31 outubro, 2006

Eu amo Clarice

Há um tempo atrás, alguém ironizou os meus escritos chamando-os de catarse que pretendia ser lispectoriana. Dei a este comentário a mesma importância que dou a pré-julgamentos – especialmente porque foi um pseudo-anonimato. Mas confesso que ele ficou borbulhando por sob a pele. Não pelo seu caráter pejorativo, mas por criar em mim interrogações novas. Nunca havia me perguntado sobre meu grande amor por Clarice Lispector.
Tudo começou quando eu ainda era uma pré-adolescente. Pelas mãos de um professor fui apresentada ao livro Água Viva. A primeira leitura me deixou excitada. Como se as páginas guardassem estimulantes hormonais que me fariam mulher. E guardavam. Não os estimulantes sexuais, mas algo que tinha efeito muito parecido. E esta leitura foi feita com a respiração suspensa e o fôlego à beira de um colapso.
Descobri a chave de muitas outras portas a serem abertas. Água Viva me levou a um sem-número de escritos que, aparentemente irregulares, fugiam a qualquer tentativa de comparação com tudo que eu já tinha lido. Descobri Clarice Lispector. Sua inteligente e inventiva linguagem coloquial e seus profundos questionamentos da condição humana levaram-me, ainda adolescente, a buscar entender o mundo à minha volta. E aguçaram minha intuição para transitar entre os claros e escuros da vida.
Atravessei a adolescência sorrindo para Clarice. Como se através de seus livros eu a tivesse ao lado. E ao longo de todos estes anos, estive de mãos dadas com ela. Fascinada com o mundo poético que ela criou e que reflete a liberdade da escrita. Fascinada com o seu brilhante tormento, que mais parece uma tempestade de raios prestes a rasgar a face oculta do ser. Ao mesmo tempo, invejosa da doçura do feminino que ocupa espaços sem gritos, numa ação interior que convida ao mergulho e promete renascimento. Racional e instintiva, Clarice traduz-se para mim na busca da própria consciência. Portanto, uma sempre instigante, sempre original, sempre libertária leitura.
Então é assim: Clarice foi grande paixão que ocupou os hiatos da minha adolescência e foi ressonância, durante anos, para a clandestinidade dos meus sentimentos. Hoje é amor. E como todo amor, é deriva e porto, partida e chegada, alquimia e exorcismo. E mais não sei explicar, porque amor é vida. E de vida só entendo que viver ultrapassa todo entendimento.


Imagem: Clarice Lispector retratada por De Chirico

30 outubro, 2006

Nunca diga sempre - Por Pablo Capistrano


No final de Novembro de 1974, em pleno inverno alemão, o cineasta Werner Herzog recebeu um telefonema. Um amigo que morava em Paris trazia uma notícia terrível. Lotte Eisner, crítica de cinema e responsável pelo impulso necessário ao primeiro longa de Herzog, Sinais de Vida (1969), estava morrendo. Herzog não pensou duas vezes. Pegou uma bússola, um casaco, um par de botas novas e uma sacola com alguns pertences e iniciou uma peregrinação que o levaria, à pé, de Munique até Paris entre os dias 23 de Novembro até 14 de Dezembro daquele ano.
Por algum motivo estranho, por alguma fé avassaladora no mundo e em seus mistérios, Herzog acreditava que poderia salvar a vida de sua amada amiga, bem mais velha do que ele. Enquanto ele andasse, ela permaneceria viva. Enquanto ele enfrentasse o frio e o vento gelado do inverno, ela se manteria no mundo, porque não seria possível, não seria nem justo nem certo que ela morresse antes de vê-lo uma última vez.
Sempre que eu releio os registros da viagem de Herzog, me pergunto o porquê de, em alguma esquina dessa vida, o homem ter se acostumado com o sempre. Sempre vivo, sempre presente, sempre à disposição. Talvez como uma forma de manter firme nossa própria sanidade, criamos a alegoria do sempre. A metáfora da eternidade. A sensação de que as coisas, em sua radicalidade, não passarão. Talvez seja esse um erro de juízo acerca da seqüência dos fatos no mundo, ou mesmo uma sensação forte, derivada da única experiência possível que temos do tempo: O presente.
Sim porque, a rigor, todo o tempo que experimentamos é o absoluto e radical agora. Lembramos do que ocorreu ontem, no instante presente; sonhamos com o que vai ocorrer amanhã, no instante presente. Não sentimos o futuro, assim como não experimentamos, mais uma vez qualquer, o passado. Confinados no presente, somos apresentados à eternidade, que nos salva e nos consome, nos arrebata e nos destrói. Somos livres quando mergulhamos no presente e absolutamente escravos, quando não conseguimos sair dele. Acho que estou escrevendo isso porque hoje, mais do que os outros dias e as outras noites de minha vida, eu tenho medo do futuro. Tenho medo de que o sempre seja apenas o reflexo do giro do tempo na minha mente perturbada pela sensação de fragilidade dos dias em que vivemos.
Como Herzog, não queria que o presente passasse. Porque, se só ele existisse, eu seria livre e eterno, imune à qualquer dor e a qualquer sofrimento. Como Herzog, em sua luta para tornar o futuro um ponto mais distante, para retardar aquilo que vai acontecer de qualquer forma, para evitar que sua amiga morresse de uma doença fatal, gostaria de ter uma chave oculta, num gesto radical e sem sentido, como só os gestos de uma alta magia sabem ser radicais e sem sentido, para que meu presente não passasse. Mas as lições de meu tempo, a mensagem desses dias assombrados por tantos presságios ruins, me ensina a nunca dizer sempre. A nunca acreditar naquilo que minha experiência me mostra. A não aceitar que o agora seja apenas um ponto irreal, no meio de um fluxo que me leva do passado para o futuro. O tempo me atravessa. E meu Eu, atravessado pelo tempo, se metamorfoseia sem parar em todos os infinitos “agoras”, que a eternidade da minha vida me apresenta. Nunca diga sempre, se você não pode realmente, acreditar nele.

Pablo Capistrano é escritor e professor de filosofia. Escreve às segundas no Miolo de Pote.
Site do autor: www.pablocapistrano.com.br

Imagem: http://www.filmreference.com/images/sjff_02_img0696.jpg

29 outubro, 2006

Os dois lados da moeda - Por Patrick Gleber



A possível ducha de votos que Luiz Inácio Lula da Silva promete tomar nesse segundo turno não terá o condão de colocar uma pedra sobre as investigações criminais envolvendo o PT e a campanha do presidente. A Polícia Federal e o Ministério Público não são instituições submetidas ao cronograma do Tribunal Superior Eleitoral. Urna é para eleger, polícia é para investigar, promotoria é para acusar e juiz é para julgar. E a imprensa é para contar às pessoas o que está acontecendo nessas esferas de poder. As coisas são (ou deveriam ser) simples assim.

