24 dezembro, 2006

23 dezembro, 2006

BONECA VERMELHA



Por Carol Montone


Todos nós temos ao menos um anjo ao redor, cujo brilho é tão forte que nos faz menos cegos. Temos muitos em verdade, mas somos feitos de olhos apressados para enxergar certos milagres. Curiosa que sou, notei logo as asas escondidas na roupa do meu avô, que infelizmente viajou para um mundo desconhecido, aonde não permitem visitas. Fiquei de sobreaviso desde então e pude notar que era rodeada de outros seres encantados. Com um pouco de dor aprendi que a gente nunca saberá quando eles chegarão tampouco quando seguirão viagem, daí a urgência de aproveitar essas companhias como se fossem as últimas bençãos vividas. A vida pode sim tirá-las de você por motivos nobres ou não, mas ninguém tirará o amor vivido. Nesses dias “ pé-natalinos” , tive pensando que essa parece ser a única razão realmente cabível para o mundo todo mobilizar-se em torno do dia 25 de dezembro. É piegas mas é um simples...Natal foi inventado para amarmos uns aos outros e dar graças pelos anjos que compartilham suas asas conosco. Claro que não seria necessário estipular data para tanto, mas nós humanóides somos muito “organizados”.

Essa semana um anjo chamado Joana Aparecida Salim, de olhos amendoados, mãos calejadas e uma abnegação gigante em relação aos prazeres da vida me deixou sem palavras natalinamente suficientes. Essa anja tem meio metro de altura e um problema neurológico que a traz muitas limitações. Munida destas, ela trabalha há quarenta anos - sem férias ou salário - na casa de uma família “cuidadora”, que ao mesmo tempo é sua única salvação e sua cruel algoz. Todos a amam, entre outras coisas talvez por conta daquele sorrisinho maroto e as vezes inconveniente, que escapa da boca pequenina enquanto suas mãos ágeis carpem jardins, lavam roupas, cuidam de bebês ou qualquer outra coisa útil para qualquer um. Eu queria presenteá-la não apenas por amor, mas por uma certa pena e era eu a coitada quem ganhou o seguinte e inestimável presente: entendi que esse ser tem paz de espírito e por isso se realiza naquilo que é e faz. Ela que quase nada tem além de muito trabalho e dificuldades de saúde me disse “eu não estou precisando de nada, use seu dinheiro para comprar algo para alguma criança, mas se você quiser mesmo me dar algo pode ser uma boneca vermelha”...me disse. Foi emocionante ver ali na minha frente um anjo em carne e osso, que encara a vida com a força silenciosa de um lenhador e guarda no coração a menina que nasceu para ninar eternamente sua boneca vermelha.

Apesar de toda a maratona consumista, das misérias e de todo o sofrimento que também enfeita o Natal das diferenças sociais de da pobreza de espírito (como bem lembrou minha nova amiga e “sensível” escritora colaboradora deste site, a Euza) , apesar dos nossos pobres anjos caídos, travestidos em meninos de rua “gente que é para brilhar e não para morrer de fome”, principalmente com tanto peru de Natal indo para o lixo por aí, mas apesar , apesar e apesar....Natal é uma época de milagres talvez porque muita gente, num repente, tenta conectar-se com a divindade do verbo amar. Não sou religiosa, mas creio que quem conta um conto aumenta um ponto e como jornalista aprendi que essa tal de objetividade factual é balela ou quase, portanto não acho que estamos todos aqui reúnidos para especular se Jesus casou ou não com Maria Madalena e nem nada similar. Também nunca consigo me atentar para datas e não tenho certeza se houve um nascimento , uma morte e uma ressurreição na ordem e jeitos que nos contaram, mas qualquer um sabe que tudo é milagre nessa vida. Jesus e todos os deuses, um dia nascendo, uma criança sorrindo, um casal dançando, eu você e um pé de alface, que como dizia meu vô era a obra de arte mais generosa da terra...”imagina quantas folhas tem um pé e quantas pessoas podem comer juntas ....”, ele dizia lembrando também da beleza das cebolas e outros milagres da natureza.
As bonecas vermelhas e a força para seguir em frente a despeito dos infortúnios pode vir de Papai Noel, não do bom velhinho de roupas de cetim, que não dá conta de chegar em quantas ???? casas, mas no papai noel que todos nós podemos encontrar disfarçado num abraço, sorriso ou num olhar de bem querer. Desejo que todos aqueles que sofrem na noite feliz possam pensar no papai noel como um símbolo de esperança de barbas brancas e essa não está à venda....está dentro de cada um.

