26 agosto, 2006

Arte Incomum


"O atestado de óbito da esperança"


Esperando Godot, obra-prima do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989). A peça estreou em 1953 e se tornou um divisor de águas no teatro do século passado. Na história, dois vagabundos aguardam a vinda do sr. Godot, que nunca aparece. Enquanto aguardam, eles iniciam uma reflexão a respeito da vida. No centro de Godot, estão dois palhaços tristes, implicantes, insatisfeitos e solitários, que passam os dias a esperar a solução de seus problemas. Na trama, os vagabundos Estragon e Vladimir esperam em vão a chegada de um personagem enigmático, um certo Godot (símbolo do inalcançável).

Beckett foi capaz de mergulhar nas mazelas inerentes à condição humana, encontrando a solidão e o absurdo dessa condição. Baseando-se na chegada de Godot, as personagens mostram a constante busca pela felicidade para reverter sua condição de miséria. Atualidade social e metafísica e uma incrível comicidade tornam "Godot" um grande espetáculo popular. A obra de Beckett, mais do que representar a superfície inteligível da vida, o autor disseca a consciência humana e os sistemas pelas quais tentamos organizar nossas vidas.

"Godot...será que ele vem? Será que não? Talvez virá... amanhã!"

Nota: Samuel Beckett é considerado o pai do chamado "teatro do absurdo". Abordando o vazio da vida criou um humor: amargo, sombrio, levemente absurdo na sua disposição de ser irônico e zombeteiro. Em 1969, Beckett recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.

Imagem: Intervenção urbana Esperando Godot. Direção:Wolfgang Pannek, SP, 2000.

25 agosto, 2006

De alcunhas, apelidos, apodos e similares - por Claudio Costa



Existem apelidos cuja origem são óbvias: "Leo", de Leonardo; "Kiko", de Francisco; "Zé" de José; "Bolão" para quem é gordo, etc.
Mas outros epítetos, a gente nem imagina como nasceram.
O mais legal, pra mim, é assistir, ao vivo e a cores, o surgimento de um epônimo, não é? E o melhor de tudo, o que parece impossível, é ver o prosônimo brotar, saber o por quê de sua adoção e... esquecer-se o nome do portador do dito cujo! Aí, sim, o acessório se torna o principal!
Pois não é que eu tenho um caso assim, verídico de jurar de pé junto que é verdade?
Duvide quem quiser, dou este direito: afinal, é na dúvida que se avança na ciência, dizem os cientistas. Os magistrados decidem: in dubio, pro reo. Já o Descartes concluiu: Cogito, ergo sum - mudado para dubito, ergo sum por alguns filósofos metidos a psicanalistas.
Digressão minha, bem sei, mas as associações pululam mais rápidas que os dedos que batucam este teclado aqui. Olho pro texto que surge na minha frente antes que saiba bem o que estou a escrever. Será efeito da sexta-feira que se aproxima? Taquipsiquismo?
Bom, voltemos ao caso da alcunha que tomou conta do dono e, hoje, não me deixa recordar seu nome de batismo.
Aconteceu no meu tempo de colégio interno, lá nas alturas da Serra do Caraça.
Dormíamos em dormitórios coletivos, uns 80 em cada um, terceiro andar do antigo prédio que, hoje, é só ruínas e museu.
Parece que os padres imaginavam que a gente era anjo, pois só tinha uma - eu disse "uma" - casinha maior. Você não sabe o que é? Apenas designação eufêmica para privada, retrete, vaso sanitário, trono, latrina, só isso!
Casinha menor tinha umas 8 - eu disse "oito", pros 160 jovens que dormiam lá em cima! Você já deduziu o que é casinha menor, né? Para os menos rápidos nas deduções lógicas e ilações fáceis explico: mictório, mijadouro, lugar pra fazer xixi! Até pra essas coisas se arranjaram apodaduras, flagra?
Então, continuemos.
Certa noite, um de nossos colegas estava meio que de piriri - ah, não me peça pra explicar o que é isso, senão esse caso não anda!
Acontece que outros alunos sofriam do mesmo mal e a fila crescia em frente à casinha maior! Descer três andares, à noite, num frio danado, nem pensar! Como resolver o premência evacuatória? O cólon descendente abastecia a ampola retal que, repleta, pressionava o esfínter e... (pára, isso aqui não é aula de fisiologia do intestino grosso! conta logo o caso, sô!)
Tá bom...
A necessidade é a mãe de todas as invenções, disse alguém. Se não disse, digo eu. O que fez o nosso colega?
Voltou à sua cama e abriu a pasta onde guardava sua correspondência - naquela época ainda se escreviam cartas. À tarde, rabiscara uma longa missiva pra família dando notícias, pedindo dinheiro e doces, etc. Faltava apenas colocar o selo no envelope já sobrescrito.
Que fez?
Agachou, despiu a bunda o estrito necessário e depositou no envoltório pardo a produção intestinal prestes a escorrer-lhe pernas abaixo. Com as folhas da carta, fez uma precária higiene loca.Tudo feito com discrição - só não controlou o odor que fez os vizinhos sonolentos desmaiarem de vez.
A tarefa a seguir era: como se livrar daquela "encomenda"?
Lembrem-se de que estávamos no terceiro andar?
Eureka! Pé-ante-pé o dito colega encaminhou-se à janela mais próxima e lançou na escuridão da noite o envelope devidamente repleto.
Dormiu em paz!
Dia seguinte, cedinho, após o café-da-manhã, saímos do refeitório e fomos para o pátio interno do colégio. Era o momento das brincadeiras, correrias, algazarras, idas às "casinhas" antes de subir para os salões de estudo.
Fila indiana, demandamos o pátio.
Eis que, bem ali no chão, rente à porta, banhado pelo sol radiante da manhã, lá estava o envelope pardo, semi-aberto, expondo a "obra" lançada na véspera. Minha imaginação de hoje me força a dizer que as moscas se locupletavam e zumbiam felizes.
Risos, espanto, caras de nojo.
Alguns, narinas tapadas, aproximaram-se e conseguiram ler:
"Remetente: fulando de tal".
A notícia se espalhou. Foi fulano! Este, a princípio, negou. Mas a prova estava lá, legível, nome e sobrenome!
E nasceu o apodo!
Daí pra frente, fulano só era chamado de "Remetente". No começo, não atendia, mas depois... até os padres aderiram. Enfim, a capitulação: solidificou-se o cognome; não houve retorno e meu colega passou a se chamar "Remetente". Ele próprio se apresentava assim aos novatos.
O nome próprio se perdeu na poeira do tempo.
Até hoje.


Cláudio Costa é médico, Coord. Resid. Psiquiatria da Infância e Adolescência
FHEMIG-Belo Horizonte-MG