O país tem o direito de conhecer todos os detalhes da operação dossiê. Ou de qualquer outra acusação ou dúvida que envolva este governo. Ou governos anteriores. Essa é a regra do jogo da democracia. Mas, se a regra está em vigor, ela vale para os dois lados. Para as duas faces da moeda. Se o julgamento político das urnas não tem o poder de abolver acusados de crimes, tampouco o julgamento político da opinião pública deveria ter o poder de condená-los. Se a maioria eventual nas urnas não apaga a folha corrida de ninguém, tampouco a maioria eventual no tribunal político de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (ou de um plenário, ou de um editorial de jornal) deveria ter o poder de condenar alguém em última instância. Aí parece residir a inconsistência de certas teses. Citações em relatórios de CPIs são tratadas como condenações políticas transitadas em julgado pelos mesmos que recusam ao eleitor a prerrogativa de "anistiar" alguém na base do voto. É o princípio orwelliano de que todos são iguais mas alguns são mais iguais do que os outros.

O linchamento político é legítimo, dizem, se a maioria assim o desejar; mas não aceitam a legitimidade da purificação quando a maioria assim se manifesta. Cassar o mandato de alguém sem provas é razoável, dizem, para efeito de profilaxia política; mas os que se arrogam o direito quase divino de suprimir, sem provas, a vontade do eleitor (expressa num mandato popular) não dão ao eleitor o direito que pedem para si. Quer saber das convicções democráticas de alguém? Tente aferir o quanto ele respeita os direitos de quem está na outra trincheira.

Patrick Gleber
é paraibano da cidade de Cajazeiras, estudante e editor do http://www.blogdopatrick.blogspot.com/

28 outubro, 2006

Doutor da Praça - Por Crys


Hoje fui pra minha caminhada costumeira na Praça da República. Já passava das seis e meia da manhã, estava uma manhã tranqüila... Pelo menos é o que parecia a princípio.

O tempo estava nublado, o céu com algumas nuvens escuras (nessa época do ano as chuvas são mais constantes em Belém), apesar das nuvens se mostrarem no céu, eu tinha esperança que o sol brilhasse. Durante a caminhada, olhava atenta a tudo que se passava em volta da praça com suas mangueiras majestosas formando um túnel verde.

Ali na praça sempre há concentração de artesões, fazendo bijuterias. Em uma das voltas da caminhada vi ao lado de um artesão uma mulher sentada que de repente caiu para trás e bateu a cabeça na calçada. Nos primeiros minutos parei e fiquei olhando enquanto os outros artesões corriam em socorro à mulher.

Vi também que se afastaram tão rapidamente de como se aproximaram. Não entendi nada. Mas fiquei curiosa e me aproximei pra ver o motivo pelo qual se afastaram de lá. Afinal, parecia que a moça precisava de ajuda. Foi então que percebi o seu companheiro tentando abrir os olhos da moça desfalecida com força, percebi também, que a mulher estava grávida de uns seis meses mais ou menos. O infeliz do seu parceiro empurrava um garotinho de uns quatro aninhos e pedia insistentemente que ele puxasse o pé da mulher.

Pelo sotaque, parecia ser nordestino. Embravecido ele puxava os olhos da mulher com tanta força que parecia que ia rasgar. Lá fui eu, completamente incomodada com a situação, me aproximei pra prestar a minha solidariedade, falei:- Ei moço, a moça está desmaiada, não adianta forçar o olho dela pra abrir, porque não vai acordar desse jeito, é melhor telefonar para o 192, eles vem buscá-la.O homem arregalou dois "olhões" de ódio em cima de mim e falou:- Vai morrer pra lá sô, eu não quero opinião de ninguém, eu sei que tô fazendo.Falava com tanta raiva que eu me assustei e me afastei de imediato.Alguns metros do casal, uma outra moça sentada, fazia uns brincos e ao notar minha preocupação, sem me fitar e de cabeça baixa, falou:- Não adianta não moça, esse parceiro da Diana é um grosso, mas nós já telefonamos para ambulância.Fiquei ali, sem me afastar do local, aflita esperando o socorro chegar pra ver os acontecimentos finais.

Minutos depois, chega a ambulância. Dois enfermeiros descem, chegam até a mulher caída e tentam colocá-la na maca. Mas são impedidos pelo parceiro, que grosseiramente, parte para cima dos dois maqueiros. Assustados recuam sem saber o que fazer. Os dois bombeiros que acompanhavam a operação de resgate ao verem aquela cena, aproximam-se para saber o que estava acontecendo. O tal marido valentão parte também pra cima dos dois bombeiros que são obrigados a se defenderem e com uma rasteira imobilizam o "valentão" no chão e o algemam. Ele é carregado para a ambulância junto com a mulher e o filho pequeno. Inconformado o individuo começa a gritar:- Solta eu moço, solta que eu sei tomar conta dela. Não preciso de ninguém. Ela é o meu amor moço... Eu preciso cuidar do meu amor.

Ele é ignorado e levado na marra, presenciado por pedestre que se juntaram no local, alguns com expressões de tristezas e outros que riam do acontecimento.

O sol já brilhava timidamente quando atravessei a rua em direção a minha casa. Escutava o barulho da sirene se afastando, eu com aquela cena toda na mente me perguntava a todo instante?- Meu Deus, que forma de amor é essa?