Um grande beijo à todos e claro um Feliz Natal

22 dezembro, 2006

O MARTELO E A BIGORNA

Jingobel sem sanfona

O Natal dos brasileiros, especialmente dos nordestinos, perdeu este ano o brilho e a magia característica da data. As múltiplas lâmpadas coloridas cederam lugar a velas de cor única, a uma cortina de fumaça que anuncia o fim de mais uma chama de vida.
A figura mais típica da época este ano não vai mais estar presente, a saber, o bom velhinho de cabelos brancos e careca reluzente, barba em forma de nuvens em tarde de verão e tecido adiposo em excesso na barriga. Este ano faltará a nós, nordestinos, a companhia de Sivuca, o Papai Noel da sanfona.
Severino Dias de Oliveira, o Sivuca, nasceu no ano da revolução de trinta, talvez por isso tenha herdado o dom desse fenômeno, o de revolucionar. Paraibano de Itabaiana, assim como o poeta Zé da Luz, o maestro e acordeonista revolucionou a musicalidade regional nordestina ao incorporá-la num novo contexto rítmico. Com Sivuca a sanfona perdeu o status de estereotipado instrumento rural, usada em palcos de pé-de-serra, para ganhar o glamour da erudição sinfônica dos teatros.
O instrumentista e arranjador Sivuca deixará um legado sem equivalência para o cardápio popular brasileiro, um misto de regionalismo com música clássica ao sabor de violino, violoncelo e sanfona. Compor foi o seu dom, encantar a sua maestria.
Do maestro paraibano fica a saudade não apenas de João e Maria, mas de josés, franciscos, beneditos e tantos outros que ao som da sanfona redescobriram o encanto pela música e a firmação de sua nordestinidade.
No Natal deste ano poderá até ter passas, panetone e uma farta mesa de frios, mas na ceia do brasileiro vai faltar produtos da Feira de Mangaio.

