17 novembro, 2006

O Martelo e a Bigorna

O vácuo deixado pela ética

Há menos de seis meses, numa aula em uma turma de calouros do Curso de Pedagogia de uma universidade federal fiz uma afirmação que, para muitos, soou um tanto quanto pessimista e desmotivadora. O contexto não era dos mais propícios, uma vez que é quase unanimidade entre os recém ingressos no ensino superior achar que esse rito representa, num primeiro momento, um largo e decisivo passo rumo a ascensão social. Na ocasião afirmei que, nós brasileiros, ou mudamos radicalmente nossa cultura política e passamos mais a valorizar e, sobretudo defender a meritocracia como regra, em detrimento do apadrinhamento e do clientelismo, ou corremos o fatídico risco de ver a educação ser tratada novamente como um artigo de importância secundária.
Num país como o Brasil poucos são os que estudam simplesmente na perspectiva de aquisição de capital cultural, de ambicionar o saber em função de uma formação intelectual sólida por si só. A educação desde que passou a ser democratizada em nosso país, sempre carregou consigo o discurso de ser um mecanismo capaz de melhorar a capacidade econômico das pessoas, de proporcionar-lhes conforto e estabilidade empregatícia. Assim deveria ser, mas essa receita pouco tem funcionado.
Para o sociólogo alemão Max Weber, o Estado só é possível de funcionar convenientemente bem se a ele estiver atrelado um aparelho burocrático eficiente, pautado em critérios como competência e imparcialidade no seu exercício profissional. Uma burocracia formada a partir do mérito, não através da indicação e do apadrinhamento.
No Brasil o que se tem observado, sobretudo no Nordeste em suas instâncias burocráticas de âmbito estadual e municipal, é que o capital social é muito mais vantajoso do que o capital cultural. É através desse capital social, ou seja, dessa rede de contatos que as pessoas estabelecem entre si, que é possível demarcar seu espaço de trabalho no mercado, sobretudo na administração pública.
Os concursos estão cada vez mais parciais e sem idoneidade. A falta de lisura e valorização de pessoal capacitado se faz presente em substituição por uma parasitária pseudo-burocracia, inoperante e cada vez mais dependente de políticos influentes no aparelhamento do Estado.
Nos programas de pós-graduação de quase todas as instituições públicas do Nordeste o que tem sido observado é o corporativismo e o apadrinhamento nos processos seletivos. É grupinhos de pesquisas da graduação sendo transplantados para programas de mestrado e doutorado sem qualquer critério. É o fim da meritocraria e caminho de uma sociedade cada vez mais sufocada por leis e pela pessoalização das relações burocráticas. Parece que o país estar ficando cada vez menos ético, e engana-se quem pensa que a lei vai preencher o vácuo deixado pela ética.
A baixa estima de nossos estudantes universitários, sobretudo os que ousam enveredar pela área das humanidades é reflexo de que a educação há muito deixou de ser essa promessa de felicidade. Quanto menos éticos forem nossos políticos e aqueles que dispõem de influência e decisão administrativa, maior será a inoperabilidade de nossa burocracia e a baixa estima daqueles que ironicamente ainda são classificados como o futuro deste país.
Depois de ter permanecido sete anos na universidade, onde graduou-se e pós-graduou-se em jornalismo, um amigo meu de nome Bosquinho reconheceu decepcionado que havia saído da condição de futuro da nação para se inserir num programa social do governo. Quanto mais isso acontecer, como vem acontecendo, menos interessante se tornará a educação nesse país. Enquanto prevalecer a Filosofia do QI (Quem Indique), menos fascinante será a educação para nossos jovens e para a prosperidade social.

Imagem: http://www.hsc.org.br/etica/etica.jpg

16 novembro, 2006

Quando o novo é antigo - por Dora Vilela



Hoje já concebemos o homem como um animal ereto. É bípede e, normalmente, usa os pés para se locomover. As crianças, mal completam poucos meses de nascidas, já tentam dar seus passinhos. Andar é um gesto tão automático que ninguém necessita calcular sua efetivação.
Mas, na época em que vivemos, após o surgimento da imensa variedade dos veículos que nos transportam, parece que essa automação ficou prejudicada.
Quando pequenina, eu andava, sem pensar sobre o fato, talvez quilômetros, por dia, ao me desincumbir de minhas atividades infantis, como ir à escola, correr no recreio entre as aulas, ir à padaria, ao catecismo da minha religião, à casa de amigos, enfim, andava e andava. Minha cidade era pequena e meus pais não possuíam carro.
Fico impressionada ao constatar que as pessoas, atualmente, são “instadas” a caminharem, a fazer uso dessa habilidade natural que, simplesmente, desaprenderam ou esqueceram.
Todos os conselhos médicos, após exames de prevenção ou detecção de moléstias, destacam o movimento de “andar”. A doença do século parece ser o sedentarismo ou, pelo menos, advir dele.
São sobejamente conhecidas essas minhas colocações, mas as repito devido ao espanto que me causam a louvação e a redescoberta de uma obviedade.
Já assisti a passagens até jocosas em casa de minha irmã, cujos filhos, já quase adolescentes, ficavam desnorteados quando a mãe se atrasava para levá-los, de carro, a cursos, que distavam alguns quarteirões de sua residência. Telefonavam-me em pânico, pedindo-me ajuda, e, quando eu dava a sugestão de irem “caminhando” pensavam que eu era de outro planeta. Andar? A pé? E esse fato se repete com minha neta, de sete anos, que não sabe ir à esquina do apartamento dela.
Há outros problemas em jogo, hoje em dia, como a violência nas ruas, o excesso de trânsito, o medo generalizado que paralisa todas as iniciativas nesse sentido.
Então, agora é comum a prática que julgo das mais bizarras: caminhadas em “locais próprios e adequados”. Aplainam-se faixas de terrenos, arranjam-se pisos convenientes, sinalizações, tudo artificialmente arrumado para o homem realizar seu “exercício” de andar.
As orlas de praias são repletas de caminhantes que, de tão numerosos, já necessitam de mão e contramão. Calçados são confeccionados_ os tênis_ de todas as marcas e tipos para facilitar a marcha. E as conversas recaem sempre sobre esse tema atualíssimo!!, de “fazer caminhadas”, nas quais é considerado “out” quem não pratica esse esporte importantíssimo para a saúde do corpo...e da mente.
Não sou contra nada do que exponho, mas o que me chama a atenção é a esquisita maneira de se colocar na ordem do dia, como uma novidade alvissareira, um elemento inerente ao ser humano saudável, que é andar com os próprios pés. É interessante observar as transformações do progresso que, ao criar suportes e facilidades para a vivência do homem, por outro lado, desfalca-o quase de sua própria identidade.
Receio que, mais dia menos dia, desaprendamos outros hábitos essenciais, como o de falar, ou sorrir, ou gesticular, já que sabemos de cor todos os símbolos gráficos da linguagem do computador, e, pelo jeito que as coisas andam, comunicarmo-nos por essa máquina já se tornou nosso costume primordial.
Dora Vilela é professora de língua portuguesa e francesa – São Paulo.

