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BABEL


Outro Perfume

Finalmente, em 2006, O Perfume virou filme. Muitos diziam que não poderiam filmá-lo, que se tratava de obra infilmável. Por muito tempo também tive a mesma opinião. Não tenho mais. Ainda não assisti, mas pelo pouco que li e pelas imagens que vi de cenas do filme, acredito que o roteiro deu conta do projeto e fez uma merecida adaptação da obra. É difícil arriscar palpite antes de ter visto o filme, mas falo pela obra em si, não pela adaptação.
Grenouille, estimável e esquisito personagem de Patrick Süskind já é considerado um dos mais impressionantes personagens da literatura mundial. Seu nome completo: Jean-Baptiste Grenouille, órfão pobre, nascido no Mercado de Peixes de Paris em pleno Século XVIII, criado de casa em casa como uma espécie de bicho a quem se declara verdadeiro horror por sua inacreditável qualidade: é uma criatura que, mais literalmente impossível, nem fede nem cheira. Após sofrer as mais inacreditáveis humilhações, Grenouille descobre seu primoroso talento olfativo. Primeiro, ele não tem cheiro, não cheira, é um bicho sem cheiro nem catinga. Mas, por outro lado, é um senhor digno do maior selo de qualidade pelo melhor nariz do mundo.
Como dissemos, a principal preocupação dos diretores que se interessaram em adaptar a obra estava na dificuldade de se traduzir as sensações do personagem, especialmente aquelas referentes ao mais requintado dos seus sentidos, o olfato (entre tantos diretores, a imprensa tem feito referência a Tim Burton, Martin Scorsese e Milos Forman, além de Stanley Kubrick que chegou a fazer a afirmação de que o livro era realmente infilmável). Na verdade, o problema da adaptação da obra corre por aí, mas nem tanto. Não se trata de construir um outro O Perfume, ou sim? Há certo exagero em afirmar que não haveria como filmar o livro, e o filme do Tom Tykwer mostra bem o contrário das expectativas adversas. É outro? É o mesmo? É outro sim, mas é cinema, e como tal, há de se considerar que em caso de adaptações de obras literárias, pense-se o que a essa arte é possível e o que não é.
Segundo um crítico brasileiro, “O filme não deixa de ter seu encanto como relato de época. O problema de Tykwer é passar para o espectador algo de que o cinema em tese não é capaz - o odor. Mas para isso existem os recursos visuais, e o resto que fique por conta da imaginação do público “ (Luiz Zanin Oricchio, em O Estadão). Disse bem o crítico, o cinema “em tese” não é capaz de transmitir os cheiros que o personagem sente ao longo da história e que são a razão de sua existência e do seu drama. O livro, sim, nesse ponto é extraordinário, pois de modo poético explora a ambigüidade entre um grandioso talentoso de perfumista num homem completamente sem odor. Essa ambigüidade é na verdade o leitmotiv do texto.
O diretor de O Perfume, A história de Um Assassino – no original alemão, Das Perfum-Die Geschichte eines Mörders - disse em entrevista a um jornal europeu que o filme “não é uma história sobre um estranho mundo de fantasia com um homem louco que por acaso tem um olfato apurado”. Trata-se mais do que isso: é a “história de um homem terrivelmente só, tema clássico na literatura e na dramaturgia", com o que concordamos. Talvez por isso o diretor tenha tocado no aspecto universalista da narrativa, e em diversas outras ocasiões haja se referido à discutida incapacidade do cinema de conseguir dar cor aos cheiros. Me parece que, no caso de O Perfume, isso não preocupa: o filme pôde construir o personagem e seu drama humano, e isso basta à audiência. Grenouille não é outra coisa senão um personagem humanamente universal (e, sem trocadilhos, em todos os sentidos).
O esquisito personagem sem cheiro atinge-nos por sua destinação de homem comum e infeliz, solitário e incapaz de reações de afeto ou carinho pelas pessoas. Persegue-o o desejo de ser possuído pela emoção de sentir o mundo através dos cheiros, de todos os cheiros, e para isso ele não poupa o inescrupuloso dos atos e o sadismo, tornando-se o Mörders do título, um assassino cruel e insensível. Grenouille não cheira, mas sente a tudo com uma capacidade que o faz querer ser algo que nem ele sabe ao certo o que é – pensa que é pouco desejar que sua alma pudesse conter todos os cheiros, os que existissem e os que ele pudesse criar. Tragicamente desprovido de odor, o personagem tem no aguçado sentido o caminho para as suas aspirações, para o autoconhecimento e, no fim, para a própria destruição.
Tratando ainda a problemática da adaptação dos cheiros, lembro uma passagem do livro que mostra que em O Perfume mais difícil que “dar cor” aos cheiros é transmitir as sensações interiores do personagem, coisa que pela literatura se consegue mediante uma composição que assim aprofunde em detalhes a interioridade dos personagens. Por exemplo, uma passagem como a que segue me parece infilmável, e vá lá que o cinema não tem como construir a fantasia do personagem, não pode nos dar a sentir, enquanto espectadores, a sensação interna vivida pelo personagem, mas abra a cabeça e a sensação de Grenouille passa a ser sentida por inteiro, dependendo do resultado da atuação entre direção e atores:
“Agora estava bêbado de aromas. Os membros jaziam cada vez mais pesados nos travesseiros. O espírito ficava maravilhosamente enevoado. E mesmo assim não estava no fim a orgia. É verdade que os seus olhos não poderiam mais ler, o livro há muito já lhe resvalara da mão – mas ele não queria encerrar a noite sem ter esvaziado a última garrafa, a mais maravilhosa: o cheiro da jovem da Rue des Marais...”
No filme do Tom Tykwer, Jean-Baptiste Grenouille é interpretado pelo ator Ben Whishaw e o espetacular Dustin Hoffman faz Giuseppe Baldini, o prático perfumista de quem Grenouille vai se tornar aprendiz e depois mestre. A esperar do talento do experiente Hoffman, devemos ter aí um grande momento.

Imagens: cenas de O Perfume – 1) Ben Whishaw, como Jean-Baptiste Grenouille e 2) Ben atuando com Dustin Hoffman (Divulgação)

Adaberto

Também estou ansiosa para ver esse filme que deve entre muitas outras coisas estampar a sutileza entre algumas diferenças entre um assasino qualquer e um obstinidado por um ideal....
A propósito, como atriz e apaixonada pela sétima arte, creio que ao cinema nada é impossível....quantas vezes afinal sentimos o cheiro de cada suspiro de personagens inesquecíveis? Belo texto como sempre. Ando sem tempo e competência para rechear nosso miolo com textos que indiquem caminhos objetivos,feito os seus, daí apenas a anarquia da pretensa prosa poética pode me salvar por hora ....
Um grande abraço
Carol Montone

Não sei se é tamanha minha ignorância. Mas nunca ouvi falar qualquer coisa deste Perfume antes que se ouvisse falar sobre o possivel lançamento de um filme. Nisso, ouvi dizer que a história é mto boa.
Esperamos.

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