19 dezembro, 2006

BABEL

A falsa fábula de Os Bruzundangas*

Para Jarisa Augusto

Quando você lê Os Bruzundangas nem precisa que te informem que se trata de ficção, de uma realidade imaginada e, portanto, falsa. Mas não é por ser ficção que se conclui que a história é falsa, mas porque você percebe que aquela terra do livro é a nossa, esta na qual pisamos o chão em que tudo dá e onde vemos um céu pintado com todas as cores da nossa esperança de país de futuro. O escritor carioca Lima Barreto, autor da obra, sabia que não estava falando tolice e que estava dizendo exatamente isso. Daí que essa sátira foi e continuará sendo o símile literário perfeito para representar o Brasil de ontem e de hoje.
Bruzundanga é um “país imaginário” onde as coisas nunca acontecem a favor dos menores, dos pequenos, a sempre maioria de uma sociedade, onde a vida é sem importância e onde as pessoas são tratadas como na verdade do universo da ficção, ou seja, como jogo ou invenção. Algum paralelo com o Brasil? Na verdade, nada mais longe que um país de mentira, nada mais mentiroso. De viés, ao fim e ao cabo, em Bruzundanga o que temos é uma república real que se descortina ao olhar incrédulo de quem não apenas a imagina, mas a vive à luz clara de uma realidade social que já dura bem mais de quinhentos anos. Em Bruzundanga gozamos com uma festa de situações às vezes tão incomuns, tão exageradamente irônicas e engraçadas que nos espantamos, bobões: ah, este país eu conheço!
Lima Barreto surpreende ao construir um mundo que, a partir de uma situação sócio-histórica real, datada, serve de reflexão para entender uma outra situação mais de oitenta anos depois, a nossa, em que nada ou quase nada mudou. Para mim, Os Bruzundangas são um espetáculo de desvendamento artístico a nos garantir que a melhor arte supera os limites de tempo e de espaço.
Em princípio, os Estados Unidos da Bruzundanga pode ser lido como o Estado Oligárquico da República Velha brasileira onde a nata da aristocracia rural e semi-industrial vivia a amordaçar as liberdades mais elementares do povo brasileiro; onde conflituosamente viviam os herdeiros da Casa-Grande e os remanescentes da Senzala, mas principalmente onde reinava uma elite historicamente preconceituosa de cultura mediana (não politizada, mas politiqueira, não completamente emancipada, mas poderosa) na periferia de um capitalismo atrasado num país explorado por bandidos sem-nenhum-caráter.
Foi contra esse painel de políticas e ideologias que Lima Barreto escreveu Os Bruzundangas. Painel de Belle Èpoque, talvez o quadro mais angustiante porque passou o escritor brasileiro crítico e combativo como o criador de Policarpo Quaresma. Após Machado, o país vivia infestado de artistas amorfos e medíocres a se entregarem a futilidades as mais diversas, numa prosa empolada e ideologicamente aristocrata. Era uma época em que a intelligentsia fadava ao conformismo e estava em total desacordo com as mazelas sociais de seu tempo. Em síntese, o mundo do formalismo parnasiano havia arrastado a reflexão crítica para bem longe, por isso a arte brasileira, a literária em especial, era carente de melhores representantes.
Eis que não de repente, porém atentos às mudanças e aos problemas de natureza interna porque passava o país nas três primeiras décadas da primeira república, surgem escritores mais combativos e interessados em discutir os problemas brasileiros, entre os quais Lima Barreto, famoso amanuense de carreira e escritor por vocação e genialidade. Nesse momento, migramos do país empolado e alienante do Estado Oligárquico - das faceirices modernas das classes cultas, das imundícies sociais e futilidades culturais - para um país real onde habitavam os brasileiros sem história e as classes privilegiadas que se esbaldavam no mormaço das idéias e na exploração do povo mais simples.
Como lembra Lucia-Miguel Pereira ao reconhecer a importância de Lima Barreto em seu Prosa de ficção (de 1870 a 1920), em meio ao sorriso superficial da alta sociedade, “ressoava subitamente uma voz áspera e amarga, o drama interrompia a opereta, a revolta explodia no seio da amenidade, um atormentado reclamava o direito de se fazer ouvir dos descuidados”, e esse atormentado era o Lima Barreto de Os Bruzundangas.