15 novembro, 2006

Babel


Direito de não ler?

Por que os jovens não lêem? Porque eles podem. Assim como podem não vir à escola, mas se, podem não participar da aula, podem não estudar, podem não fazer a prova, portanto, podem também não ler. Eles têm o direito de não ler. Nas escolas é famosa a frase do escritor Daniel Pennac (não originalmente dele, mas vá lá) que diz que o primeiro e grande direito do leitor é poder não ler. Ou seja, quer ter do leitor a possibilidade de que leia, assuma que ele é livre para não ler.
A verdade da frase de Pennac (digo, dita por Pennac nos seus “Direitos imprescindíveis do leitor”, in: Como um romance. 4.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.) soa estranha para quem sabe que todo e qualquer leitor, em princípio, deve ler. É óbvio, é claro, é mais que certo, diz você, leitor, e qualquer outro. Como ser um leitor que não lê? Parece que uma coisa nada tem que ver com a outra.
Olhando mais a fundo a frase, a idéia combina perfeitamente com o seu contrário, que é: apesar do direito de não ler, os que lêem temos o dever de ler, e, paradoxalmente, esse dever não é o dever que a gente chama obrigação. Entendeu? Não? É por que a leitura não é exatamente essa.
Quero dizer que, sabendo ler e escolhendo não ler, perdemos muito. Ficamos atrás, deixamos uma vida de valores e significados culturais que podem nos servir mais que se decidirmos jamais continuar lendo após os primeiros e mais significativos passos da nossa história de leitores.
Esta semana, numa aula de literatura, falei sobre o problema com os meus alunos. Os questionei sobre se não havia algo errado nessa coisa de algumas pessoas não gostarem de ler. Como se fosse preciso que uns lessem e outros não, que a humanidade se dividisse entre intelectuais e não intelectuais, entre sabedores de textos e outros que por mil razões não saboreiam textos, mesmos os que já conhecem a palavra escrita. Que dirá da palavra-mundo? Que dirá da leitura de mundo? Da abertura de significados maiores que não está apenas na experiência do registro da palavra escrita... etc, etc.
Não sou maria-vai-com-as-outras, mas há quem pense que o leitor Leitor tem um dom especial, e às vezes dá vontade de crer que é verdade. Pode ser que o leitor Leitor seja um iluminado, uma espécie de escolhido pelos deuses das linguagens para a função de descobridor das infinitas mensagens que nos cercam. E quem me convence são os próprios, alguns leitores Não-Leitores que dizem não haver jeito de lhes fazer entrar na cabeça a idéia de que ler pode ser bom e de que eles podem aprender a ler, mesmo abertos a essa possibilidade democrática de que assim como eles podem tudo, podem também não ler, e ponto.
Fico pensando em meu trabalho de formador de leitores. Difícil, talvez a mais árdua das tarefas do educador em qualquer nível de ensino. Ensinar a ler é duro (uns dizem que a leitura é o osso duro da escola), às vezes você pensa que não vai conseguir. O leitor Não-Leitor (esse que o Quintana chamou de verdadeiro analfabeto porque prefere não ler) fica repetindo, falando ou não: professor, ler é chato, acaba com isso. Por outro lado, tentamos mostrar o contrário de forma a passar a bola, a garantir que os alunos leiam e que gostem de livros, porque uma vez gostando jamais deixarão de ler.
Pennac tem razão ao dizer que o “direito de não ler” está mais para os leitores que não sentem necessidade de ler, “seja porque tenham coisas demais para fazer (o que dá no mesmo, é que essas outras coisas os obturam ou os obnubilam), seja porque alimentem um outro amor e o vivenciem de maneira absolutamente exclusiva”.
Ainda assim, temos que infundir nos alunos o direito de ter direito a gostar de leitura. Se procurarmos fazer isso, basta. Quem decide o depois são os alunos. É o próprio Pennac quem diz: “O dever de educar consiste, no fundo, no ensinar as crianças a ler, iniciando-as na Literatura, fornecendo-lhes meios de julgar livremente se elas sentem ou não a ‘necessidade de livros’. Porque, se podemos admitir que um indivíduo rejeite a leitura, é intolerável que ele seja rejeitado por ela.”
Aos professores, resta-nos ser responsáveis a ponto de oferecer o máximo de experiências leitoras para que os alunos sejam capazes de entender que o “direito de não ler” é como o direito de não querer viver: alguns desejam, outros não têm certeza, muitos fracassam e se arrependem.

A VEZ DO COLUNISTA

Falando em direito de não ler, tenho observado que ultimamente os leitores do Miolo não respondem aos textos do Pablo Capistrano, colunista que nos recebe com os excelentes artigos e crônica que escreve toda segunda-feira. Professor e escritor, Pablo é romancista premiado, além de excelente articulista. Suas crônicas e artigos são de uma propriedade raríssima na internet. Não sei por que seus textos não provocam os leitores, ou, se provocam, não entendo a razão de COMENTÁRIO ZERO na maioria das semanas que seguem. E já faz tempo que está conosco. Acho que já é a vez do colunista.