Crys - do Blog Jardim de Letras - http://letrasecrystais.zip.net/
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27 outubro, 2006

O Martelo e a Bigorna


O caleidoscópio

“O nosso amor será como um caleidoscópio, uma realidade sempre curtida por ângulos diferentes para não perder a graça” - dizia com freqüência Cueca Melada, emaranhado aos braços de sua namorada.
“Então façamos dos nossos dias fragmentos de vidros coloridos que dêem às nossas vidas uma feição sempre distinta e encantadora aos nossos olhos” - ratificava sua amada Beterraba numa linguagem sempre contaminada por pronomes possessivos.
Assim eles acreditavam que deveria ser o amor, um sentimento plural, versátil e heterogêneo, capaz de ser provado multifacetadamente. Sua manifestação seria diversa e alegórica, insubordinada a qualquer paradigma.
Cueca Melada e Beterraba faziam questão de ressaltar que a manifestação dos seus amores seria diferente de todas as formas de amar até então observadas. Um amor que não era prosa nem poesia, pois se assim o fosse deixaria de ser um caleidoscópio e passaria a ser pastiche.
Para ser amor, argumentavam, tem que ser diferente, único, transcendente a qualquer fórmula ou enquadramento. Era a mais promissora chance de dar certo.
Defendiam que o amor deveria mesmo era ser posto a prova de tudo, conviver continuamente com turbilhões, maremotos, terremotos e vendavais, assim não sucumbiria a qualquer crise que viesse a chacoalhá-lo. Amor não é esteira de vime, sombra e água de coco, porque se assim se configurar terá uma baixa imunidade. O amor tem que ser resistente, teimoso e ousado, estar acima de qualquer pleonasmo.
O grande equívoco de Cueca Melada e Beterrada foi acreditar que o amor tem uma dinâmica própria que independe de suas partes, que se manifesta espontaneamente. Eles não sabiam que o amor para ser caleidoscópio necessita não apenas do olho atento, da vigília, mas acima de tudo ser inimigo da inércia e embalado pelo movimento.

Imagem: http://www.guardaqua.it/foto/sperimentali/serief01.jpg

26 outubro, 2006

Da vocação de se contar histórias - por Maria Clara dos Anjos


Os primeiros registros que indicam trocas de comunicação entre os homens datam da pré-história - os desenhos de caçadas de animais nas cavernas representavam, tal como hoje, manifestações da fala, do ato de se comunicar. Hoje as diversas manifestações da fala evoluíram e podemos contar não só com os relatos orais como com tudo o que circula no universo da comunicação humana - desde a impressão de livros, jornais, revistas e tv, ao rádio e à Internet. Meios que continuam a manter viva a capacidade de comunicação entre a espécie humana, permitindo a convivência de igual para igual entre os grupos sociais.
Ora, foi com a organização dos grupos sociais que o homem passou a conviver com o contar-ouvir histórias – experiências que compreendem desde os relatos cotidianos da vida de cada um à leitura individual de um livro, ou à leitura partilhada, coletiva. O contar-ouvir histórias se dá, pois, porque desde sempre o homem sentiu a necessidade de dividir com o outro a sua vida, costumes, sonhos e ideais.
O contar-ouvir histórias envolve toda uma complexidade dos envolvidos que passa pelo simples ato de ouvir o outro com ou sem interesse a uma gama de sentimentos como: tristeza, raiva, irritação, bem-estar, medo, alegria e tantos outros que envolve a arte de contar histórias.
Na verdade, em nossos tempos já não se reúnem mais grupos em volta de um livro ou de um bom narrador, o costume de ler é bem mais solitário, individual mesmo, e poucos de nós tem o hábito de comentar com outros sobre o que leu, trocando impressões sobre o livro lido, ou muito menos nos habituamos a ler em voz alta para um ou outro interessado.
Por outro lado, a cultura do livro permanece viva e se produz em grande escala literatura em todo o mundo. A oferta de materiais de leitura é grande, sabemos, mas infelizmente há no mundo um grande número de analfabetos, pessoas que por diversos motivos não tiveram a oportunidade de se encaixar no mundo dos “letrados”.
Acredito que o relato oral, o contar histórias é de grande valia porque dá oportunidade ao outro de enveredar por um mágico e delicioso mundo, caminhando rumo ao desconhecido, mas é também não apenas conhecer um mundo novo como é descobrir-se e redescobrir um mundo de perspectivas.
Nosso grande desafio hoje é manter viva a memória dos grandes contadores de histórias, resgatar estas e propagá-las, mantendo vivo o elo entre passado e presente na escritura do livro da vida da humanidade, fazendo valer aquela velha máxima: quem conta um conto aumenta um ponto. O contar histórias é um hábito tão antigo quanto a própria existência humana - some-se a isso que ao nascer cada homem dá o pontapé inicial na escritura de sua vida e assim sua história passa a ser contada e recontada todos os dias. Portanto, é esse contar-recontar histórias que faz a vida mais bonita e mais possível de ser vivida, pois sempre que houver alguém disposto a narrar uma boa história confirmaremos que contar história fez e sempre fará parte da vida do ser.


Maria Clara dos Anjos, pedagoga, professora do Ensino Fundamental na cidade de Cajazeiras – PB é colunista convidada desta quinta-feira, no Miolo de Pote.