24 agosto, 2006

Ignorância e Poder – por Angela Merice Lemos Sales

Vejo muitas pessoas comentando sobre a ignorância do povo que, de acordo com as pesquisas, votaria em Lula, se a eleição fosse hoje. Penso que a resposta das pesquisas de opinião são respostas a uma questão maior, mais ampla. Na verdade, não se trata de escolher uma pessoa para "governar" o País. A nossa questão é a cegueira em relação ao fato de sermos todos um. Não ficamos reféns da ignorância. Somos parte dela, apenas o lado leitor, informado, da ignorância. Quando reafirmamos a nossa crença de que a escolha de um presidente, seja a escolha feita por "consciência", "informação", "seriedade", "ignorância", "indiferença", vai mudar o País, esta é apenas uma crença, sem respaldo nos fatos. A máquina do Poder, tal como está construída, está pronta para absorver qualquer um que pouse por lá. Os mecanismos desta máquina já estão programados para a corrupção.
Por outro lado, a educação está falida. Não é só um problema de corrupção, de falta de investimento em salários de professores ou em escolas. O currículo do ensino é completamente esquizofrênico. Seja nas escolas públicas ou nas particulares, há um acúmulo de conteúdos que se tem que aprender, engolir, para conseguir os diplomas certos e "progredir" na vida.
Será que aprender a extrair uma raiz quadrada aos onze anos nos torna pessoas melhores? E equações de segundo grau aos quatorze anos nos dá mais sabedoria? O ensino é uma massa de conteúdos descontextualizados, que são um desrespeito à inteligência de nossos filhos. Não se desenvolvem as capacidades de refletir, criar, intuir, construir o próprio pensamento. O importante é dar as respostas certas. Não se valoriza os potenciais criativos e imaginativos individuais, mas o quanto o sujeito se adapta ao esquema escolar.
Para a classe média, o importante é passar no vestibular. Depois, fazer especializações, mestrados, doutorados, saber tudo sobre um nada, super-especialistas de nada. Não aprendemos a ser humanos. Não aprendemos a ser solidários. Não valorizamos a verdade, a justiça, o amor, a criatividade, o respeito ao outro (seja ele quem for), a gentileza, o discernimento, a intuição, como bens humanos básicos a serem estimulados e desenvolvidos em casa e na escola. Isto não é importante. O importante é dar as respostas certas, ser treinado ou adestrado para o mercado de trabalho, seja em que nível for (lixeiro, torneiro mecânico, médico, juiz).
Não vejo mais sabedoria no diretor de uma instituição financeira, com mestrado em finanças, que no jornaleiro da minha rua. Qual dos dois vai votar melhor? Não importa, não é a questão. Que importa morar numa casa de quinhentos metros quadrados, sair à rua num carro blindado, sem olhar para os lados, sem saber o que sentem e pensam os outros seres humanos que estão nas ruas? Eles só têm valor como voto, que pode eleger um Lula ou um Alckmin.
E aí o círculo se fecha sobre si mesmo. A ignorância e insensibilidade de uns em relação ao estado de outros se junta à ignorância e insensibilidade de outros em relação ao que se passa nos altos círculos do poder. Um litro de leite a mais no fim do mês está muito mais próximo e é mais vital do que uma raiz quadrada. Eles estão certos. Não são loucos. A situação que vivemos tem uma lógica muito mais complexa (do ponto de vista do sistema) ou muito mais simples (do ponto de vista do povo "ignorante") do que imaginamos. Quem é o sujeito mais miserável: aquele que alimenta a família catando lixo ou aquele que, tendo feito uma carreira acadêmica completa, tendo todas as necessidades básicas e secundárias satisfeitas, rouba, enche cofres de dinheiro no exterior? Quem é mais humano? Quem é mais louco? Quem é mais "pé-no-chão"? O que foi ensinado ao catador, e o que foi ensinado ao Doutor? O que aprenderam? Quem é mais "humano"?
Só consigo pensar numa saída para estas situações numa mudança em cada indivíduo. Sensibilidade, se importar com quem está em volta. Família, vizinhos, o faxineiro do prédio, o menino que vive na esquina, olhar em volta e lidar com gentileza com um mar de seres humanos que nem vemos, que não olhamos nos olhos, a quem nunca damos um sorriso. Agradecer ao menino, com um sorriso e umas moedas pelo serviço prestado de limpar o vidro do carro no sinal. Você vai dizer que está errado, que este menino não deveria estar ali, que não quer estimular este tipo de situação, já sei. O problema é que, na REALIDADE, ele está ali, e com fome. E precisa ser tratado como ser humano, precisa ser olhado como ser humano JÁ, não quando acabar a corrupção, não quando todos forem alfabetizados.
Se olharmos as pessoas teoricamente, alimentamos a esquizofrenia da nossa sociedade, levando uma vida virtual, entre os que passam necessidades reais e os que roubam de verdade. Proponho uma revolução pelo olhar, pela sensibilidade, pela gentileza, pelo sorriso, pela boa vontade, silenciosa, nas vizinhanças, sem preocupação de levantar bandeiras, passeatas. Proponho uma revolução silenciosa só com quem cruzar o nosso caminho, no cotidiano. Um olhar sorridente e gentil tem um poder de transformação e contágio tão grande que até dá para entender porque não está nos currículos escolares. Como seria possível controlar e dizer o que deveria pensar um Ser Humano com todas as suas capacidades desenvolvidas? Proponho que nos aceitemos mais, que nos amemos mais, que sejamos mais humanos JÁ!

Angela Merice é professora, formada em Comunicação Social pela UFRJ e em Consultoria Educacional pela UNIFAZ-BA, morando atualmente em Salvador/BA.

Imagem: Foto de Bart - http://www.olhares.com/

23 agosto, 2006

Babel


Paulo Coelho é assim


O escritor brasileiro mais lido atualmente no mundo é, sem dúvida, o Paulo Coelho. Não por causa da morte de Jorge Amado, que durante décadas se tornou o brasileiro mais lido por número de livros vendidos no mundo, mas porque parece que desde a aparição do autor de O alquimista a literatura brasileira no exterior só tem um nome, o de Paulo Coelho. Podem pensar que é exagero a afirmação, mas não faltam motivos.
Coelho é tido como um grande autor, um grande romancista, e parece que o leitor brasileiro finalmente o aceitou com tal, principalmente após o escritor ter se tornado um imortal da ABL. Se esse feito é critério certo para dizer do poder de destaque de um autor entre as letras, não há dúvidas que Coelho é agora um dos grandes da literatura.
Mas nem toda a crítica concorda com o fato de se receber os louros da Academia. E nem toda crítica é a favor do Paulo Coelho, embora os críticos nunca o leiam, para falar a verdade. Os que leram, mentiram a verdade sobre o autor. Pelo menos só conheço uma crítica sincera sobre o mago dos livros até então, a do Décio Pignatari, que perguntado sobre se tinha gostado da obra de Coelho, respondeu: Não li e não gostei.
Quem o lê mesmo são os leitores brasileiros e mundiais, de todas as classes, ao que parece, salvando-se apenas um ou outro intelectual que o lê para lhe atirar pedras. Há críticas sobre os livros do autor em várias revistas e jornais brasileiros desde a época de sua estréia, e lá a ladainha é a de sempre: é autor medíocre, pobre coitado que não chega aos pés de um Guimarães Rosa.
Coelho faz uma literatura que é menos literatura que a de Rosa, sim, no sentido de que carece de maior elaboração, de riqueza vocabular, de domínio estético, de composição e conteúdo humano mais vibrante. Mas para quem lê Coelho, basta saber as suas histórias que, na verdade, prendem o leitor de um lado ao outro do livro.
O maior mérito de Paulo Coelho é que se trata de um excelente contador de histórias. Há a frase de um personagem seu em O Demônio e a Senhorita Prym (livro que reli, sem nenhum interesse, apenas por estar amarrado à narrativa) que diz há certa altura sobre a protagonista: “Essa menina sabe contar uma história”. Frase que se aplica perfeitamente ao escritor.
Se por um lado os livros de Paulo Coelho não têm o apuro semântico da melhor literatura brasileira, por outro é uma obra que tem cativado muita gente e tem introduzido pessoas, os jovens, principalmente, no fascinante mundo do romance. Concluo que Paulo Coelho é assim: o iniciador dos leitores jovens. Conheço casos de jovens que não liam nada até conhecer Paulo Coelho e que, após ler um único livro seu, foram a outros e mais outros, descobrindo autores e novos valores literários. Na escola sempre me perguntam pelo autor. E se me pedem livros dele, nao me envergonho de dizer que já li os seus livros e ainda dou a dica do que que ler sobre ele.
Na verdade, não importa se um autor tem ou não dívida com a tradição, se a tradição arremata-lhe os excessos e as faltas. Importa que esse autor tem contribuído com a literatura de seu país, com a difusão de sua língua através do mundo e que principalmente tem formado leitores, tem instigado pessoas a sair da passividade e participar mais dos debates naturais da cultura de seu povo.
Esses dias o escritor Carlos Romero falou sobre o fenômeno Paulo Coelho em sua coluna sobre livros num jornal paraibano. Realmente o escritor é o cara, como diria um jovem leitor do autor de Maktub. Romero escreve que em recente visita ao exterior, encontrou em várias cidades duas coisas: celular no ouvido e livros do Paulo Coelho. Ele disse que as obras do autor são tantas e em tão variadas traduções, que é de cair o queixo: holandês, inglês, francês, alemão, espanhol, russo, e até grego! O poeta Francisco Dantas também lembra que na França, aliás, na maioria dos países europeus, em todo lugar que se olha, livrarias, farmácias, botecos, etc, os livros do Paulo Coelho crescem aos bocados. Às vezes a vista cega de tanto livro do autor brasileiro. “Por certo, um cara como esse deve ter algum valor”, diz Dantas. E tem, com certeza. Acredito que o valor do Paulo Coelho é este: um artista que enquanto escritor escreve diretamente para um leitor. Um leitor que ele parece conhecer mais que a maioria de nós, os que escrevemos. Muitos escrevem bem melhor que o Coelho, mas suas mensagens não chegam à maioria. Por que? Talvez porque a maioria deve ler autores como Paulo Coelho, iniciadores, bons iniciadores, primeiro, em seguida lerá Guimarães Rosa, Machado de Assis, Dostoievski, Flaubert...