NOVO NOME

A coluna parabeniza Carol Montone, jornalista e atriz, novo nome que engrandece a equipe Miolo de Pote. Já na segunda semana, sempre um ótimo texto, de grande originalidade e inteligência. À Carol, assim como ao Pablo, está faltando resposta.

GRACILIANO RAMOS

A revista Entrelivros deste mês traz extraordinário dossiê sobre Graciliano Ramos. Na edição, cinco especialistas analisam os mais importantes livros do escritor, São Bernardo (1934), Angústia (1936), Infância (1945), Memórias do cárcere (1953), e sua obra-prima, Vidas secas (1938), que este ano chega à sua centésima edição.
Alagoano de Quebrangulo, considerado um dos maiores escritores brasileiros, nome de envergadura do chamado romance de trinta, Graciliano é, na exata medida, o modelo do escritor artífice. Enquanto artista sempre estivera preocupado com a forma que assumiria a linguagem de toda obra que publicava. Estilo seco, enxuto, apurado, substantivo. Linguagem de quem sabe que a arte de escrever é, como diria, Drummond, a arte de “cortar palavras”, apurando o verbo na procura de evitar as extravagâncias que comprometem certos estilos, certas poesias e prosas ditas “vulgares”.
Vale a pena comprar a revista. Nos últimos tempos tenho visto várias publicações jornalísticas especializadas em literatura tratar da obra do escritor, mas até agora poucas trouxeram tanta informação e qualidade nos textos quanto a Entrelivros desta edição. Destaco o ensaio do escritor Miguel Sanches Neto sobre Vidas secas e o artigo do jornalista e escritor Manuel da Costa Pinto, sobre Angústia, além da reportagem de Julián Fuks sobre a vida e a obra de “O homem sábio do sertão”. No texto de Fuks só senti falta da expressão “Velho Graça”, forma como era tratado pelos amigos o grande Graciliano.

Imagem 01: http://kapa.blogspot.com/uploaded_images/publico2-791935.jpg
Graciliano Ramos:
http://www.vidaslusofonas.pt/graciliano7.jpg

14 novembro, 2006

Palimpnóia


De saudade para saudade

Outra vez a noite de segunda me chega vestida de cansaço e um rasgo de saudade anônima. E outra vez me vejo a uma longa distância dos pensamentos coerentes, das palavras significantes. Mas é dia de escrever para o Miolo-de-Pote. Deitar água no espaço branco que espera ser maculado. Hoje esta água tem cheiro e som de memória enfeitada pelas saudades de mim.
Em meio ao caos do corpo que quer cama, lembro-me de ter lido em algum lugar que a memória está estritamente associada às emoções. Por defesa devo ter me esquecido das emoções negativas. Porque a saudade anônima tem um furtivo gosto de morangos e fantasias. Enfeites da última história que guardo comigo. Éramos jogadores. Nossos movimentos eram como um jogo de xadrez. A cada tirada inteligente, um cavalo se movia. Cada beijo imaginado, uma dama caía. E assim foi por longo tempo. Sem cheque-mate. Ambos os reis eram intocáveis. Não queríamos terminar o jogo. E dizíamos que nos amávamos.
Ainda me pergunto se era mesmo amor. Pode ser que sim. Amor é sentimento tolerante. Dentro dele cabem infinidades de gestos e sentires. Uns brilham espelho, outros alternam trilhas sonoras e caminhos penumbrosos. Mas se estou me lembrando deste amor de tabuleiro é por saudades dos arrepios. Era tão incoersível o que ele causava em mim. Parecia que todo dia eu nascia. E era um nascer novo como de boneca partida que ganha vida. Ferozmente arrepiada.
Mas esta não é saudade de alguém. Saudade é do maravilhamento de estar amando. Amando de qualquer jeito. Daquele jeito poético de mãos que se beijam ou daquele jeito de jogo de xadrez que faz pele atrair pele. Porque amo no outro o meu próprio amor. E meu amor é terra sem bandeiras.
Agora os dias andam pragmaticamente bobos, redondos e iguais. O tempo, antes parceiro, deixou de bailar na minha janela. Por isto esta vontade de ter novamente os pés à beira do abismo. Viver no limite da emoção. Talvez um longo voo de parapente. Ou quem sabe apenas um bom sono que restaurará as energias para encarar um cheque-mate do coração. E o gozar dos olhos pagãos.
E se você disser que não existe saudade de futuro, não vou discutir. Mas não posso concordar.
Que outro nome eu daria a esta estranha vontade de rasgar bandeiras?

