31 julho, 2006

As ruas que andei - por Linaldo Guedes

Entre a rua Doutor Coelho e a praça João Pessoa repousa meu coração cajazeirense. E um repouso aparentemente singelo, que leva a um mergulho em um tempo onde Cajazeiras ainda pontuava no Estado como a terra da Cultura.
A rua Doutor Coelho é a primeira etapa de uma infância guardada com carinho no coração. Uma infância onde predominavam as brincadeiras nas calçadas, logo após os seriados exibidos pela Rede Globo, numa época em que a emissora dos Marinhos ainda não ditava rumos e modas nesse país. Fazíamos dos cabos de vassoura o suporte ideal para brincar imitando os velhos filmes de faroeste.
Nos finais de semana, a corrida para o Cine Pax assistir aos filmes que estavam em cartaz. Tempos bons aqueles! Quando saíamos do cinema imitando as lutas marciais de Bruce Lee e não queríamos felicidade maior do que aquela! Uma felicidade que, imagino, a atual juventude cajazeirense não tenha, já que se limita a curtir os últimos lançamentos da sétima arte no vídeo-cassete. Alguns, infelizmente, tenho certeza, jamais tiveram o prazer de constatar in loco a magia que é assistir a um filme no próprio cinema, comendo pipoca.
Mas a Doutor Coelho era muito mais do que a expectativa dos filmes, ou as brincadeiras nas calçadas. De um lado, se abria o caminho para o Açude Grande, que já naquela época lavava a roupa de toda Cajazeiras, embora não banhasse quase ninguém. Soube que hoje o açude está remodelado e se transformou na área lazer que a cidade sempre mereceu. O fascínio pelo pôr do sol às margens do açude, começou numa das escapadas pelo braço da Doutor Coelho.
Outra vereda que se abria era a subida para a Camilo de Holanda. Mas ali era proibida a presença de garotinhos imberbes. Diziam que era o caminho do prazer e a gente ouvia as conversas com um misto de excitação e temor. Enquanto isso, olhávamos para o horizonte, para as veredas que levavam ao Ceará. Mas quem queria sair de Cajazeiras naqueles idos?
A Praça João Pessoa já chegou na pós-adolescência. Também de lá, se podia ter o privilégio de chegar ao Açude Grande, mas as noites do pós-adolescente não comportavam tais mergulhos traquinas.
Por isso, a Praça João Pessoa tinha outras mil e uma utilidades. Era o caminho mais rápido de acesso ao Tênis Clube. O velho Tênis Clubes, com seus shows e festas que varavam as madrugadas, em trilhas sonoras já incentivadas na Patamuté durante os dias que antecediam as festas por nomes como Lúcio Vilar e Maxwel. Trilhas sonoras que iam dos Pholas e Trepidantes (quantos e quantos shows do Trepidantes não lotaram o Tênis) ao moderno axé baiano de Luís Caldas e outros contemporâneos.
Praça João Pessoa que depois serviria de ponte também para o Xamegão, a bela festa sãojoanina cajazeirense. Impossível não lembrar de Chico Amaro afinando a sanfona e esquentando o público para as principais atrações do evento. Ou mesmo bandas que não tinham nada de forró, como o Apocalipse, mostrando o ecletismo e a força sempre marcante da cultura na Terra do Padre Rolim.
Ah, a praça João Pessoa, com seus bancos e bares! Descanso para os corações enamorados? Qual o que! Quem queria descanso naqueles tempos do Bar FM? A energia da juventude não dava para ser desperdiçada assim, sentada num banco da praça.
Nas madrugadas, podia-se criar outra ponte entre a praça João Pessoa e a Doutor Coelho. Mas aí o cronista já tinha descoberto novos caminhos, novos becos e avenidas cajazeirenses. Agora, o caminho é para o alto. Melhor dizendo: para o Alto Belo Horizonte, o atalho mais fácil e divertido, no meio daquela gente simples, para o caminho do saber, para o campus universitário e o primeiro alumbramento com a literatura. Pelas mãos da professora Elionita de Sá, a paixão pelas letras se intensificou, ao descobrir a poesia de João Cabral, Carlos Drummond de Andrade e dos poetas portugueses. Ai já era hora de alçar vôo, para onde o verso e a prosa soprassem. Era hora de escrever novas linhas no destino. Quem sabe no litoral?

Linaldo Guedes é jornalista e poeta paraibano, eventual colaborador do Miolo.

30 julho, 2006

Hein!?

Um pouco da nossa música nos anos 70

Na década de 70 nasce a história do rock no Brasil, uma inspiração do primeiro movimento de cultura jovem do Brasil, a Jovem Guarda de Roberto e Erasmo Carlos. A partir daí, a rapaziada começou a misturar a guitarra elétrica com elementos da música brasileira dando outro empurrão na música brasileira com a Tropicália - 1967. Passando a revolução musical causada por Gil, Caetano e os Mutantes, o rock ganhou uma cara marginal no cenário da música brasileira.

Vários fatores colaboraram para que nos anos 70 o roqueiro tivesse cara de bandido, como cantou Rita Lee, que saiu dos Mutantes, se juntou a banda Tutti-Frutti e virou nossa rainha do rock. O maior ícone do rock nacional surgiu também nesta mesma época, vindo da Bahia. Raul Seixas misturava Elvis Presley e Jerry Lee Lews com Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, com muito esoterismo e irreverência.

Os Secos & Molhados adaptaram a música folclórica com o Glitter Rock de David Bowie alcançando um sucesso nunca visto na cena – quebrando recordes de vendas com o primeiro disco em 1973 – e ainda revelando um grande nome da música popular brasileira, Ney Matogrosso.

Na segunda metade da década as poucas bandas que insistiam em fazer rock no país geralmente tendiam para o HardMade in Brazil, Patrulha do Espaço, Bixo da Seda – ou para o ProgressivoO Terço, Moto Perpétuo, Casa das Máquinas, Veludo Elétrico, Vímana. Restavam ainda outras vertentes da música como o Rock Rural com , Rodrix & Guarabira e o Pré Punk Joelho de Porco. Caminhando para o fim da década de 70 o rock nacional perdeu sua força devido a grande massificação nas rádios do som Discoteque.

Por Weberth Mota
[ Trilha para a semana; Build Up - Rita Lee ]
[ Dica de Leitura; O Caçador de Pipas ]

29 julho, 2006

Arte Incomum

Os nus de Muybridge

Os primeiros nus masculinos na história da fotografia surgiram em 1872, com fins científicos. O britânico Eadweard Muybridge uniu fotografias individuais, captadas separadamente, tornando visíveis as fases da locomoção, utilizando como modelos animais domésticos, além de mulheres e homens nus, inclusive ele mesmo. Seus estudos foram publicados somente em 1887 e conquistaram uma comedida respeitabilidade científica, já que os modelos nus, principalmente os masculinos, representavam um escândalo.

A divulgação do escândalo de Muybridge serviu de estímulo a outros artistas, que não buscaram qualquer justificativa científica para fotografar ou utilizar fotografias de nus masculinos. Thomas Eakins, considerado o maior pintor norte-americano do século XIX, utilizou os trabalhos de Muybridge na composição de suas pinturas, mas foi forçado a renunciar ao cargo de professor da Academia de Belas Artes da Pensilvânia, por trabalhar com modelos masculinos nus em uma turma mista.

A circulação paralela e ilegal do nu artístico masculino perdurou em muitos países até o final da década de 1960. Em 1968, a revista americana Grecian Guild Pictorial venceu uma ação na Suprema Corte dos Estados Unidos, que finalmente reconheceu essa modalidade de fotografia como arte. A profusão de revistas explorando o nu masculino, de apelo artístico, erótico ou mesmo pornográfico, cresceu vertiginosamente desde então.
Crédito imagem: wikipedia.org

27 julho, 2006

O Martelo e a Bigorna


E se os livros sumirem?

Este mês a revista Entrelivros publica um artigo sobre a atividade de empresas ligadas ao ramo da informação virtual que estão possibilitando a transferência das informações impressas nos livros tradicionais, no velho estilo papel, para o meio eletrônico. É um projeto ambicioso que já reúne várias companhias na busca do que os pesquisadores e investidores chamam de biblioteca universal. Com o desenrolar do trabalho dos pesquisadores, em tempo menor que um simples virar de página teremos um banco de dados que poderá ser acessado de qualquer lugar do mundo ao alcance de um clique de mouse, como acontece hoje através dos vários mecanismos de busca e pesquisa existentes na Internet.
Empresas como o Google, Amazon, Yahoo e MSN são as maiores investidoras. A americana Amazon, por exemplo, vem desde há muito digitalizando o acervo de pelo menos centenas de milhares de obras contemporâneas. E num ritmo muito rápido se comparado à velocidade com que a informação mundial foi construída e registrada ao longo dos séculos, segundo os dados apresentados por Kevin Kelly, que assina o artigo publicado na Entrelivros: “Dos tabletes sumérios até hoje, os humanos "publicaram" pelo menos 32 milhões de livros, 750 milhões de artigos e ensaios, 25 milhões de canções, 500 milhões de imagens, 500 mil filmes, 3 milhões de vídeos e programas de TV e 100 bilhões de páginas da Internet”. A tecnologia proporciona a transmissão de pelo menos mil páginas por hora, através do trabalho de um robô que folheia as páginas das raridades enquanto o scanner das câmeras digitais vai copiando a informação.
Também paises europeus juntam-se à idéia, como forma de reagir ao projeto americano representado por empresas como Goolge de dominar a iniciativa que, como não podia deixar de ser, devolve aos investidores cifras bilionárias. Em maio de 2005, a França, Alemanha, Itália, Espanha, Hungria e Polônia assinaram um acordo comum em que criavam o que seria a sua Biblioteca Digital Européia, prometendo escanear cerca de 6 milhões de obras em cinco ano. Mas os números não acabam por aí. É cada vez maior a quantidade de escaneamentos de obras e o interesse de paises e empresas no negócio. Lucrativo, como dissemos, pois envolve critérios de ordem jurídica, como a manipulação de direitos autorais de obras que ainda não caíram no domínio público, alem de infinitas vantagens comerciais.
O interessante do projeto da biblioteca universal é o fato de, após a digitalização do acervo mundial o mais simples cidadão poder obter, como num toque de mágica, páginas e páginas de informação virtual que ficarão armazenadas dentro da rede mundial de computadores, obras inteiras de todas áreas do conhecimento humano. Com certeza será um grande avanço no processo de democratização e acesso à informação e à leitura em todo o planeta. Preocupa, contudo, o prazo de vida do velho e poético livro impresso. Com a biblioteca universal digitalizada o livro poderá sair de cena? E se os livros sumirem de nossos olhos e mãos (mãos principalmente)?
Se contarmos o aumento cada vez maior da formas virtuais de leitura (a exemplo do e-book), como muitos observam, as formas originais correrão grandes riscos. Pensa-se assim, mas sabemos que falta a um enorme número de pessoas no mundo o mínimo de condições de acesso à informação digital caso, futuramente, os livros impressos tornem-se tão virtuais quantos os leitores reais que conhecemos.
Felizmente na atualidade o livro digital não domina por completo as preferências dos leitores. Há ainda quem não se adapte à tela do computador para ler livros. Por isso, acredita-se que, mesmo a um passo da universalização do conhecimento via Internet, o livro dificilmente desaparecerá. Não custa lembrar Umberto Eco que dizia ser o livro um desses objetos que a humanidade não dispensa, sua utilidade está para a vida humana como um espremedor de laranja para uma cozinha. Por isso, aos leitores dos velhos impressos, a calma, os livros não sumirão. E mesmo se sumirem, começaríamos tudo de novo, como os primeiros sumérios da era digital.