Foto: http://www.paulocoelho.com.br/

22 agosto, 2006

Palimpnóia

Photobucket - Video and Image Hosting

A pergunta que não respondi


Sempre ressuscito na segunda-feira. Porque a noite de domingo invariavelmente me mata um pouco. Esta segunda me acordou com uma dúvida cruel: corto ou não corto os cabelos? Gosto dos cabelos da Fafi Siqueira e eles combinariam com meus óculos quase vermelhos. Mas gosto também das madeixas rebeldes e encaracoladas que me dão ares remotos da década de 70. E que combinam com quaisquer óculos!
Uma vozinha interior, aquela chata de sempre, me lembrou que as horas passam por mim. Deixei a difícil decisão para depois e me sentei para o café da manhã. Automaticamente uma mão pegou o leite e a outra os jornais. Ler jornais antes de começar o dia é um masoquismo que conservo há anos. E para variar, caíram sobre mim todas as notícias que eu até posso precisar saber, mas bem que poderia ser depois do almoço.
Imediatamente a postura mudou. Política, guerra, crimes – me lembrei desta coluna. Segunda é o dia de escrever algo que preste. E a pergunta da Ray bailou frente aos meus olhos: este mundo tem jeito? Fiz a pergunta em voz alta e recebi um olhar de espanto do marido. Gostei e resolvi repeti-la. Agora, diretamente para ele. Quem sabe uma discussão à mesa do café não me inspiraria?
Com olhar de quem-está-perdendo-a-hora ele se levantou: não venho almoçar, tenho outra reunião. Um beijo e lá se foi ignorando completamente minha necessidade de inspiração. Mas levo a sério o que me proponho e passei a pensar em como escrever sobre o jeito do mundo. Lembrei-me que há alguns anos a ONU fez um pacto com vários países, inclusive o Brasil, para que todos se comprometessem com a promoção da cidadania. Mas o que aconteceu de lá para cá? Pergunta boba, me respondi. O que existe é um expressivo retrocesso na qualidade de vida, sobretudo nos países em desenvolvimento, e uma brutal soberania dos fabricantes de guerra.
Parei por aí e fui me vestir. Mas o tema é instigante demais para ser posto de lado assim, assim. Enquanto me vestia, daquele jeito confuso de escolher várias roupas, fatos e fotos viraram um filminho na minha cabeça. E o que sempre sobressai quando penso nas dores do mundo são as crianças. Crianças morrendo na guerra, crianças morrendo de fome na África e as nossas crianças comendo lixo, cheirando tíner, já na universidade do crime. As crianças, estas que são o nosso futuro.
Mas nesta linha de raciocínio seria quase impossível descobrir um jeito para o mundo. Dei no cérebro um giro de 180 graus e concluí que mais interessante seria escrever sobre esperança. Não é fácil ter esperanças, mas é necessário. Eu, especialmente, não consigo viver sem acreditar que amanhã ou depois as coisas podem mudar. E a chata da vozinha voltou a me lembrar: esperança sem ação, morre na contramão! Não se espante, leitor. Esta rima é ridícula, mas inventei esta frase para usar comigo mesma, com meus filhos e meus alunos. É que realmente acredito nisso. Para mim, esperança necessita de investimento pessoal. É preciso engajamento, idealismo, é preciso abraçar uma causa e lutar por ela. Mudanças não acontecem por acaso ou por milagre. E fiquei por aí, porque havia uma entrevista de emprego me esperando.
A manhã passou, fiz tudo que precisava e estou aqui neste palavrear maluco. Não consigo escrever sobre nada especial e nem sei responder à pergunta da Ray. Mas sei acreditar nesta imagem aí de cima que peguei da Valéria. E sei também que preciso ir ao cabeleireiro para tratar da minha auto-estima. Afinal, preciso dela para dar consistência à vidinha das minhas poucas, mas queridas, crianças. Estas que me fazem acreditar que estou contribuindo para que o mundo tenha jeito.

Imagem sem autoria trabalhada por Valéria C - http://pensar_e_um_ato.blig.ig.com.br/ .

21 agosto, 2006

O Rio da Minha Aldeia - por Pablo Capistrano


Sempre fui fanático por mapas. Uma das imagens mais recorrentes da minha primeira infância são os mapas de um imenso Atlas branco que minha mãe ganhou após ter comprado todos os fascículos da Enciclopédia Barsa. Talvez por ter nascido numa cidade litorânea sempre desconfiei do horizonte. Sempre desconfiei que, depois do horizonte, não poderia haver um abismo, um buraco, uma linha divisória onde se lê uma placa com os dizeres: “aqui acaba o mundo”.Então eu passava um bom tempo da minha vida de criança olhando os mapas de lugares estranhos e distantes. Foi assim que eu aprendi o nome de quase todas as capitais, os nomes dos desertos, dos oceanos e das cadeias de montanhas. Lembro que tinha medo da Ásia. Não sei porque, mas eu tinha medo da Ásia. Ela era muito grande, muito estranha e muito distante. A África também me assustava, mas, talvez devido algum impulso genético também me deixava fascinado. Especialmente a costa oriental. Sempre que eu olhava o mar meu pai dizia: “Do outro lado é a África”. Por causa do meu bisavô escravo (Antônio Fernandes de Macedo, negro alforriado pela lei da princesinha brasileira) sabia que a África guardava algo meu, assim como sabia também que algo meu estava em Portugal.
Foi olhando o mapa de Portugal que eu vi o nome daquele rio.
Não sei qual é seu sobrenome, amigo leitor, mas deve ser estranho para você também ter no seu nome, o nome de um rio. O meu rio é o rio Paiva. Afluente do rio Douro, nos limites entre a região das Beiras e a região Norte de Portugal. Tem gente que tem nome de árvore, outros de bicho, eu, tinha o nome de um rio. Mas esse deveria ser um rio muito pequeno porque ninguém no Brasil sabia que ele existia. Conheciam o Tejo, alguns conheciam o Douro, mas o Paiva... nem minha avó que me respondia: “nossa família veio de Portugal”; de onde? “não sei... só sei que é de Portugal”; quando? “Não sei... só sei que faz tempo”.
Na verdade a região de Paiva parece ser uma importante região desconhecida de Portugal. Isso porque ela não aparece no meu guia de viagens publicado pela Folha de São Paulo e porque ninguém que eu tenha perguntado em Lisboa sabia onde ela ficava. Se a Folha não sabia que a região de Paiva existia e ninguém em Lisboa também sabia, é porque, talvez, de um modo ou de outro, ela não existisse mesmo.Na Internet, num site de famílias portuguesas o rio de Paiva não é citado. Sobre a família e o brasão eles dizem apenas: “o seu nome é de raízes toponímicas, pois deriva do nome da terra de Paiva”. O nome da família parece ter surgido como apelido com um tal João Soares de Paiva. Um trovador que viveu entre 1275 e 1325. Nascido setecentos anos antes de mim, João Soares de Paiva parece ser o primeiro Paiva registrado na história. Nesses setecentos anos, o nome desse rio atravessou o mar e foi parar na Serra do Martins, no oeste de um estado minúsculo do nordeste do Brasil. Como isso pode ter acontecido é um mistério dos mais densos. Mas o fato de não se saber muito sobre a existência desse rio não implica que, de um modo ou de outro, essa não seja uma região importante.
Afirma a Internet (essa grande matrix cheia de porcarias geniais) que a região de Paiva teria refugiado as primeiras tribos celtas que habitavam Portugal antes mesmo da invasão romana. Esses celtas adoradores da virgem teriam ido parar lá depois da invasão moura, e teriam formado um núcleo de resistência cristã, contra a influência semítica. Paiva seria então uma região de fronteira. Um limite que separava os mundos.
Comprei um mapa mais detalhado e teci um plano de viagem até um lugar chamado Castelo de Paiva. Atravessaríamos o Porto e pegaríamos uma estrada pela margem norte do rio Douro. Uma hora de viagem ou um pouco mais e chegaríamos no castelo. Ele fica bem na confluência do Douro com o Paiva. Lá eu encontraria meu rio, meu castelo e um bocado de parentes que me receberiam com festa e poderiam me responder a estranha questão: “como eu fui parar em Natal?”. (Continua na próxima semana)

20 agosto, 2006

Jovem Guarda

Hein!?...

A Jovem Guarda surgiu com músicas que falavam de beijos, amor, sexo e com tudo numa linha de rebeldia contra os costumes da época. Esse fenômeno que conquistou o Brasil na década de 60 é um bom exemplo de como os artistas se utilizavam da cultura norte-americana para construir nossa música e os movimentos do país. Os grandes hits de sucesso de muitas bandas e músicos da época eram não menos que covers traduzidos de músicas estrangeiras, claro que com novos arranjos e aquela pitada de rebeldia. Cantores como Wanderléia, Silvinha, Eduardo Araújo, Renato e Seus Blue Caps, Jerry Adriane, The Fevers, Golden Boys, Ronnie Von e muitos outros, tornaram-se famosos por causa dos covers. É claro que, todos eles também tinham suas próprias canções, e que ganharam reconhecimento do público mais tarde, mas sem dúvida, para aparecer nas paradas tinha que ter os covers de sucesso.

