31 janeiro, 2007

BABEL


Outro Perfume

Finalmente, em 2006, O Perfume virou filme. Muitos diziam que não poderiam filmá-lo, que se tratava de obra infilmável. Por muito tempo também tive a mesma opinião. Não tenho mais. Ainda não assisti, mas pelo pouco que li e pelas imagens que vi de cenas do filme, acredito que o roteiro deu conta do projeto e fez uma merecida adaptação da obra. É difícil arriscar palpite antes de ter visto o filme, mas falo pela obra em si, não pela adaptação.
Grenouille, estimável e esquisito personagem de Patrick Süskind já é considerado um dos mais impressionantes personagens da literatura mundial. Seu nome completo: Jean-Baptiste Grenouille, órfão pobre, nascido no Mercado de Peixes de Paris em pleno Século XVIII, criado de casa em casa como uma espécie de bicho a quem se declara verdadeiro horror por sua inacreditável qualidade: é uma criatura que, mais literalmente impossível, nem fede nem cheira. Após sofrer as mais inacreditáveis humilhações, Grenouille descobre seu primoroso talento olfativo. Primeiro, ele não tem cheiro, não cheira, é um bicho sem cheiro nem catinga. Mas, por outro lado, é um senhor digno do maior selo de qualidade pelo melhor nariz do mundo.
Como dissemos, a principal preocupação dos diretores que se interessaram em adaptar a obra estava na dificuldade de se traduzir as sensações do personagem, especialmente aquelas referentes ao mais requintado dos seus sentidos, o olfato (entre tantos diretores, a imprensa tem feito referência a Tim Burton, Martin Scorsese e Milos Forman, além de Stanley Kubrick que chegou a fazer a afirmação de que o livro era realmente infilmável). Na verdade, o problema da adaptação da obra corre por aí, mas nem tanto. Não se trata de construir um outro O Perfume, ou sim? Há certo exagero em afirmar que não haveria como filmar o livro, e o filme do Tom Tykwer mostra bem o contrário das expectativas adversas. É outro? É o mesmo? É outro sim, mas é cinema, e como tal, há de se considerar que em caso de adaptações de obras literárias, pense-se o que a essa arte é possível e o que não é.
Segundo um crítico brasileiro, “O filme não deixa de ter seu encanto como relato de época. O problema de Tykwer é passar para o espectador algo de que o cinema em tese não é capaz - o odor. Mas para isso existem os recursos visuais, e o resto que fique por conta da imaginação do público “ (Luiz Zanin Oricchio, em O Estadão). Disse bem o crítico, o cinema “em tese” não é capaz de transmitir os cheiros que o personagem sente ao longo da história e que são a razão de sua existência e do seu drama. O livro, sim, nesse ponto é extraordinário, pois de modo poético explora a ambigüidade entre um grandioso talentoso de perfumista num homem completamente sem odor. Essa ambigüidade é na verdade o leitmotiv do texto.
O diretor de O Perfume, A história de Um Assassino – no original alemão, Das Perfum-Die Geschichte eines Mörders - disse em entrevista a um jornal europeu que o filme “não é uma história sobre um estranho mundo de fantasia com um homem louco que por acaso tem um olfato apurado”. Trata-se mais do que isso: é a “história de um homem terrivelmente só, tema clássico na literatura e na dramaturgia", com o que concordamos. Talvez por isso o diretor tenha tocado no aspecto universalista da narrativa, e em diversas outras ocasiões haja se referido à discutida incapacidade do cinema de conseguir dar cor aos cheiros. Me parece que, no caso de O Perfume, isso não preocupa: o filme pôde construir o personagem e seu drama humano, e isso basta à audiência. Grenouille não é outra coisa senão um personagem humanamente universal (e, sem trocadilhos, em todos os sentidos).
O esquisito personagem sem cheiro atinge-nos por sua destinação de homem comum e infeliz, solitário e incapaz de reações de afeto ou carinho pelas pessoas. Persegue-o o desejo de ser possuído pela emoção de sentir o mundo através dos cheiros, de todos os cheiros, e para isso ele não poupa o inescrupuloso dos atos e o sadismo, tornando-se o Mörders do título, um assassino cruel e insensível. Grenouille não cheira, mas sente a tudo com uma capacidade que o faz querer ser algo que nem ele sabe ao certo o que é – pensa que é pouco desejar que sua alma pudesse conter todos os cheiros, os que existissem e os que ele pudesse criar. Tragicamente desprovido de odor, o personagem tem no aguçado sentido o caminho para as suas aspirações, para o autoconhecimento e, no fim, para a própria destruição.
Tratando ainda a problemática da adaptação dos cheiros, lembro uma passagem do livro que mostra que em O Perfume mais difícil que “dar cor” aos cheiros é transmitir as sensações interiores do personagem, coisa que pela literatura se consegue mediante uma composição que assim aprofunde em detalhes a interioridade dos personagens. Por exemplo, uma passagem como a que segue me parece infilmável, e vá lá que o cinema não tem como construir a fantasia do personagem, não pode nos dar a sentir, enquanto espectadores, a sensação interna vivida pelo personagem, mas abra a cabeça e a sensação de Grenouille passa a ser sentida por inteiro, dependendo do resultado da atuação entre direção e atores:
“Agora estava bêbado de aromas. Os membros jaziam cada vez mais pesados nos travesseiros. O espírito ficava maravilhosamente enevoado. E mesmo assim não estava no fim a orgia. É verdade que os seus olhos não poderiam mais ler, o livro há muito já lhe resvalara da mão – mas ele não queria encerrar a noite sem ter esvaziado a última garrafa, a mais maravilhosa: o cheiro da jovem da Rue des Marais...”
No filme do Tom Tykwer, Jean-Baptiste Grenouille é interpretado pelo ator Ben Whishaw e o espetacular Dustin Hoffman faz Giuseppe Baldini, o prático perfumista de quem Grenouille vai se tornar aprendiz e depois mestre. A esperar do talento do experiente Hoffman, devemos ter aí um grande momento.