Imagem: www.maschamba.weblog.com.ptmaschamba.weblog.com.pt

Miolos - Por Dácio Jaegger



Tem tempo. mas não muito! Não conto no relógio, no calendário ou na folhinha. Conto no miolo da cabeça, não no de pote que isto é besteira, segundo o que tenho guardado de passagens pela net e que é linguagem de cearense, será? Achei num “dicionarim” que dizia ele, lá com ele mesmo e pra qualquer um: “miolo de pote” significa bobagem, besteira, “água”. Veio-me à mente dos vários usos de miolos, seja de gente ou de animais; estes servindo-se quando possível dos tecidos crus quando podem penetrar dentro de crânios, mister de larvas, formigas, besouros e outros. Mamíferos carnívoros ou aves tais, não podem rachar, penetrar nos crânios, não se dão ao requinte da degustação dos cérebros isoladamente, salvo os das pequenas vítimas, aí, de mistura com pêlos, penas, olhos e mais. Não sinta nojo, amiga! A vida tem sido assim.
Miolo de porco, vaca (mesmo que seja boi), cavalos, carneiros, cabras, são iguarias disputadas por este mundo, desde fogão de terreiro até restaurantes de qualidade. São comidos os miolos, tanto nas boas casas como nas de beira de estrada, temperados com ervas aromáticas, pimentas e bebidas alcoólicas, pelo simples prazer ou como afrodisíacos e haja cérebros.
Em romances e filmes macabros mortos-vivos são apresentados como comedores de cérebros. Dão-nos conta historiadores, que silvícolas brasileiros, já sabedores de que o espírito morava dentro da cabeça dos índios, quando um inimigo era trucidado, um bom e grosso tacape rachava seu “coco” como se fazia e ainda hoje fazemos ao estilhaçar um legítimo coco da Bahia, ou um anão para nos deliciarmos com seu miolo, aproveitada a água antes.
No livro ‘Os mestres Secretos do Tempo de J Berrier’, diz um Prof Homet que: “Numa cerâmica (do povo Chimus, do litoral do Peru, aparentado com os Maias) há grafado um homem com a boca cheia de folhas (coca?), parece adormecido. Seu crânio está raspado e mostra um orifício circular. Ao seu lado junto à cabeça, outro homem tem uma faca em forma de T ligeiramente curvo.”
Como foram descobertos crânios que foram trepanados por um formato laminar curvilíneo, com sinais de crescimento de tecido ósseo, deduz-se nitidamente que foram operados em vida. Não existir um prontuário dos donos dos crânios leva pesquisadores ao “achismo”; pensam em operações neurológicas avançadas para cura de tumores, coágulos, hidrocefalia, arre! Até uma proteína, Príor, “resolveu” criar a doença da vaca louca, criando esponjosidade nos cérebros bovinos, principalmente na Inglaterra, depois do sucesso comercial de aproveitar carcaças de animais para fornecer àqueles herbívoros aminoácidos que sempre encontraram nos vegetais. Mau aproveitamento da máxima de Pasteur.

Dácio Jaegger, fluminense, brasileiro médico cirurgião plástico

Imagem:
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26 julho, 2006

Babel

Gostar ou não gostar ou não gostar de poesia?

Normal se gostar, mas o poeta e crítico literário paraibano Hildeberto Barbosa Filho escreveu um artigo em que afirmava odiar a poesia. E após tal disparate (nem Platão foi tão ousado!), criou-se um acalorado debate sobre as idéias do crítico. Não pára de se gerar comentários, opiniões de toda ordem e respostas as mais diversas, ora contra, ora a favor do autor.
Escrevemos um longo texto a respeito. Mas aqui, por questões de espaço, limitamo-nos a resumir e descrever o conteúdo do artigo. A polêmica tem sua razão nas observações do crítico acerca de dois grupos de poetas, de duas práticas de poesia contemporânea que, como leitor e crítico o autor rebate.
Muitos viram generalizações no texto do Hildeberto, outros a expressão de um preconceito e de um ódio verdadeiro contra pessoas e de sentimentos pessoais contra grupos e poetas. Ainda outros aplaudiram a atitude, viram-na como justa e corajosa, uma simples questão de opinião, um esclarecimento a favor do leitor e da poesia.
Como o lembrou Linaldo Guedes acerca de Hildeberto Barbosa, trata-se de um leitor calejado, um crítico experiente e de renome. Sua atitude, no entanto, foi correta?
Entre o sim e o não, por ora estamos empatados. São pontos iguais para os dois lados. Apesar disso, tanto o crítico quanto os criticados por certo estão à procura do desempate. Caberá ao leitor somar novos pontos aos lados e, em resposta, compreender à sua maneira as idéias do Hildeberto, dando a este a razão ou o condenando.
Babel sugere a quem ainda não leu, que leia o artigo e responda a mais difícil das questões: Gostar ou não gostar ou não gostar de poesia? Cuidado com a resposta...

(Leia aqui o artigo Odeio poesia! de Hildeberto Barbosa Filho).

Foto: Germano Romero, Carlos Romero e Hildeberto Barbosa: www.aplpb.com.br

25 julho, 2006

Palimpnóia

Cá entre nós

    Você vai me achar repetitiva e tem toda razão, mas tenho que confessar: nunca sei o que escrever neste espaço. Estar aqui tem sido um grande desafio, porque exige que eu pense antes de escrever. Coisa que raramente faço e quando faço, nem sempre dá certo. Então hoje fiz o exercício de pensar sobre e o que de mais interessante me ocorreu foi fazer um pacto com você, leitor.
    Antes, preciso contar o que me fez aderir à idéia de ser uma colunista – já que não sabia e ainda estou descobrindo o que é manter uma coluna. Das propostas do Miolo-de-Pote, existem duas que não só me encantam como traduzem o que penso de um espaço democrático. Uma delas é que este seja um espaço onde cada um de nós, colunistas, exercitará livremente seu pensar. Isto me coloca completamente à vontade para abordar, do meu jeito, qualquer tema. É também proposta do Miolo que estejamos em constante diálogo com o leitor. Como dialogar com você é o que faço de mais interessante, sinto-me não apenas integrada à proposta, mas feliz pela oportunidade de ter mais um espaço para o nosso diálogo.
    Portanto, é assim que me sinto: às terças-feiras, coloco aqui o que penso e encontro em você um espelho onde busco meus erros, meus acertos e o incentivo para seguir em frente. Desta forma, estabelecemos uma troca que faz de você meu parceiro nesta coluna. Percebeu o quanto você é importante aqui? Porque ela, a coluna, só se justifica se faz sentido também para o leitor. Por isso, vamos ao pacto.
    Já que você é meu parceiro, gostaria da sua participação efetiva sobre os todos os textos. Não apenas comentando, mas também fazendo sugestões, inclusive de temas a serem colocados aqui. É bem verdade que tenho me preocupado com temas mais sociais, até porque o espaço permite textos um pouco mais profundos. Além disso, admito, gosto de falar sobre o social que, por sua complexidade, permite múltiplas abordagens e várias reflexões. Mas podemos e devemos diversificar a Palimpnóia, transformando-a numa coluna nossa, minha e sua. Portanto, a idéia é que você me diga o que gostaria de estar lendo, comentando, discutindo aqui. Mas por favor, pega leve! Não falemos sobre ciências exatas, religião ou ciências políticas. Sou uma nulidade em tais assuntos! Com certeza, há muitos outros temas interessantes que poderão ganhar vida entre nós.
    Então, ficamos combinados? Você passa a ser meu parceiro e, juntos, plantaremos idéias no miolo deste pote.