Herdeiro de Machado de Assis? Lucia-Miguel se pergunta se o professor não haveria de conhecer o aluno, se não descobriria nele, bem antes da crítica tê-lo esquecido em vida e após a morte durante muito tempo, se não reconheceria em Lima seu substituto primeiro: “Terá o velho Machado tido notícia do jovem Lima Barreto, e sentido que, malgrado irredutíveis diferenças de temperamento e opiniões, era esse outro mulato quem o iria substituir?”
Creio que de Machado de Assis Lima não herda os requintes formais de investigação psicológica que fizeram o Bruxo do Cosme Velho pôr a nu as contradições estruturais das elites brasileiras de fim de século (como já observado no clássico estudo de Roberto Schwartz, Um mestre na periferia do capitalismo, de 1990), mas em verdade lhe apura o realismo crítico de forma a desmascarar, revelar e converter a pátria de todas as oligarquias na República de Bruzundanga.
Conhecido na sua época como “escritor mulato”, Lima Barreto não fora aceito como o grande escritor que é: confundiram o artista e o homem. Como se sabe, Lima era alcoólatra, enfrentou internações em hospícios; e principalmente: não escreveu para as elites. Era um gênio rebelde, por isso socialmente incompreendido. Ora, aos gênios não se pergunta a cor. Mulato, sim, como mestiço o fora o próprio Machado, Lima teve infância pobre, juventude pobre e passou a vida pobre e miserável, sobrevivendo a duras penas entre a genialidade de escritor e os fracassos de homem. Mas os dois, Machado e ele, com igual mestria, souberam adentrar os labirintos da psique sócio-ideológica do Brasil entre o final do Império e os limiares da República Velha, e isso sem que se perdessem lá. Tanto que um nos deu Brás Cubas, cujo DNA ainda infecta a ordem política e moral de nossas elites, e o outro nos desvendou vários tipos sociais brasileiros reinventando o país cultural e sociologicamente através de romances exemplares e da falsa fábula dos Bruzundangas.
Digo falsa fábula porque em Os Bruzundangas, como seria normal, a ficção deveria funcionar na esteira de um “como se não fosse, embora sendo”, devido à formalização do processo de construção artística. Mas, neste caso, o relato extrapola os limites da invenção para sugerir o quadro de uma realidade que “é como é”, real e por inteira. Como exemplificação, leia-se essa famosa passagem comparado-a com a atual cena política de aumentos salariais exorbitantes dos nossos camaradas parlamentares:
“Não há lá homem influente que não tenha, pelo menos, trinta parentes ocupando cargos do Estado, não há lá político influente que não se julgue com direito a deixar para os seus filhos, netos, sobrinhos, primos, gordas pensões pagas pelo Tesouro da República.
No entanto, a terra vive na pobreza; os latifúndios abandonados e indivisos; a população rural, que é a base de todas as nações, oprimidas por chefões políticos, inúteis, incapazes de dirigir a cousa mais fácil desta vida.
Vive sugada, esfomeada, maltrapilha, macilenta, amarela, para que, na sua capital, algumas centenas de parvos, com títulos altissonantes disso ou daquilo, gozem vencimentos, subsídios, duplicados e triplicados, afora rendimentos que vêm de outra e qualquer origem, empregando um grande palavreado de quem vai fazer milagres”. (grifos nossos).
Assim é o Brasil de Bruzundanga, mais real impossível. Assim também seu autor, ainda mais real que a própria vida de privações e preconceitos de que foi vítima. Não esqueço a conhecida descrição do velório de Lima Barreto: na sala onde velavam seu corpo, estavam apenas uns dois ou três amigos; da mesma forma durante o enterro. Já os funerais de Machado, 14 anos antes, ficaram conhecidos pela opulência das pompas e homenagens. Conta-se que o cortejo arrastou multidões: uma verdadeira nota de que o valor social do autor de Brás Cubas antes de morrer estava em alta, figurão que era das letras nacionais. Em 1908 quando o jovem Lima Barreto estava começando a escrever os primeiros romances, Machado morria, mas morria com o status de um verdadeiro pop star, hoje tranquilamente comparado aos famigerados autores que a burguesia mais medíocre e a grande mídia apadrinham lá e aqui em Bruzundanga.