Imagens: cenas de O Perfume – 1) Ben Whishaw, como Jean-Baptiste Grenouille e 2) Ben atuando com Dustin Hoffman (Divulgação)

26 janeiro, 2007

REBENTO








REBENTO

Quero seu colo filho
Você me pariu mãe
Agora agüente!
Alimenta-me das suas risadas
Faça mainha para divertir meus soluços
Me sinta árvore dos seus pousos
Entre os vôos, me saiba no vento


Quero afinar minha voz as batidas do seu coração
Enquanto dedilha seu violão de anseios
Nada preciso tanto se já te tenho, mas.....
Brinca comigo
Conta seu dia
Diz quando eu encher seu saco
Que eu paro


E não esquece
De agasalho nas noites frias
De comer direitinho
De dormir bastante
De amar o quanto lhe couber
De rezar para seu anjo da guarda
De mim
(para meu filho Cauã )

* Aprender é uma experiência motivante, mas saber pelos filhos é também encantador. Tive o privilégio de tirar férias de mim e estar , simplesmente estar com meu pequeno gigante por esses dias. Por alguns momentos reencontrei-me com a menina maluquinha de 12 anos que deixei numa estação........nós brincamos muito...os três...e divertir-se é uma experiência divina, cuja única regra é simplesmente estar de verdade ali na brincadeira...esvaziar a mente doida de obrigações e pensamentos impostores e apenas olhar, sentir, tocar, entender a eternidade de cada suspiro.......Obrigada meu menino lindo por você existir e me levar à margem deste rio de ilusões, para ve rum outro ângulo do por do sol.......te amo
Obrigada também a vocês que brincam comigo aqui neste espaço! Queridos me antecipo na postagem pois estarei sem net nesse final final de semana...beijos à todos

24 janeiro, 2007

BABEL

Jobim e a literatura

O jornal O Globo está perguntando qual a música mais marcante do maestro Tom Jobim. São muitas, e de minha parte prefiro lembrar uma de lembrança especial enquanto as outras vão sendo puxadas pelas relações que mantêm com a literatura, especialmente a brasileira. O maestro, desde os primeiros anos de sua formidável carreira, tem dialogado constantemente com a literatura, seja através de trabalhos ligados diretamente a textos literários (os textos musicados), de trilhas sonoras feitas para a tv e o cinema tendo por base obras da literatura, seja em composições em que aparece como um excelente letrista, cujo esmero estético chega ao extremo da poeticidade, ultrapassado os limites entre letra e poema.
Respondendo a pergunta, primeiro acho que o Tom é muito bom quando canta. Diferente de outros artistas da Bossa Nova, que são ótimos compositores, mas que não cantam quase nada. Do Tom Jobim gosto muito mesmo de “Matita Perê” (a gravação original, de 1973). É de uma beleza impressionante a harmonia e a melodia, sem falar na composição poética que intertextualiza grandes autores, personagens e textos da literatura que estão na memória coletiva brasileira. É o caso de Drummond, Guimarães Rosa e Mário Palmério, a quem Jobim dedica a canção. A letra é parceria do maestro com o grande Paulo César Pinheiro. Em síntese: não há como não gostar de Matita Perê, letra e melodia dão à canção uma dimensão épica que a engrandece a cada nova audição. A canção também fez parte da trilha sonora do filme Sagarana: o duelo, baseado na obra de Rosa, com direção de Paulo Thiago, e lançado no mesmo ano do disco.
A primeira inserção de Tom Jobim na literatura se dá em 1954 com o parceiro de anos, Vinicius de Moraes. Os dois fazem juntas as canções da peça escrita por Vinicius, chamada Orfeu da Conceição, que seria apresentada no mesmo ano do lançamento do disco, interpretado por Vinicius, por Tom (como músico) e por Roberto Paiva. Aí se encontram, entre outros, os sambas “Lamento no morro”, “Se todos fossem iguais a você” e “Mulher, sempre mulher”, verdadeiros clássicos do cancioneiro brasileiro. A peça de Vinicius viraria filme em 1959, dirigido pelo francês Marcel Camus. Em Orfeu negro Tom brilharia com os temas de “A felicidade” e “O nosso amor”.
Há outros temas ligados à literatura, como a música para a Gabriela do Jorge Amado, inspirada obviamente na personagem literária a quem Sonia Braga emprestou corpo e alma no filme de Bruno Barreto (1983). A canção tem o mesmo nome da personagem e ora se desdobra no “Tema de amor de Gabriela”, que ganha uma conotação baiana na voz de Gal, parceira de Jobim na gravação da trilha sonora de 1983.
A trilha sonora de “O Tempo e o Vento”, seriado da Rede Globo gravado em 1985 que adapta a trilogia de mesmo nome do escritor gaúcho Érico Veríssimo, também é assinada por Tom Jobim, e nela se podem ouvir músicas extraordinárias como “Passarim” e “Chanson pour Michelle”, além de outros temas instrumentais de incomparável requinte. Todas as letras do disco são de Tom, com parceiros.
Em A música em Pessoa (1985), projeto que se juntava às comemorações dos cinqüenta anos de morte do poeta português Fernando Pessoa, o maestro assina a melodia de três poemas do autor de Mensagem: “O rio da minha aldeia”, “Cavaleiro Monge” e “Autopsicografia”. O disco traz os poemas na voz do próprio Jobim.
Por ocasião dos cem anos de nascimento do poeta Manuel Bandeira, a cantora Olívia Hime, também produtora de A música em Pessoa, convida Tom para fazer a música do poema “Trem de Ferro” do poeta pernambucano. Um luxo. Num de seus últimos discos, Antonio Brasileiro (1994), Tom Jobim gravou o poema de Manuel Bandeira. A canção é de dar água na boca: ao ouvi-la a impressão que se prova é de que estamos viajando nalgum desses maravilhosos marias-fumaça de outrora, com vento na cara e barulho de café-com-pão.
Ainda no capítulo cinema, Tom é o autor da trilha do filme Fonte da saudade (1984), também ligado à literatura, baseado no romance “Trilogia do Assombro” de sua irmã, Helena Jobim. E é dele a “Canção dos Piratas” que aparece no filme Pluft, o fantasminha, de Romain Lesage, adaptado da obra da dramaturga brasileira Maria Clara Machado, em 1961. Aliás, no terreno da literatura infantil, Jobim daria brilho à voz de Paulo Autran e de outros famosos atores brasileiros ao compor a música do disco O Pequeno Príncipe, adaptação do clássico infantil de Antoine de Saint-Exupéry, gravado em 1957.
Para quem pensa que o nosso maestro era apenas um excelente músico, em momentos grandiosos de sua carreira Tom fez canções realizando sozinho letra e música, com ótimos resultados. Lembrem-se canções como "Falando de amor", "Àguas de março", "Corcovado", "Luiza", "Este seu olhar", "Samba do avião" e teremos a medida de sua relação com literatura. Acreditamos que Tom, reconhecido leitor de literatura, sabia tirar proveito da sua experiência com os livros. Suas letras nessas e em outras canções que assina individualmente são verdadeiros poemas. Como se disse lá em cima, algumas composições são tão ricas em poeticidade que os limites entre letra e poema quase desaparecem.
Amanhã, 25 de janeiro, se estivesse vivo, o maestro estaria completando 80 anos. Tom Jobim nasceu na Tijuca, onde viveu durante muito tempo, antes de se tornar famoso e percorrer o mundo com sua música fenomenal. Em 08 de dezembro de 1994, faleceu aos 67 anos no Hospital Mount Sinai, em Nova York. Nesse dia, Antonio Carlos Brasileiro Jobim tornava-se então, nas palavras de Chico Buarque, o eterno “maestro soberano” de todos os brasileiros.