24 julho, 2006

Ficção e Desatino


Breve comentário sobre o papel
de Chico Buarque no cinema

Alguns devem ter soltado um ruidoso “ahn?”. Outros, mais atenciosos, devem já saber do que se trata. Pois é, um dos maiores artistas da música brasileira também teve considerável participação no cinema. Para quem não sabe, esse senhor que possui um currículo musical de mais de quarenta anos, teve a sua estréia como compositor em 1967, no filme “Anjo Assassino”, de Dionisio Azevedo. Em “Garota de Ipanema”, filme baseado na música de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, Chico teve participação na trilha sonora, além de atuar ao lado de personalidades como Rubem Braga, Fernando Sabino, Otto Lara Rezende, entre muitos outros, inclusive o próprio Vinicius de Moraes. Em 1972, no filme “Quando o Carnaval Chegar”, de Cacá Diegues, teve a oportunidade de tomar conta de praticamente toda a trilha sonora e de atuar ao lado de amigos como Nara Leão, Maria Bethânia e Hugo Carvana, interpretando um artista mambembe. Para “Joana Francesa”, também de Cacá, compõe a música de mesmo nome, inspirado na atriz Jeanne Moreau, protagonista do longa e de quem Chico sempre foi fã. Para “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de Bruno Barreto, o músico compôs uma de suas canções mais cultuadas, até hoje: “O Que Será (À Flor da Terra)”. Para inspirar-se, utilizou o romance de Jorge Amado, no qual o filme é baseado. Tudo indica que funcionou direitinho, mas, ao ser perguntado sobre do que se trata a letra da música, Chico respondeu: “é uma música de perguntas, e não de respostas”. Marcando para sempre a vida das crianças brasileiras, Chico compôs a trilha sonora de “Os Saltimbancos Trapalhões”, em 1981. Claramente baseado em “O Circo”, de Charles Chaplin, o filme mostra um grupo de comediantes como artistas de um circo. Talvez o filme não seja o melhor, mas difícil é tirar da cabeça letra e melodia de “Piruetas”. Foi em 1986 que “A Ópera do Malandro”, peça escrita por Chico, foi adaptada para o cinema pelas mãos de Ruy Guerra, cineasta português. Pela primeira vez, Chico participa de forma quase que integral em um longa-metragem, sendo responsável por toda a trilha sonora, atuando e escrevendo parte do roteiro. Mais recentemente o trabalho de Chico pode ser conferido no filme “A Máquina”, de 2005, ainda em cartaz em vários cinemas do país. O romance de Adriana Falcão virou peça e não tardou para virar filme. A trilha sonora, primorosa, ficou por conta de Robertinho do Recife, DJ Dolores e, claro, Chico Buarque. Dele, podemos ouvir as músicas “Porque era ela, porque era eu”, em versões instrumentais e com letra; além de “Acalanto”, cantada pela mãe de Karina (personagem de Mariana Ximenes) para que a moça adormeça tranqüilamente em seu colo.

Além dessa extensa atividade no cinema, Chico teve livros adaptados e muitas outras trilhas compostas (cerca de cinqüenta). Esse foi um breve comentário sobre um assunto que gera pano pra manga, tema pra tese, assunto pra livro... ou, quem sabe, um futuro especial no CCR dedicado exclusivamente à imensa participação do compositor no mundo do cinema.

Imagem: Chico Buarque e Nara Leão: Quando o carnaval chegar (1972)
www.adorocinemabrasileiro.com.br

23 julho, 2006

Hein!?

Jack Kerouac

Geração Beat
Ainda com resquícios da segunda Guerra Mundial, duas gerações de jovens de todo o mundo se equilibravam em ideologias de liberdade e paz nos anos 60. Numa vida de copos, sedas, isqueiros e muita carona, embarcavam todos em uma nova viagem, a viagem de uma geração chamada Beat. Mais tarde batizada de Beatniks.

Movimento criado pelo escritor Jack Kerouac, o termo beat era usado para descrever umaa fechada comunidade de amigos, formada por artistas, escritores e marginais boêmios da época. Todos jovens americanos que durante a segunda guerra mundial não se identificavam com os soldados e nem com a sociedade dominante na época. Não acreditavam em empregos normais e tinham de lutar para sobreviver, viajando de carona o país inteiro porque não conseguiam ficar em um lugar certo tempo sem se entediar. Beat também representa santidade e Kerouac, um católico devoto – antes do budismo – que estava tentando resgatar a santidade dos oprimidos.

A geração Beat escrevia literatura e poesia, experimentava novos estilos como a “Prosa Espontânea”, de Kerouac, e novos caminhos de sobrevivência. Os Beatniks empurravam o termo liberdade para sua limitada “Sociedade Responsável” com aventuras que incluíam crimes, festas hedonistas e o uso de drogas expansoras da mente.

A geração Beat abriu os olhos do mundo para o não convencional, e fez sua marca como o movimento literário mais significante dessa década, gerando um estilo de literatura bem particular. Caracterizados por uma maneira bem solta de escrever, esquecendo regras, usando gírias e criando termos, os escritores dessa geração eram considerados autênticos transgressores. E fizeram história. Entre eles se destacam: Allen Ginsberg, autor de Hownl e Jack Kerouac, com On The Road.

Na fotografia: Jack Kerouac, 1958

Weberth Mota
[ouvindo: Pedro Moraes]
[lendo: O Mundo Acabou, Alberto Villas]

21 julho, 2006

Arte Incomum

Política de Eventos

Ao longo das décadas governantes brasileiros tratam a cultura pelo seu aspecto "espetacular". A cultura é "show". Dirigido a um determinado mercado cultural, focalizado um certo extrato da população. Neste entendimento só teriam acesso à cultura os grupos sociais intelectualmente preparados para consumir aquela obra ou aquele produto ofertado. Na verdade o que interessa aos gestores oficiais é se o "espetáculo" produz visibilidade política. Em todo o País tem se praticado de maneira uniforme os "megaeventos" em nome da cultura. Exemplo disso são os carnavais fora de época - nichos de mercado de gravadoras, companhias de bebidas e marketing político. Um formato multiplicado nas capitais brasileiras. A prática reforça a postura "dirigista", já que desconsidera diferentes modos culturais. À margem de uma política de apoio à produção e ao artista, as populações urbanas e rurais praticam as várias formas de expressão, geralmente ignoradas pela grande mídia e pelo mercado formal. A política de eventos no Brasil é caracterizada pelo efêmero, interesse político e favorecimento econômico. Um grande evento governamental ou não, só se justifica se tiver sentido na vida das pessoas e que o acontecimento venha irrigar o tecido social. Novas tendências na arte, lançamento de produtos, avanços tecnológicos, abertura de mercados, encontros com temas amplos na mobilização da comunidade científica e no intercâmbio das culturas, na certa, são necessários. Esse tipo de ação de grande porte, pela própria natureza, traz no seu interior resultados provocadores ao fortalecimento cultural, a tomada de rumos e novas posturas frente as grandes questões do mundo contemporâneo.

O Martelo e a Bigorna

A novela e os brasileiros

Mal deixamos a Belíssima, e já nos vemos diante das Páginas da vida, com todo o realismo, com a sempre tendência dos autores de buscar a reprodução da gramática social que permeia a vida real. O título parece dizer ao que veio: o novo folhetim é mais um que procura dar à realidade diária dos brasileiros, ao modo da ficção, um papel temporário (senão decisivo) no estabelecimento de novas práticas e comportamentos sociais.
Mas, afinal, o que é uma novela?
A novela pode ser definida como um retrato social de uma época, um recurso que permite compreender o social numa dimensão espaço-temporal específica. Grosso modo, Janete Clair definiu a novela como sendo um novelo que aos poucos vai sendo desenrolado. Daí sua capacidade de prender a atenção do espectador, daí sua popularidade entre nós.
Na novela, há a construção social da realidade, cujo propósito é criar no indivíduo uma identificação com o real. Por isso temas e assuntos polêmicos do nosso cotidiano passam a ser os mais explorados pelos novelistas; as histórias muito raramente se apresentem numa perspectiva alheia à vida real.
Ora, a novela enquanto uma forma de arte, procura na realidade um reflexo; de forma geral, mimetiza o real. E não seria exagero afirmar que nas telenovelas há a busca harmoniosa entre a ficção e a realidade. Muitas vezes, sem se dividirem, sem que se separem, real e fictício acabam se dissolvendo e enveredando na busca da unidade entre essas duas instâncias: uma correlação que resulta um prato diário para o consumidor.
Sem nenhum trocadilho, na realidade a telenovela é a configuração satirizada do nosso universo social, uma modalidade de lazer com a qual os indivíduos se reconhecem, se identificam e se envolvem emocionalmente.
E muitas são as tramas que se enovelam nas novelas: amores incompreendidos, mistérios, segredos, desilusões, alegrias, aventuras, sagas, violência urbana, violência doméstica, homossexualismo, e tantos outros: assuntos que dão substância a nossa gramática social.
Bem, ao que em parece, o novo título da novela do Manuel Carlos não poderia ser mais apropriado. Agora ele adivinhou de vez: no fundo, uma novela é tudo isso, e mais ainda: novelas cena a cena, capítulo a capítulo, começam e terminam sendo páginas da história pessoal de cada indivíduo e da vida social de todos nós.
Mas a Janete Clair também estava certa. Afinal, os brasileiros viramos as páginas da telinha como se a um novelo, que a cada noite se desenrola, quando não...

Imagem: http://www.bocc.ubi.pt/

19 julho, 2006

PRECISA-SE DE COLUNISTA

PRECISA-SE
DE COLUNISTA

Vagas para:
Blog MIOLO DE POTE

Regime de Trabalho:
ÀS QUINTAS-FEIRAS

Habilidades exigidas:
CRIATIVIDADE, INTELIGENCIA,
CAPACIDADE DE EXPRESSAO ESCRITA

Seleção:
ENTREGA DOS SEGUINTES ITENS:
a) Perfil do Autor
b) Nome e Perfil da Coluna
c) Amostra de texto(s) inédito(s) do autor - no mínimo 2 - que exemplifique o tipo de trabalho a ser desenvolvido como colunista

Podem Participar: Todos os visitantes, leitores e admiradores do Miolo de Pote

Salário: Credibilidade, Amizade e Diversão

Enviar Propostas para: noteco_teco@yahoo.com.br
A SELEÇÃO SE DARÁ MEDIANTE ANÁLISE DAS PROPOSTAS PELOS EDITORES E DEMAIS COLUNISTAS DO BLOG
DIVULGAÇÃO DO RESULTADO:
Quinta-feira, 27 de julho de 2006