NOTA:
___* Devo todas as citações e a idéia geral deste artigo ao professor Luiz Ricardo Leitão que publicou recentemente o livro Lima Barreto: o rebelde imprescindível (São Paulo, Expressão Popular, 2006), que acabei de ler.

Palimpnóia




Então é Natal...


Este texto deveria começar e terminar falando de amor, de esperança de alegrias. Porque são vésperas de Natal e segundo o cristianismo o nascimento de Cristo simboliza paz, amor e esperança . E também porque há um clima de festa verde e vermelha dançando no ar e pintando nossas almas de luzinhas multicoloridas como se fôssemos milhões de árvores de natal.
Mas sou uma chata e não vou falar deste Natal festivo ou da simbologia religiosa desta comemoração. Vou falar desta festa cristã que, contrariando o próprio espírito cristão, faz crescer, dolorosa e assustadoramente, as diferenças sócio-econômicas das crianças deste nosso país.
Você já imaginou a vida sem sonhos? Podemos até ter períodos em que os sonhos parecem correr de nós, mas no geral somos seres movidos pela esperança e pelos sonhos. Agora imagina como seria sua vida se não houvesse esperança de realizar sonhos? Ou pior: se você não soubesse sonhar!?
Então é Natal... e existem milhões de crianças que não podem ou não sabem sonhar com o Papai Noel. As mesmas crianças que no dia de Natal verão o brilho das luzes refletidas em seus irmãos mais afortunados enquanto seus olhos se encompridarão e se fecharão na tristeza das mãos vazias e da esperança ausente. As mesmas crianças que ouvirão e não entenderão a canção que diz: como é que papai noel, não se esquece de ninguém, seja rico ou seja pobre o presente sempre vem.
Então é Natal... e a chata aqui não consegue estar inteiramente feliz com sua árvore super enfeitada de luzes e presentes, com sua ceia já programada, com o carinho dos amigos em forma de cartões e presença, com a borbulhante alegria da família reunida, com o sorriso de antecipação feliz que vê em cada rosto...
Então é Natal... e desejo a você um Natal exatamente como você planejou, como você quer sua noite de Natal. Com todas as alegrias, todas as luzes e todos os sorrisos de Natal.
E desejo mais. Desejo que você não se esqueça de acender uma luz no túnel de uma criança. Ainda que seja de uma única criança. Ainda que seja numa única noite.
Porque é Natal.


Imagem: Foto modificada de Lucas - http://fotolog.terra.com.br/fotologico:237

18 dezembro, 2006

Javé, Jesus e Alá




Pablo Capistrano
www.pablocapistrano.com.br

A idéia mais comum e recorrente que temos sobre a natureza das três grandes religiões monoteístas é de que todas elas, cada uma a sua maneira, cultua de um modo distinto um mesmo Deus. Esse parece ser um ponto tão consensual que pouca gente pensa: “se cultuam um mesmo Deus, qual o motivo dessas disputas sangrentas no decorrer de tantos séculos envolvendo cristãos, judeus e mulçumanos?”.
Essa é uma questão inquietante e, na maioria dos casos, quem pensa nela se depara com uma estranha sensação de absurdo. Há uma explicação político social que pode ser aplicada ao problema e que levanta a hipótese de que o cerne dos conflitos que se estabeleceram no decorrer dos séculos entre esses três ramos da árvore de Abraão não é de cunho teológico, mas eminentemente político e econômico. Neste sentido, teriamos um mesmo Deus para interesses completamente distintos. Rotas comerciais, domínio estratégico do mediterrâneo, controle dos poços de petróleo e das nascentes de água do Jordão. Indícios muito mais mundanos de um conflito que passa longe de qualquer dogma religioso. Essa explicação, no entanto, tem um risco. Primeiro, ela contorna o problema e não explica realmente como um mesmo Deus pode instigar tanta discórdia; depois, ela, sutilmente, desmerece a força dos dogmas religiosos na construção da psicologia dos povos.
Pode ser realmente correto imaginar que o motivo fundamental do ódio contra os judeus no meio da comunidade cristã tenha se espalhado no final da idade média, motivado pela expressão de um conflito envolvendo a atividade mercantil e financeira da classe burguesa ascendente e os interesses da aristocracia feudal européia. Mas uma visão dessa natureza não é suficiente para explicar a violência da guerra da reconquista espanhola, nem explicar o massacre de Lisboa no começo do século XVI que forçou a passagem de muitas famílias sefaraditas para o nordeste brasileiro. O ódio que jogou cristãos contra judeus no fim da idade média e que produziu a Inquisição Ibérica, deve muito ao evangelho de João e sua interpretação anti-semita da morte de Jesus assim como ao ressentimento das interpretações escolásticas terem reduzido a Torah a um apêndice do Novo Testamento. Não há como negar que, se o aspecto teológico não é suficiente para explicar todos esses conflitos ele é, ao menos, necessário.
Da mesma maneira, que não há como explicar o conflito árabe-isrraelense (por si só essa expressão já denota um certo conteúdo ideológico, tendo em vista que, do mesmo modo que existem judeus árabes, existem mulçumanos que não são de modo algum árabes) apelando apenas para justificativas econômicas e geo-políticas, posto que algumas das raízes desse conflito residem em interpretações teológicas específicas do significado das escrituras sagradas, que se entranham no imaginário popular e no corpo doutrinário de setores ortodoxos dessas religiões, muitas vezes, dificultando o diálogo.
Uma interpretação pouco ecumênica é a defendida por Harold Bloom no livro “Jesus e Javé”. Como Bloom não é Teólogo, mas crítico literário, e procura enxergar as escrituras sob a ótica de seu texto e das implicações semânticas do que está escrito nele, enxerga de um modo não muito ortodoxo a questão do monoteísmo que surge a partir de Abraão. Para Bloom está claro: Javé, o Deus cristão (Pai-Filho-Espirito-Santo) e Alá não são o mesmo Deus. A dificuldade de estabelecer uma conexão dogmática entre essas três grandes tradições reside justamente no fato de que elas não falam a mesma língua teológica e as influências culturais na composição das doutrinas religiosas são tão diversas que acabam por construir interpretações completamente diferentes acerca da face deste suposto mesmo Deus único. A idéia da unicidade de Deus, que eclodiu no Egito num primeiro momento e depois foi arquitetada pelo povo de Israel, não parece ter conseguido resolver um dos maiores problemas humanos: a incapacidade que temos de lidar com as diferenças.
Pablo Capistrano é escritor e professor de Filosofia. Escreve às segundas no Miolo de Pote.