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25 outubro, 2006

Babel

Eliot e o verso livre

Dramaturgo, ensaísta e poeta americano, Thomas Stearns Eliot (1888-1965) é um dos mais importantes e influentes nomes da literatura de língua inglesa do século XX. Nascido nos Estados Unidos, em St. Louis, Missouri, Eliot foi talvez o poeta que mais soube tirar proveito da mais importante conquista formal da poesia moderna: o verso livre. Poucos valorizaram tanto esse tipo de verso e a partir dele construíram tão extraordinária obra como o autor de Four Quartets, obra prima da literatura de tendência místico-religiosa do Ocidente, publicada pelo autor em 1943, e que tem no uso do verso livre um importante recurso.
Li recentemente a Poesia Completa de Eliot. Do primeiro ao último texto do livro não me saiu da cabeça a impressão que tive do poeta, de quem tanto já ouvira falar por citações e referências, mas de quem não tinha provado ainda o sabor do poema. Impressionou-me o feitio prosaico que Eliot dá ao verso livre, indo muito além das primeiras experiências poéticas que todos conhecemos nos poemas de mestres modernistas como Bandeira, Mario de Andrade e Oswald de Andrade, por exemplo. No Modernismo, não esqueçamos, o verso livre era o recurso ideal para aproximar a poesia da mais comum das linguagens: a cotidiana, a linguagem diária das massas.
Enquanto poeta modernista, Eliot fez do verso livre um experimento incomum na poesia moderna. Na sua obra a linguagem ganha na renovação do estilo literário porque dá ao leitor a sensação de experimentar a um só tempo dois registros lingüísticos: o prosaico e poético. Poema que se lê como prosa e prosa que se lê como poesia, como pregavam os modernistas. Mas muito mais: o idioma de Eliot é, diferentemente, livre dos excessos de estilizações poéticas e de estilizações prosaicas, típico de um parnasiano, num caso, e de um primeiro modernista, no outro. Ou seja, a linguagem eliotiana encontra a medida exata, o equilíbrio ideal entre uma e outra forma de registro, conseguindo uma expressão, diria, pouco comum em termos de linguagem literária. E isso sem que se observe prejuízo semântico de nenhuma natureza.
Tem um poema do Eliot que eu acho fantástico. Simplesmente uma das peças que considero das mais bem escritas em língua inglesa. O poema é de seu primeiro livro, Prufrock and Other Observations, de 1917, e chama-se “Morning at the window” (Manhã à janela). No poema Eliot procura descrever uma cena de rua comum no cotidiano da sociedade americana de início de século XX: enquanto cai a neblina, passeiam as pessoas em suas simples e tristes vidas. Mas o poeta vai além de uma simples descrição do prosaico cotidiano.
Em “Morning at the window” um observador coloca-se em posição voyeur à frente de uma janela onde, inesperadamente, capta o sorriso “sem destino” de uma passante com saias enlameadas que surge entre as “retorcidas faces” das ruas. O quadro é cinematográfico: o poema desenvolve-se num movimento de câmera que parte da intimidade sentimental do sujeito lírico que olha da janela para a rua e desta em direção ao “sorriso sem destino” que modifica completamente sua manhã.
Na versão original do poema, são duas estrofes que totalizam 09 versos, assim divididos: na primeira, quatro versos de total prosaísmo; nos outros cinco da segunda estrofe, recursos estilísticos sonoros e poéticos dão aos versos a carga semântica própria para o equilíbrio entre a prosa e a poesia dos versos.
Para o que estamos dizendo, vale a transcrição do poema, traduzido por Ivan Junqueira: Há um tinir de louças de café / Nas cozinhas que os porões abrigam, / E ao longo das bordas pisoteadas da rua / Penso nas almas úmidas das domésticas / Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviços. // As ondas castanhas da neblina me arremessam / Retorcidas faces do fundo da rua, / E arrancam de uma passante com saias enlameadas / Um sorriso sem destino que no ar vacila / E se dissipa rente ao nível dos telhados. Singularíssimo o equilíbrio entre o prosaico e o estritamente poético. Notem que o verso livre age nesse sentido: tão importante é para a construção do poema que por pouco não captamos a mensagem poética nuns versos quase que completamente prosaicos.
Acostumado a poetas da língua pátria, quando você começa a ler um outro poeta reconhece o quanto a poesia tem de universal, o quanto a linguagem poética extrapola limites geográficos, estéticos, políticos, sociais e ideológicos. A obra de Eliot assim me parece. Cultor do verso livre, crítico e renovador da literatura inglesa do século XX, o poeta aprofunda os questionamentos da tradição poética do Ocidente revelando um mundo de possibilidades poéticas ainda pouco em voga na poesia moderna. T. S. Eliot, para além do exímio poeta do verso livre, traduz a justa medida dos movimentos da modernidade. Sua poesia é, ao tempo que crítica e impactante, mística, de sabor metafísico e filosófico. Sem contar as incontáveis referências culturais que perpassam seus poemas e sua, às vezes, negativa e humorística visão de mundo – formidável!
Em certo sentido pode-se dizer que na ponta de lá (1917) está o poeta de cá (dos últimos poemas, de 1956 em adiante). É o que diz o próprio Eliot em dado momento de Four Quartets, “In my beginning is my end” (Em meu princípio está o meu fim). Mas suas palavras ainda se movem, como ele queria: “antes do princípio e depois do fim”.

Imagem: http://content.answers.com/main/content/wp/en/thumb/3/3b/180px-Tseliot.jpg

24 outubro, 2006

Palimpnóia

Dona do medo



Detesto avião. Era o que eu dizia até ser obrigada a entrar em um.
Foi há muitos anos. Meu marido trabalhava num longínquo acampamento em Porto Trombetas, plena mata amazônica. Além de ter me negado a morar por lá, me negava a visitá-lo. Só conseguia pensar nos mosquitos, jacarés, piranhas e onças. Nem a falta dele era maior que meu horror aos bichos.
Um dia recebi um telefonema dizendo que ele havia sofrido um acidente. Rezei tudo o que eu não sabia e me vi olhando um destes aviões rombudos, terrivelmente enormes. Ali, prestes a subir a escada, confessei a mim mesma: eu estava me desmanchando de medo. Pensei em desistir e enfrentar não-sei-quantos-dias em não-sei-quantos-ônibus. Mas este meu não saber de tempo e espaço poderia ser fatal. Eu não era dona do tempo, nem da vida do meu marido. Será que ele esperaria o tempo do meu medo?
Entrei na aeronave como caipira em cidade grande. Um tantinho maravilhada, outro tanto grande apavorada. Como é que aquele troço enorme conseguiria voar, meu Deus? Por que Santos Dumont tinha que ter inventado aquilo? Melhor teria sido inventar um metrô que cortasse o chão até a Amazônia. E as preces silenciosas brigavam com o terror que me fazia visualizar todas as tragédias possíveis e impossíveis. Lembrei-me até daquele dirigível que despencou lá no começo desta aventura de voar. E ao final de cada pensamento o consolo era saber que a agonia não passaria de alguns minutos.
O medo ainda me paralisou pelo tempo em que o avião ficou no chão. O coração dançou todos os ritmos quando ele começou a taxiar. De olhos apertadíssimos tentei pensar em flores, mares, estrelas e tudo que pudesse me parecer belo. Só não queria pensar nos meus filhos sem mãe. Nem em mim voando sem asas e candidatando-me a um pouso eterno. E tudo isso sem poder acender um cigarro.
Como por milagre, o medo passou completamente ao receber a ordem de desapertar o cinto. Eu não sentia nada. Absolutamente nada. Nenhum movimento, nenhum barulho ensurdecedor, nenhum cheiro de queimado. Foi a viagem mais tranqüila que havia feito em toda minha vida. Até deu fome. E vontade de tomar sorvete. E um íntimo desejo de fazer poesia.
Ainda penso nela toda vez que uma situação nova ameaça me paralisar. Começo por admitir meu medo. O que nem sempre é fácil. Tenho sempre que me lembrar que não é preciso ter medo de ter medo. Porque o medo é natural. Como posso me sentir corajosa se não há o desafio de enfrentar o medo? E lá vou eu provar a mim mesma que sou dona do medo. Que posso mais do que imagino, embora possa menos do que gostaria.
(Agora eu só gostaria de ser dona das asas. Asas do tempo, de preferência.)