18 julho, 2006

Babel


Gabo para iniciantes

Romance mais popular de Garcia Márquez, traduzido para quase 40 idiomas, com mais de 30 milhões de exemplares vendidos no mundo inteiro, Cem anos de solidão (1967) narra a trajetória dos fundadores de Macondo ao longo de um século de história. Aldeia imaginada por Márquez, localizada num ponto remoto e distante de toda civilização, em Macondo conhece-se os Buendia (Úrsula Iguarán, José Arcadio, Amaranta, José Arcadio (filho), o coronel Aureliano Buendía, protagonista, Rebeca Montiel, Melquíades - os dois últimos, espécie de Buendía por adoção) e mais não sei quantos personagens que entram e saem de Macondo, morrem, desaparecem, enlouquecem e testemunham os mais extraordinários acontecimentos. Situações que extrapolam o convencional, aquilo que razoavelmente aceitamos como lógico e temos como próximo de uma realidade plausível.
Há vários exemplos na narrativa, como a epidemia de insônia que afeta toda Macondo, deixando a população sem dormir, sem lembrar os nomes das pessoas, dos objetos e da própria identidade, o dilúvio que dura mais de quatro anos, ininterruptamente, mortos que conversam com vivos, moças que voam, personagens que sobrevivem a seqüências de pestes e doenças de todos os tipos. Diante de tais episódios, inevitavelmente a pergunta: como é possível?
Diríamos ao leitor surpreso, em linguagem atual, que ele está diante do que se pode chamar de “efeitos especiais da ficção”. Aí a ficção dá um giro maior que o mundo real do leitor e por isso o espanta. Acuado, ele não foge: é decifrar a charada ou perder a aposta. Em linguagem crítica, explica-se que se trata de uma realidade estritamente literária (apesar de poder ter sua origem em dados reais, vividos pelo escritor e recriados a seu modo), mas nem por isso menos real ou lógica que não possamos entendê-la.
O estranho dos acontecimentos responde pelo poético nome de “realismo mágico”, ou “realismo fantástico”, prática ficcional de que faz uso Garcia Márquez em seu trabalho artístico e que consiste, segundo João de Melo, numa atividade simples e simultaneamente deslumbrada, recorrendo aos grandes temas sociais, sem dúvida, mas envolvendo as realidades descritas numa auréola de sonhos, crenças e rituais lendários. Assim, no mundo imaginário criado pelo artista, tudo é possível, e tudo se explica, os acontecimentos mais improváveis ganham uma lógica própria, porque possíveis e explicáveis no próprio contexto da narração. E há uma definição de Gabo para o romance que se encaixa perfeitamente na descrição de “realismo fantástico”: "Acho que um romance é uma representação cifrada da realidade, uma espécie de adivinhação do mundo. A realidade que se maneja num romance é diferente da realidade da vida, embora se apóie nela. Como acontece com os sonhos" (palavras de Márquez em Cheiro de goiaba, 1982).
Por “realismo mágico” entende-se ainda grande parte da arte feita na América Latina na década de 50 do século XX por autores que juntavam a tais procedimentos estéticos o diálogo com a realidade latino-americana, daí ora ser chamado de “realismo mágico latino-americano”, com estatuto de gênero literário surgido quando do lançamento de Cem anos de solidão.
Embora a noção de um procedimento que explica a existência de alguns acontecimentos na ficção de Garcia Márquez, temos que as experiências de vida do escritor de alguma forma também lhe tocam a obra. Não por pura confissão, mas, como disse Gabo (apelido do escritor), porque a história da vida de cada um não é apenas o que se viveu, mas o que se lembrou e o que se contou sobre ela. As palavras de um escritor num romance podem ser, pois, parte de sua experiência real, como muitas vezes sugeriu o Nobel de 1982.
Macondo, sabemos, Macondo não existe, mas vive nas lembranças do escritor como um reflexo do povoado da costa atlântica da Colômbia chamado Aracataca, onde Márquez nasceu aos 06 de março de 1928. Jose Arcadio Buendía, pai do protagonista, Aureliano, é um pouco o avô de Gabo, o coronel Márquez, e, de alguma forma, o próprio Aureliano, herdeiro da solidão dos Buendía e personagem recorrente nos romances do colombiano. O coronel Aureliano Buendía torna-se tão importante na obra de Gabo que o encontramos em mais dois de seus livros, El coronel no tiene quien le escriba (1961) e Crónica de una muerte anunciada (1981). Recentemente li que o personagem também aparece num conto do escritor intitulado “Los funerales de la Mamá Grande".
Bem, Arcadios e Aurelianos à parte, é sempre um prazer ler a literatura de Gabo: é como adivinhar o mundo, magicamente.
Imagens:
Garcia Marquez: www.ilcollediscipio.it
Livro: Editora Dom Quixote

Palimpnóia

Correta ou incorreta

Hoje acordei querendo passar longe de questões sociais. Resolvi me alienar propositalmente porque estou no meu primeiro dia de férias compulsórias e pretendo passar o resto do mês falando, pensando, agindo como se fosse Alice e este fosse o país das maravilhas!
E fui tão fiel à minha própria promessa, que me esqueci desta coluna. Sentei-me para escrever sem sequer imaginar sobre o que queria falar. Perdi-me olhando o telhado que fica exatamente à frente da minha janela. De repente, um gato negro e de olhos esquisitamente amarelos apareceu. Gatos são engraçados. Eles param e ficam nos olhando como se fôssemos um ser extraterrestre. Mas aquele gato me fez lembrar de uma antiga superstição da minha avó: ver ou encontrar um gato negro é sinal certo de azar.
Fiquei pensando nisso. Que azar maior alguém pode ter do que engrossar a fila dos mais de 10% da população desempregada? Já tive a minha cota, portanto o gato que fique olhando para mim, porque a superstição ainda não me seduziu. E também porque acho que não sou politicamente correta no que se refere aos animais – respeito-os, mas minha grande afinidade é com o ser humano.
E o “politicamente correto” cresceu à minha frente. Lembrei-me que tempos atrás fui convidada a escrever um texto sobre este tema. Juro que tentei. Mas concluí que não sei o que é isso. Tudo que consegui pensar como politicamente correto me pareceu chato e coercitivo. Sem contar que o advérbio “politicamente” anda me dando comichões. E as comichões que desejo são de outra natureza – aquelas que antecedem o prazer, pode apostar!
Portanto, querido leitor, para que você não saia com a sensação de que perdeu seu tempo lendo a Palimpnóia, deixo uma sugestão: leia novamente O Estatuto do Homem de Thiago de Melo ou me diga o que é ser politicamente correta – ou incorreta, se preferir.

17 julho, 2006

Ficção e Desatino

Breves linhas sobre a multiartista Gilda de Abreu

Filha de um médico e da cantora lírica Nícia Silva, Gilda de Abreu nasce em Paris, na França, durante a estada de seus pais naquele país. Vem ao Brasil aos quatro anos e, desde cedo, estuda canto com a mãe. Mais tarde forma-se no Instituto Nacional de Música e, além de fazer concertos, apresenta-se em festas de caridade. Em 1933 estréia no Teatro com a peça musicada “A Canção Brasileira”, de Luiz Iglesias e Miguel Santos. É exatamente nessa época que Gilda conhece o cantor Vicente Celestino, seu parceiro durante toda a vida. Em 1935, estréia como atriz de cinema em “Bonequinha de Seda”. Gilda de Abreu, que, até então, era atriz de teatro e cinema, compositora, cantora, romancista, autora de teatro e de rádio-novelas, lança, em 1946, “O Ébrio”, longa-metragem realizado sob a sua batuta e inspirado na famosa canção de Vicente Celestino. Apesar de possuir uma quantia pequena de títulos em sua filmografia (três longas como diretora e três como atriz), Gilda de Abreu é uma das mais importantes personalidades do cinema brasileiro e tambem carrega o título de mulher pioneira em direção de filmes.

Imagem: www.adorocinemabrasileiro.com.br

16 julho, 2006

Hein!?

Adalberto Santos
Nem o 'Basta!' é mais o 'Basta!'...

Se ainda existe um ponto em que somos todos iguais, esse ponto se chama desgraça. A desgraça da violência, da fome, da estupidez e da falta de caráter. Já não suportamos tamanha redundância em conclusões, toneladas de soluções, piadas e críticas ácidas que já não acrescentam nada. Vamos pular as frases cheias e ir direto ao assunto. Devemos cantar à piedade, à nossa piedade... Vamos cantar aos miseráveis, essas sementes mal plantadas...








Blues da Piedade
por Cazuza e Frejat

Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas

Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia

Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça

Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

15 julho, 2006

Arte Incomum

Arte digital: o fim da arte?

A arte palpável, sensível ao toque, que começou um dia a ser riscada nas paredes das cavernas e que se consolidou através dos séculos que nos precederam, parecia estar chegando ao fim. Tínhamos que nos adaptar a uma nova arte volátil, efêmera, exposta em um pedaço de vidro, que só existia no estado de ligado-desligado. Que porrada!
Essa nova literatura visual, esse novo código, onde forma e conteúdo se confundem amalgamados em uma carpintaria puramente eletrônica está mais para o surfista que sabe conviver com o caos da onda do que para o executivo que não consegue sobreviver com as velhas regras do edge of chaos. Na medida em que o artista assimilar e dominar o novo environment e as suas novas ferramentas criadoras, certamente essa arte passará a ser imaginativa, criadora, poderosa, como o foi a de Michelangelo ou a de Van Gogh. As experiências em realidade virtual estão apenas engatinhando, aos poucos não só permitirão recriar o passado como também criar um imaginário mundo novo. Se a nova arte digital deve ou não ser aceita como arte, se ela é legítima ou não, por enquanto todas as discussões sobre o assunto estão passando muito distante.

Fonte: Ouattro/Alex Nabuco. Imagens. Século Prodigioso

14 julho, 2006

O Martelo e a Bigorna


Saindo das sombras

Desde criança, dores nas pernas e muito cansaço não me falharam um só dia. Entre os mais diversos diagnósticos estava o de que o remédio era distanciar-me de rede, cama, cadeira ou sofá, o negócio era abominar a bela e irresistível filosofia de “deixar as pernas para o ar”. Andar, correr, jogar futebol, praticar, sem preguiça, atividades físicas, eis o elixir.
Nesse período conheci a mais absurda forma como alguém poderia classificar a filosofia: a ciência do ócio. Ironiocamente, no entanto, foi com esse tipo de ócio que contraí núpcias.
A leitura de Platão sobre o mito da caverna foi, sem dúvida, a melhor brecha que diante de mim se abriu. A idéia de que vivemos circunscritos por dois mundos, um real e outro irreal. Um mundo de sombra, alienação e ilusão; outro formado pela verdade, a crítica, o conhecimento.
É como se nós, afirma Platão, vivêssemos numa caverna escura, de costas para a realidade e submetidos a interpretações equivocadas sobre essa realidade, estando a verdade fora da caverna, no mundo das idéias, na luz, na filosofia.
A filosofia, portanto, tem a função de provocar nos sujeitos uma inquietação acima da média, de trabalhar o senso crítico e patrocinar uma compreesão que transponha os limites do aparente.
No Brasil, na década de sessenta, a filosofia e a sociologia foram banidas do curriculo escolar pelos novos “donos do poder”, a saber, os generais da ditadura. A intenção era castrar qualquer possibilidade de contestação ao novo regime, ou como diria o vocabulário político da época, qualquer tipo de comportamento subversivo.
Como permitir, por exemplo, que filósofos e sociólogos dos anos 60 e 70 difundissem idéias revolucionárias, de influência marxista, em nosso já precário sistema de ensino? A antipática medida de abolir o ensino destas disciplinas buscava vendar os olhos dos estudantes para a então atmosfera sombria que inebriava o país. De lá para cá já se passaram quatro décadas, um jejum que deixou o país órfão de uma iniciação crítica para a compreensão de si mesmo.
Finalmente as autoridades deste país deram na última sexta-feira um sinal de lucidez, ao aprovar a reinserção no curriculo escolar das disciplinas de sociologia e filosofia. Um passo importante a caminho da luz, a materialização de um sonho de muitos que acreditam que um futuro melhor não exclui uma educação de boa qualidade.