Imagem: Tela de Flávio Freitas

13 novembro, 2006

Quase uma paz - Por Pablo Capistrano


Na mitologia de diversos povos existem heróis que morrem e que ressuscitam. Mitra, Dionisus, Cristo. Do mesmo modo também existem bandas que morrem e ressuscitam. O New Order, que se apresenta no Brasil essa semana, é um desses exemplos. Na sua origem ela tinha outro nome, Joy Division (esse é um elemento também da ressurreição, ou mesmo de qualquer processo iniciático: a troca de nomes). Surgida no final dos anos setenta no distrito industrial de Manchester (Noroeste da Inglaterra), o Joy Division canalizou influências dos Stooges e Velvet Underground, para oferecer ao nascente movimento punk um lado denso e sombrio, que iria determinar as regras estéticas nos anos oitenta. Tudo aquilo que se convencionou a chamar de gótico ou pós-punk (do Bauhaus ao Legião Urbana), tem o seu débito com o Joy Division. Mas com dois discos apenas e uma turnê para a América agendada o Joy Division morreu, ou melhor, se suicidou.
Ian Curtis, líder do grupo, vocalista, autor da maioria das letras, epilético, adepto do hábito (pouco recomendado para um epilético) de cheirar cocaína; após uma grave crise conjugal, acabou por se enforcar na cozinha da casa dos pais, ao som de Iggy Pop. O Joy Division estava morto e foi enterrado com seu líder. Mas Peter Hook, Bernad Summer e Stephen Morris, convidaram Gillian Gilbert para os teclados e partiram para a turnê americana, sem Ian. Em 18 de Novembro de 1981 eles se apresentaram em Nova York e o show foi registrado por Taras Shevchenko. No repertório: ansiedades e indefinições. Músicas do Joy, Músicas novas. Ninguém tinha muita certeza se seria Summer ou Hook que arcaria com o ônus de substituir Ian. Quase nada estava claro no primeiro disco pós tragédia. Só uma coisa. Um novo nome, uma nova ordem, uma nova perspectiva estética. O Joy Division morreu, renasceu como New Order e sua trajetória musical carrega uma interessante pedagogia da ressurreição.
Se Ian Curtis compôs um longo bilhete suicida em forma de disco (Closer/ 1980), cheio de um claustrofóbico sentimento de culpa, desespero e ódio auto direcionado; o New Order transitou, do primeiro disco Movement, passando por Power Corruption and Lies, até Brotherhood, por uma estrada que transforma desespero em alegria. Mas o grande ensinamento estético de morte e renascimento está na certeza de que a cura para o desespero passa pela transformação da claustrofóbica sensação de auto-ódio em melancolia. Se você fizer uma linha e postar todos os discos, do Joy ao New Order, em ordem cronológica e ouvi-los em série durante uma noite de Lua nova, vai começar com velas espalhadas na penumbra e terminar em meio a um festival de luzes coloridas. Mas não antes sem passar pela suavidade de luzes azuis e esverdeadas. O ensinamento estético do New Order é que, para você se libertar do desespero é necessário flertar um tempo com a melancolia. É preciso transformar a densa dor que te enlouquece e que te retira todo o ar, num longo estado de tristeza. A tristeza difere fundamentalmente do desespero porque ela é, antes de tudo, um entregar-se e um resignar-se. A melancolia é criativa porque ela te leva a aceitar aquilo que não se pode mudar e, a partir dessa aceitação, ultrapassar a gangorra que te leva do caixão para o palco.
Análises que simplesmente relacionam o New Order ao surgimento da música eletrônica são parciais. Não abarcam o centro nervoso da catarse estética que criou sucessos com “Blue Monday” ou “Love Bizarre Triangle”. Para mim, a melhor música do New Order é “Your Sillent Face” (Power, Corruption & Lies/ 1983). Ela é a linha, o link, a ponte que une as duas caras da moeda dessa banda que morreu e renasceu após o terceiro disco. O Joy deixou uma pista para a cura. Uma porta aberta para a melancolia e para o abandono do desespero, marcada na música “Atmosphere” (1979). O New Order construiu outra porta, nas mesmas medidas, nos mesmos padrões, mas do lado oposto do salão da música pop, em “Your Sillent Face”. Duas formas de melancolia. Dois modos de manter-se vivo. Ouvir New Order é assim. Uma experiência terapêutica. Quase uma paz.
Imagem: http://images.musicclub.it/foto/ia/big/ian_curtis.tif.big.jpg

11 novembro, 2006

Sorria sempre... você está sendo filmado - por Carol Montone


Em dias de mau humor conviver é um ato heróico. Imagine sua agenda ainda repleta das pendências das vésperas. Você não conseguiu domar a raiva por ter sempre tanta coisa insuportável para fazer, que lhe vem à cabeça logo ao acordar, momento em que planejou meditar para começar bem o dia. Aí começa uma seqüência desastrosa. Não há tempo de tomar café da manhã. Tem um dia difícil no trabalho, teve que correr no supermercado comprar ração para o cachorro- que estava comendo papinha de pão velho há dois dias – entrou correndo numa farmácia para comprar seu creme de cabelo, que imediatamente descobriu estar em falta, enfim você se danou a manhã inteira e por um triz não iria almoçar também, porque lembrou que tem alguma coisa urgente para fazer às 13h e já são 12h45. Dadas as circunstâncias, você entra no restaurante mais próximo para simplesmente comer, no sentido literal de matar a fome.
Se não estiver apto para encarar as adversidades da convivência recue. Recomendo que, nesses casos, você simplesmente compre algo na padaria, disfarçado com enormes óculos escuros e coma trancado no seu carro, no banheiro da empresa ou em qualquer outro lugar, realmente privativo, que consiga encontrar, se é que ainda existem tais esconderijos. Não é conselho, mas apenas experiência própria. Já insisti muito em correr certos riscos, munida apenas de pensamento positivo e quase acabei uma ermitã, num monte indiano.
Duvido que seu apetite volte, ou que - no caso de você ter se concentrado apenas em seu prato predileto - não terá pelo menos uma queimaçãozinha no estômago de raiva , caso reencontre na fila do self-service seu (a) ex acompanhado (a) em carícias explícitas com outrem. Mesmo que você seja budista agora ou simplesmente tenha mudado de opção sexual e ainda que o garçom te ofereça a nova batata frita 0 calorias é improvável que você perdoe-se por não ter simplesmente engolido algo na companhia solitária daquele relatório, que já devia por sinal estar pronto. O cenário restaurante é propício ainda para vários outros desafios, tipo o encontro casual com tia, que não te vê há uns três anos, para sua sorte , mas hoje vai aproveitar para botar o interrogatório em dia e no final terminar o monólogo comentando que você precisa para de fumar, ou que engordou um pouco desde a “sagrada “ (para você) última vez que se encontraram.Fora aqueles “amigos” que já saíram da sua lista de telefone, do orkut, msn, mas que insistem em achar que ainda são “da família” e claro se oferecem para dividir sua mesa.
Como disse Sartre: o inferno são os outros. Viver em convívio é sempre um risco. Meu pai me ensinou, desde pequena, o princípio básico da lei de Murf : quando estiveres numa situação difícil crestes que coisas piores virão- mas ele me ensinou também que nessas horas a única saída é relaxar e se for necessário acionar o apático simpático que existe em cada um de nós, curtir a batata frita - no caso do self-service - porque afinal uma coisa não tem nada a ver com a outra e prazeres hão de existir sempre, basta concentrar-se.
Brincadeiras à parte sobre as banalidades da convivência, a 27ª Bienal das Artes de São Paulo propõe-se a ser um espaço de discussão do tema que, pela primeira vez na história da mostra, conseguiu unificar os trabalhos em torno de uma mesma inspiração. Conceitualmente talvez tenha funcionado. Questões como a contradição do olhar, o ponto de referência, a descoberta , o encontro estão lá no Ibirapuera. Esteticamente pobre, no entanto, o evento não consegue, paradoxalmente, harmonia. Como mera visitante da mostra, tive a impressão recorrente de que quando o assunto é olhar, sentir, entender e /ou dividir espaço com o outro, o bom humor é a melhor via. A maioria dos trabalhos argentinos e poloneses levaram esse tom de “brincadeira”para Bienal . Imagine uma casa toda de ponta-cabeça, com a mesa no teto e o sofá na parede, ou uma mesa com todos os países do mundo lado a lado dentro de um pão. Torna-se fácil perceber que as fomes humanas são irmãs, a despeito de nacionalidades. Os argentinos encontraram na estética dos protestos, principalmente trabalhistas, uma forma de mostrar sua graça. Muitas outras abordagens saltaram meus olhos na Bienal deste ano: a metáfora das cidades de açúcar, a sutileza encantadora da arte chinesa, algumas exposições fotográficas, entre tantos outros destaques.
Passadas as reflexões profundas sobre convivência mundial, ética, política e outros pensamentos nobres comecei a vagar sobre banalidades de um tempo cada vez mais individual- na Bienal inclusive já havia um balão ( uma bolha, na verdade) de gás hélio, onde dizem ser possível a sobrevivência flutuante de seres vivos como plantas e humanos em geral, quando o caos chegar. A viagem despretensiosa me levou à certeza de que o bom humor é essencial. Entre outros significados literais conviver é viver em familiaridade. Nunca foi e nem é natural viver em comum com a estranheza, que a diferença nos causa. Trata-se apenas do inevitável.