Dois dos maiores compositores dessa época eram Roberto Carlos e Erasmo Carlos, cujas músicas foram cantadas por quase toda a turma da Jovem Guarda. Na verdade existia um grande rodízio de composições feitas e cantadas por todos, como se a Jovem Guarda fosse uma grande família. A divulgação dessa grande turma de roqueiros brasileiros era feita através de um programa televisivo e de muito sucesso transmitido pela TV Record nas tardes de domingo, também chamado de Jovem Guarda, de onde saiu a denominação do movimento.

A imprensa noticiou assim: “Vai ao ar o primeiro programa Jovem Guarda. – Roberto Carlos arrumava seu microfone, e seus dedos exibiam anéis de ouro e jade. Após uma dose de San Raphael, diz algumas gírias em voz baixa, curva o tronco até a altura dos joelhos. O medalhão salta da camisa. Ele estica o braço, entra no palco e anuncia. – O meu amigo, Erasmo Carlos!”. Então se tinha início o maior show da música brasileira e juvenil da história do Brasil. Assim foi comandada a estréia da Jovem Guarda, sob o carisma de Roberto Carlos, todos os domingos das 16:30 até às 17:30hs, o público lotava o teatro, aplaudiam cantando e berrando freneticamente por seus ídolos. Participaram do programa de estréia; Tony Campello, Wanderléia, Rosemary, Ronnie Cord, The Jet Blacks, Erasmo Carlos, e Prini Lorez.

19 agosto, 2006

Um Enigmático Sorriso


A Monalisa e seu enigmático sorriso foram inspirados em um modelo vivo, Lisa Gherardini, esposa de um rico mercador florentino, Francesco Del Giocondo, dezenove anos mais velho. Francesco encomendou um retrato da mulher para pendurá-lo na sala de jantar. Lisa começou a posar em 1503. Leonardo da Vinci (1452-1519) levou quarto anos fazendo o trabalho e jamais chegou a concluí-lo como desejava. É que Francesco ficou impaciente com a demora, proibiu sua mulher de continuar posando e não pagou pela obra. O rei francês Francisco I comprou o quadro para decorar o seu banheiro. Alguns estudiosos dizem que Monalisa poderia ser Constanza d'Avalos, amante de Giuliano de Médici. Monalisa é provavelmente o retrato mais famoso na história da arte, senão, o quadro mais famoso de todo o mundo. Poucos outros trabalhos de arte são tão controversos, questionados, valiosos, elogiados, comemorados ou reproduzidos. Lillian Schwartz, cientista dos Laboratórios Bell, sugere que a Mona Lisa é na verdade um auto-retrato de Leonardo, porém, vestido de mulher. Esta teoria baseia-se no estudo da análise digital das características faciais do rosto de Leonardo e os traços do modelo. Monalisa não tinha sobrancelhas já que a moda da época (Renascença) era raspá-las. Um algoritmo de computador desenvolvido na Holanda pela Universidade de Amsterdã, em colaboração com a Universidade de Illinois nos Estados Unidos, descreveu o sorriso de Mona Lisa como uma mulher: 83% feliz, 9% enjoada, 6% atemorizada e 2% incomodada. Mas, a harmonia total conseguida no quadro, visível especialmente no sorriso, reflete a unidade entre Natureza e Humanidade que era parte importante da filosofia pessoal de Leonardo.

17 agosto, 2006

Máquinas que falam – Por Carla Rodrigues



Boas compras e divirta-se, anuncia a voz metálica da máquina no estacionamento de um grande shopping no Rio. Não esqueça do cinto de segurança, ordena a mesma gravação, na saída.
Faz pouco tempo escrevi aqui como me sentia quase um robô, tendo as máquinas como extensão dos meus dedos. Estou sempre conectada – wi-fi e notebook em casa, email no celular, palmtop na pasta de trabalho –, o que me faz parte permanente dessa grande rede de comunicações.
Enquanto prestava atenção nessa robotização, descobri também a humanização das máquinas. O meu programa de anti-vírus fala quando pretende chamar minha atenção. Anuncia upgrades e dá outras providências.
Já andei em elevadores que também conversam e avisam o andar no qual o passageiro pretende desembarcar.
Mas nada é mais terrivelmente humano do que a atendente virtual da Telemar. Entonação impressionantemente parecida com a de uma mulher simpática, quase sensual, ela é absolutamente detestável com aquele falso “Olá, sou sua atendente virtual”.
Ainda na Telemar, é uma gravação que liga para informar se a conta está atrasada (a minha está porque estão me cobrando indevidamente uma ligação para Angola que eu não fiz).
Nesse planeta cada vez mais calorento, somos nós, seres humanos, que estamos entrando em extinção.

Carla Rodrigues é colunista da Revista Eletrônica No Mínimo. Crônica publicada em 13/08/06.

Imagem: http://www.wisarts.com/lib/one/help.jpg

14 agosto, 2006

Saudades do amor - por Pablo Capistrano

Sempre desconfiei de Romeu. Acho que ele nunca amou Julieta de verdade. Romeu amava a morte, porque tem um certo tipo de amor, um certo tipo de paixão que é para a morte. Aliás, poucas vezes no ocidente a morte ganhou contornos tão nítidos como nas peças de Shakespeare. Poucas vezes a profundidade psicológica da morte foi estetizada de um modo tão convincente. Mas o amor que é para a morte (como o de Romeu) também é um resto, uma sobra moderna de uma experiência religiosa. Da pulsão de adoração de uma grande deusa perdida, oculta pelos véus do monoteísmo judaico e retirada do seu casulo inconsciente quando Freud tentou dar sua versão shakespereana de Édipo.
Mas nós empobrecemos o amor. Reduzimos sua abrangência criando uma super palavra (amor, love, Liebe). Super palavras são assim. Elas misturam coisas diferentes e confundem mais do que esclarecem. Os gregos tinham várias palavras para o amor e por trás de cada palavra eles apontavam para um amor diferente. Havia o amor doença (pathos) que matou Romeu e Werther; o amor divino (ágape) que cegou Paulo de Tarso; o amor pulsão de vida (Eros) que fez você que me lê, nascer; o amor afinidade (philos) que unia amigos em torno de um bom vinho nos simpósios filosóficos da antiguidade. Uma super palavra como “amor” confunde tanto quanto causa dor, mistura o que deveria estar separado e separa, muitas vezes, o que deveria estar unido. Sem saber qual o amor que se ama, sem sentir o amor que se quer sentir, muita gente oscila numa linha que separa a solidão e o êxtase. Filhos perdidos de um mundo arruinado por imagens intangíveis, os órfãos do amor caminham pela terra. Tecendo suas tapeçarias particulares de desejos, morrendo e renascendo a cada dia. Olhando toda manhã em busca da porta que possa nos levar de volta para casa.
Rigorosamente planejado para afogar os sonhos humanos, o mundo tem ritmos estranhíssimos. Nos arrebata e nos lança de volta à planície dos desejos. Nos oferece as chaves e, às vezes, por pura falta de sentido, muda a fechadura.
A glória de Romeu foi ter encontrado uma Julieta que topasse morrer com ele, porque o amor que ele amava não era um amor para a vida. Se suas famílias tivessem chegado a um acordo moderno de vontades, se tivessem aceitado a visão contratual do casamento nesse mundo de mercado liberal; se tivessem ajeitado as arestas de seus embates comerciais e resolvido a disputa que separava seus filhos, ainda sim, haveria uma tragédia. Romeu morreria de saudades do amor. Seria possuído por um fogo furioso e ressentido e terminaria numa vara de família, discutindo com Julieta a percentagem da pensão que deveria pagar para cada um dos filhos.
O mundo está cheio de Romeus. Cultores da fé da velha deusa. Devotos da religião do amor que é doença, euforia e arrebatamento. Às vezes eles se tornam grandes poetas, às vezes homens secos de olhos foscos. De vez em quando eles se transformam junto com o amor, mas, às vezes eles também afundam com o seu peso. Porque Ginsberg já mostrou quase tão bem quanto Shakespeare que o peso do mundo é o amor. “Nenhum descanso sem amor/ nenhum sono sem sonhos de amor/ quer esteja eu louco ou frio/ obcecado por anjos ou por máquinas/ o último desejo é o amor”.


Pablo Capistrano é escritor e professor de filosofia. Capistrano assinará a partir de hoje no Miolo de Pote a coluna da segunda-feira.

Imagem: Amor e Psyche

13 agosto, 2006

Hein!?

Música eletrônica...?

Música Eletrônica?