13 julho, 2006

Crônica de Artur da Távola

Belíssima no papo de Boteco
E lá estava a macharia, minha amiga, aqueles coroas que sempre repetem essa mentirinha: “Eu não vejo novelas, mas estava passando pela sala e minha mulher é louca por elas, às vezes dou uma espiada” (mas sabem a novela de cabo a rabo):
1) Mario Porto foi logo dizendo “Que final de novela mais chocho e pouco edificante! Tudo óbvio, sem graça e corolário à ‘Lei de Gerson’. Todo mundo se deu bem, inclusive, e principalmente, a vilã... E a Júlia e o Nikos, que casal mais sem graça!”
2) Eu, noveleiro confesso, provoco com algo que realmente penso: “Mas você deve aceitar que o autor fez uma inovação desafiadora: ela não acabou com o clássico Final Feliz para todos. É preciso coragem.”
3) Fernando Dinamite: “Coragem é o escambau. No Brasil de hoje, dar o exemplo do mal como vencedor é deseducar ainda mais o Brasil.”
4) Ronaldo Teixeira: “E não é isso que acontece, cara? No Brasil de hoje, é assim mesmo. Não vê o Lula? Nenhum escândalo o atingiu, e ele sabia de tudo. Quase nenhum dos mensaleiros foi punido, e os detentos é que mandam nos presídios. Como é que você queria que a novela fosse só evasão? Tá doido?”
5) Paulo Alberto: “Como eu gosto do lado positivo do mundo, lembro à galera a qualidade daquele elenco. Pô, só tinha craque. Até o Gianecchini aprendeu a representar. Nem dá para destacar alguém. Todos deram o seu show de interpretação.”
6) Belisário, o puxa-saco: “E vamos convir que o autor soube manter o suspense até o final. Isso é craqueza.”
7) Marco Antonio Gay (o Gay dele é sobrenome. Nada contra, mas ele é a antítese do sobrenome.): “Craqueza, uma ova! A prática da inverossimilhança existente nas novelas deixa o autor livre para fazer o que bem entende com a estória, em vez de seguir o fio lógico e impecável dos romances policiais de qualidade e geniais. Mesmo sendo folhetim eletrônico, a estória precisa de alguma lógica e menos coincidências.”
8) Antonio Carlos China: “Para mim, o grande erro foi deixar todas as soluções para o capítulo final. Este deveria ser reservado apenas para a questão central da obra.”
9) Eu: “Estou impressionado com a inteligência de vocês. Quase nunca viram a novela e sabem tudo isso. Formidável! Eu sou noveleiro confesso, mas vocês... E se pudesse dava um beijinho na testa daquela menininha linda que fez a Sabrina. E ainda a convidava para se casar com o meu neto. Que talento!
(vaias) (vaias) (“puxa-saco é você”... piegas) (mais debiques daquele grupinho que “não vê” novelas...)

Publicada em 11/07/06
Casa de Cultura Artur da Tavola

12 julho, 2006

Babel


O caráter revelador do romance

Milan Kundera, em suas reflexões sobre a estética do romance, faz, angustiado, a seguinte pergunta: poderá o romance resistir a um mundo totalmente oposto ao seu, tempo em que tudo conspira contra a própria razão do romance?
Pergunta difícil, mas a resposta está nos arredores da “razão de ser do romance”. Segundo Kundera, esse gênero literário existe, e além de tudo, para a iluminação das coisas humanas, como forma de desvendar o que se esconde nas aparências do ser e pô-lo à prova do conhecimento. Essa a sua moral. Por sua vez, o romancista é o que descobre uma porção até então desconhecida da existência. Se não o faz, não pode assim chamar-se. Ironicamente, reservam-se outros nomes para o escritor: filósofo ou historiador, por certo, dependendo do alcance da sua escrita.
A narrativa dos Tempos Modernos, como escreve Kundera, tem extrapolado os limites do psicologismo e não é raro encontramos autores com bizantinismos técnicos, beirando os limites do experimentalismo. Às vezes, experimentalismo e psicologismo caminham juntos em alguns autores: química perfeita que dá ao romance certa incompreensão múltipla. E nos referimos ao romance como a prosa baseada na ação e como tentativa dessa possibilidade de revelar uma parcela do mundo humano, seus aspectos ainda não revelados.
È indiscutível que alguns romancistas levaram às últimas conseqüências a liberdade concedida ao domínio artístico na época moderna. Ainda hoje muitos artistas folgam na tentativa de se colocar distante de tudo o que esteja “fora da modernidade”. Para eles, uma obra de arte não é, senão, a que rompe os antigos modelos, portanto, com a história das realizações anteriores.
O romance, como arquétipo vivo da experiência reveladora da arte ocidental, não tem história, diz-nos o autor de O livro do riso e do esquecimento. Sua história é uma sucessão de descobertas a que se pode denominar de história do romance: “Um por um, o romance descobriu, à sua própria maneira, por sua própria lógica, os diferentes aspectos da existência”, explica-nos. Assim devemos a Rabelais, Cervantes, Balzac, Flaubert, Tolstoi, Proust, Faulkner, Joyce, Thomas Mann e Kafka, tanto quanto ao próprio Kundera e outros tantos autores dos Tempos Modernos um pouco da compreensão do ser do homem.
Ora, o romance é, antes de tudo, arte. A arte do romance é de natureza reveladora, como toda boa arte. Contemporâneos de Kundera, no entanto, concebem a o romance como uma simples diversão e não como arte. É muito bonito um romance cuja compreensão pertence unicamente a seu autor, ou cujas descobertas limitam-se ao reino do insignificante e do óbvio.
Felizmente, o caráter revelador do romance não é para todos. Kundera o observa quando se refere aos que por excessos ou faltas realizam obras: “’Do esboço à obra, o caminho é feito de joelhos’. Não posso esquecer este verso de Vladimir Holan. E me recuso a pôr no mesmo nível as cartas a Félice e O castelo.”

Imagem: Alonso Quijano, leitor de Romance – In: DUBITO ERGO SUM - Caderno de Literatura e Filosofia

11 julho, 2006

Palimpnóia

De conceitos e preconceitos


Éramos colegas de curso. Ele advogado, eu professora. E viramos uma dupla compulsoriamente inseparável. O sorteio nos juntou e nem Deus separou. Mas lá pelo meio do curso eu já pedia aos céus que me livrasse de carga tão pesada. Ele era paulistano e tinha aquele sotaque italianado que tanto me agradara no início do ano. Mas o sotaque, junto com os irritantes e constantes trocadilhos, passou a me dar alergia. E ainda por cima se achava habitante do primeiro mundo!
Arrastando-se como a carregar correntes, o ano terminou e nunca mais o vi. Na verdade, nunca mais pensei nele, tão grata estava por tê-lo longe de mim. Mas a minha relação com ele deixou marcas profundas. Tomei verdadeira antipatia por paulistanos. De forma completamente irrazoável, coloquei 18 milhões de pessoas no mesmo saco e joguei-os no fundo da minha consciência.
Fui a São Paulo várias vezes desde então, mas sempre por motivos profissionais e ficando lá o tempo estritamente necessário. Cruzei a Ipiranga e a São João vezes sem conta, mas foi na Av. Paulista que um dia aconteceu. Fui roubada. Mais do que roubada. Fui atropelada por dois rapazes, jogada nos braços de um terceiro que me levou a bolsa e me deixou de boca aberta e olhos arregalados. Não era a minha primeira experiência no ramo. Parece que tenho escrito na testa que sou uma vítima confiável, porque já perdi a conta de quantas vezes fui roubada na rua, dentro do carro e até em casa. Mas ser assaltada numa cidade desconhecida e enorme como São Paulo foi apavorante. Em estado de choque fui levada para uma lanchonete e me deram um copo d’água. No meio do meu desespero, fui acalmada e terminei na casa de um casal que nunca vira antes.
Nessa mesma noite, já confortavelmente sentada na poltrona do ônibus que me levava para casa, ainda amargava um sentimento novo e estranho. Estava com vergonha de mim mesma. O que me acontecera serviu para que eu me visse como realmente era. Eu que sempre tivera um lindo discurso contra o pré-conceito, era tão preconceituosa como pessoas que eu condenava. Durante muito tempo construí e transmiti uma imagem completamente equivocada dos paulistanos e eles me devolveram com gentileza e solidariedade.
Vim pensando em como é fácil construir um preconceito. Mesmo que este meu preconceito não tenha tido uma carga discriminatória relevante, mostrou-me que sou tão vulnerável às construções equivocadas quanto qualquer outro ser humano. E o quanto isso pode ser prejudicial, especialmente quando não nos percebemos preconceituosos.
Talvez por isso seja tão difícil combater o preconceito. Porque sequer sabemos a extensão dos nossos próprios. E por não saber, vamos transmitindo nossos conceitos e preconceitos através de palavras e ações, inconscientes ou não. E construindo esta terrível e cruel rede discriminatória em que vivemos.