Carol Montone é jornalista, atriz e colunista do Miolo de Pote aos sábados

Imagem: Foto de Pilar Mendes Dias - http://www.1000imagens.com/

08 novembro, 2006

Babel

Machado-Bentinho ou
Dom Casmurro para iniciantes
Semana passada falei de Machado de Assis. Esta semana volto ao autor, dessa vez para observar o narrador do Dom Casmurro. Como se sabe, o narrador-protagonista do livro de Machado não é de confiança. Há mais de um século que os leitores fazem a mesma pergunta: Capitu traiu ou não o Bentinho? Para o narrador-personagem, Bento Santiago, sim. E dessa forma também para o leitor comum do romance, vítima da atuação da voz discursiva do narrador.
Para Jose Veríssimo, crítico atuante à época de Machado, e para os primeiros críticos do romance é impossível que Capitu não tenha traído o marido. Mas há interpretações que vão contra essa visão.
A partir de um estudo realizado pela norte-americana Helen Caldwell, publicado em 1960, se declara que os indícios propostos pelo narrador do Dom Casmurro não evidenciavam que a heroína havia traído o marido. Como se sabe, o clímax da história é relevado quando Capitu chora junto ao corpo morto de Escobar. É nesse momento que o personagem-casmurro passa a desconfiar de um suposto caso entre Capitu e o seu ex-companheiro de seminário. A desconfiança aumenta quando Betinho julga perceber no filho traços físicos do amigo. Daí em diante Bentinho tece comentários que pretende levar a si e ao leitor ao convencimento da culpa da esposa. Passa acusá-la; dá a Capitu ares de adúltera. Mas a que atribuir as acusações de Bentinho contra Capitu?
Segundo a visão de Caldwell, no ensaio Brazilian Othello of Machado de Assis, as acusações se fundamentam no excessivo ciúme que Bentinho nutria pela amada. A esse fato ela acrescenta que Machado usou de um habilidoso artifício literário na própria construção da obra, dando ao narrador a sutileza de mostrar a história de Otelo e o castigo que este deu a sua amada Desdêmona, vítima dos ciúmes do mouro no enredo shakespeariano.
Em 1984 o inglês John Gledson, aproveitando as idéias de Caldwell, argumenta que as acusações de Bentinho, além de relacionadas ao caráter emocional do narrador, têm ligação principalmente, com assuntos de ordem social: seria por puro preconceito que Santiago veria em Capitu uma mulher calculista e ambiciosa; capaz de tê-lo traído. O crítico de origem austríaca, residente no Brasil, Roberto Schwarz, aproveita as interpretações de Gledson e Caldwell e sintetiza no Dom Casmurro o fluido entre duas diretrizes. Segundo ele, a tensão individualista do narrador provocada pelo autoritarismo patriarcal da época se incorpora às prerrogativas estéticas e inovadoras utilizadas por Machado na composição do personagem. Por aí se vê que há muito mais que um simples acaso no Dom Casmurro.
Machado nesse romance tem duas faces: a dele, como escritor, e a do personagem; ou seria somente uma única: Machado-Bentinho num só?
Como resultado de muitas leituras é impossível que não haja esse vínculo. Basta que se sobressaiam essas três interpretações apresentadas sobre o romance. A cumplicidade existe a partir do momento em que escritor torna-se vulto de intenções. Machado é o próprio Bentinho quando ousadamente dramatiza o caráter e as aptidões contrastantes da inteligência brasileira, tornado-se o porta-voz da crise da sociedade patriarcal. A natureza ambígua de sua narrativa serve como pano de fundo para exteriorizar os valores sociais da época. O que vem adiante é uma compreensão crítica do significado da vida local. De um lado a objetividade do desmascaramento social e de outro o capricho da expressão individualista.
O certo é atar as duas pontas e Machado será outro. Não há como partir uma fisionomia que é única: o clima do romance é o de atitudes que escondem absolutos interesses. Ao ler Dom Casmurro o leitor comum deve olhar de um outro ângulo. Não aquele da ilusão intelectual provocada pela emoção dominadora dos ciúmes de Bentinho, mas o que esconde ressonâncias obliquas e dissimuladas. Desmistificando a primeira idéia, difundida pelo narrador e há muito aceita pela crítica conformista, é possível entrar no campo de uma especulação mais profunda, como o fizeram Gledson, Caldwell e Schwarz.
Quando os primeiros críticos estudaram o Dom Casmurro eles pretendiam duas coisas: buscar a verdade sobre a culpa ou a inocência de Capitu ou provar que não haveria nenhuma verdade sobre o adultério. Dessa forma, pela história contada por Bentinho seria impossível afirmar que houve traição. Mas o que se inscreve no enredo não é se há ou não há verdade. Há primeiramente um jogo de afirmações sutis sob uma ótica totalmente individualista e autoritária, facilitada pelo engenho e pela ideologia machadiana. Poderíamos dizer que Bentinho não é marido traído, mas provamos a infidelidade de Capitu? Com certeza não. Dom Casmurro é o relato de um marido ciumento que tenta condenar a mulher a todo custo e defender suas intenções.
Ora, o narrador-personagem pode distorcer os fatos caso queira. A primeira pessoa como foco narrativo é única testemunha dos acontecimentos. É quem dita a história de acordo com o seu ponto de vista. Como Machado prefere a não-onisciência, resulta daí uma técnica que autentica a ambigüidade do comportamento de Capitolina, mas não a condena a nenhum veredicto. O réu, o acusado (e não culpado) na história seria Bentinho e não Capitu. Puni-la precipitadamente é enterrar a dúvida; inocentá-la, da mesma forma. Melhor que se deixe de querer tentar desvendar o mistério do Dom Casmurro.
Além do mais, esse livro não existiria sem a ambigüidade, sem esse conflito, sem a confusão que provamos quando o lemos. Mas, importa não esquecer a retórica de Machado-Bentinho, sedutora e atraente como os olhos de ressaca de Capitu.

