enquanto as outras vão sendo puxadas pelas relações que mantêm com a literatura, especialmente a brasileira. O maestro, desde os primeiros anos de sua formidável carreira, tem dialogado constantemente com a literatura, seja através de trabalhos ligados diretamente a textos literários (os textos musicados), de trilhas sonoras feitas para a tv e o cinema tendo por base obras da literatura, seja em composições em que aparece como um excelente letrista, cujo esmero estético chega ao extremo da poeticidade, ultrapassado os limites entre letra e poema.
Respondendo a pergunta, primeiro acho que o Tom é muito bom quando canta. Diferente de outros artistas da Bossa Nova, que são ótimos compositores, mas que não cantam quase nada. Do Tom Jobim gosto muito mesmo de “Matita Perê” (a gravação original, de 1973). É de uma beleza impressionante a harmonia e a melodia, sem falar na composição poética que intertextualiza grandes autores, personagens e textos da literatura que estão na memória coletiva brasileira. É o caso de Drummond, Guimarães Rosa e Mário Palmério, a quem Jobim dedica a canção. A letra é parceria do maestro com o grande Paulo César Pinheiro. Em síntese: não há como não gostar de Matita Perê, letra e melodia dão à canção uma dimensão épica que a engrandece a cada nova audição. A canção também fez parte da trilha sonora do filme Sagarana: o duelo, baseado na obra de Rosa, com direção de Paulo Thiago, e lançado no mesmo ano do disco.
A primeira inserção de Tom Jobim na literatura se dá em 1954 com o parceiro de anos, Vinicius de Moraes. Os dois fazem juntas as canções da peça escrita por Vinicius, chamada Orfeu da Conceição, que seria apresentada no mesmo ano do lançamento do disco, interpretado por Vinicius, por Tom (como músico) e por Roberto Paiva. Aí se encontram, entre outros, os sambas “Lamento no morro”, “Se todos fossem iguais a você” e “Mulher, sempre mulher”, verdadeiros clássicos do cancioneiro brasileiro. A peça de Vinicius viraria filme em 1959, dirigido pelo francês Marcel Camus. Em Orfeu negro Tom brilharia com os temas de “A felicidade” e “O nosso amor”.
Há outros temas ligados à literatura, como a música para a Gabriela do Jorge Amado, inspirada obviamente na personagem literária a quem Sonia Braga emprestou corpo e alma no filme de Bruno Barreto (1983). A canção tem o mesmo nome da personagem e ora se desdobra no “Tema de amor de Gabriela”, que ganha uma conotação baiana na voz de Gal, parceira de Jobim na gravação da trilha sonora de 1983.
A trilha sonora de “O Tempo e o Vento”, seriado da Rede Globo gravado em 1985 que adapta a trilogia de mesmo nome do escritor gaúcho Érico Veríssimo, também é assinada por Tom Jobim, e nela se podem ouvir músicas extraordinárias como “Passarim” e “Chanson pour Michelle”, além de outros temas instrumentais de incomparável requinte. Todas as letras do disco são de Tom, com parceiros.
Em A música em Pessoa (1985), projeto que se juntava às comemorações dos cinqüenta anos de morte do poeta português Fernando Pessoa, o maestro assina a melodia de três poemas do autor de Mensagem: “O rio da minha aldeia”, “Cavaleiro Monge” e “Autopsicografia”. O disco traz os poemas na voz do próprio Jobim.
Por ocasião dos cem anos de nascimento do poeta Manuel Bandeira, a cantora Olívia Hime, também produtora de A música em Pessoa, convida Tom para fazer a música do poema “Trem de Ferro” do poeta pernambucano. Um luxo. Num de seus últimos discos, Antonio Brasileiro (1994), Tom Jobim gravou o poema de Manuel Bandeira. A canção é de dar água na boca: ao ouvi-la a impressão que se prova é de que estamos viajando nalgum desses maravilhosos marias-fumaça de outrora, com vento na cara e barulho de café-com-pão.
Ainda no capítulo cinema, Tom é o autor da trilha do filme Fonte da saudade (1984), também ligado à literatura, baseado no romance “Trilogia do Assombro” de sua irmã, Helena Jobim. E é dele a “Canção dos Piratas” que aparece no filme Pluft, o fantasminha, de Romain Lesage, adaptado da obra da dramaturga brasileira Maria Clara Machado, em 1961. Aliás, no terreno da literatura infantil, Jobim daria brilho à voz de Paulo Autran e de outros famosos atores brasileiros ao compor a música do disco O Pequeno Príncipe, adaptação do clássico infantil de Antoine de Saint-Exupéry, gravado em 1957.
Para quem pensa que o nosso maestro era apenas um excelente músico, em momentos grandiosos de sua carreira Tom fez canções realizando sozinho letra e música, com ótimos resultados. Lembrem-se canções como "Falando de amor", "Àguas de março", "Corcovado", "Luiza", "Este seu olhar", "Samba do avião" e teremos a medida de sua relação com literatura. Acreditamos que Tom, reconhecido leitor de literatura, sabia tirar proveito da sua experiência com os livros. Suas letras nessas e em outras canções que assina individualmente são verdadeiros poemas. Como se disse lá em cima, algumas composições são tão ricas em poeticidade que os limites entre letra e poema quase desaparecem.
Amanhã, 25 de janeiro, se estivesse vivo, o maestro estaria completando 80 anos. Tom Jobim nasceu na Tijuca, onde viveu durante muito tempo, antes de se tornar famoso e percorrer o mundo com sua música fenomenal. Em 08 de dezembro de 1994, faleceu aos 67 anos no Hospital Mount Sinai, em Nova York. Nesse dia, Antonio Carlos Brasileiro Jobim tornava-se então, nas palavras de Chico Buarque, o eterno “maestro soberano” de todos os brasileiros.

Foto: Ana Jobim.

Uau! Quanta informação preciosa!
Recentemente li "3 Antônios e um Jobim", livro que conta o encontro de Antônio Fouais, Antônio Callado, Antônio Cândido e Tom Jobim, na casa de um deles (acho que do Callado). Muito legal, é simplesmente a transcrição literal do encontro... acho que você iria gostar!

Das músicas... Acho que "Eu te Amo" com Chico Buarque é a que me toca mais.

Adalberto querido
Você é de uma generosidade ímpar na forma como passa e por isso mesmo eterniza seu conhecimento e re-conhecimento das coisas sabidas....já te disse isso uma vez, ams repito que és um professor, do tipo que nunca afugenta os alunos...
Tom é meu conhecido desde a meninice. Tive a sorte de ter pais amantes da boa música e um tio cantor e compositor e antes do meu primeiro amor, já sabia cantarolar Luiza de cor com grande entusiasmo e emoção......meu pai ama essa música...já mais mulher....concordei com a Bel e elegi Eu e amo como uma de minhas preferidas
Viva Tom para todo sempre!!!
abração
Carol Montone

Ando cada vez mais certa de que é um privilégio ter vivido estes tempos de Jobim!
Não preciso falar do seu texto - vc sabe que gosto demais - mas deixo registrada uma grande emoção que ele me causou.
Diferentemente de Bel e Carolzinha, não consigo ter preferências. Sou Tom, sou Chico. Sou MPB por inteiro!
Beijos, viu? Saudades de tu!

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