Foto: Av. Paulista - http://www.cidadedesaopaulo.com/

10 julho, 2006

Ficção e Desatino

Grandes narizes, grandes artistas

Vivemos numa época em que tudo o que é considerado defeito pode ser mudado com cirurgia plástica, lasers e mais uma tonelada de soluções escabrosas. Muitos atores recorrem a esse tipo de técnica, mas há os que preferem manter o imponente nariz e fazê-lo famoso por gerações.
No caso do ator porto-riquenho Jose Férrer e do francês Gérard Depardieu, os seus grandes narizes lhe deram a oportunidade de interpretar o escritor Cyrano de Bergerac. Este viveu na metade do século XVII, é autor de livros que se encaixam entre a fantasia e a ficção científica e tem como maior característica física um enorme nariz. A vida do autor foi levada inúmeras vezes ao teatro, às telinhas e aos telões, tendo, no cinema, os nossos célebres narigudos como protagonistas.
Já com o talentoso Tim Roth, as coisas não foram tão simples. O ator enfrentou severos comentários de Rick Baker, o responsável pela maquiagem do filme "Planeta dos Macacos", de Tim Burton. Baker disse: "Roth tinha o pior rosto a ser transformado no de um chimpanzé. Para que isto funcione, é preciso procurar atores com a fisionomia ideal: nariz pequeno e os lábios superiores longos. Eu implorei a Burton para não selecionar pessoas de nariz grandes para o elenco. Acabou sendo uma vantagem, pois o personagem de Roth diferenciou-se dos demais".
A ficção também já foi cruel com os narigudos. Um exemplo clássico é o musical "A Hard Day's Night" (que chegou ao Brasil com o terrível título "Os Reis do Iê-Iê-Iê"), em que o pobre baterista do The Beatles, Ringo Starr, sofre preconceito até por parte das fãs, que não lhe enviam cartas porque Ringo possui um nariz "um pouco avantajado demais". A dor de Ringo é tamanha, que este some pelas ruas, sozinho, prejudicando a si e à banda.
Entre as moças, o exemplo mais marcante, quiçá, é o de Rossy de Palma. A atriz espanhola teve sua estréia em "A Lei do Desejo", de Pedro Almodóvar e, entre os filmes do diretor permaneceu durante grande parte de sua carreira. Apesar de ter estreado em papéis secundários, jamais deixou de chamar a atenção dos espectadores, sempre impressionando com o seu nariz indefectível. Rossy é um exemplo de orgulho que todos os narigudos deveriam seguir: ao invés de ser submetida ao bisturi, a atriz conserva o diferencial, preferindo comparar-se a uma obra de Picasso.

Imagens: Rossy de Palma:
blogs.ya.com/ tuttifelinus/
Gerard de Depardieu: www.fiaf.org

09 julho, 2006

Hein!?

Uma pitada dos 50

Na década de 50 o Brasil já não era um país tão bobinho assim, estávamos cheios de expectativas, e já no começo de tudo, deixávamos escapar a taça de Campeões Mundiais em pleno Maracanã. A tristeza nos amargou até a Copa de 58 quando o Rei mostrou aos suecos a que fomos. E de lá pra cá as coisas não pararam de mudar, em todos os aspectos; passamos por altos e baixos, e nunca deixamos de ser o povo que somos. Mas um outro rumo parecia começar a partir daí.
O Brasil dos anos 50 resumia-se a uma única pétala, o Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo as culturas do mundo sofriam uma grande influência americana, o espelho do futuro. No Brasil não foi diferente, desde a música à moda, as raízes eram americanas. O Brasil era o país do futuro que dissolvia a cultura de massa, uma expressão que significava a variação de valores artísticos e dos costumes que se tornaram conhecidos por grande parte de uma população.
Nossos jovens experimentavam o rock, a nação se alucinava com a TV e assistíamos aos delírios de Oscar Niemeyer com sua arquitetura arrojada. Tinha o Getúlio com sua política nacionalista, sem contar os “50 anos em 5” do Juscelino Kubitschek. Enquanto isso Marta Rocha era injustiçada por causa de duas polegadas. Perdíamos Carmem Miranda, mas nascia a Bossa Nova. Fabricavam o primeiro fusquinha. O Brasil começava nas areias do Leme e acabava nas calçadas do Posto 6, éramos as praias de Copacabana, tudo acontecia ali. A moda desfilava o comportamento da mulher brasileira e a alta-costura era seguida pela revista da época: Vogue.
O homem brasileiro era playboy, usava calça rancheira, mocassim branco, camisa ban-lon e cabelos cortados à “Príncipe Danilo”. Ser conquistador era pegar as “boazudas”, farrear, dar umas voltas. Para casar, só com mocinha ingênua, mas não se abria mão do machismo. O mesmo machismo que se misturava com a rebeldia a mascar chicletes e desfilar cadilaques rabo-de-peixe. Nos bancos de praças as garotas liam as edições femininas de A Cigarra, O Cruzeiro e Manchete.
O desenhista Alceu Penna marca a década com seu traço perfeito. Suas garotas eram uma visão pessoal da sonhada namorada do Brasil: charmosa, moderna, elegante e com um comportamento que não competiria com a macheza da época. Elas transmitiam apenas a moda, a inspiração da mulher ideal. A partir daí a mulher mostrou-se vulnerável à evolução de sua fleuma, uma ameaça que mais cedo ou mais tarde viria acontecer. Pegaram gosto pela estética, e o glamour era desfilar seus trajes de banho nas calçadas do Rio, ainda cobertas as curvas. Os decotes ainda cobriam os ombros, mais tarde deixavam-se ver suas costas e sacudiam a sociedade com o biquíni de duas peças.
Aceitar carona de cadilaques ou lambretas era o novo desafio das moças que já usavam calças compridas e passavam o dia a bambolear para afinar a cintura (o que também era moda na época). Na mulher usava-se lenço no pescoço e muita roupa colorida, neles, óculos ray-ban, jaquetas de couro e topete. O ápice da juventude de 50 era umas simples voltas pelas ruas das cidades para um festival de olhares para os quais se voltavam uns aos outros. Uma época cujo único brilho era ser jovem, ser novo, ter liberdade. As amarguras da sociedade fechada e careta pareciam fundamental para que tal essência de um jeito de ser de uma geração tivesse sentido. Acho que ainda nos falta uma pitada dos passados 50 para um saboroso prato de futuro.

Imagem: Alceu Penna

08 julho, 2006

Arte Incomum



Volta por cima

Em 1986, Israel de França, músico, foi preso pela Polícia Militar em Olinda, Pernambuco, carregando um violino. Negro, pobre, Israel só conseguiu provar ao delegado que não era ladrão ao interpretar trecho da cantata “Jesus, alegria dos homens”, de Johann Sebastian Bach. O episódio virou Caso especial na TV Globo. Após sua aparição na televisão, o jovem músico participou de curso de férias em Brasília e acabou estudando no Conservatório de Música de Lisboa. Israel vive há 15 anos na Espanha, onde faz parte da Orquestra da Cidade de Granada e é diretor e proprietário do Conservatório Villa-Lobos na cidade. Em dezembro de 2005, Israel de França volta ao Brasil e, numa cerimônia discreta, doa quinze violinos e uma viola ao Conservatório de Música de Yapoatan, na cidade pernambucana de Jaboatão dos Guararapes.


Fonte: Reporte JC.
Imagem: jamillan.com/violin

07 julho, 2006

O Martelo e a Bigorna

Infelizmente, os assuntos da vez ainda são (por ordem alfabética) Belíssima, Copa do Mundo e Reeleição. Como Futebol, Novela e Política são temas que não se esgotam, fiz uns rodapés críticos a respeito, de forma a inverter a seriedade com que a coluna O Martelo e a Bigorna abordou os temas anteriores. Dessa vez, sobra espaço para o bom humor! Abraços.

Rivamar Guedes

ADVINHA
Estava lendo umas coisas dias atrás, sempre de olho nas novidades, e encontrei uma delÍcia de texto. Em blog mesmo, em nosso famoso e eclético Blônicas, que muitos devem conhecer. Depois dizem que escritor não tem nada de adivinho. Olhem o que a Milly Lacombe preconizou lá no Blônicas bem antes de a seleção brasileira fazer as suas cagadas. Tem tudo de óbvio, claro, mas vale a pena lembrar pra ver se o povo acaba o lamento (é triste ver gente chorando o leite derramado):
“O Brasil não vai ganhar a Copa porque levou para a Alemanha 23 celebridades, e não jogadores de futebol. (...)São 23 carrancudos. (...) São atores cumprindo seus papéis. Disputam cobranças de faltas para ver quem acerta a trave mais vezes, para entreter a platéia e, principalmente, para alimentar seus egos. Ganham por dia, entre contratos publicitários e salários, mais do que alguns de nós ganharemos a vida inteira. E, mesmo assim, reclamam que a vida é dura, é cheia de pressão – e de perguntas inadequadas. Essa seleção escolhe as perguntas que devem ser feitas a eles. Aceitam apenas os jornalistas que babam ovo. Nada de críticos.” (11/06/2002).
No momento, algum crítico de plantão? Eu que nao arrisco, mas digo: Ronaldinho continua com um bucho desse tamanho...

LOUCOS
Mais próximo da reeleição de Lula, a oposição parece estar menos preocupada com a vitória do PT nas urnas de outubro. É fato que o homem ganha, não ganha? A maioria diz. Como já se iniciou a corrida presidencial, melhor ficar quieto.
Um amigo reeleitor de Lula, que tem diploma universitário e que, como a maioria dos diplomados, é analfabeto, lembrou que vota de novo e não tá nem aí. Garante o incauto:
“Em épocas de Sarney, Collor, Fernando Henrique e etc, tinha tanto roubo quanto agora, mas abafavam. Hoje tem roubo, tá certo, mas não tá escondido. A coisa aparece, mesmo se por causa da Imprensa, que está de olho. Veja a Veja, por exemplo, tá dando o maior trabalho ao Governo. Mas é o papel dela, né, da Imprensa? Antes não tinha isso. Só no Governo de Lula isso aconteceu. Por isso, ainda voto nele. E podem me chamar de louco...”
Tá certo!

POESIA TODA PROSA – (RECEBI DE ANÔNIMO)

“Deus salve o Brasil!”

A Peste da Reeleição
deixa a alma alheia
de febre ela arde
é Lula na veia...
E daí, Alckmin?