Sobre o significado do termo ‘techno’ existem várias teorias, umas verdadeiras, outras não. É verdade que esse nome foi usado em épocas diferentes para dar nome a gêneros novos da música. Os criadores do ‘tal’ termo foram os integrantes do grupo ‘Wraftwerk’, que no começo dos anos 70 criaram a música sintética. A princípio o nome ‘techno’ servia apenas para apresentar músicas construídas com efeitos sonoros, ruídos e de computação. Por alguns anos ficara vista assim pelos grandes estúdios de gravação até a evolução da tecnologia nos anos posteriores. Hoje o certo é dizer que a música ‘techno’ é também ‘eletrônica’ e que não mais usam somente os efeitos e ruídos da computação, mas sim aproveitam toda a sua multiplicidade dentro da cena.

Nos anos 80 existiram inúmeros movimentos musicais em toda a Europa, e o mais famoso era o ‘Techno Club Frankfurt’, fundado em 1984, e que a mais de 13 anos foi o templo culto da dança e do movimento ‘Techno’. Teve também o ‘Acid House’ que era a moda de 1988 nos EUA e um ano mais tarde na Inglaterra, onde surgiram as ‘Raves’. Em 1990 veio a fusão, conhecida como a “Revolução Techno” até hoje, um mix trazido pela globalização que unia as influências americanas do ‘House Gruve’ e o ‘Techno Europeu’ que se misturavam num novo estilo chamado hoje de “Tchno House’. E é esse estilo que até o momento vem proliferando diversos segmentos no meio eletrônico, misturando batidas de todos os lugares do mundo, cada um com seu estilo próprio ganhando as pistas e bebendo muito das raízes musicais de cada cultura. É a música na era tecnológica.

11 agosto, 2006

Pai, por que não sê-lo?


Se eu morresse hoje poderia dizer, sem hesitação, que acabei sendo um sujeito que não cumpriu efetivamente o seu papel aqui no mundo dos homens, a saber: plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Se de fato esta é a missão a que nos cabe, diria então que deixei um legado de incompletude à humanidade. Porém, como a vida é um processo e as realizações são sempre um porvir necessário, a publicação de um livro continua sendo uma proposta em maturação.
Nas minhas leituras de infância o poeta Vinícius de Moraes sempre teve assegurado um lugar de destaque, ao lado de alguns cronistas que através de suas penas reproduziam o cotidiano brasileiro e trabalhavam em função da consolidação do nosso pensamento social. Mas o poeta da paixão era quem dividia comigo o desagradável odor de mijo expelido pela fianga que dormia, companheiro inseparável das antigas noites iluminadas por uma luz incandescente de apenas 20 watts.
Fã incondicional de um Vinicius escritor, mas acima de tudo de um Vinícius boêmio, cheio de namoradas e de um paladar etílico incomparável, tinha algo na minha cabeça que não conseguia resolver com facilidade. Como é que uma pessoa que aparentemente não via a menor graça em criança tinha a proeza de afirmar sua paternidade ao colocar cinco dessas criaturas no mundo? Que o diga o poema enjoadinho, escrito pelo autor.
O filho na visão de Vinícius aparece como um mal necessário, um incômodo prazeroso e desejável. Desde então passei a alimentar a idéia de tê-los em quantidade: um, dois, três, quatro, uma dúzia. Mas na ocasião apenas plantava árvores e sonhava com livros. Eis Monteiro Lobato para nos falar que uma nação se constrói com homens e com livros.
Hoje, depois de tantas árvores plantadas e de um rebento de quase três anos, começo a compartilhar com Max Nunes a tese de que filho único é uma coisa tão chata, mas tão chata que ninguém no mundo consegue ter dois. Por isso multiplicai-vos e nos deixemos perceber “que coisa louca, que coisa linda que os filhos são”.


Texto dedicado a Caio Pinheiro Guedes, responsável pela minha paternidade.

Imagem: www.meutesouro.blogs.sapo.pt

10 agosto, 2006

Vantagens Literárias - por Dora Vilela


Às vezes, fico pensando como é difícil para um escritor de país subdesenvolvido e sem longo passado encontrar coragem para escrever sobre sua terra. Digo escrever de uma forma literária e artística. Ou então querer competir com escritores de países tão antigos como os da Europa, com aquele acervo cultural por trás dos ombros.
Para um medíocre escritor francês, ao redigir suas memórias, por exemplo, basta evocar a infância nos becos de Paris, e já o relato se torna interessantíssimo e fascinante. Alguém que o lê, põe-se logo a imaginá-lo um cidadão do mundo, uma pessoa letrada, alimentada desde bebê pela civilização francesa, versejando desde os tenros anos, ou orando à Notre-Dame antes de dormir.
É ainda agradável seguir os passos de qualquer inglês, nascido em Londres, contando, mesmo em péssima literatura, seus momentos de juventude nos “pubs”, em meio ao “fog”londrino, sendo despertado pelo toque do Big Ben, na manhã seguinte.
A narrativa reporta o leitor a símbolos tão prenhes de significado próprio, que só o fato de serem mencionados já torna a leitura atraente.
As pessoas se deleitam, repentinamente, com estes escritores, intuindo, de certa maneira, que, se eles não disserem nada de tão profundo ou original, pelo menos têm em comum a terra natal de pensadores geniais que atravessaram os ecos dos séculos.
A um autor romano, também é o bastante falar de suas lembranças de “bambino”, distraidamente brincando perto do Coliseu, para se ficar embasbacado diante de alguém que respira, desde o nascimento, o cheiro de monumentos de 2 000 anos de idade.
Já o pobre escriba, cidadão de país de recente vida, terá a árdua tarefa de torná-lo conhecido, escrevendo com extrema originalidade, destreza e arte. Tocar-lhe-á a missão de fazer com que um dia, por exemplo, a simples menção da Praia de Ipanema sugira ao mundo as mesmas fantasias que tal nome acende no coração de um carioca da gema.
Mas, especulações à parte, não deixa de ser verdadeiro que tais escritores estrangeiros, mesmo se aproximando de uma parva mediocridade, contarão sempre com a vantagem de despertar o interesse de leitores de outros países que terão, no mínimo, ouvido falar dos venerandos tesouros europeus.
Não chegam a ser um exagero estas afirmações, porque comigo mesma já aconteceu de ler o livro todo, de um autor francês, obcecada pelas citações de recantos do país, comprazendo-me em um texto de conteúdo banal e fútil.
Meu suspense ficou por conta dos locais, carregados de significados para mim, esperando emergirem dali os pensamentos profundos do autor, os quais, infelizmente, até o final, não vieram à tona. Porém, o que quero dizer, é que fiquei presa nessa espera, o que não me ocorreria no caso de ler um escritor medíocre, talvez do meu próprio país.
Poderão até me contestar esta tese, que me veio à mente, justamente por ocasião da leitura do tal livro francês. Ela merecerá talvez o riso de quem a levar a sério.
Contudo, digam-me: quem já conheceu de perto e sentiu a estranha magia da beira de um rio Sena ou dos becos de Paris, não estremece só em ver uma fotografia com estas cenas?
É a demonstração da minha tese. Se não fui, porém, devidamente clara na minha teimosa exposição, não há problema algum.
Porque bom mesmo é ler os grandes escritores, de qualquer país, de preferência a gente recostada em uma rede, presa às arvores de nosso solo.