16 dezembro, 2006

PEDESTAL




















imagem A.Brito www.olhares.com.br

Teu silêncio fere os instantes
Não há palavra que caiba em tua boca moldada e vazia
Nesse tempo, pairo apavorada no teu medo
Fujo daqueles certos olhos de leão do mato
Daquele não sei bem o quê, que mesmo sem saber me tinha

Sempre pudeste me mastigar sem palavra, nem pecado
Mas preferias me olhar dançando no jardim
Até que curioso lambeste um choro meu e distraidamente viciou-te em atar-me na tua crueza

Não me permito ser presa incomodada da tua impassividade
E qual insano precisaria fugir de uma estátua?
Já não anseio o combate final da criatura de torpe armadura

Tua dureza de cobre
Estampa minha inutilidade
Diante de tal monumento
Erguido por minhas mãos aleijadas de amor
Apenas para talvez continuar me atormentando

Por Carol Montone

Meus queridos, estes versinhos tortos e caóticos são tudo o que essa menina torta e caótica pode lhes oferecer em meio a uma semana muito corrida e diante de uma solidão de pedra. Beijos à todos

15 dezembro, 2006

O Martelo e a Bigorna


O fim da boemia bertóldica

Certa ocasião, li uma crônica de Biu Ramos que descrevia a vida mundana de um inveterado boêmio da capital paraibana. Um sujeito que, nos anos 70, de sua companhia sempre teve um violão e meia dúzia de amigos apreciadores da água que passarinho não bebe.
Apesar de reconhecido talento como galanteador, o boêmio não renunciava a condição de noivo de uma bela moça do bairro. Argumentava que sua mulher era exemplar único, que jamais haveria de encontrar uma figura feminina com o seu perfil, capaz de tolerar um violão, amigos e noite a fio de um amante das madrugadas.
Diante de tamanha cumplicidade, o boêmio receoso em perder a ultra, mega, hiper-amélia optou por contrair laços matrimoniais. Na primeira oportunidade em que se aventurou sair com o violão, imediatamente presenciou a reprovação da esposa, que retrucou em tom suficientemente alto para se fazer ouvir pelos amigos do marido que o esperavam na calçada: “Tenha vergonha. Para onde você pensa que vai com esse violão? Você agora é um homem casado, seu irresponsável, não esqueça isso”.
Três décadas depois a capital paraibana perde outro afamado boêmio, ao testemunhar na noite de hoje o casamento do soldado PM Edson Bertoldo. Conhecido por um par de olhos verdes, que aumentam de tamanho depois de dois copos de cerveja, Bertoldo é, provavelmente, outro que a instituição do casamento egoisticamente vai privar às madrugas e aos amigos.
De um Bertoldo boêmio, namorador e tagarela fica a lição de que a vida é para ser vivida em um minuto; de que soldado de polícia não ganha por produção, por isso não precisa andar por aí arrotando valentia e prendendo todo mundo, sobretudo os bêbados; e, acima de tudo, fica a lição de que a amizade é um dom de todos e que a todos deve contemplar indiscriminadamente.
Agora resta implorar a esposa Adenilda que ponha uma rubrica nos termos desse casamento, concedendo a Bertoldo uma vez por ano a alforria casamentária por um dia, para que nós, pobres amigos, não percamos definitivamente o prazer de desfrutar da boemia bertóldica.