NOVELAS
As novelas de agora adoram um mistério. Virou chavão televisivo, principalmente no horário das oito, a mudança do clímax acerca de como terminará o casal de mocinhos para o destaque sobre a descoberta do grande mistério da trama. Silvio de Abreu que o diga. Na recente Belíssima, cujo último capítulo é hoje (ninguém perca), a pergunta que não deixa ninguém dormir (nem o Lula!), apesar reeleição, é: Quem será o filho de Bia Falcão e Murat? Tão importante quanto sonhar em polonês! Ou, a esta altura, saber se Roberto Carlos e Cafu irão jogar pelo Brasil na novela da próxima Copa!

SUPER-HERÓI
Como é que eu posso ler se eu não consigo concentrar minha atenção, se o que me preocupa no banheiro ou no trabalho é a reeleição!? (Raul Seixas e Lulinha Paz e Amor)
E vamos em frente!
Arte Seleção: Paraná On Line
Foto Lula: Reuters

06 julho, 2006


Urinando com Jim Morrison
Pablo Capistrano



O cinema é extraordinário. Se você não se vacina contra ele, pode escrever, vai ser arrebatado e domado por sua força. O que o cinema tem de fascinante tem também de perigoso. Essa capacidade extraordinária de dissolver as fronteiras e engolir o real.
Vez ou outra me pego reclamando da vida e digo a mim mesmo: o que falta nesta bosta é a trilha sonora. Coisas de quem cresceu assistindo filmes. Quando se tem dezesseis anos, aí a situação complica. Lembro que no ano da graça de 1991 esperei como um viciado em crise de abstinência a estréia do filme The Doors, de Oliver Stone. Falava sobre um de meus ídolos de adolescência. Jim Morrison era filho de um militar da Flórida que foi estudar cinema na UCLA, tomou uns dois ácidos e ficou pirado. Resolveu formar uma banda de rock com uns colegas da faculdade, virou símbolo sexual, e entrou para a mitologia do rock por morrer de forma estúpida, gordo e decadente após uma overdose de heroína numa banheira de um hotel em Paris.
O nome da banda (Doors) vem de um livro de Huxley, As portas da percepção, e de um verso de Willian Blake (quando as portas da percepção estiverem abertas, o homem verá o mundo tal qual é: infinito). Lembro de ter assistido o filme numa noite de sexta feira, no finado cine Rio Verde no centro de Natal. Foi como se o Oliver Stone tivesse dito para mim: veja que vida cocô você tem! Sair do cinema querendo fugir de Natal a toda velocidade. Queria romper as fronteiras, as portas, os portões, abrir todas as janelas, me lançar selvagemente no mundo e, com um pouco de sorte, morrer jovem de um modo mitológico. Também senti vontade de escrever poesia. Na verdade a única coisa que eu consegui naquela noite foi ficar sem dormir, lamentando o fato de ter nascido numa província no fiofó do planeta, distante dos locais nos quais a vida e a história produziam seus desdobramentos. A adolescência passou, o tédio morreu no relógio de ponto da vida adulta e a ansiedade pela abertura das portas da percepção também escorreu junto com a mulditão de livros de filosofia que eu andei lendo. Mas ficou a imagem de Morrison, rei lagarto, xamã, metido numa calça preta dançando em êxtase para o delírio da tribo.
Dias desses, entrei numa livraria e comprei Matem-me por favor: a história sem censura do Punk, volumes I e II. Escrito por Gillian McCain e Legs McNell, o livro é uma coletânea de depoimentos das personalidades da música dos anos sessenta e setenta. Gente como Lou Reed, Iggy Pop e Joey Ramone. No meio do livro li um depoimento de Ronnie Cutrone, pintor, ex-assistente de estúdio de Andy Warhol. Ele dizia o seguinte sobre Morrison: “Eu amava Jim Morrison ternamente, mas não era divertido sair com Jim. Andei com eles todas as noites por quase um ano, e Jim saía, se encostava num bar, pedia oito vodcas com suco de laranja, tomava dois Tuinals, então tinha que mijar, mas não podia deixar os outros drinques, então tirava o pênis para fora e mijava, e aparecia alguma garota para fazer sexo oral com ele, e então ele terminava as outras cinco vodcas com suco de laranja e matava outros quatro Tuinals, e então mijava nas calças”. Depois que li isso cheguei mesmo a odiar Oliver Stone. Sentindo-me um idiota por ter confundido de modo tão miseravelmente ingênuo o cinema com a realidade. Mas depois até que pensei melhor e relevei a mágoa, afinal, esse é o jogo da arte: pintar a vida com cores que, na maioria das vezes, ela não tem. Além do que, como dizia o bom e velho Blake, nunca é bom se esquecer que, nas situações de risco, a raposa culpa sempre a armadilha e jamais a si mesma.

Pablo Capistrano é escritor e professor de filosofia.
pcapistrano@hotmail.com

Foto: Jim Morrisson Portrait - www.sternwelten.at

04 julho, 2006

Babel

Lula, Vitorino, Zé Amaro

Releio Fogo morto, romance de José Lins do Rego, cuja obra esmera-se de notável valor social e humano. Suas histórias compreendem aquilo que de melhor têm os grandes textos literários, a representação simbólica de uma época por meio de uma estruturada e programática literatura e o desvendamento e estudo da natureza humana. A estrutura do esqueleto social do Nordeste agrário de inícios do século XX apresenta-se em temas básicos que o escritor paraibano desenvolveu ao longo de sua obra com devido bom gosto e humanidade, o que o torna, sem dúvida, um dos mais importantes autores brasileiros de todos os tempos.
Publicado em 1943, Fogo morto narra, à parte, o colapso dos engenhos nordestinos frente ao surgimento das primeiras indústrias usineiras no Nordeste. Digo à parte porque o substancial se evidencia na grandeza humana de três instigantes personagens para os quais aponta a narrativa.
São elas: Coronel Lula de Holanda, senhor de engenho, Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, espécime de político e defensor dos injustiçados, e Mestre José Amaro, seleiro. Três personagens que se entrelaçam e se entrecruzam hesitando, no percurso ficcional, se aproximarem, dando a impressão de não pertencerem a um mesmo e único universo. Zé Lins consegue esse efeito através de um jogo de composição ficcional fabuloso, caso raro na história da narrativa brasileira que, embora lembrado, não exploraremos. Tratemos das personagens. Não há uma personagem principal nessa narrativa, há personagens-destaque. E nenhuma apaga as demais, sendo, por isso mesmo como se a síntese de uma só personalidade.
Em que diálogo teórico e crítico se sustenta a assertiva? Em nenhum. Pelo critério da comoção apenas. Isso mesmo, em Fogo morto todos as personagens-destaque, por sua incontável humanidade, são assaz comoventes; talvez como em nenhum outro romance de Zé Lins. Isso elimina qualquer diferença entre elas, tanto enquanto elementos ficcionais distintos na narrativa como na hierarquia do sistema social representado internamente na obra. Somadas as características humanas que mais se ressaltam, ter-se-á a medida da comoção que elas causam no leitor.
Zé Amaro sempre esperançoso, sempre orgulhoso e com ares de renegado social. É jocoso, sem sombra de dúvidas. Muito e irritantemente quixotesco, como se observa a distâncias. Coronel Lula de Holanda, nem tanto. É de todos talvez o menos quixotesco; mas conta-se o extremo realismo de sua maldade e a melancólica invalidez que o afasta de exercer o “poder do engenho”. Capitão Vitorino chama a pequenas culpas, mas sua vivacidade de espírito e sua cara de tacho, atrapalhado, Papa-Rabo, vale o riso mais a piedade do leitor.
Fixo minha leitura na famosa passagem do romance em que, chamado por Lula de Holanda Mestre José Amaro hesita vir às ordens do coronel, já que este nunca o falou, sequer parou em frente à casa do seleiro para uma conversa. Resolvendo ir, sabe previamente que o velho está lhe arrumando as malas para que saia do engenho. O clímax é dado quando o senhor de engenho, disposto a mostrar-se “superior” diante do agregado (irônico, o narrador mostra que os dois conversam em posição diferente no terreiro da casa-grande – Lula “gigante em cima dos batentes de pedra”, e Zé Amaro “lá embaixo”, na calçada), pergunta:
- Quem é que manda neste engenho, hein, mestre José Amaro? De quem é esta terra, hein, mestre José Amaro?
O mestre não demora na resposta, mas responde como empáfia e desdém, embora terrivelmente vencido pela pequenez de seu “lugar” naquele sistema social:
- O senhor sabe melhor do que eu, coronel.
Afinal, quem manda em quem? Eis um único exemplo do romance, entre tantos, em que de modo simples e quase imperceptível somos levados à beira de questões universalmente nossas: a decadência moral de todos os homens, o exaspero de nosso aparente poder uns sobre os outros, nossa insignificância por isso; nesse simples diálogo, não só à decadência de uma época; não só a dos engenhos de fogo morto e a do patriarcalismo rural que se assentava há anos na autoridade exercida tanto pelos mandões de engenho como pelos senhores comuns de nosso mundo – personagens cuja humanidade levam-nos à comoção por nós mesmos nas pessoas de Mestre Zé Amaro, Capitão Vitorino e Coronel Lula de Holanda.

Foto:
José Lins e Austregésilo de Athayde - 1955 - www.mundocultural.com.br

Palimpnóia


Cardápio: Trivial

Dizem que mineiro adora contar um “causo” Não vou fugir à regra, ainda que não seja uma boa contadora de histórias. Mas este “causo” vale a ousadia.