Dora Vilela - Professora de língua portuguesa e francesa – São Paulo

Imagem: www.poesialusa.blogs.sapo.pt


09 agosto, 2006

Babel

20 anos sem Orígenes Lessa

O ano da morte de Mario Quintana, 1994, foi também o do piloto brasileiro de Fórmula 1, Ayrton Senna, que aliás morreu quatro dia antes do poeta gaúcho. Lembro a comoção que tomou conta do país e o destaque dado à morte do piloto pela mídia, imprensa e televisiva. Àquela altura, Senna era indiscutivelmente o “fenômeno” da velocidade, daí ter sido bastante explorado pela televisão, que o patrocinava e foi responsável por sua rápida aceitação pública e pela “sensação” mítica que se criou em torno do piloto após sua morte. O poeta Mario Quintana não era fenômeno, nem de mídia nem de venda, era um simples poeta. Daí a televisão ter dado pouco destaque à sua morte, como o perceberam artistas e jornalistas à época, em artigos publicados em jornais e revistas e em declarações feitas em diversos meios. Se não me engano, no Jornal Nacional, uma pontinha com uma informação sem imagem. Enquanto para Senna, honras num funeral que quase durou uma semana na tela da tv Globo.
Fizeram injustiça com o Mario Quintana, diziam naqueles dias. De fato, fizeram injustiça com o poeta gaúcho, tão importante para a nossa cultura e tão merecedor de louros como o herói da Fórmula 1. Mas hoje, na data do centenário de Mario Quintana faz-se injustiça a um outro nome. Trata-se de Orígenes Lessa, escritor e jornalista nascido em Lençóis Paulista, São Paulo, de quem muitos leitores brasileiros ainda desconhecem a obra (talvez nem saibam que o autor é pai do - mais conhecido - escritor Ivan Lessa).
Não é porque o centenário de nascimento do escritor paulista já tenha se passado (foi em 2003) que nesse mês de julho ele não tenha sido lembrado, e porque devido a data dos 100 anos de Quintana as atenções tenham se voltado para o poeta, mas porque esqueceram-se que em julho deste ano também completaram-se 20 anos da morte de Lessa, curiosamente ocorrida um dia após o escritor ter completado 83 anos, em 13 de julho de 1986.
Nascido no dia 12 do mês sete de 1903, Orígenes Lessa era jornalista de profissão, mas foi principalmente na literatura que se destacou, realizando uma importante obra de ficção, excepcional entre os escritores de sua época. Foi um autor que começou cedo, tendo escrito contos, novelas, romances e ensaios desde a juventude, a partir dos anos 20 do século passado, chegando a publicar ininterruptamente por mais de seis décadas. Só diminui mesmo o ritmo de produção após o avanço da idade, e mesmo assim, ainda trabalhava muito, mesmo após sua eleição em 9 de julho de 1981 para a Cadeira n. 10 da Academia Brasileira de Letras.
Orígenes Lessa, para além do trocadilho com o nome, era um escritor muito original. Um mestre na narrativa curta e um excelente observador da cena brasileira do século XX, que ele soube retratar muito bem através da caracterização de seus personagens e da técnica de construção narrativa que o consagrou na literatura brasileira: o uso do diálogo bem construído, parte inconfundível do seu estilo de narrar. Como lembrou o escritor Antonio Olinto em solenidade de homenagem a Orígenes na ABL, em julho de 1999, “poucos escritores, não só do Brasil, mas de nosso tempo, tiveram o domínio do diálogo como Orígenes Lessa. A contenção e a rapidez dos diálogos de Orígenes fazem pensar em terem sido gravados, extraídos da própria vida de personagens reais”.
Além de obras de ficção, Orígenes Lessa escreveu reportagens e foi um dos principais nomes da redação publicitária no Brasil. Consagrado como romancista, publicou O feijão e o sonho, romance de 1938 (adaptado para a televisão), João Simões continua (1959) e O evangelho de Lázaro (1972), entre outros. De contos trataria de acolher os leitores brasileiros em diversas histórias, muitas delas de teor reconhecidamente biográfico, como as que aparecem nos volumes de Garçon, garçonnette, garçonnière, (1930); Omelete em Bombaim (1946); Balbino, o homem do mar (1960) e Nove mulheres (1968).
Lessa também escreveu livros infanto-juvenis. São mais de trinta obras ao todo, entre os quais os títulos: O sonho de Prequeté (1934); Memórias de um cabo de vassoura (1971); Seqüestro em Parada de Lucas (1972); Memórias de um fusca (1972); Napoleão ataca outra vez (1972) e A escada de nuvens (1972).
Em tempo: antes de Jose Saramago ter se saído com suas Intermitências da morte (2005), Orígenes Lessa escreveu um livro, em 1948, cujo título é A desintegração da morte. Trata-se de uma novela de ficção científica cujo assunto é o mesmo do romance do escritor português ganhador do Nobel: uma sátira admirável sobre os limites da condição humana, quando o homem se vê diante do inusitado. Em ambos os casos, a falta de perspectiva do homem diante da vida, para quem a morte agora é ausente. Na novela de Orígenes, um cientista chamado Klepstein consegue desintegrar a morte, sumir com ela, fazer com que desapareça da história com o único propósito de diminuir o sofrimento e a dor da humanidade. Resultado: com a “morte” da Morte, a vida humana vira um caos, e os mais inesperados problemas começam a aparecer: como observa o ensaísta Gilberto Mendonça Teles, problemas sociais, a exemplo do desemprego (fecham-se farmácias, hospitais, funerárias, fábricas de remédios etc) e religiosos, já que, não morrendo mais o ser humano estaria condenado a não mais ter a “divina esperança de gozar um dia a bem-aventurança do céu”. Nessa novela, ainda segundo Teles, Lessa parece se antecipar a alguns temas que são objetos de preocupação científica, como é caso dos transplantes – nos dias de hoje, lembraríamos a clonagem de órgãos e outros avanços da ciência. Mas bem mais, Lessa parece ter antecipado toda a estrutura de uma obra que só seria escrita quase sessenta anos depois. Coincidência ou não, vale conferir os dois textos: Saramago e Orígenes. Este em primeiro lugar. Ou aquele.
Bem, não importa. Já são 20 anos sem Orígenes!


Imagem: Foto Orígens Lessa - www.lpnet.com.br

08 agosto, 2006

Palimpnóia


De alhos e bugalhos


Veja só que coisa: descobri que estou de sacanagem comigo mesma. Passo horas pensando numa coisa e quando vou passá-la para o papel (leia-se tela do micro) sai outra completamente diferente.
Prometi a mim mesma que hoje faria uma verdadeira crônica para colocar aqui. Leve, divertida e com ares de Veríssimo – se é que posso ao menos aspirar aos seus ares. O tema existe e, se bem desenvolvido e bem escrito, até poderia ser divertido e agradável. Tem a ver com uma afirmação categórica de um amigo meio bruxo. Segundo ele, fui prostituta do império austríaco, o que significa que estou reencarnada. E sem ironias, muito mal reencarnada, já que escorreguei no mapa e vim parar muito abaixo da linha do equador.
Lá fui eu escrever e já no segundo parágrafo a reencarnação virou política. Reencarnação política eu nunca ouvi dizer que existia – pensei ao descobrir meu lapso. Mas ao invés de mudar o rumo da escrita, parei para pensar. Tudo bem que não exista nenhum ser apolítico, já que cada tomada de decisão – independente de tamanho ou importância - é um ato político. E eu, em especial, jamais conseguiria me olhar ao espelho se de repente optasse por ser heterônoma. Imediatamente me respondi: mas nem por isso preciso mastigar, engolir e vomitar política.
Neste momento, acabou o clima. Lá se foi a intenção de fazer subliteratura. O jeito foi deixar o pensamento navegar entre os barquinhos de papel da inconsciência popular e o meu eterno papel de água mole em pedra dura. Pensei na conversa tida com meu vizinho. Ponto para mim. Mas o ponto se tornou reticências quando me lembrei do caixa do banco, do feirante, do dono do posto e de todas as pessoas que passam por mim com cara de Pôncio Pilatos. Pior foi lembrar daquela minha amiga, que eu respeitava tanto, me dizendo que vai anular o voto porque não acredita mais em nenhum político. Esta eu não sei se vai acordar do pesadelo da omissão.
Daí para frente, nem vale a pena dizer em que mares naveguei. Digo apenas que o tal texto da reencarnação naufragou definitivamente. Mas tenho que terminar este e como estou mesmo de sacanagem comigo, vou subverter o meu pessimismo. Como diz um amigo meu, temos pouco mais de 500 anos de história e nossa democracia é um sorridente bebê que apenas engatinha. Então só me resta ajudar a ensiná-lo a andar!

07 agosto, 2006

Ficção e Desatino


“Volver” *

Depois de explorar o masculino em seus últimos filmes, “Fale com Ela” (2002) e “Má Educação” (2004), Pedro Almodóvar volta a falar da sua maior paixão: as mulheres. O título escolhido para o filme significa, em espanhol, “voltar”. Não é novidade que essa é mais do que uma simples palavra para o cineasta. Primeiramente, o seu filme fala do retorno de uma mulher já morta que precisa resolver alguns probleminhas pendentes que deixou durante a vida. A personagem, uma avó-fantasma (que já fora citada no filme anterior de Almodóvar, podem confirmar os mais atentos), é interpretada por ninguém menos do que Carmen Maura. Para quem desconhece a antiga obra do cineasta, deve questionar-se por que diabos a volta dessa “zinha” é tão badalada. Maura é a Pepi de “Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas Del Montón” (1980), primeiro filme de Almodóvar; encarnou a Irmã Esterco em “Maus Hábitos” (1983), provavelmente o filme mais polêmico do diretor; interpretou um transexual em “A Lei do Desejo” (1987); ou seja, Maura manteve uma parceria de peso com Almodóvar em alguns de seus filmes mais importantes, e esse retorno, que aconteceu depois de quase vinte anos, era aguardado pelos fãs há muito tempo. Outra promessa do cineasta é a volta ao seu velho estilo escrachado, de humor inigualável e, ao mesmo tempo, de drama humano, que vai mais além, com um quê de naturalista.