Imagem: Boêmios – Tela de Heitor dos Prazeres

13 dezembro, 2006

Babel


Mulheres leitoras
Conta a lenda que durante muito tempo a leitura predileta delas foi o romance. Quem há de negar a tradição? Ninguém, ir contra essa verdade é cometer erros. No caso brasileiro, por exemplo, quando os romances começaram a chegar às livrarias ou mesmo quando ainda havia espaço para publicação de histórias nos velhos jornais, as mulheres liam bastante. Aliás, logo no início do surgimento do romance nas sociedades letradas, as donas de classe média, pequenas burguesas e sabedoras das letras consumiam mais romances que os próprios homens.
Está na historiografia. Até os escritores dão testemunho. Aqui e ali, em poemas e romances do século XIX, encontramos infindáveis referências às mulheres leitoras. Álvares de Azevedo e Castro Alves são nomes. Alencar, o gênio do romance oitocentista brasileiro, ora ou outra faz referência à leitura de romance por parte das fêmeas e a importância do gênero na sociedade carioca do século XIX. Em Como e porque sou romancista, o autor de Senhora descreve sua formação de escritor, mas principalmente dá a conhecer o ambiente cultural e social que acolhia a novidade do romance no seio da corte fluminense. Criador de tipos femininos consagrados (o que ia de acordo com os interesses das madames e mademoiselles leitoras de romances), a certa altura o escritor informa da receptividade que uma obra sua (Lucíola, 1862) teve entre os leitores e, em especial, entre as mulheres: “Apesar do desdém da crítica de barrete, Lucíola conquistou seu público, e não somente fez caminho como ganhou popularidade. Em um ano esgotou-se a primeira edição de mil exemplares, e o Sr. Garnier comprou-me a segunda, propondo-me tomar em iguais condições outro perfil de mulher, que eu então gizava”, diz Alencar.
Num dos mais conhecidos contos de Machado de Assis, “Missa do Galo”, em certo momento do breve e denso diálogo entre o estudante Nogueira e a esposa do escrivão Chiquinho, Dona Conceição, o leitor é surpreendido com a citação de dois famosos romances, um de língua francesa, de Alexandre Dumas, Os três Mosqueteiros, e outro de língua portuguesa do famoso romancista romântico Joaquim Manuel de Macedo. A referência não é gratuita, a personagem Conceição é leitora de romances, e nessa passagem Machado mostra o quanto era comum as jovens, mocinhas e senhoras lerem a mancheia. Conceição observa Nogueira a conduzir o livro Os três Mosqueteiros e depois questiona se o estudante conhece o livro de Macedo, A Moreninha, à época em que se passa a história (por volta de 1861/62), um dos mais famosos e lidos romances brasileiros.
- Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros?
- Justamente, é muito bonito.
- Gosta de romances?
- Gosto.
- Já leu a Moreninha?
- Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
Outra Conceição, dessa vez personagem de O Quinze de Rachel Queiroz, também adorava uma leitura. O sertão velho arretado comendo o couro do seu pretendente, o proprietário Vicente, homem rude e sem letras, e ela comendo os livros deitada numa rede. Em quase todos os momentos do romance Conceição está de livro aberto, inclusive lendo obras de cunho político e social.