Foto: Ana Jobim.

19 janeiro, 2007

A BESTA DA TARDE














www.olhares.com.br


Era ela ou eu, estatelada justo sobre o elefante vermelho da colcha da sorte, que hoje parecia estanque de possibilidades? Qual das duas virava suco, de saliva de vontades reprimidas, enquanto as lágrimas, fartas de darem o ar da graça, apenas descansavam? Sim, como diz o sábio mestre DeRose ( um ser, um mestre que é sumidade no universo do Yôga, que resgatou corajosamente o Yôga mais antigo, pré-clássico o Swásthya ) “É difícil fazer as coisas parecem fáceis”, mas esse é o único caminho e eu queria ser como ele diz que devíamos ser..”.como águas dos riachos, que tranquilamente, contornam os obstáculos”, mas confesso que gastava aqueles segundos tentando eleger culpados, e preferia que ela, a raiva, confessasse tolher minha generosidade para com certas realidades. Tinhosa como o quê, dona raiva fez de tudo para dividir as responsabilidades daquela tarde histérica comigo.

Eu acabava de abandonar um caso de amor, um projeto artístico, que na partilha de bens ficara com grande parte do meu coração – o meu pai, filho e espírito santo. Era só um tempo, não um rompimento, mais doía igual. O motivo da separação é moda. Incompatibilidade de agendas. Eu tinha que conciliar trabalho, dinheiro e tempo, todos ítens em falta na minha geladeira de mãe e na da minha mãe também. E o projeto, claro tinha que seguir. Tá bom! Eu divido a culpa da relação ter desembocado nessa encruzilhada, mas o que adianta assinar termo de responsabilidade? Sim! eu provavelmente fiz escolhas apressadas na vida e de outras certamente fui refém, mas como despedir-me ou apenas me adiar do encontro com o que me faz pulsar? É isso então que chamam maturidade? Escolher aquilo que não se quer? Pois eu passo. Eu e minha raiva, porque ela só quer expurgar a chutes e pontapés a sua dor de impossibilidades e eu quero dar um jeito qualquer de pagar todo o preço do passaporte para os lugares meus. Nós fugimos de ser apenas uma sobra de ausências, mas naquela tarde de chuva , sem bolinhos de vó, era EXATAMENTE SÓ .........só isso que éramos.

Debaixo da quentura calmante daquele torpor, somente a certeza de ser mais uma entre milhares de operários da arte a sofrer as agruras do ofício salvou-me de ser outra reclamante inútil. Sempre haverá uma semente perdida para alimentar um passarinho que não deixa de voar.....pensei e quis acreditar que assim é, ainda que seja no céu do Brasil, aonde política cultural é quase uma piada sem graça e o mau agouro, que envolve o tema, parece vir de longe – o teatro tupiniquim, por exemplo, nos primeiros tempos foi usado para oprimir os índios na catequese, tendo como principal dramaturgo José de Anchieta- ainda bem que na essência sensorial e mitológica, teatro era um ritual à baco (Deus do vinho) finalidade de origem convenhamos bem mais simpática ....

Apesar de saber que não há limites para o querer, e de sentir o mundo girar sob os meus pés, num movimento perpétuo de renovação- e eu estarei de novo com aquelas gentes e aquela arte do stúdio Fátima Toledo - estou triste pela necessidade de interromper um projeto integrante da minha formação de atriz, parte de uma verdadeira peregrinação na busca pelo conhecimento tão pouco valorizado e geralmente preterido por banalidades mercadológicas. Sempre suspeitei que dar um tempo é perigoso demais em qualquer relação, mas viver é expor-se ao risco, a todos e por outro lado "Amores serão sempre amáveis" Chico Buarque.