Ainda sobre o elenco, Penélope Cruz, enfim, parece ter conquistado o papel principal. Depois de trabalhos coadjuvantes em “Carne Trêmula” (1997) e no magnífico “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999), lhe foi confiado um papel maior e uma linda foto colorida no pôster do filme. A trilha sonora, vinda de uma parceria que perdura desde “A Flor do Meu Segredo” (1995), é de Alberto Iglesias, um dos compositores espanhóis mais cogitados da atualidade. A produção, claro, ficou por conta (literalmente) da El Deseo S.A., produtora de Pedro e Agustín Almodóvar (este, irmão e braço direito do cineasta) fundada em 1987, tendo como primeiro filme produzido, “A Lei do Desejo”.

Desde o considerado rompimento de estilo, com “Carne Trêmula” (“A Flor do Meu Segredo” seria considerado o divisor de águas), Almodóvar tem sofrido preconceito da parte de seus fãs mais antigos, o que, convenhamos, é uma grande besteira e ignorância não reconhecer a beleza de filmes como “Tudo Sobre Minha Mãe” ou “Fale com Ela”. O que quero dizer é que, por mais criticado que seja, o cineasta sempre retorna com uma surpresa, sendo esta agradável ou não. Quanto a vocês, eu não sei, mas eu já posso ver as cores inebriantes de “Volver” enquanto permaneço extasiada ao som de fortes pisadas de flamenco.

Imagem: Pedro Almodóvar.
www.clubcultura.com

*Último texto da coluna Cinema e Ficção. Próxima segunda, estréia a coluna Zumbido, com Linaldo Guedes.

06 agosto, 2006

Hein?!


Mais60

O Brasil era, como se dizia na época, um país de Terceiro Mundo, sufocado por uma ditadura militar. A geração dos anos 60 passou por aquele tufão numa escala subdesenvolvida, própria do Brasil naquele tempo, que tinha 90 milhões de habitantes e uma renda per capta duas vezes menor que a atual. A mulher de classe média começou a trabalhar fora de casa e a chegada da pílula liberalizou os hábitos sexuais, a música abriu-se ao deboche tropicalista e uma parte da juventude, mais politizada e urbana, imprimiu à época a marca do radicalismo.

O auge da implosão ocorreria em 1968, o ano da liberação do comércio da pílula no país. Mais tarde viria o divórcio e a dessacralização do matrimonio. A relação entre pais e filhos, autoritária e unilateral, também foi pelos ares. Deu-se legitimidade à busca de novas formas de vida, como os hippies, as comunidades alternativas e a liberdade sexual.

E no plano político começaram as passeatas contra o regime militar e terminou com o país amordaçado pelo AI5, o ato institucional que censurou uma nação. A tortura virara rotina e um punhado de jovens entregou-se à aventura delirante de combater o regime com a guerrilha, colhendo uma derrota definitiva. Grande parte dos universitários foi às ruas nas grandes cidades e muitos deles foram exilados ou presos. Os jovens da política agiam sob o signo do voluntarismo. Democracia era um conceito vago, tanto para os generais do Marechal Costa e Silva em Brasília quanto para os jovens amantes da revolução. No fundo, o que os jovens queriam era uma coisa mais radical, uma outra ditadura – a do proletariado.

A esquerda era autoritária e policialesca e depois de 68 ela ficou mais tolerante. No balanço final o ano de 68 marcou mais pela revolução cultural do que pela revolta política.

Imagem: http://mixbrasil.uol.com.br/cultura/musica/tropicalia/tropicalia.shtm

05 agosto, 2006

Arte Incomum


"construtores do imaginário"

"Uma linguagem só não bastava a esse autor. Construía, esculpia, pintava, grudava, revestia. No entanto, ainda faltava expressão: aí escrevia dentro da casa, fazendo dela agenda, arquivo, dicionário. A obra poética foi esticada até os limites". (Carlos Nelson Ferreira dos Santos, arquiteto e antropólogo).

Rio de Janeiro. São Pedro da Aldeia. Uma pequena casa. Uma jóia. Obra-prima da arquitetura espontânea, construída por inspiração de sonhos e devaneios de um homem pobre e semi-alfabetizado. É a Casa da Flor, obra de Gabriel Joaquim dos Santos (1892-1985), simples trabalhador nas salinas, filho de uma índia e de um ex-escravo africano, foi embelezando seu lar com materiais recolhidos no lixo doméstico e no refugo das obras civis do local, guiado por sonhos e uma fértil imaginação. Considerada uma obra prima da arquitetura espontânea no país, a Casa da Flor, tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural precisa ser preservada.

Arquitetura Espontânea é uma arquitetura baseada em soluções surpreendentes porque foge dos padrões tradicionais e porque nascida do uso de materiais considerados pouco nobres e nada convencionais. Vem despertando a atenção de críticos e teóricos em todo o mundo e seus autores - os "construtores do imaginário" - estão sendo redescobertos e merecendo, em outros países, a publicação de livros de arte, estudos críticos, filmes, etc. No Brasil, infelizmente, essa discussão é quase inexistente e precisa ser introduzida, já que contamos com um exemplar perfeito e de qualidade inquestionável que é a Casa da Flor.

Fonte: Amelia Zaluar. A casa da Flor: uma tentativa de compreensão. In: FUÃO, Fernando Freitas, coord. Arquiteturas fantásticas. Porto Alegre, UFRGS, 1999.

04 agosto, 2006

O Martelo e a Bigorna

Autocrítica da incompetência

Um dos mais graves e, o que parece, insolúveis problemas do Brasil tem sido de fato a segurança pública e a maneira medíocre com que lida com ela as autoridades desse país. O Estado nacional tem se mostrado impotente diante do fenômeno da violência, alienando um dos princípios constitucionais mais importantes, que é assegurar o direito à vida do cidadão. O Estado democrático e de direito brasileiro está cada vez mais aquém de suas prerrogativas, numa evidente demonstração de inoperância de uma burocracia que só serve para aviltar a ética e subestimar nossa inteligência.
Em recente entrevista ao Jornal O Globo, o Marcola, líder do PCC, facção criminosa que desde maio vem aterrozirando São Paulo e pondo em risco a soberania do Estado, afirmou que a solução para se resolver o problema do Brasil só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico e revolução na educação. Segundo Marcola, os políticos e intelectuais brasileiros são incapazes de propor soluções satisfatórias para tentar resolver esse aparente estado de caos, sendo por isso necessário fazer uma autocrítica da sua própria incompetência.
Enquanto cientistas políticos caracterizam essa falência do Estado frente ao fenômeno da violência como atos subersivos de terceiros que afrontam o Estado democrático e de direito, o povo brasileiro forja sua própria proteção e assiste em rede nacional os mensaleiros e sanguessugas cavarem ainda mais o buraco em que deverão enterrar este país.
Com o ensino fundamental concluído na prisão, Marcola é exemplo de mais uma vítima da sociedade empurrada para o mundo do crime e da corrupção moral. Aos 38 anos de idade, afirma ser a morte uma possibilidade constante, o presunto diário desovado numa vala; enquanto que para o restante da sociedade a morte representa um drama cristão numa cama.
Pop star do mundo do crime, depois de ter muitos anos sua identidade camuflada pelos números que quantificam a desumanização e precarização das condições de existência das pessoas que vivem no Brasil, Marcola diz ser um intelectual que aproveita o ócio para cultivar sua subjetividade através de leituras como a de Dante, e diz que compõe um acervo de mais de três mil livros lidos na prisão. Marcola é, ao lado de todos os seus pares, o início tardio da consciência social deste país.


Foto: Marcola - www.aquidauananews.comwww.aquidauananews.com

02 agosto, 2006

Armorial X Rinocerontal - Por Carlos Gildemar Pontes

Numa discussão sobre cultura não me venham falar de
vamos falar e procurar conhecer pensadores como o nosso
poetadaporramaiúsculoparaibanobomdebriga.nordeste.comorgulho.br
Concordo com o Ariano Suassuna e não tenho medo de defender as raízes do povo nordestino e da língua-filha da portuguesa. Tem gente que tenta agradar aos bêbados e ao pessoal do AA e termina tendo crise de labirintite, em cima do muro da cultura. Eu aprecio cultura brasileira, nordestina, cearaibana, icoense, patoense e dos confins dos sítios mais esquecidos. É tanto que considero universal qualquer arte rudimentar ou refinada do espírito, seja ela produzida na caótica São Paulo ou no distrito de Estaca Zero, na região de Taperoá.
As contradições do homem vêm desde o autraloptecus e não podem ser transferidas para o artista, que se utiliza da sua função para marcar uma posição política definida. A obra do artista Ariano representa as idéias do homo taperoalensis e universal. Quem produziu A pedra do reino e O Auto da Compadecida tem o direito de esbravejar contra a cultura enlatada americana ou brasileira.
Que eu saiba, ele nunca foi contra os grandes gênios da humanidade de nenhum país. Mesmo que eu goste das músicas do Maicou Géquisson (e eu gosto), o Ariano tem razão. Se o povo não conhece todas as músicas, não conhece música.
Num país que produz grãos que dá para matar a fome de meio mundo da humanidade, se criar fome zero e pib negativo pra dar satisfação ao Banco Mundial e ao FMI, e a gente ainda ter que dar lucro à indústria cultural americana, paciência, está faltando uma boa dose de criticidade a um bocado de alienado deste país com suas províncias inchadas de puxa-sacos e apedeutas.
Se o Ariano está gagá, como insinua uns rinocerontes se coçando em loja de cristal, e não satisfaz a meia dúzia de intelectualóides de fachada, o que fazer das páginas escritas por estas sumidades que nem sequer leram a poesia armorial suassûnica?
Sei que daqui a cem anos lembraremos do Ariano, e dos rinocerontes?
- Por esta época já estarão extintos.