Imagem: Elisa Lucas como Capitu. Retirada de http://www.brasileirinho.mus.br/palco/fotos/teia-capitu.jpg

07 novembro, 2006

Palimpnóia




Em meio a papéis, múltiplos exemplares do mesmo livro e a inexorável contagem do tempo, recebi a notícia: morreu Frederico Paz. Morreu como um passarinho. Foi como me disseram. Por segundos, pensei: quem será Frederico Paz, meu Deus? Se estão me dizendo é porque devo saber. Quem sabe até devo me entristecer? Insistiram: Frederico Paz, o leiteiro. Seu Derico! Entristeci. Mais que isso, me senti culpada por nem sequer ter sentido sua falta. Só então me dei conta de que havia mais de um mês era outro a trazer meu leite.
Esta constatação me fez pensar nas diferenças sociais. Até mesmo em relação à morte. A maioria das mortes é anônima e não tem nenhum significado para o mundo. Outras têm o poder de entristecer um país inteiro – ainda que sejam de pessoas que conhecemos apenas de nome e mídia. Lembrei Fidel. Dizem que está em estado terminal. Certamente a morte de Fidel não será como a de um passarinho. Nem será anônima como a do leiteiro, seu Derico. E dividirá o mundo. E me dividirá. Porque há uma parte em mim que cultua a revolução e que tem em Fidel a romântica figura do revolucionário. Quase tão admirado quanto Che. Mas a outra parte não reconhece o regime totalitário. Uma ditadura que se fez em nome da liberdade e igualdade, solidificou-se com a morte de milhares e milhares de pessoas e perdura cerceando o direito de escolha de um povo. Não foi neste socialismo que acreditei e pelo qual lutei.
Será que chorarei dividida pela morte de Fidel? Uma lágrima comprida em apenas um olho. No outro, o brilho de alívio pela liberdade de um povo que não tem o direito de escolher se quer jantar BigMac com coca-cola (por mais que eu desgoste de americanismos, não abro mão desta dupla). Mudei eu ou mudou Fidel? Mudamos nós. Não sou mais revolucionária, mas também não sou reacionária. Não sei o que sou. No entanto, me acho no direito de dizer o que Fidel é. Um julgamento um tanto incoerente, confesso. Mas baseado em fatos, o que é menos mal.
Fidel ainda não morreu e já estou imaginando como me sentirei. E ainda nem levei em consideração o que acontecerá a Cuba, ali tão pertinho do grande predador Bush. Talvez por isso já sinta uma certa tristeza. Mas é melhor nem deixar o pensamento pisar este caminho ou verdadeiramente me entristecerei. E tristeza agora é para a lembrança do sorriso constante e desdentado de seu Derico, que durante dois anos trouxe um leite espesso, engordativo e delicioso para o meu café da manhã. E eu nem imaginava que se chamava Frederico Paz.
Pela minha introspecção entra a voz de Lulu Santos. Fidels e Dericos viram música e fazem caminhar a humanidade. Em passos lentos ou corridos. Com dentes ou sem eles. Lembrados ou esquecidos. Em ditaduras ou democracias. Esperando, cantando, fazendo, chorando. Vivendo.
Não é assim que caminha a humanidade?