Depois, a noite caíu-me como uma luva, clareou as idéias e então ninei minha raiva ao na bela melodia de frejat, que reinventa os ecos de Raul Seixas e as porralouquices mais doces como...”basta ser sincero e desejar profundo/ você é capaz de mudar o mundo....” (aliás raros leitores, peço ajuda porque para ser sincera tenho dúvidas sobre quem compôs tal canção e perdi a capa do CD, além do que não há tempo de pesquisar agora, vou valer-me então da licença subjetiva que este tipo de texto tem, bem ao contrário do jornalismo, no qual estive amarrada por tempo demais creio)


Desperta do pesadelo vespertino, fui tirar o pó do fundo dos olhos, quando de frente ao espelho lembrei de Manoel Bandeira e da sua “ternura dentuça”, que tirou poesia até da tuberculose. Este artista pernambucano arretado completaria 120 anos, não tivesse ido “embora pra Pasárgada” quando tinha 82. Justas homenagens serão prestadas à este talento modernista, que a despeito de todas as adversidades voou alto enquanto declarava sutilezas feito: ........”Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples” (poema Belo Belo) .....ainda pensado em Manuel olhei para as estrelas e mentalizei vários pedidos de enxergar as estradas que levam aos meus caminhos e enfim consolei-me no verso...”mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?”(A morte absoluta)...

Aproveito o tema homenagem para saudar todos os artistas brasileiros, especialmente meus colegas atores e atrizes, grandes mestres inspiradores, que na sina de largarem de si para serem instrumento da coletividade matam suas fomes apenas com a vontade.

* A edição de janeiro da revista Bravo lembra Bandeira e indica lançamentos do aniversário do poeta....vale a pena.....



Carol Montone é jornalista, atriz e colunista do Miolo-de-Pote aos sábados

O MARTELO E A BIGORNA


As múltiplas faces do Rei

De férias do Miolo há quase um mês, farto de trinta dias de usufruto excessivo de ócio, álcool e lazer, volto a pegar a pena para refletir sobre assuntos do cotidiano. Mas sem deixar para lá as férias, o chato delas é que você acaba por negligenciar assuntos merecedores de algumas linhas. Hoje volto a dezembro de 2006, aproveito para falar sobre o cantor Roberto Carlos, personagem marcante da programação de final de ano da TV Globo.
É bem verdade que quem é rei nunca perde a majestade, mesmo nas conturbadas crises de carisma. Assim tem sido o cantor Roberto Carlos, uma vez que está mais para um nobre em momentos difíceis, vivendo apenas a sombra de seu status. O show de final de ano apresentado pelo cantor representou bem sua trajetória artística, marcada por um hibridismo fonográfico que varia entre canções clássicas e músicas descartáveis.
Nos anos 60 e 70 tivemos um Roberto ousado, subversivo e rebelde, imortalizado por um comportamento avesso aos padrões impostos por autoridades de chumbo. Ícone da Jovem Guarda, nessa época Roberto alcançou em sua carreira uma base musical sólida, responsável até hoje pela resistente figura real.
Na década seguinte, anos 80, a rebeldia sucumbiu às pulsações das emoções, então passamos a ver um Roberto romântico, de voz suave e de frases de amor que compõem o melhor da enciclopédia romântica nacional. Nessa fase o artista consolidou seu título e coroou sua realeza.
Nos anos 90 tivemos um Roberto picolé de chuchu, insosso e sem qualquer referência ao ídolo das décadas anteriores. De rebelde e romântico, o Roberto agora é melancólico e excessivamente religioso, apagado por traz de uma cortina chamada Maria Rita, álibi para um músico submerso em sua própria falta de criatividade e inspiração.
Portanto, surpresa não foi para ninguém ver em dezembro passado um Roberto cantar música funk ao som de MC Leozinho, tampouco será ver este ano um Roberto atracado nas asas de um Calypso. Roberto, um cantor de todas as décadas e para todos os gostos. Mas fica a preferência por um Roberto romântico e rebelde, um Roberto capaz de servir de referência musical para as gerações que virão.