Carlos Gildemar Pontes - Cearense, poeta e escritor. Editor do Folhetim Literário Acauã. Colaborador do Miolo de Pote

Imagem: Ariano Suassuna http://www.azulcalcinha.com.br

01 agosto, 2006

Babel

Relendo um clássico

Quando lemos é sempre por preferência. Ninguém lê um livro por obrigação, e ainda que o façamos essa leitura não se torna agradável e em conseqüência proveitosa. Daí que livros lidos sem que o leitor tenha a experiência da escolha, da preferência e do prazer de ler, não se tornam importantes.
Mas se os textos nos são apresentados respeitando nosso apreço por eles, vale a pena. É ler uma vez e querer ler de novo. A releitura é, pois, determinada, em principio, pela livre experiência tida com o livro. Outra forma de reler é ser questionado pelo livro, é ser inquietado após lê-lo. Os que muito lêem sabem que a aventura da leitura é uma coisa como um jogo: o leitor é perguntado, o livro espera resposta. Ninguém fecha um bom livro sem que fique assim de questões, senão não valeu, jogo perdido.
Assim com os livros, assim com os autores. Estaremos sempre relendo os grandes que nos marcaram. Costumamos reler autores como Goethe, Camões, Flaubert, Dostoievski, Balzac, os clássicos. Principalmente os clássicos. Por que? Primeiro porque, como disse Ítalo Calvino, um clássico é um livro em que se está debruçando sempre por mais de uma vez: livro cheio de aberturas, o leitor preso em seus questionamentos. O leitor obriga-se a voltar ao livro porque caso não o faça ficará preso dentro dele. Não quer ficar preso, aí se debruça e o lê novamente. É possível ler uma única Shakespeare, Cervantes? Diante desses nunca dizemos: estou lendo, comenta Calvino, mas: estou relendo.
Outra definição de clássico do escritor italiano: “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha pra dizer”. Essa idéia mais que aquela diz mais sobre as obras clássicas. Na verdade, quando se procura reler um livro clássico não é apenas porque a obra tenha esse estatuto, mas porque, com certeza, ela nos deixou algo indefinido em suas páginas, algum mistério, um pouco de segredo que só o desvendamos a cada vez que voltamos ao texto.
Machado de Assis: este não há quem não o tome por clássico. Em alguns de seus melhores livros somos levados a relê-los não apenas pelo gosto (que é infindo), mas por essa qualidade que os faz serem obras que nunca nos disseram tudo o que gostaríamos. Tomo Machado como exemplo para relembrar uma de suas melhores obras, Dom Casmurro. A propósito há algum tempo escrevi um sobre esse romance (quando do centenário da primeira publicação) e outro a respeito de um livro de poemas que procurava exercitar a releitura da obra machadiana através de um critério bastante curioso: a da retomada de um texto inconcluso que aparece no próprio Dom Casmurro. Trata-se do livro Olhos de ressaca, do poeta cearense Francisco Carvalho, publicação restrita a alguns amigos do poeta.
O exame de releitura é interessantíssimo pois parte do entendimento de que há um texto latente nas entrelinhas do discurso do narrador de Dom Casmurro, e assim entendido toma-o com forma e acabamento, num exercício arrebatador de construção estética que acaba nos convencendo, leitores, de que o texto descoberto é mesmo do próprio narrador.
Para relembrar os leitores de Dom Casmurro, os versos em questão são aqueles do capitulo LV do romance, versos escritos por Bento Santiago no quarto do seminário a que foi mandado se fazer padre a contragosto e a contragosto de Capitu. Ali o narrador dizia não se consolar por não ter conseguido completar o soneto que tanto desejou fazer, e, com sua habitual desfaçatez desafia o leitor a tomá-los e concluir o poema. Os versos são esses três: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura! e Perde-se a vida, ganha-se a batalha!/ Ganha-se a vida, perde-se a batalha!
Francisco Carvalho, pois, aceita o desafio de Machado, digo, de Bentinho, e escreve não um mas dez sonetos a partir desses três versos. O resultado é bem isso de que vimos falando: vem à tona o escondido, o embutido nos espaços do texto, até então não visto pelo leitor. Ora, a todo o momento Bentinho tenta convencer o leitor de que não acha motivo para o seu texto. E assim como procura fazer o leitor cúmplice da ciumeira por Capitu, quer nesse momento do texto apostar que a flor do céu cândida e pura não é a Capitolina, que poderia ser, mas que não é, que talvez fosse “qualquer outro conceito a que coubesse o conceito da flor”, como a religião, a poesia, a virtude.
Em 1999, quando da publicação de Olhos de ressaca, escrevi: “Francisco Carvalho sabe o instante da palavra. O livro é um retrato de Capitu feito com a tinta daquele ‘fluido misterioso e energético’, cuja imagem reflete na pena de Carvalho”. E acrescentava: em Olhos de ressaca, Capitu é revisitada, recapitulada, poetizada e amada pelo poeta. O mesmo que fazemos nós aos clássicos, relendo-os.

Imagem: Capitu pintada por J. da Rocha. IN:

Palimpnóia


O dia do orgasmo

Soube que ontem foi o dia do orgasmo. Tudo bem que exista dia para tudo, mas para mim orgasmo é o tipo da coisa que é melhor não ter dia. E nem hora. E nem limites. Mas o dia do orgasmo é um bom mote para começar um texto sobre um fato que me irritou tremendamente. Alguns preconceitos me causam indignação, outros urticária. O preconceito sexual, além de me irritar profundamente, também me causa pena. Porque fico pensando que aqueles que usam a moralidade para condenar o ato sexual, seja ele qual for, certamente são os mesmos que gostariam de ter a coragem de fazê-lo. Ou quem sabe aqueles que se envergonham dos próprios atos, por isso os condenam nos outros. Atitude cruel e covarde, própria desta falsa moral onde ainda se escondem muitas pessoas.
É. O texto começa com cara de desafio. Mas é como o preconceito me deixa. Com vontade de desafiar o mundo para que se enxergue e se perceba pequeno ao julgar e condenar, como se fosse juiz supremo de todas as causas.
Aquela senhora que teve a coragem de dizer publicamente que conheceu o orgasmo através da masturbação na terceira idade foi massacrada com todo tipo de discriminação, em sua maioria de forma jocosa e desrespeitosa. E esta reação mostra claramente alguns pontos que discuto.
Para começar, o desrespeito à velhice. Embora o discurso vigente seja de respeito ao idoso, este fato mostra claramente que no país tupiniquim deixa-se de viver muito antes de se morrer. Ou espera-se que o idoso recolha-se à sua insignificância e deixe as atividades humanas para aqueles que se consideram ainda aptos.
Outro ponto discutível é em relação ao sexo. Como as pessoas reagiriam se a opinião da senhora tivesse partido de uma jovem? Evidentemente seria considerado um processo natural. Afinal, é sabido que a maioria das mulheres conhece o orgasmo através da própria manipulação de seus pontos erógenos. Aliás, quanto mais cedo isso acontece, mais chances a mulher tem de se realizar sexualmente. Fato conhecido e indiscutível.
Então o problema parece ser o sexo na terceira idade. Ou na velhice, se ficar mais explícito. Mas sexo, como amor, não tem idade. E, pelo que me consta, não existe nenhum preceito ético ou moral que defina a idade em que se deve sentir prazer sexual. Ou estou enganada?
Seja como for, uso o dia do orgasmo para fazer o meu protesto contra todo e qualquer preconceito sexual. Em especial contra esta falsa moralidade com que alguns se cobrem para definir com quem, como e quando uma mulher deve se sentir integralmente fêmea.
E para terminar, que o orgasmo continue sendo amplo, geral e irrestrito - em qualquer tempo, em qualquer idade, em qualquer parceria!