23 outubro, 2006

A mãe de Brecht – por Pablo Capistrano



Para quem só conhece o camarada Bertold Brecht (poeta e dramaturgo alemão) pelo mais famoso poema dos livros didáticos de história do ensino fundamental que fala do tal analfabeto político, deve se assustar em saber que nem só de cartilhas ideológicas e militâncias políticas vivem os poetas. Brecht também teve uma mãe. Real ou poética, e entre 1913 e 1926 escreveu uma série de “salmos” (pois é amigo leitor, salmos... quem diria) nos quais as imagens de mulheres passeiam no meio da dor do poeta pela perda da mãe (real ou imaginária). Num dos poemas mais belos, traduzido para o português por Paulo César de Souza, ele diz: “Eu sei, amada: agora que me caem os cabelos, nessa vida dissoluta, e eu tenho que deitar nas pedras. Vocês me vêem bebendo as cachaças mais baratas, e eu ando nu no vento/ Mas houve um tempo, amada, em que era puro./ Eu tinha uma mulher que era mais forte do que eu, como o capim é mais forte do que o touro: ele se levanta de novo./ Ela via que eu era mau, e me amou./ Ela não perguntava para onde ia o caminho que era seu, e talvez ele fosse para baixo. Ao me dar seu corpo ela me disse: Isso é tudo. E seu corpo se tornou meu corpo./ Agora ela não está mais em lugar nenhum, desapareceu como uma nuvem após a chuva, eu a deixei, ela caiu, pois este era seu caminho./ Mas à noite, às vezes, quando me vêem bebendo, vejo o rosto dela, pálido no vento, forte, voltando para mim, e me inclino no vento”.Se as primeiras formas de religiosidade humana prestam ou não reverência a deusa com cara de mãe eu não sei. Há sinais de que essa mulher que aparece com sua face no vento está na base de boa parte dos cultos humanos que floresceram a partir do leito dos grandes rios da Ásia e que seu culto se espalhou pelo ocidente. Ísis, Tiamat, Ishtar, Ceres. Faces de uma mesma e absoluta mulher. Junto com seu culto ocultado pela força masculina do YHWH judaico, muita poesia se escreveu para nosso júbilo. Um dos registros mais antigos escritos em galego-português são as Cantigas de Santa Maria, compiladas durante o reinado de Afonso X e que se disseminaram a partir do norte de Portugal e da Espanha pela resistência celta à influência berbere na península ibérica. As Cantigas ganharam versões modernas e estão à disposição pela Internet. Alguns cristãos reformistas podem até não concordar, mas a base fundamental do culto a Maria na península ibérica, a partir dessas influências celtas, parece mesmo fazer referência ao nosso primeiro grande amor. Um amor cantado nas trovas medievais, no lirismo das musas românticas, nas imagens de olhos oblíquos e dissimulados das Capitus, nas tragédias das madames de Flaubert, na indefinição elouquecedora da Carlota de Werther, na louca morta no hospício do Kadish de Ginsberg, ou mesmo nas mamães coragem de Brecht e Torquato Neto.

Pablo Capistrano é escritor e professor de Filosofia. Escreve às segundas, no Miolo de Pote.

20 outubro, 2006

O Martelo e a Bigorna


O alento da Loba



Desde cedo fui motivado pela pérola chapliniana que afirma ser a persistência o caminho do êxito. Que o diga tantas e tantas paqueras de outrora, que vencidas pelo cansaço acabavam sucumbindo a promover-me namorado, mais pela minha insistência do que por qualquer outro predicativo.
Insistindo aqui, forçando a barra ali, perseverando mais adiante, essa tem sido a dinâmica que historicamente vem governado as minhas ações. Num esforço quase descomunal, o sujeito tem que buscar transcender a si e a suas limitações, eis o ritual da superação.
Muito me inquieta quando a Euza Noronha afirma que para alguém manter uma coluna é necessário, antes de tudo, ser um cronista. Se assim o fosse, ou se eu tivesse o bom senso de reconhecer que assim o é, neste espaço já estaria aberta mais uma vaga para colunista. Mas vejo o universo dos blogs como algo que personifica uma existência didática, espaço de divulgação de idéias que não são castradas diante de uma política editorial restritiva, incapaz de dá voz aqueles que se aventuram a trilhar o caminho das letras.
Longe de serem ridículos, os blogs de adolescentes que devotamente escrevem todos os dias acontecimentos do seu cotidiano, como se o fizessem em um diário, atuam como uma espécie de mão professoral. Um eficaz mecanismo para disciplinar a escrita, não apenas como uma prática corriqueira, mas como um exercício que se encaminha rumo ao aprimoramento literário. Portanto, longe de me considerar cronista, intitulo-me como um mequetrefe da literatura virtual, um marinheiro de primeira viagem que utiliza o ciberespaço para trocar idéias e disciplinar a escrita. Acredito que, entre tantas outras, esta é a função literária dos blogs.
Portanto, não fiquemos constrangidos ao comparar nossa produção a dos grandes ícones da literatura nacional, a menos que tentemos fazer da produção literária o que fizeram eles, um ofício cotidiano. Mas quem, como eu e tantos outros blogueiros que têm na produção intelectual do blog somente um hobby, devem apenas lamentar que deste universo o que nos falta mesmo é o cheiro de mofo.
Faço minhas as palavras do antropólogo Evans-Pritchard, uma vez que os homens devem julgar suas obras pelos obstáculos que superou e as dificuldades que suportou e, por tais padrões, não ficar envergonhados dos resultados. Assim é o mundo das letras, um exercício de superação e disciplinamento intelectual.

19 outubro, 2006

Gramática no cordel - Por Rosenval de Almeida



Há poucas gramática genuinamente diferenciadas.
Uma é aquela Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil, escrita pelo Padre Jose de Anchieta em tempos quinhentistas (1595), ainda nos primórdios da colonização lusitana nestas terras da América do Sul. Essa normatização da língua tupi tinha por fim iniciar os catequizadores da Companhia de Jesus no idioma indígena mais falado no litoral brasileiro. Pois, só assim, os padres-mestres poderiam lograr êxito na missão de cristianização da gente nativa de Pindorama.
Uma outra gramática é, seguramente, a obra Gramática no cordel, escrita pelo professor-poeta Janduhi Dantas. Trata-se de um jeito novo de se fazer arte de gramática. O autor, com o seu talento professoral e como seu gosto apurado pela poética do cordel, faz uso magistral da melodia e da métrica da sextilha em favor da língua portuguesa.
A Gramática no cordel é um convite leve e alegre ao exercício das regras essenciais dessa língua de Luis de Camões e Machado de Assis. É justamente essa peculiaridade, a fusão de gramática e poesia, que faz desse livro um instrumento didático-pedagógico de muita valia para o estudante e para qualquer pessoa que nutre interesse pelo registro formal desse idioma que aqui aportou coma as naus de Cabral. A Gramática no cordel é um engenhoso serviço prestado à escola de qualquer recanto deste Planeta em que se fale a língua portuguesa.
Parabéns! Tal atitude deve ser saudada como uma declaração de amor ao Brasil, posto o zelo ao idioma mátrio e à cultura popular brasileira. Viva!