Mas isso são casos que mostram mulheres lendo no século XIX e no XX. Claro que entre as mulheres o hábito de ler é bem mais antigo. Imagens de vasos do mundo clássico, já na Grécia de Homero, dão prova de que as gregas gostavam da leitura. Mulheres esposas e cortesãs da época são vistas lendo enquanto as observam os seus bravos maridos guerreiros. Em Roma também. Não o grosso das mulheres, mas as senhoras de classe social alta liam a medonho. Lembro a figura da irmã de Calígula, Julia Drusilla, retratada nas páginas da história (contando-se o cinema também) como uma figura de extrema sensibilidade e conhecimento livresco.
Falar em cinema, numa recente adaptação da história do mito de Casanova, que se passa na Itália do século XVIII, a mocinha lia, discutia intelectualmente com os homens e escrevia sob pseudônimo. O filme dá a medida do charme e encanto da mulher leitora. A personagem de Sienna Miller, Francesca Bruni, é tudo de bom: linda e especialmente inteligente para os padrões da época. Tanto que é a única em toda a Veneza a resistir aos encantos sedutores do famoso Casanova. Mas não age assim à toa, é sua tendência à reflexão sobre os problemas morais da sociedade veneziana e o viver metida em livros de toda espécie que a faz escritora e forte o suficiente para enfrentar a ira da Inquisição Italiana e o preconceito dos marmanjos de plantão.
E que dizer da pintura que retrata a mulher leitora? Simplesmente fantástica. A imagem da mulher leitora feita por alguns pintores é de uma excelência sem par. Novamente o século XIX sai na frente. São muitos os quadros dessa época em que donzelas inimagináveis são vistas lendo pelos cantos das paredes, encostadas sobre árvores, sentadas em leitos de rios, em paisagens naturais, distraídas em sensações mirabolantes de prazer proporcionado pela leitura, às vezes até adormecidas com um livro ao colo.
Vendo esses quadros, penso em leitoras maravilhosas como Emma Bovary, Eugênia Grandet, Madame Ana Karenina, Luisa Mendonça, Madalena Honório. Não são mulheres exatamente reais. Há as mulheres reais e as inventadas, mas estas e aquelas são uma só. Tomando a personagem de Flaubert como modelo e o conseqüente e discutido termo bovarismo, jamais me pareceu que as mulheres fossem tontas alienadas que, ao lerem, nunca soubessem o que buscam. Se não sabem, ainda assim, ao se entregarem ao êxtase de um romance ou ao prazer da reflexão pura, em livros de outras áreas, estão sempre em busca de alguma coisa. Não estão?
Uma mulher real: Sóror Juana Inés de la Cruz. Conta Octavio Paz na biografia Sóror Juana Inés de la Cruz: As armadilhas da fé que a poeta queria muito aprender, era seu sonho desde muito jovem tornar-se uma intelectual. No México do século XVII uma mulher intelectual não era tão comum. Mas Inês não economizou esforços para tal. Antes de tornar-se freira, Juana teve a ousadia de pretender vestir-se de homem para poder freqüentar a universidade que, nesse tempo, era privilégio da cambada masculina da sociedade. Louca? Talvez. Devota dos livros, Inês dedicou-se com afinco à literatura; e mesmo após ter renunciado ao estudo das letras, antes de morrer havia se tornado uma das principais poetas da língua espanhola.
Hoje, as fêmeas ainda lêem muito (o que me espanta), apesar de não tanto quanto as do passado. Ora, mocinhas de antigamente não tinham a Internet, nem a televisão, às cinco e quinze da tarde não começava a Malhação. Tampouco as moças malhavam. Sem essas novidades modernas, era a leitura quem as tirava da mesmice diária levando-as ao conhecimento, à fantasia, ao delírio, às viagens emotivas e aos sonhos de todos os tipos.

Imagem 1: Sóror Juana Inés de la Cruz.
Imagem 2: Reprodução de vasos gregos (detalhes).