Foto: Museu da Revolução de Teotonio Roque - Galeria Olhar sobre Havana

06 novembro, 2006

DEMOCRACIA ON LINE – por Pablo Capistrano


Depois dessa eleição presidencial ninguém vai mais negar a força da rede mundial de computadores. Quando o primeiro turno acabou, a impressão que se tinha era que a candidatura do tucano Geraldo Alkimin iria decolar. Os opositores do presidente Lula se encheram de esperança e invadiram as ruas com uma seqüência azul e amarela de adesivos do PSDB. Parecia que agora, o mito do operário mutilado, do retirante sertanejo que sobreviveu ao teste da fome e se tornou presidente iria acabar definitivamente. Embalado pela revolta cidadã de alguns setores da classe média que, ainda no dia da eleição do segundo turno, andavam ameaçando: “se Lula ganhar o governo acaba antes de começar”.
Passado o segundo turno a surpresa prevista nas pesquisas: Alkimin teve dois milhões de votos à menos. Não chego a pensar que a derrota tenha sido humilhante porque há sempre dignidade na derrota assim como há sempre dignidade quando o combate é justo. Mas a derrota do Alkimin foi no mínimo desconcertante. Como explicar que um governo desgastado por quase dois anos de uma inexorável e sistemática campanha da grande mídia tenha conseguido impor uma vitória com margem tão larga?
São vários os fatores que podem explicar o resultado da última eleição presidencial, alguns políticos, alguns econômicos, alguns estratégicos. Politicamente o PSDB não conseguiu pagar o tributo necessário para eleger Alkimin presidente. Esse tributo era o sacrifico de Serra ou de Aécio Neves. Um dos dois deveria ser imolado no altar dos deuses da política para que Alkimin tivesse alguma chance. Isso não ocorreu. Em nenhum momento, nem do primeiro turno nem do segundo, o PSDB teve a coragem de lançar um dos seus dois presidenciáveis de 2010 na fogueira. Entre Serra e Aécio, o PSDB acabou optando por sacrificar Alkimin e deixou-o patinar para ver se um milagre poderia ocorrer, com todas as penitências, jejuns e orações da opus dei. Do ponto de vista econômico não houve escapatória. Alkimin teve que pagar o ônus dos últimos quatro anos do governo Fernando Henrique e não teve fôlego para impor uma agenda positiva que invertesse o teor da campanha nas últimas semanas, ficando nas cordas, sem força párea reagir quando o tema das privatizações entrou na pauta.
Por fim, a estratégia. Contra toda a mídia televisada, a Internet foi uma arma poderosa. Um cérebro autônomo de informação e fofoca, que marcou definitivamente o segundo turno. O PSDB não soube como potencializar o poder da rede mundial de computadores no sentido de pautar a opinião pública. Os E-mails pro-Alkimin pareciam mais uma descarga voificerante de um ódio classista. Apontavam a ignorância do presidente Lula, chamava-no de marginal, ladrão, alcoólatra. Mas não conseguiam puxar um debate que pudesse desmontar o discurso do governo. Contra os impropérios morais e sociais, os cybermilitantes petistas lançaram on-line uma lista de comparações dos números do governo Lula e do FHC que, a despeito de serem ou não verdadeiras, caiu como uma bomba e calou a boca de muita gente que não conseguia encontrar argumentos e apelava para um discurso emocional de uma tecla só. Alkimin patinou nas estratégias políticas no segundo turno. Foi um desastre no primeiro debate da Rede Bandeirantes (apesar da imparcialíssima imprensa brasileira ter dado sua “vitória” por pontos) e depois começou a se afogar numa imensa dificuldade de encontrar um discurso próprio que o diferenciasse de si mesmo e desse esperança para sua militância. Mas o fato é que, depois dessa eleição o impacto da Internet nunca mais vai deixar de ser medido numa eleição presidencial. Lógico que não foi apenas a cybermilitância que definiu essa eleição, mas ela foi fundamental para que Alkimin tenha saído do segundo turno numa situação pior do que a que entrou. Se Lula ganhou pelos méritos de seus acertos, talvez o pobre Alkimin (imolado no altar sagrado da política) tenha mesmo perdido pelos ônus de seus erros.

Pablo Capistrano é escritor e professor de filosofia, colunista do Miolo de Pote às segundas.
Site do autor: www.pablocapistrano.com.br
Imagem: http://www.vermelho.org.br/museu/classe/217/capa-F1.jpg

04 novembro, 2006

Quero ser salva do Complexo de Cinderela - Por Carol Montone


Quero ser salva dessa idéia tosca, que me incutiram, de que preciso ser salva. Eu sei me virar sozinha, apesar de não ter sido criada para isso. Cresci e já tenho altura para ascender a luz. Chega dessa dor de espera, que maculou minha inocência. Ninguém vai chegar. Tenho que cessar algumas buscas e traçar planos concretos para encontrar. Não há prêmios no fim da jornada, apenas merecimento. Meninas são criadas para achar que na exata hora em que bater o cansaço, medo, insegurança ou até simplesmente a preguiça, um príncipe surgirá no seu cavalo branco e tudo terá valido a pena. Parece um discurso ultrapassado, pré-feminista? Sim, mas atire a primeira pedra a moçoi-la, que possa gabar-se de nunca ter idealizado um “salvador”, nem que seja apenas para dar colo ou orgasmos, após um dia difícil. Essa expectativa não parece ser condenável, mas a dor está no verso dessa moeda, quando não há um homem momentaneamente na vida da “sofredora”, ou há, mas pode não estar disponível e aí a princesa acredita que é cocô do cavalo do bandido e paira resignada sobre sua psêudo-independência, lamentando gritos de silêncios, que só as células ouvem e para avisarem o mundo se organizam na construção de doenças psicossomáticas e outros males do século.

Os meninos são mesmo, ainda hoje, criados com mais assertividade no quesito autonomia, afinal é uma prova de masculinidade levantar rápido de um tombo no colégio, mesmo que os tempos de agora permitam uma choradinha básica. Já nós meninas devemos priorizar a feminilidade, a inteligência desenvolvida quase que unicamente para a sobrevivência através da sedução. Trata-se de tornar-se interessante e não auto-suficiente. Estudar, especializar-se numa profissão é o dote de hoje, digamos assim, para algumas mulheres, que na verdade só pensam no casamento e depois na aposentadoria. Onde estará o prazer pelas tão sonhadas independência e igualdade?
Parece não estar na cama, onde muitas de nós regalam-se com o sexo casual para depois chorar à manicure as agruras do telefonema que não veio ou do pai dos filhos planejados, que não chegou. Quem na noite passada poderia supor que aquela mulher inteligente, batalhadora, que entretia a todos com seu decote e sua retórica era um desiludida mascarada, uma fóbica, insegura quanto ao seu poder de sedução, inteligência e até com o tamanho dos seus seios????
Algumas mulheres contra-fóbicas, como classificou a psicóloga americana Colette Dowling, em seu livro o Complexo de Cinderela, gastam a vida para construir carreiras brilhantes, inclusive em áreas tipicamente masculinas, mas no fundo escondem uma marcante auto-estima distorcida e mal trabalhada, são menininhas assustadas e confusas, perturbadas com o fato de aparentemente ninguém saber ou se propor a cuidar delas. Sem contar aquelas companheiras, que ainda se valem da máxima de que atrás de um grande homem vem sempre uma grande mulher e exilam-se voluntariamente - muitas vezes depois de uma breve carreira ou pelo menos de garantirem seus diplomas pró-formes - na segurança de suas responsabilidades domésticas, principalmente de mães. Ainda vale destacar, como comentou a autora, as garotas, que sentem-se profundamente injustiçadas pelo mundo, quando obrigadas a trabalhar e cuidar de si mesmas por questões inerentes às suas vontades, como separação conjugal, viúves , necessidade de sustentar sua prole entre outras.
O livro vale a pena para que nós e eles entendamos que essas crenças e atitudes destrutivas nascem na infância e são cultivadas por um mecanismo de acomodação das meninas induzidas, desde o berço, a acreditarem que sempre haveria alguma pessoa mais forte para protegê-las.
Não é possível que a liberdade nos venha repleta de tristeza meninas. Mãos à obra. Nós podemos mais. O medo há de existir sempre. A cada desafio pensem nos versos de Clarice Lispector (Aprendendo a Viver) “Pelas plantas dos pés subia um estremecimento de medo, o sussurro de que a terra poderia aprofundar-se. E de dentro de mim erguiam-se certas borboletas batendo asas por todo o corpo”.