Rosenval de Almeida – Colunista convidado desta quinta-feira. Professor de sociologia da Universidade Federal de Campina Grande.


TRECHOS DE GRAMÁTICA NO CORDEL:

Juntei, leitor, neste livro
A arte com a profissão:
No Cordel, pus a Gramática
De Português, uma paixão...
Uma idéia acalentada
Há tempos, realizada,
Isso dá satisfação!

***

Colocar acento em coco
É um erro bem danado!
Principalmente no fim
Se o acento é colocado
Pois ninguém está maluco
De beber “cocô gelado”!

***

Por meio de Genivaldo
Foi que conheci Moisés”
“Meu pai aprendeu a ler
Mediante bons cordéis”
Por meio de, mediante
E não o nome através.

***

A crase antes do verbo
Não há como colocar:
Verbo não aceita artigo
(é por isso que não dá) –
“Com dinheiro a receber,
Tenho contas a pagar”.

18 outubro, 2006

Babel

Aula de literatura

Numa aula de literatura o mais importante é o texto literário e o leitor desse texto. Em torno do ritual que se estabelece até que a literatura mesma seja a protagonista da experiência de sala de aula, só ficam duas coisas: a compreensão do texto, ou seja, a apreciação da obra literária enquanto forma de linguagem mediadora de mensagens e significações que vai além da linguagem comum que todos usamos cotidianamente e o leitor educado para a leitura dessa obra.
A conversa em torno da relação entre historiografia e o conjunto da obra do autor, dados em torno da biografia ou do tempo histórico a que o autor está ligado, as observações sobre temáticas e pontos de vistas, os conceitos estéticos e ideológicos de alguma tendência, nada sobrevive tanto quanto a experiência do leitor com o próprio texto literário. Ora, é esse o objetivo último do ensino da literatura: criar leitores capazes de ler satisfatoriamente o texto literário, apreciando-o com posicionamento crítico e compreendendo sua especificidade enquanto produto de uma linguagem tida universalmente como artística.
A leitura de obras em conjunto pode dar mais trabalho que a leitura de um único texto de um autor. Por isso que em aulas de literatura preferem-se os textos menores que, por questões de tempo e por necessidade de se avançar na disciplina, levam ao reconhecimento da importância da obra de determinado autor, ou podem sugerir futuras leituras desse ou de outros autores de igual período. O certo é que se tratando ou não de leitura obrigatória (leia-se vestibulares e afins), o estudo sistemático do texto na sala de aula pode provocar posteriores experiências com a literatura.
Já vi muitas vezes a aula de literatura se transformar numa atividade tão prazerosa quanto qualquer outra que o aluno em idade jovem venha conhecer. Claro que pode haver o contrário, de os alunos não se interessarem por literatura. E aí a culpa pode ser das escolhas que todos fazemos, alunos e professores. Pode ser que a leitura do texto não tenha sido agradável, que ele não tenha sido bulinado o suficiente; também pode ser que, em princípio, ninguém haja sabido tirar do texto seus significados e, com isso, o que ele tem de mais importante: a beleza poética contida nos interstícios do objeto-linguagem.
Mas onde se encontra a beleza do texto poético ou literário? Como reconhecê-la? Para quem está começando a entender o texto literário nada mais certo que retomar a famosa frase do poeta e crítico norte-americano Ezra Pound, segundo a qual literatura é linguagem carregada de significado até o máximo grau. Um professor de literatura que queira dar uma aula de introdução aos estudos literários tem aí uma das melhores definições didáticas para a literatura. Não que esta tenha validade universal, mas convenhamos que, ou Pound ou Poe, essa idéia de literatura entra mais fácil na cabeça de um aluno brasileiro quanto na de um chinês. Quando um leitor consegue “descarregar” os significados escondidos em meio aos textos, é possível que fique satisfeito, pois é de esperar que ele encontre a tão procurada beleza dos textos literários.
A aula de literatura é, pois, a hora do texto e a hora do leitor de literatura, mas principalmente a hora da formação desse leitor. Saber se o leitor continuará ou não como apreciador da literatura é uma outra questão, não diz respeito à função primeira do professor de literatura que é, como se disse, ensinar a leitura do texto.
Ninguém garante que todos os alunos de literatura continuarão lendo mais à frente, em outras etapas da vida. Isso, no mínimo, vai depender de como os professores iniciam os seus leitores na arte de ler a literatura. Alguns o fazem sem paixão, sem entusiasmo pelo texto, sem dar provas de que lêem literatura e que a apreciam com competência. Outros sequer lêem, ou sequer sabem que não sabem ler. Há os que, levados por critérios não muito claros, começam com os clássicos, e outros que aproximam os jovens dos autores contemporâneos, partindo daí para trás: dessa forma buscam tirar proveito de temas mais próximos aos jovens leitores e facilitar a acessibilidade destes à linguagem literária já que, segundo acham, é mais fácil fazer um jovem gostar de literatura lendo os escritores mais atuais.
Borges em O oficio do verso diz o contrário. Para o autor de Aleph, quanto mais tarde os jovens lerem os clássicos mais difícil a experiência prazerosa da leitura: “Há escritores que se deve ler quando se é jovem, porque se a pessoa chega a eles quando está velha, grisalha e entrada em anos, essa leitura dificilmente pode ser prazerosa. Talvez seja uma blasfêmia dizer que, a fim de desfrutar Baudelaire e Poe, devemos ser jovens. Mais tarde é difícil” (O oficio do verso. 2000: 112).
Realmente, a leitura imediata e intransigente, de clássicos ou de contemporâneos, que não reflita os aspectos lingüísticos e estéticos do texto, segundo Northrop Frye , que não passe pelo conhecimento da linguagem e da língua em que o texto foi escrito, não pode ser proveitosa, muito menos prazerosa. Urge que a leitura busque, primeiro através desse meio, os caminhos que levam à floresta dos significados. Porque estes são parte da existência do texto literário. Afinal, repetindo Pound: “grande Literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível".

