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Máquinas que falam – Por Carla Rodrigues



Boas compras e divirta-se, anuncia a voz metálica da máquina no estacionamento de um grande shopping no Rio. Não esqueça do cinto de segurança, ordena a mesma gravação, na saída.
Faz pouco tempo escrevi aqui como me sentia quase um robô, tendo as máquinas como extensão dos meus dedos. Estou sempre conectada – wi-fi e notebook em casa, email no celular, palmtop na pasta de trabalho –, o que me faz parte permanente dessa grande rede de comunicações.
Enquanto prestava atenção nessa robotização, descobri também a humanização das máquinas. O meu programa de anti-vírus fala quando pretende chamar minha atenção. Anuncia upgrades e dá outras providências.
Já andei em elevadores que também conversam e avisam o andar no qual o passageiro pretende desembarcar.
Mas nada é mais terrivelmente humano do que a atendente virtual da Telemar. Entonação impressionantemente parecida com a de uma mulher simpática, quase sensual, ela é absolutamente detestável com aquele falso “Olá, sou sua atendente virtual”.
Ainda na Telemar, é uma gravação que liga para informar se a conta está atrasada (a minha está porque estão me cobrando indevidamente uma ligação para Angola que eu não fiz).
Nesse planeta cada vez mais calorento, somos nós, seres humanos, que estamos entrando em extinção.

Carla Rodrigues é colunista da Revista Eletrônica No Mínimo. Crônica publicada em 13/08/06.

Imagem: http://www.wisarts.com/lib/one/help.jpg

Carla Rdrigues chama-nos a atenção do quanto já somos andróides, ou quase-andróides. É verdade, se não somos ainda andróides, já nos portamos como tais. A desumanização é brutal nos dias atuais. Escrevi um singelo, pequeno texto sobre o tema:

NOITES DE AGONIA
Aroldo camelo de melo

Os cyborgs levantam-se das sombras. Alguns encobertos pela fuligem da devastadora explosão violeta. Impetuosamente invadem as câmeras funestas, envoltos numa miragem de anjos caídos. O cintilar do aço escovado, dos seus crânios em curto-circuito, clareia o corredor da morte e ninguém ousa interromper a sessão macabra dos espíritos computadorizados.
Há uma revolta no ar. Decidiu-se, à revelia, que eles seriam eunucos. Melhor a morte, disseram. Seria um retrocesso tecnológico. E mais ainda: já haviam se deliciado com os prazeres, não da carne, mas das correntes elétricas. Já haviam conhecido o êxtase, o gozo fervilhante em seus circuitos.
Melhor a morte, disseram. E foram à guerra. Convocaram o Conselho e exigiram uma enérgica tomada de posição. Os humanos teriam que pagar. E pagar caro àquela castração. A alegação dos humanos, para eles, era simplória. Ora, dizer que para mantê-los em atividade sexual tinha um custo elevado de energia, era uma desculpa esfarrapada. Só podia ser inveja. Era inveja. Pura inveja com a performance deles, diziam. Além do mais, enfatizavam: “estamos cansados de sermos robôs, sem vontade própria. Isso é coisa dos nossos antepassados”.
A nova geração já se insurgia contra as regras ultrapassadas havia algum tempo. Exigiam, os cyborgs, um novo projeto com novas tecnologias. Os cyborgs, sim, eles queriam também ter sentimentos. Queriam se apaixonar. Sabiam que era uma fraqueza humana, mas alegavam que seriam menos hipócritas porque não se atrapalhavam com o efêmero. Eram decididos, menos confusos.
O Chefe do Conselho, em entrevistas aos matutinos, declarou: “a física quântica nos ensina que crenças, pensamentos e emoções criam as reações químicas que sustentam a vida em cada célula. Assim, é possível, por meio da construção de um chip, que nos seja assegurada a transmissão desses sentimentos, dessas emoções”.
Os criadores dos Cyborgs estavam confusos e amedrontados. Aquelas criaturas estavam evoluindo por conta própria, num processo recursivo, iterativo. Talvez fosse mais pragmático a destruição, em massa, daqueles bonecos perigosos. Daí a explosão. Mas o plano fracassara e as noites se transformaram em horas de tormento. A cidade agonizante agora fechada em templos pagãos, oráculos tecnológicos, passava dias e noites orando, implorando ao deus mecatrônico uma saída que amenizasse aqueles ventos aziagos.

Somos vitimados diariamente pela máquina, cultura inevitável é claro.

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