17 janeiro, 2007

BABEL

Entre o filme e a obra
Adalberto dos Santos

Entre o filme e a obra, há certa distância. Mas ambos podem provocar a curiosidade e servirem como ótimos objetos para a reflexão e o debate na sala de aula. Costumo utilizar o filme nessa perspectiva: para efetivar o domínio crítico de conteúdos. E ainda que o aluno tenha do filme a idéia de que se trata de um produto cultural que está mais para o lazer que para a prática didática, faço o seguinte: deixo-o pensar. Quando mais, a idéia muda e aprendemos quanto o cinema pode fazer pensar.
Entre o filme e a obra, a prática mais comum é escolher o filme. Aliás, na escola a regra é levar o filme para a sala, nunca a obra. Se esta não foi lida pelo aluno, o professor como facilitador facilita que ela seja “lida” através do filme. Assim, se o filme for visto, o aluno livra-se da obrigatoriedade de ler a obra. E se a obra for grande, um romance longo como, digamos, Guerra e Paz? Aí estaremos falando do melhor resumo para o vestibular.
Na verdade, não é a mesma coisa ler a obra e ler o filme. Cinema é cinema, literatura, literatura: formas de artes diferentes e por isso construídas a partir de procedimentos diferentes. Nem precisa ser expert em intersemiótica para tirar essa conclusão. No cinema, a adaptação pode mudar a “cara” da obra, a transmissão de valores e ideologias pode ser outra no filme, a visão sobre o mundo, as pessoas, etc: tudo provocado pela perspectiva do cinema, coisa bem diversa da obra.
Digamos que lá no fundo, bem no escurinho do cinema, o filme acrescenta sempre algo a mais ou a menos à obra. Não que a adaptação desfaça por completo desta, mas pelo fato de que esse processo cria uma outra linguagem: tradução, transposição, mudança. E que há de negar que não seja assim? Temos de lembrar que uma coisa é um roteiro, uma narrativa especial exclusivamente escrita para o cinema, e outra a obra literária adaptada.
Entre o filme a obra, ganha quem puder ler os dois. Na escola, o problema está em fazer gostar da obra e evitar que o cinema seja utilizado apenas como forma de driblar a oportunidade de o aluno puder conhecer a obra literária. Aliás, sugiro que os professores façam ler primeiro a obra e em seguida tragam o filme para que sejam apreciadas as diferenças e semelhanças entre as duas linguagens.
Às vezes a gente pensa que por ser o filme um produto cultural mais próximo do cotidiano cai com facilidade no gosto do aluno, mas a literatura, como arte complexa que é, afasta o aluno dos conteúdos. Então, exibe-se o filme para que o aluno conheça a história. Só isso? È importante ler a obra, depois ver o filme e estuda-los juntos, enriquecendo o debate com questões que levem a compreender o filme e a obra enquanto objetos cada um com sua linguagem própria. As reflexões em torno da obra podem atingir o filme, e não é a só a história, o enredo, que está em jogo. Por fim, em relação aos dois objetos nada deve ser dispensado.
Vou dar um exemplo. No filme O Quinze, adaptado de Rachel de Queiroz, tanto no romance quanto no filme, é fácil identificar como o drama natural da seca atinge todos os personagens. Mas o clássico problema da divisão de classe, no filme, ganha uma roupagem diversa da que vemos no romance.
Na obra é mais difícil perceber o tratamento romantizado que a autora dá às relações de classe. Já no filme é mais fácil. Pela interpretação dos atores, pelo carisma transmitido pelos figurantes que fazem os imigrantes e empregados das fazendas de Vicente e Tia Inácia. No fundo, a gente percebe, através do filme, como eles idolatram o patrão e orquestram o velho dilema: a alienação submete a consciência à palmatória. Há uma coisa no problema da seca que eles não conseguem ver, e por esse motivo o romance sutilmente rouba-nos de atuar com eles. Mas não no filme, embora neste como na obra só consigamos ver, em primeiro plano, o problema da seca como fenômeno exclusivamente natural. Afinal, do que estamos falando? Eis a primeira questão para iniciar o debate entre o filme e a obra com a turma.

Imagem: Cena de O Quinze. Direção: Jurandir Oliveira.

15 janeiro, 2007

Darklands - Por Pablo Capistrano

www.pablocapistrano.com.br

Esse ano eu faço 33. Pois então... aos 33 eu começo a perceber que andei perdendo tempo com algumas coisas inúteis. Que andei me preocupando com alguns problemas banais, criando algumas expeditivas falsas e que comprei um monte de CDs ruins (ou baixei muita coisa duvidosa esses últimos tempos da INTERNET) apenas para estar “atualizado”. Daí essa sensação de que eu preciso recuperar certas coisas que abandonei em alguma esquina dessas da minha própria vida. Retomar certas pérolas lançadas na estrada. Acertar as contas com o que passou porque, como afirma o Rabi Eliezer “arrepende-se um dia antes da tua morte”; para que o resto da eternidade você não tenha seu nome gravado à fogo no SPC da vida. Então ando meio interessado em recolher aquilo que um dia eu já tive, mas que, por displicência ou por falsos juízos de valor acabei perdendo. Darklands foi assim.
Eu já tive esse LP. Comprei em algum sebo por volta de 1989 ou 1992, não lembro bem. Eu já tinha numa K7 (para quem não sabe o que é, trata-se de um rolo de fita magnética que a rapaziada usava como uma espécie primitiva de IPOD) o Psychocandy o primeiro álbum do Jesus and The Mary Chain, uma banda cujo núcleo era formada por dois irmãos ingleses, Willian e Jimi Reid. A minha fita cassete rodou quase dois meses num aparelho de som “três em um” que eu tinha no quarto e a distorção era inevitável. O primeiro disco do J&MC era muito barulhento. Saído de um dos joelhos da banda novaiorquina Velvet Underground (1965-1970), o som explorava a distorção e os agudos altos das guitarras, com baterias secas e melodias vocais lentas e melancólicas. Tudo no melhor estilo dos oitenta e de sua escuridão contida e selvagem. Mas, quando eu cheguei em casa para ouvir o Darklands na vitrola, me assustei. O disco era bem diferente. Mas limpo, mas melódico, mas fácil de ser compreendido. Uma espécie de Beach Boys do mal. Na época eu não vivia clima para as facilidades. Queria coisas difíceis e desconcertantes, queria que um jato certeiro de distorção atravessasse a minha vida, cortando-a ao meio, explodindo seu centro e espalhando seus pedaços pela linha do horizonte. Talvez por isso tenha deixado Darklands meio de lado e passado boa parte do resto da minha vida atrás do Psychocandy que eu tinha gravado no tal rolo de fita magnética que a turma usava como IPOD. Acabei perdendo meus LPs em alguma festas dessas, entre o ano de 1989 e 1995, e a tal fita cassete acabou enrolando no gravador de modo que eu tive que parti-la em três pedaços (esse era um dos problemas de ser adolescente na era pré-IPOD).
O fato é que eu nunca consegui o disco. Até essa semana, um mês antes de completar 33 anos. Veja bem, completar 33 anos é marcante. Faz você pensar em todas aquelas baboseiras que eu disse no começo do artigo, então, quando eu vejo na prateleira da Velvet Discos, juntinhos, Psychocandy e Darklands eu pensei rapidinho nas palavras do Rabi Eliezer: “arrepende-te um dia antes da tua morte”. Comprei os dois. No carro, fiquei um tempo na dúvida de qual deles ouviria primeiro. Não sei porque escolhi Darklands: “and we tried so hard/ and we looked so good/ and we lived our lives in black/ but something about you felt like pain/ you were my sunny day rain/ you were the clouds in the sky/ you were the darkest sky/ but your lips spoke gold and honey/ that´s why I´m happy when it rains”. Era a faixa três. Happy when it rains. A música da propaganda de automóveis. Quem imaginaria, em 1992, que eu iria passar o resto da semana encantado por uma música de propaganda de automóveis! 33 anos é uma ótima oportunidade para você se arrepender das coisas que perdeu. Quando o Rabi Eliezer disse o que disse um aluno esperto interpelou: “mas como podemos saber o dia de nossa morte para nos arrependermos um dia antes?”. O rabi sorriu e respondeu: “é justamente por isso que você deve se arrepender todos os dias”. Pois é amigo velho, There´s something warm about the rain.