17 outubro, 2006

Palimpnóia


Angústias de uma colunista


Ando levando tão a sério esta minha coluna que as crônicas passaram a ser meu alimento obrigatório. Ler, ler, e ler crônicas – é o que mais tenho feito. Porque manter uma coluna implica em ser cronista. E como cronista, quero escrever textos com uma boa ressignificação do cotidiano, em linguagem coloquial inventiva, e com idéias que proporcionem boas discussões.
Então, toda vez que começo um texto penso em tudo isso. E empaco. Que nem mula velha. E para desempacar, porque algum texto preciso escrever, resolvo não pensar. E sem pensar, não consigo definir o que quero escrever. Até começo com ótimas intenções, mas a minha indisciplina me faz tomar tantos caminhos que o texto vira um amontoado de idéias. A linguagem, pobre coitada, enfia-se em lugares comuns e perde-se em expressões nada originais. O fim desvirtua o começo. E a discussão que é objetivo, e deveria ser conseqüência, vira o martírio do leitor.
Concluí então que apenas ler crônicas não estava me ajudando muito. Fui em busca de descobrir os caminhos do sucesso de um cronista. Meu primeiro encontro foi com Rubem Braga. Parece até que ele estava ali, esperando por mim. Meu alento veio nas palavras dele: “A única informação que a crônica transmite é a de que o respectivo autor sofre de neurose profunda e precisa desoprimir-se.” Foi um ótimo começo para a minha pesquisa. Mas durou pouco. Descobri também que não basta eu ser neurótica, o que verdadeiramente sou. Preciso ser escritora. Porque ainda que o mesmo Rubem Braga defina a crônica como subliteratura, as suas têm a marca e o estilo do grande escritor que é. Subliteratura ou não, ele, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Luis Fernando Veríssimo e todos os grandes cronistas são antes de tudo grandes escritores.
Mas e daí? você há de perguntar. O que isso muda aqui e agora? Minha resposta é uma fuga de responsabilidade e mau uso de Fernando Pessoa: não sou grande em nada. Nem no tamanho. Menos ainda nas pretensões. Como poderia querer ser cronista se não sou jornalista nem escritora?
E porque não sou nada nem nada posso ser, também não sei como terminar este texto. Talvez devesse voltar ao segundo parágrafo – que deu nome ao texto - e discorrer sobre as angústias que rodeiam uma pobre ex-professora que se mete a ser o que não se preparou para. Assim eu estaria verdadeiramente me desoprimindo. Mas ressignificar o cotidiano não é exatamente ficar falando sobre minhas neuras. Então, passo-lhe a bola. E usando as palavras de Clarice Lispector a Rubem Braga pergunto a você: “o que escrevo está se tornando excessivamente pessoal. O que eu faço?”


Foto modificada modificada de Jaime Bahia

16 outubro, 2006

A eterna novidade – Por Pablo Capistrano


Quando me casei, Nonato Gurgel e Graça Aquino, meus padrinhos de casamento, resolveram nos presentear com um quadro. Perguntaram qual obra de um artista plástico potiguar que eu gostaria de ter na minha sala. Lembrei de uma exposição de Jota Medeiros, na UFRN, salvo engano no final dos anos noventa. Jota fazia uma leitura de diversas referências do expressionismo abstrato, inclusive Pollock. Mas sua pincelada era firme, como se gotas de tintas amarelas e vermelhas fossem impressas à força sobre um fundo escuro. As cores quentes das manchas contrastavam com o fundo frio e suas linhas grossas saltavam da tela reforçando a tridimensionalidade do quadro.
Meu filho Uriel (hoje com dez anos) costumava a admirar o quadro. Um dia eu lhe perguntei: “o que é que você mais gosta nesse quadro?”. Ele disse: “o caminhão”. Até hoje eu procuro enxergar esse caminhão no meio das manchas abstratas de Jota Medeiros, mas acho que o tempo e as banalidades da vida andaram mexendo com minha infância e deixando meu olhar mais seco para as maravilhas do mundo. A força da arte reside justamente na busca desse pasmo inicial da vida, perdido pelas forças dos fatos secos que nos obrigam a crescer e desenraizar nossa alma do solo originário que nos construiu.
Assim como uma pintura de um grande artista, a natureza nos leva ao estado essencial, a forma básica da eterna novidade do mundo. Sem esse olhar, a vida nos destrói, nos consome, nos corrompe, nos torna menores, desmonta o colorido de nossos dias e esvazia nossa vontade de viver. Nunca deixei de me espantar com a natureza. Nunca deixei de me sentir transportado para um estado de maravilhamento ingênuo quando, por exemplo, caminho de manhã na praia de Ponta Negra e sou surpreendido pela imagem do Morro do Careca. O cenário daquela duna gigantesca, tão forte e tão frágil, tão intensa e tão delicada, é, para mim, a eterna novidade de Natal. Por isso senti um frio na espinha e uma profunda melancolia, quando soube, pela Internet, que um espigão de quinze andares iria ser construído ao lado do morro. Sei que é difícil entender isso. Sei que, para os homens de negócios, que costumam a passar muito tempo calculando lucros e riscos, pode soar uma ridícula banalidade impedir um empreendimento que injetaria um zilhão qualquer de euros na economia da cidade.
Posso ser só mais um idiota ingênuo, um sonhador romântico assolado por forças invisíveis e por idéias inúteis e perigosas. Posso estar errado, mas sinto que a vida não seria a mesma se, ao lado do meu morro, um gigante de concreto e vidro me obrigasse todo dia pela manhã, a lembrar que a beleza também morre.
Talvez eu fique mais rico, compre mais livros, viaje mais para a Europa, troque de carro todo ano, ou mesmo possa comprar novas obras de arte para decorar minha sala de estar, se o mercado imobiliário transformar Ponta Negra em alguma espécie bizarra de Manhatan dos trópicos. Não sei. Só sei que minha praia perderia seu encanto. Sei que tudo passa, que tudo flui e que a natureza não criou nada que seja imutável. Mas sei também que, se um dia, meu morro tiver que disputar meu olhar com um prédio de quinze andares, uma parte substancial da alma do lugar em que eu nasci vai se perder. Sei que um dia, o mar vai levar meu morro embora, mas queria ter a oportunidade de vê-lo inteiro e sozinho em seu cenário por mais alguns anos. De preservar, da angulação original, sua beleza transportadora. De poder partilhar o meu pasmo essencial com meus filhos, de fazer com que essa beleza possa carimbar seu encantamento na memória deles, como carimbou na minha. Não sei quanto dinheiro vou ter que gastar para indenizar o prejuízo dos digníssimos investidores. Só sei que a arte (a beleza) existe para que a verdade não nos destrua. E isso não tem dinheiro no mundo que pague.

