« Home | OLHOS FECHADOS » | BABEL » | REBENTO » | BABEL » | A BESTA DA TARDE » | O MARTELO E A BIGORNA » | BABEL » | Darklands - Por Pablo Capistrano » | Poemando » | BABEL »

BABEL


Saramago cronista

Em 2007 irão fazer 70 anos da publicação do primeiro romance do escritor português Jose Saramago. “Terra do pecado” foi lançado em 1947 e, ao que consta, é dos romances do autor o menos lido e conhecido do grande público. Motivos? Nada que não seja o desinteresse das grandes editoras para os livros ditos “imaturos” dos escritores, que só vem à tona depois de reunidos em obras completas. No caso de Saramago as editoras estão e sempre estiveram atentas aos seus grandes romances, especialmente os que foram publicados após a explosão editorial de “Levantado do chão” (1980), romance que consagrou o escritor internacionalmente. A partir daí, o mundo tem olhado o Saramago como uma espécie de renovador da prosa de língua portuguesa, principalmente devido ao seu jeito especial de contar histórias.
Quem já leu Saramago sabe do que estou falando. Sua prosa a partir de “Levantado do chão” ganha um ritmo novo, distanciado da norma tradicional da escrita e isso dá certo ao texto certo dinamismo e fluidez narrativa; o texto passa a estar intimamente ligado à expressão oral da linguagem, aproximando por vezes o registro escrito e a fala costumeira.
Mas além de romancista consagrado, autor de, entre outros, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “Todos os nomes”, “Ensaio sobre a cegueira”, “As intermitências da morte”, “Ensaio sobre a lucidez”, “A caverna”, ‘Memorial do convento”, Saramago experimentou gêneros ao longo de sua carreira de escritor. Escreveu teatro, conto, diário, memória (recentemente) e poesia. Como poeta publicou três livros e re-estreou na literatura, em 1966, com os “Poema
s Possíveis”, após o intervalo entre o primeiro romance (de 1947) e este livro de poemas.
Nunca li os livros de poemas do escritor, mas bastam alguns poemas que chegaram às mãos e de que, muitos, me impressionaram pela singela e trato poético de temas tão comuns como universais. É o caso desse poeminha de amor homenagem à musa eterna do romanceiro mundial, Dulcinea del Toboso, poema de título e conteúdo, como disse, de um singeleza extrema:

Dulcineia

Quem tu és não importa, nem conheces
O sonho em que nasceu a tua face:
Cristal vazio e mudo.
Do sangue de Quixote te alimentas,
Da alma que nele morre é que recebes
A força de seres tudo.

Além da lucidez e domínio em torno daqueles gêneros, Saramago é, ainda, mestre naquele que (gênero ou subgênero, não importa) é tido como um texto difícil na literatura, a crônica. A
verdade é que poucos conhecem o Saramago cronista. Mas há, e em razão da qualidade literária da obra, este não é diferente do romancista, tampouco do contista (também pouco lido), do teatrólogo ou do poeta.
Saramago foi jornalista durante muito tempo e, época de vacas magras, colaborou nos principais jornais de Portugal antes de se tornar um romancista conhecido. A travessia até o sucesso e o reconhecimento literário não foi fácil. Como dizemos em bom português, para chegar aonde chegou, Saramago teve que ralar. Antes de escrever profissionalmente, trabalhou como serralheiro mecânico, desenhista, foi funcionário da saúde e da previdência social, além de editor, tradutor, e finalmente jornalista. Foi na lide das redações de jornais, muito após a experiência dos livros de poesia e da retomada do romance, que o autor publicou suas crônicas. Ao todo são quatro os livros de crônicas publicados por ele: “Deste Mundo e do Outro”, 1971, “A Bagagem do Viajante”, 1973, “As Opiniões que o DL teve”, 1974, e “Os Apontamentos”, 1976.
A partir do ano da publicação desse último livro de crônicas, Saramago pode começar a viver de literatura. Inquestionavelmente hoje é um dos maiores escritores não só de língua portuguesa, mas de toda a parte Ocidental do planeta. São mais de 40 países que editam as obras dele.
No Brasil, a Companhia das Letras, que edita suas obras, tem em catálogo o livro de crônicas de 1973, “A bagagem do viajante”. Nele percebe-se que a prosa do Saramago cronista é, no dizer do resenhista da editora, tão boa quanto a do autor dos melhores romances da língua portuguesa. Aí Saramago faz as vezes do grande cronista literário: do mais simples acontecimentos ao mais importante fato, o registro é sempre o de quem escreve uma ode ao instante,ao fugaz e efêmero do tempo que, pelas palavras do escritor, tornam-se eternizadas em chave melódica da melhor prosa poética.
Elaborando cada texto mediante um requintado processo lingüístico, o escritor faz da crônica mais um veículo para o experimento do humor e da fina ironia que caracteriza a sua visão de mudo. Não é a mesma prosa de um, digamos, “Todos os nomes” (na minha opinião, o melhor romance dele), mas o trato com o material da realidade é o mesmo, pois ao fim “nada escapa ao olhar arguto do escritor”.
Para o Saramago cronista, a literatura continua a ser o caminho das pedras que levam às questões fundamentais do ser humano: questões sobre a vida e sobre a morte, questões como por que somos ou para que, como certa vez declarou. Afinal ele sabe que na literatura goza e sofre o artista, sofre e goza o homem e “às palavras há que arrancar-lhes a pele".

É assim o Nobel de Literatura José Saramago: cidadão do Ribatejo, cronista humilde que aprendeu intensamente “o duro ofício de viver” com ninguém mais que suas próprias criaturas, “esses homens e essas mulheres feitos de papel e tinta, essa gente que eu acreditava ir guiando de acordo com as minhas conveniências de narrador e obedecendo à minha vontade de autor, como títeres articulados cujas acções não pudessem ter mais efeito em mim que o peso suportado e a tensão dos fios com que os movia.”
Há coisa mais humilde que ver um artista em completamente entregue à sua própria obra?