13 janeiro, 2007

Poemando




















CANTIGA DE NINAR

Queria morrer de rir de mim sempre e por fim
E assim pudesse ser com todos

Morreria de rir da felicidade de ter amado quem amei
E ainda daqueles grãos de areia, que vizinhos ao meu nariz eram montanhas assombrosas

A morte pode ser igual calmaria de colo de vó se a gente acreditar que é
Pode ser chá quente em noite de trovão
Ah se ela pudesse ser até um tanto bonita
Poente ......


Chegasse ela de mansinho, com pressa de velha, eu faria amizade
Se me convencesse em silêncio que não preciso temer outras aventuras, sorriria curiosa
Largaria meu corpo qual sorvete derretendo no sol


Queria que ela matasse as saudades das belezas da minha vida toda num instante
E me ninasse longe do susto dos soluços de todos os meus tempos

Ela me prometeria a vida eterna
E a companhia de quem me deixou antes do tempo
Ah se eu pudesse não saber que da morte infelizmente nada se pode querer
Apenas esperar......

Por Carol Montone

Em tempo: Sabernos transitórios é tão assustador quanto fascinante. Com a crença de que a vida é um breve presente, sempre procurei viver o hoje como se fosse único e último. O futuro é um tempo que não existe para mim e isso é bom pois minha morte- se o universo permitir - está num futuro distante (risos) e éruim na medida em que não crer em bençãos anunciadas para depois também me causa ansiedade da obrigação de fazer do agora minha tábua de salvação. O mais triste deve ser quem morre para seus sonhos em vida. Você já cogitou, como eu, que o tempo pode ser mesmo inventado, assim como pode ser a morte que conhecemos, se pensarmos melhor...mas o que deve importar é que todo dia ao acordar nascemos de novo para sermos felizes, melhores do que fomos dormir e imaginar coisas boas, emanar energias de amor e paz e acreditar que é possível que mesmo as coisas mais terríveis, como a morte, sejam apenas uma parte engraçada da aventura. Se não nos é permitida a eternidade- para nossa pena ou sorte? - façamos então de cada momento experimentado, uma vida eterna.

10 janeiro, 2007

BABEL


Ninguém escreve ao Coronel


A solidão tem sido tema freqüente na história da literatura ocidental. Tanto que um dos mais importantes livros da América Espanhola, de Gabriel Garcia MÁRQUEZ, chama-se Cem anos de solidão. Sobre o autor já falei em outro texto, mas não me furto a comentar uma pequena novela do escritor colombiano que tem como tema primeiro a solidão existencial. Aliás, Márquez, mestre do realismo mágico, é, sem dúvida, mestre também em inventar criaturas cuja solidão é a forma e o fundo de suas existências.
Alguns disseram de Ninguém escreve ao Coronel (1957) que se tratava de uma grande alegoria política contra a burocratização da vida comum. Também acho, mas vejo que na novela a questão da solidão existencial predomina entre outras: as dificuldades de sobrevivência em meio à escassez de recursos, a velhice, a fome, a pobreza, etc, vêm em seguida a esse problema maior.
O enredo é bem simples. Um coronel reformado espera religiosamente a chegada de uma carta do governo que lhe renderá a pensão por méritos de guerra, mas esta (a carta) nunca chega. Daí que uma vez por semana ele vai ao cais ver a lancha que traz as correspondências na esperança de obter a tão sonhada ordem burocrática. Em dias de ir ao cais, inquieta-se como um prisioneiro de guerra, arruma-se, cria as mais puras expectativas, e ao final, descobre que ninguém escreve ao Coronel, ninguém. Passam-se quinze anos, e é onde estamos quando o livro começa. Morando com a companheira e um galo de briga herdado do filho morto, o Coronel leva os dias acreditando na possibilidade de driblar a solidão a que se confinou depois que o governo lhe nega o mais importante à sua vida: comida e dignidade (reconhecimento pelo trabalho prestado à pátria como soldado).
Assim, o Coronel passa a viver de ausências, de forma solitária e vazia: ressente a ausência do tempo glorioso das guerras, do filho revolucionário morto pelo governo a quem serviu, da saúde e da juventude, mas não despreza uma espécie de orgulho autoritário de que se gaba. São muitas as vezes em que, tentado a resolver o problema da falta de recursos para garantir ao menos a alimentação diária, procura vender o galo, falar dinheiro emprestado, solicitar favores. Mas entra e sai e a luta continua. Até o final do livro.
Não tenho dúvidas de que essa situação, de caráter nitidamente kafiano, dá ao personagem uma espécie de insegurança contra si mesmo, porque de repente passa a não se conhecer, aos poucos se confina e se anula sem saber por que, que motivos o levaram a viver tal experiência. Garcia MÁRQUEZ, leitor de Kafka, faz lembrar através do Coronel o rebaixamento metafísico a que se impõe o sujeito quando a realidade, quando a existência de repente se reduz a nada.
Através do procedimento de um narrador em certos momentos sádico e irônico percebe-se que a solidão do coronel é de tendência metafísica. A voz narrativa é silenciosa, as frases parece serem ditas em tom de galhofa, por meio de sussurros cuidados, lentamente expressos, próximas à fala da esposa do coronel, dona Lola, de início uma humilde senhora, asmática e calada, depois uma consciência realista para as coisas práticas. Esse sussurro narrativo dá ao livro o tom do vazio existencial do Coronel, exposto ao absurdo de que é vítima, a cada linha um homem revoltado, nos termos de Camus, embora contido por conveniência e orgulho. O governo fora bom com outros, como ao rico Dom Sabas, mas a um dos seus melhores soldados, derrubou da montaria em sua mais importante batalha, reflete o Coronel. Como sorrir, ser feliz, não tornar-se um solitário? Esperar quinze anos por uma mesma coisa, não consegui-la, adiar sempre a sua vinda e ainda ter esperanças? É o máximo a que pode um homem.
Chegamos ao fim da novela e concluímos: a história da mais solitária das personagens de Gabo parece ser a de um homem que não tem história. Mesmo com ares de um imponente guerreiro (o coronel lutara ao lado de Aureliano Buendía, herói de Macondo) a personagem parece não ter história. Pelo menos, diga-se de passagem, Aureliano Buendía tem uma história, uma trajetória, aliás, uma extraordinária trajetória, de importância épica. A vida da personagem da pequena novela de Garcia MÁRQUEZ, ao contrário, é trágica, dramaticamente limitada a uma mesma peleja ao lado da esposa Lola, sem mais que isso. Porque sua luta agora e enquanto existir a novela é a de um solitário que estará sempre a agarrar-se a esperanças.
O livro também virou filme. El Coronel no Tiene Quien lo Escriba é de 1999, e foi dirigido pelo cineasta mexicano Arturo Ripstein. Fez algum sucesso, principalmente por apelar para a caricaturização das personagens. Lembre-se a cena em que o Coronel responde à insistente pergunta da esposa, já ao final da história: “Diga, o que nós vamos comer?”
E o Coronel, no seu orgulho, faz uma cara entre triste e irônico:
- Merda!