Pablo Capistrano é escritor e professor de filosofia. Escreve às segunda no Miolo de Pote.

Imagem: http://img167.exs.cx/img167/306/jota5ys.jpg

11 outubro, 2006

Babel

Letras brancas sobre um fundo escuro

A poesia dá trabalho. Ao leitor iniciado, nem tanto. A este a poesia parece corresponder de maneira exata àquela famosa idéia de Fernando Pessoa que diz ser o poeta um fingidor, e a poesia, fruto desse fingimento, não deixa que esse leitor atente ao engano da facilidade. O leitor iniciado entende que a poesia pode ser tudo, menos fácil de ler. Ao leitor comum, no entanto, é mais difícil envolver-se no tecido poético com autonomia e visão crítica, daí que até o que não é poesia para ele é. Assim, o poema torna-se fácil de ler, porque não exige outra coisa além de uma facilidade já previamente buscada.
Faço essas observações porque há uma ou duas semanas tenho lido os poemas de os Guarda-chuvas esquecidos (Lamparina Editora, 2005) do poeta paraibano Antonio Mariano e, confesso, não se trata de leitura fácil. Na verdade, li o livro de Antônio Mariano com uma incrível dificuldade. Não que seus textos sejam herméticos, de difícil compreensão, mas porque a tensão semântica de sua poesia dá a medida de como é difícil abstrair os sentidos da forma lapidada pelo poeta. Sem trocadilhos, em certo sentido, o sentido certo do poema nunca se abre à primeira leitura do leitor. Precisa escutar mais fundo as palavras para saber o que elas dizem e até onde.
Essa tensão de que falo pode ser vista num poema muito significativo para o conjunto dos textos de Guarda-chuvas e que, por sinal, tem no seu título a melhor das definições da linguagem poética: escreve-se um poema em “Letras brancas sobre um fundo escuro”, sempre. Ou seja, um poema dá sempre a impressão de que o comunicado é algo claro, mas isso confunde, porque a cor do texto (a forma) não é tudo, mas é o fundo (conteúdo) que esconde a verdadeira mensagem. Lição banal de poesia, é claro, embora o jogo poético não seja para todos. E Antonio Mariano o sabe, porque aos agrados da falsa poesia ele surpreende no vigor poético de uns versos como estes: Às vezes, me fecho / quando sou claro, do mesmo poema.
Nesses versos a certeza de que, no claro-escuro da poesia, na procura do poema, o poeta deve traduzir as mil faces secretas das palavras (Drummond), e o mais eficazmente possível, se puder. É virtude, pois, saber transformar a linguagem, confundir com letras brancas, escrever sobre um fundo escuro, para que, na palavra, as sensações mais humanas e universais ganhem a transcendência própria da arte. Nessa transformação da linguagem o mais difícil para o poeta talvez seja a transposição da linguagem comum à linguagem poética. No Modernismo era isso o que os artistas buscavam e hoje, mais que nunca, os poetas sentem a necessidade de fazer da fala do dia a marca de toda a linguagem poética. Antonio Mariano consegue isso com naturalidade. Daí que em meio a profundas reflexões sobre a vida, salta um verso como este, que busca confundir a explosão dos sentidos no fundo escuro do poema: Indecisos suicidas / voltam para casa (de “Cromossomos”).
Diríamos que em sua poesia, como que troçando do aforismo poético de Pessoa, as coisas não sabem fingir, e o poeta menos ainda. Tudo é tão puro de vida e fala tão perto ao leitor que, se aquele se desespera no poema, este também; se aquele suspira, também este, e o acompanha no inconformismo como na meditação, na seriedade como na ironia, na alegria como na angústia; em outras palavras, Mariano faz uma poesia tão viva que o dito encontro raízes na fala e na memória do leitor. O poema nele é para o encontro, porque poema e leitor se fazem nos entremeios da fala mariana, como dois que conjugam as mesmas paixões e que por isso se encontram no mesmo universo.
Em Guarda-chuvas esquecidos há achados poéticos fantásticos. Como este da série de haicais de DESORIENTAÇOES, o número VII: Um coqueiro aceso? / Que nada. A Lua, excitada, / brinca de esconder-se. Ou o belo XVIII: Lençol escuro sobre o céu: / contra a janela aberta, / a tarde chora em mim.
Capto ainda em Mariano a palavra enxuta, sem excessos, poeta que muitas vezes exerce a conduta cabralina do jogar-se fora o leve e o oco, a palha e o eco das palavras que sobram no poema (“toda palavra boiará no papel”).
Talvez sua melhor faceta seja a erótica, aí onde o poema, como uma criança astuta, se encolhe e se agiganta em sua carga de poeticidade e ironia. Há, no entanto, poemas mais sérios e profundamente meditativos em Guarda-chuvas esquecidos, como “Exceção à teoria”, “História Universal”, “Existencialismo”, “Da eternidade”, “Poema limpo”, “Lot & Perseu”, “Aula de comunicação’, “Navegadores”, “Alquimia do ódio” e “Coveiro filosófico”, que são de uma universalidade sem par. No poema “Da eternidade”, que fecha o livro, se lê com olho ainda mais sério que a mensagem de todo poeta é, ou deve ser, antes de tudo, de esperança, ainda que esta, como a eternidade, seja "feita de pássaros que riem do vôo em falso dos homens". A conclusão é séria, mas (in) segura: O futuro tem asas, / repete o poeta, / timidamente.
Antonio Mariano é, alem de poeta, contista, membro do Clube do Conto da Paraíba e, no gênero, autor de Imensa asa sobre o dia (Editora Dinâmica). Com mais de duas décadas de atividades artísticas, sabe suficientemente o que é a literatura: palavra sempre re-inventada para a comunicação, alguma sempre-comunicação com os homens. Nessas duas décadas, sua obra já foi lida por nomes como Ronaldo Cagiano, Nelly Novaes Coelho, Paulo Henriques Britto, Jose Paulo Paes, Fabrício Carpinejar e Cláudio Daniel. Além, claro, da crítica paraibana, que o tem entre os melhores autores da sua geração.