03 novembro, 2006

O Martelo e a Bigorna


Duprat e a balada de finados

O céu hoje acordou de ressaca, tamanha foi a farra em celebração a todos os seus habitantes no dia de ontem. Ao som da tropicália, a festa foi uma homenagem ao recém chegado maestro Rogério Duprat, que deixou o mundo dos vivos na semana passada ao embarcar do Hospital Premier, na zona sul de São Paulo, rumo a uma espécie de caixa preta que poucos desejam conhecer apressadamente. Como não precisou fazer check in em nenhum aeroporto nacional, o embarque aconteceu como estava previsto, a saber, às 15h35 de quinta-feira, 26 de outubro.
Acompanhado de perto por músicos como Tim Maia, Nara Leão, Tom Jobim, Nelson Gonçalves e tantos outros que ali se fizeram presentes, Duprat deu o tom da comemoração. A música de abertura foi Domingo no Parque, seguida de mais algumas canções, das quais o maestro participou como arranjador.
De longe três exóticas pessoas chamavam a atenção pelo comportamento meio que inadequado, era Vinicus de Moraes conversando com Cássia Eller e Raul Seixas, sentados envolta de uma cova rasa, com as pernas para o ar, jogando pedra na cruz e soprando as velas que na terra eram acessas pelos parentes vivos . Esse foi, podemos assim definir, o halloween celestial.
Estavam todos vestidos de preto e cercados por velas de todos os lados. O cheiro de flores se misturava ao de parafina. Existiam até camelôs vendendo óculos escuros e colírio. A mídia fez a sua parte, anunciou com antecedência a festa dos mortos ao estilo halloween, tendo Duprat como atração principal e convidado de honra deste ano.
Enquanto no céu todos cantavam e dançam uma mistura de rock in roll com bossa nova, na terra familiares e amigos rezavam e pediam proteção aos seus finados. Essa é a festa dos mortos, um prato recheado de preto, óculos escuro, colírio, música de primeira e conversa de botequim, além de muita oração.
A morte é uma festa, já dizia João José Reis. Enquanto eles comemoram lá em cima, ficamos nós aqui em baixo pedindo a absolvição de seus pecados. Assim é o dia de finados, uma visita que a vida faz à morte.

02 novembro, 2006

A companhia das coisas - por Adelaide Amorim


Durante alguns anos de minha vida, pensei que um dia seria dona de uma loja de presentes, desses que a gente gosta de ganhar e de dar para fazer felizes aqueles que amamos. Sou louca por objetos, coisas ditas inanimadas mas capazes de animar as pessoas e fazer seus olhos brilharem. Para isso, um objeto não precisa ser necessariamente valioso e caro. Tenho caixinhas e descansos de mesa feitos de palha, porta-guardanapos de madeira e simples tigelas de uso diário que amo pelo desenho e pelo material de que são feitos. Uma vez fiquei siderada diante de uma molheira e não consegui seguir meu caminho antes de entrar na loja e levar para casa meu presente.
Muitas mulheres correm a mudar a cor dos cabelos ou comprar roupas e sapatos quando estão tristes ou decepcionadas. Eu compro coisas, antes de qualquer outra providência. Também recorro ao cabeleireiro, é claro, mas nunca pintei os cabelos, de modo que faço um novo corte, uma boa massagem; às vezes vou procurar uma roupa nova – esses recursos que a gente tem, graças a Deus, pra mudar o exterior quando o interior está pouco convidativo. Mas antes passo nas lojas de decoração e trago de lá um cinzeiro original, um vaso bonito, um porta-retrato diferente. Tenho uma pequena coleção de caixinhas, adoro luminárias bonitas e estantes, que nunca são demais para os livros que chegam e sempre estão precisando delas. Mas há as almofadas e as mantas, quer coisa mais gostosa de escolher e ver em casa?
Meu pai tinha tinteiros de vidro que não sei onde foram parar, canetas de pena que ele molhava nos ditos, pesos de papel de cristal que me faziam sonhar e um mata-borrão que eu adorava vê-lo manejar sobre o papel de tinta fresca, além da caneta-tinteiro, uma Parker preta listradinha de cinza que nunca esqueci. Guardei dele as sobrecapas de couro para proteger os livros, mas ficaram muito gastas e acabaram guardadas como relíquias.
Quando compro ou ganho algum objeto, experimento seu convívio como quem avalia um vizinho novo. Deixo-o num lugar em que eu o veja a toda hora até que se integre ao dia-a-dia. Paro de vez em quando para conhecer melhor a novidade; examino, pego e invento novos lugares para pousá-lo até que se harmonize com a paisagem e o clima da casa. Quando isso acontece, saio procurando seu lugar definitivo. É a prova de fogo, depois da qual quase sempre o estranho vira membro da família, parte do patrimônio da casa e objeto de afeto e cuidados especiais.
Estranho? Nem tanto. Ao menos essa ligação com as coisas não chega a incomodar ninguém e me dá algumas alegriazinhas inocentes. Há coisas piores – fetiches que às vezes chegam a ser repulsivos, gostos que ninguém explica, manias que incomodam bem mais quem estiver em volta.
Adelaide Amorim é escritora, carioca por nascimento e convicção e publica seus escritos no Blog Umbigo do Sonho - http://www.meublog.net/adelaideamorim/