Imagem: http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/

06 janeiro, 2007

TEMPO, TEMPO, TEMPO, TEMPO



Foto de Ricardo Zerrenner (www.olhares .com.br)





Todo início é de um certo medo. Estou sem tempo e aturdida com uma mudança de fuso horário, digamos assim. Minha casa e minha vida começam este ano de cabeça para baixo, como uma mala cheia de roupas sujas misturadas a outras intactas, a minha espera. Chego de viagem e tenho o texto do Miolo para postar. Trata-se da primeira missiva do ano para vocês meus caros-raros leitores, afetos desconhecidos e instigantes, o que significa uma missão e tanto. Dadas as circunstâncias, a única solução - tão rápida quanto necessária – é entregar-me corajosamente aos verbos triviais de um recomeço para dizer deste outro janeiro, mês propício para faxina na alma e no armário, época aonde a rigidez dos capricornianos atormenta as férias . Se você conhece um capricorniano sabe que esse signo é sinônimo de planejamento. Os nascidos nesse espaço do zodíaco costumam inclusive projetar coisas inverossímeis, mas sempre dentro dos seus próprios parâmetros de risco e benefícios, mas tudo bem...qual de nós pode atirar a primeira pedra.... então salve especialmente todos os nascidos em janeiro e salve o ano novo!!!!!

Queria ser como Dom Quixote, para quem a batalha era também seu descanso, mas confesso que me assustam tantas providências internas e externas para pelo menos tentar fazer o mínimo possível, em prol daquilo que almejo para esse novo calendário. Estive em companhia de uma criatura ímpar nos últimos dias, minha irmã e escritora Mônica Montone (http://www.finaflormonicamontone.blogspot.com/) na cidade maravilhosa, que apesar dos inimigos do reino continua a ser o Rio de Janeiro de sempre....lindo. Mô é aliás a paulista mais carioca que conheço, juntamente com a trupe seu Januário e Izildinha. Entre uma caminhada e outra , um chá, vinho tinto e água salgada, falávamos que hoje as pessoas correm tanto contra o tempo que é quase uma heresia falar apenas da vida num começo de ano...das imbecilidades e delícias vitais ...os assuntos certos são projetos e resoluções a curto prazo. Entra ano e sai ano e esse tipo de obsessão faz com que não nos olhemos nos olhos e pra que tanto sucesso sem reciprocidade????

Eu também tenho minhas empreitadas, mas venho aprendendo com os cariocas que relaxar é preciso....assim como "navegar"...(claro). Apesar do caos, que essa cidade brasileira representa como nenhuma outra, as ruas de lá conservam um jeito brejeiro. São como meninas sapecas ...lá a violência, por mais que tente, ainda não conseguiu matar a alegria de um povo que é carnavalesco de nascença. Acho isso bonito.

De votla ao meu berço paulista, que honro e amo, queria iniciar 2007 sem querer tanto, como ensina a filosofia budista. Parece claro que as expectativas são fontes de sofrimento, mas como ainda não atingi esse patamar de coerência...quero unicamente não parar de sonhar, haja o que houver, porque afinal isso seria morrer...” A vida é sonho e os sonhos sonhos são” Shakespeare. Meu maior medo é esse....viver só da realidade ... Quero sonhar e crer que pessoas inocentes não morrerão mais queimadas ao tentar usar um trasnporte coletivo para ir e vir neste mundo do absurdo em que vivemos. Esse também é meu voto de felicidade para você leitor do Miolo, desejo que nada te faça parar de acreditar na possibilidade.......