Zé é um cidadão brasileiro de idade média, felicidade média, vida média. Irmão do meio de uma família tipicamente brasileira, tem nas veias aquela mistura sagrada que dá o tom da pele, o humor e o sorriso da nossa gente. Tem também aquele ar brejeiro de garoto esperto.
Mas Zé não foi sempre assim. Quando criança era tímido, encardido e quase invisível. Cresceu meio moleque, meio menino sério. Não estudou muito, mas aprendeu direitinho a ter notas que o passassem de uma série para outra. Nunca foi difícil enganar os professores e dar uma “coladinha básica”.
Começou a trabalhar cedo. Mas não parava em emprego nenhum. Era completar um ano e dava um jeito de ser demitido. Pegava o fundo de garantia, as férias e seguro-desemprego. Ficava um bom tempo tomando cervejinha nos finais de tarde (às custas do governo, é claro). Tinha sempre outros na mesma situação dele. E falavam de futebol, de política e ficavam olhando as saias que passavam pela calçada. Depois voltava ao “trampo”. Até que criou juízo. Apaixonou-se, casou-se e virou homem sério.
Subiu na vida, o Zé. Mas batalhou muito para chegar onde está e todos os dias agradece a Deus por isso. É bem verdade que precisou usar vez ou outra a lei da vantagem, mas coisa boba. Nem era muito diferente de tudo que sempre fizera. Um conhecido ali que o ajudara a entrar numa firma, outro que dera as dicas da concorrência, aquele político que fez sua carta de apresentação, o sogro que facilitara a escalada na empresa. Era honesto. Nunca roubara nem prejudicara ninguém.
Hoje Zé tem uma vida quase tranqüila. É grande leitor de bons livros e de uma revista semanal. Lê dois jornais diariamente e, sempre que a mulher dá uma folga, corre a olhar aqueles sites de sexo que proliferam na internet. Cuida do corpo, veste-se bem e adora receber os amigos nos fins de semana. Domingo é seu dia preferido. Reúne-se com os amigos num farto churrasco à gaúcha, à beira da piscina. E o papo rola solto. Piadas engraçadas, a mulher do vizinho, o gay do salão de beleza, a roubalheira do governo. E Zé se entusiasma. Sente-se no direito de cobrar e de se indignar. Afinal, foi um dos que colocou lá aquele sapo-gordo-mentiroso-aproveitador-ladrão. E no meio da sua indignação, se a campainha toca, a empregada já sabe: dá logo alguma coisa ao pedidor de esmola e não estraga o domingo que é dia sagrado.
Zé não gosta de política, nunca gostou. Depois da grande decepção que foi o governo que elegeu, não confia mais em nenhum político. Vai anular o voto, com certeza. Talvez vote apenas naquele conhecido que vai ser candidato a deputado. O resto, é xis vermelho da urna eletrônica. Andam dizendo que se todo mundo anular o voto, a eleição é anulada. Não está muito preocupado com isso, que elejam quem se lá quem for. Sua preocupação agora é outra. Por culpa do incompetente do contador, vai cair na malha fina. Tem absoluta certeza. Precisa arrumar rápido uns recibos ou vai ter que morrer numa grana feia. Pagar mais a este governo corrupto é que não vai. De resto, a vida vai bem. Ainda faltam alguns passos para ser um vencedor, mas com sua inteligência e sua esperteza conseguirá chegar lá.

Pois é, esta é a história de Zé. Uma história que nem de longe se parece com a minha, com a sua, com a de qualquer pessoa das nossas relações. Uma história que nem mesmo se parece com Zé.
Talvez porque o Zé escrito não seja nada bonito.


Fotografia conceptual de Vasco Jorge: Eu, Eu e Eu (Um ataque de egocentrismo)

03 julho, 2006

Ficção e Desatino

A presunção de quem se julga fã de cinema

Que gostar de gostar de cinema é moda, isso não é segredo. Mesmo sendo uma arte nova, em comparação a outras existentes, sendo considerada menos válida pelos mais severos, considerar-se fã de cinema (e, como conseqüência do processo, hoje, divulgar) parece ter tomado conta das cabecinhas juvenis. Lembro-me quando, no colégio, fulano ou sicrano soltava: “menina, não deve haver mais nada na locadora que tu já não tenha visto”. Mesmo reconhecendo a estupidez da frase (considerada por mim ainda medíocre, mas sempre estupidez), me orgulhava, pois era uma das poucas ratas da mítica “seção de arte” das locadoras. Lá, encontrava as fitas de alguns filmes europeus já esquecidos (inocente, não imaginava que nunca devessem ser lembrados, de fato) e ia feliz para casa, contemplar aquelas obras, me sentindo, assim, uma completa cinéfila. E eis que, já velha, quase que convencida como a espectadora ideal, me surge Louise Brooks em “O Diário de uma Garota Perdida”, de George Wilhelm Pabst. Sempre vira fotos da atriz, com o seu cabelinho chanel indefectível, mas jamais a houvera visto atuando. Foi quando a mocinha de olhos tristes me despertou à minha mais ínfima realidade: eu tinha diante de mim um filme audacioso e moderno, beirando a extravagância. E este, meus caros, é um filme de 1929. Passei a imaginar o número de obras feitas e não-vistas por mim. Claro, a queda foi grande, porém, levantei-me em seguida e hoje integro grupos de estudos em história do cinema, sempre tentando cultivar humildade e curar o meu orgulho fílmico ferido.


Imagem: Diary Of Lost Girl - www.kleinedingen.nl

02 julho, 2006

Hein?!

Lá no Brasilzinho...


É preciso investir na rica cultura que temos
para enxergar o futuro sem expulsar os sonhos



Uma nação absorvida pelos sutis setores produtivos ou pelo setor público fica reprimida pela indignação da economia local. Por outro lado, como os anseios de emprego e renda são cada vez mais demarcados pelo achatamento da economia, os que carecem de oportunidades, devido a fatores culturais, também acabam prejudicados por verem interrompida a continuidade do seu desenvolvimento cultural – é como excluir as gerações descendentes gerando uma quebradura da herança histórica.
O nível sociocultural da população vem enfraquecendo gradativamente, e esta em conseqüência torna-se cada vez mais isolada da informação. É o caso do interior do país, em que os estabelecimentos são geridos por mão-de-obra primeiramente familiar. Os filhos dos comerciantes e produtores locais em pequenos municípios são obrigados a deixar a família à procura de oportunidades em outros centros urbanos, originando o esvaziamento da população economicamente ativa da localidade. È o dilema: os que conseguem qualificação nas grandes cidades não encontram oportunidades de aplicar seus conhecimentos na cidade natal e se não podem retornar às origens após adquirir conhecimento e qualificação, superlotam os grandes centros supurando vastas áreas de emprego.
O que fazer? Nossos maiores problemas levam ao esvaziamento das comunidades, ao achatamento econômico e à exclusão social, e isso afeta diretamente o patrimônio cultural de inúmeras cidades e centros históricos em todo o país. Ainda bem que lá no Brasilzinho comunidades carentes e ofuscadas pela rejeição da globalização encontram apoio em esferas culturais como as ONGs e os intelectuais, que agem na preservação dos patrimônios históricos dessas pequenas cidades. Juntos tentam reconstruir e valorizar a história, que é o que elas têm de melhor para gerar seu futuro e desenvolvimento.
O grande patrimônio cultural legado pelas gerações vividas é o elemento construtivo da identidade do Brasil. Os espaços históricos devem ser recuperados e preservados, situando-os como monumentos absorvidos harmonicamente pela paisagem urbana ou rural. As manifestações culturais, o folclore, a música, a culinária, o artesanato podem agregar diferenciais em cada região. Ora, os aspectos particulares de cada lugarejo têm um peso na composição de seus valores, e, portanto pode e deve ser amparado por incentivo governamental, por parte do poder público e pela participação ativa da sociedade.
Com a cobrança da economia local nos municípios, estes passarão a readquirir a capacidade de investimentos, que deverá ter na produção cultural o reconhecimento de seus valores e de suas tradições culturais investidos. A criação de emprego e renda vinda da reestruturação sócio-cultural colabora para o processo de inclusão e faz parte da cadeia produtiva e importa para o desenvolvimento de cada cidadão. É preciso investir na rica cultura que temos para enxergar o futuro sem expulsar os sonhos, e principalmente é preciso investir em quem faz o desenvolvimento acontecer: o povo.

01 julho, 2006

Arte Incomum


"Se foi pra desfazer, porque é que fez"...


O que levaria um Governo, nariz empinado, ter a ousadia de convocar a inteligência nacional para definir um modelo de TV Digital (SBTVD - Sistema Brasileiro de TV Digital) que atendesse aos interesses sociais e econômicos do país para depois jogar todo este esforço pelo ralo sem mais (nem menos). Não fosse o levante de vários setores da sociedade, Lula já teria anunciado há muito tempo à escolha integral de padrões internacionais para a TV Digital brasileira em detrimento de um modelo híbrido, o único, que contemplaria os interesses da nação.
A vantagem econômica do modelo brasileiro vai desde a independência de um padrão e seus royalties associados à possibilidade de um modelo exportável de TV Digital interativa capaz de interessar grandes mercados emergentes, com condição geográfico-social semelhante ao do Brasil. O tecnológico estaria na valorização da competência nacional, dando-lhe chance de se consolidar, por exemplo, no campo do software (midlleware e aplicativos) e o cultural no estímulo à produção de conteúdo pela criação de um mercado próprio.
O SBTVD, ao contrário do SIVAM (decidido à revelia da inteligência nacional), é um sucesso de planejamento e implementação que seduziu a academia de norte a sul do País (foram envolvidos mais de 1.500 pesquisadores e 80 instituições de P&D que elaboraram uma solução para o padrão TV Digital brasileira).
O advento da TV digital é o que se chama de uma janela de oportunidade. Na lógica da sociedade do conhecimento, tão ou mais importante que o produto é a competência tecnológica que se adquire ao desenvolvê-lo. Podemos aqui repetir histórias de sucesso ou repetir erros crassos do passado, como quando sob altas pressões, baixos golpes e pesados lobbies internacionais adquirimos o SIVAM que nossos técnicos e cientistas poderiam ter desenvolvido. Que pressões e lobbies, todavia mais surdos, agora nos acometem?
Resta saber quais interesses impediram o Governo de promover um amplo debate na sociedade, em assunto que diz tão de perto à vida de tantos? Que pressa o açoda, quando nenhum fato novo nos pressiona?...Para não terminar sem uma bravata presidencial, além de criticar governos anteriores, Lula decidiu e assinou contrato padrão japonês e, ressaltou vantagem que a TV digital poderá trazer aos usuários. "Não está longe o dia em que as famílias poderão marcar uma consulta médica pelo SUS pela TV". É, não custa esperar e acessar da poltrona nossos “bons” serviços públicos básicos, embora a estimativa é que a implementação da TV digital no Brasil demore dez anos.

Imagem: tvsnob