Por fim, penso ser a paciência uma qualidade essencial nos anos pares e ímpares. Não à toa a palavra deriva em latim dos termos sofrer e resistir. Como é difícil conviver com tudo aquilo que nos aflige...então...que busquemos, cada um à sua maneira, formas de desenvolver esse ofício de ser paciente, principalmente conosco.
Pablo Picasso costumava declarar que não o importava nada do que tinha feito, mas sim o que devia fazer. Radical ele - opino - pois no passado também há força de referência para realizar o futuro. Quem de nós, entretanto pode contentar-se com o que viveu, mesmo que seja saudade?? Pois que venha 2007!!!! Um grande beijo à todos e votos de que o Miolo continue remando com força total, mesmo diante de tempestades anunciadas .......
PS: Euza querida...eu quero você aqui conosco. Por essas e outras, que daria tudo por um varinha mágica de condão que me fizesse fada de todos os meus mais loucos desejos .....


Carol Montone é jornalista e atriz e colunista do Miolo-de– Pote aos sábados


03 janeiro, 2007

NOTAS


Neste início de ano, ficarei de fora de estrear a coluna com novo texto. Peço desculpas. È tempo de férias, mas, no meu caso, falta muito para começarem de verdade. Estive viajando e deixei algum trabalho acumulado. Aí, por conta dos feriados não pude escrever meu texto para o Miolo. Peço desculpas. Mil desculpas. Aos amigos, prometo continuar com algum tema na próxima quarta. Mas hoje, embora, tenho umas notas a escrever.

ÚLTIMO POST DA EUZA NORONHA
Entristece-me a notícia do afastamento da colunista Euza Noronha. Nesta terça ela escreveu seu último texto como colunista do blog. Antes, havia me enviado um e-mail comunicando a razão de seu afastamento. A Euza deixará uma lacuna imensa, já que escreve muito bem, tem sempre ótimos temas e agrada demais aos leitores. Por sua causa, muita gente tem divulgado e visitado ainda mais este blog. Obrigado, Euza, pela excelente contribuição. Você é ótima. Torço para que continue com seu dinamismo e mesmo entusiasmo com as letras e as pessoas. Beijão.

RESTAM DOIS
Com a saída da colunista Euza Noronha ficamos sem a quinta pessoa da equipe que fez parte da criação do Miolo de Pote. Ao longo de seus quase sete meses, por vários motivos o blog foi perdendo um após outro colunista; alguns se afastaram sem avisar, mas continuamos. Atualmente, da primeira equipe, restam eu e o Rivamar Guedes, ambos da PARAÍBA. Ainda contamos com a colaboração da jornalista Carol Montone que recentemente veio se juntar ao grupo Miolo. Como disse a Euza, está difícil continuar. Como vêem, temos problemas. Iremos em frente?

AJUDA, COLABORAÇÃO, COLUNISTAS
Bem, por conta de mais uma perda, vimos a público pedir aos que ainda gostam do projeto Miolo que nos ajudem em sua divulgação e que se empenhem em fazê-lo com os colunistas que sobram, ajudando-nos com publicações, com idéias, com novidades. Enquanto editor, ficarei muito empolgado se receber e-mails de pessoas que queiram participar do Miolo de Pote como colaborador, enviando textos e se tornando, com o tempo, colunista.

NOVO LAYOUT?
O layout por enquanto continuará o mesmo, mostrando o mesmo grupo inicial. Pedimos desculpas por continuar assim, porque de nossa parte não entendemos bem de linguagem de sites e blogs. O layout é criação do designer Weberth Mota, de quem há muito tempo não temos notícia; na certa, como sempre, continua muito ocupado e não poderá nos atender tão cedo. Daí que ficamos assim: ou aguardamos o contato do Weberth com sua gentileza, ou só se aparecer um entendedor do assunto e se prontificar a nos ajudar numa nova roupagem para o blog. Se alguém que nos visita puder sanar esse problema, poderemos entrar em contato: noteco_teco@yahoo.com.br

CONTINUAREMOS...
Ainda assim, buscaremos meios de ir em frente... eu, Carol e Rivamar. E se puder, com a sua ajuda também. O Miolo de Pote é e sempre será um blog de idéias. Assim o vejo e assim quero que continue. Até onde der, continuaremos... Abraços a todos.

Imagem: http://www.zonalibre.org/blog/moe/archives/imagenes/a-quatro-maos%5B1%5D.jpg

02 janeiro, 2007

Palimpnóia

Indisfarçavelmente, despedida!

Cá estou eu sem saber o que se escreve num segundo dia do ano!
Por mais que me esforce, não consigo colocar cara nova neste recém-nascido. Folheio os diversos calendários que ganhei e só consigo ver continuidade. O noticiário televisivo também não ajuda. Tento ressuscitar meu lado místico e faço a soma dos algarismos, tiro a prova dos nove e o resultado me diz apenas que zero é relativo. Tanto pode ser o início de uma contagem quanto pode ser nada. E o nada também é relativo. Pode significar vazio – e segundo as leis da física, vazio é apenas o espaço que será preenchido. Mas pode significar ausência – e ausência é o estado do não-querer, do não-saber, do não-fazer.
Mas ninguém merece esta falta de perspectiva. Nem eu que estou a presentear você com um escrito sem conteúdo. Então façamos o seguinte: a colunista vai se afastar! Por tempo indeterminado. Talvez correr em busca do arco-íris e se vestir das suas cores. Ou talvez reaprender a usar o pincel que pintará de alegria os dias de 2007.
Mas antes de ir deixo aqui registrado o meu agradecimento pela carinhosa companhia em 2006. E meu grande desejo: que saibamos todos construir os novos dias com amor e amor e mais amor.
Carpe diem!