Filósofos e Juízes - Por Pablo Capistrano

Pablo Capistrano
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O mundo anda tão sinistro que peço licença ao amigo leitor, para iniciar uma série de artigos sobre um tema técnico. Calma. Não se preocupe. Meu objetivo aqui não é o de assustar ninguém com um rosário de citações estranhas e termos intrincados. Lembro da declaração do sábio Akiba, que viveu na Palestina entre os anos 40 e 135 d.c.: “Se tivesse em meu poder um intelectual, o espancaria como a um jumento!”. Pois bem, como vivemos numa época em que intelectuais correm o sério risco de serem espancados como jumentos (se alguém prestar atenção no que eles dizem, é claro) então vou procurar, nessa série, me afastar, por motivos de segurança e manutenção da minha integridade física e da minha propriedade literária, de jargões lingüísticos e de intricados conceitos técnicos.
Falar de filosofia em linguagem de gente normal é uma tarefa difícil. Às vezes, mais difícil do que falar de filosofia na linguagem técnica de um filósofo. É como pedir a um neurocirurgião, que explique no jornal do meio dia, para a dona de casa e o estudante de nível médio brasileiro, a diferença entre um aneurisma cerebral e um derrame. No final das contas, é necessário algum poder de síntese, alguma falta de pudor em falar as coisas de modo impreciso, um certo descompromisso com o rigor dos conceitos, uma boa dose de humor e uma leve e distante vontade de que as pessoas entendam o que você está dizendo.
Ou seja, tudo aquilo que um filósofo acadêmico despreza.
Mas a filosofia é assim mesmo. Ela ama esconder-se. Quando mais você corre atrás dela, mas parece que ela foge de você. Por isso, na origem, o termo filósofo, ganhou essa conotação: “amante do saber”. Se tivesse a ver com o Direito o termo correto seria: “marido do saber”. Sim, porque, oficialmente quem sabe das coisas é o bacharel. Ele é o marido do saber. De papel passado, com direito a regime de separação parcial de bens e solidariedade familiar em caso de Divórcio. O juiz, ao contrário do filósofo, fez um concurso e por isso está casado com a sabedoria. Dorme com ela, acorda de manhã, toma café, almoça, janta e assiste as partidas da Copa do Brasil, na quarta à noite, enquanto ela, entediada, come um saco de pipocas no sofá.
O filósofo, que difere do juiz justamente por não ter emprego público (a não ser como professor) e pelo salário, é o “amante da sabedoria”. Encontra-se com ela nos motéis clandestinos da verdade ou nos restaurantes psicodélicos da argumentação. Livre do tédio conjugal, o filósofo se ressente de não ter esse vínculo oficial com a sabedoria, ao passo que o juiz, sonha em se livrar dele (mantendo, é claro, o salário e pagando o mínimo de pensão alimentícia).
Para se entender a natureza da filosofia é preciso remontar a relação entre filósofos e juízes, que está tão bem retratada no diálogo Eutífron, de Platão. Lá, Sócrates (o Ricardão da Filosofia) se encontra na escadaria do templo com Eutífron (o juiz, esposo da dita cuja). O juiz tem a obrigação pública de dizer o que é a justiça. Sócrates não. O juiz tem o dever de não entrar em contradição e explicar as perguntas que lhe são feitas. Sócrates não. O juiz está atrasado para mais uma audiência. Sócrates passa o dia na praça do mercado batendo papo com os amigos e fica irritado quando Xantipa, sua mulher, vem reclamar que não tem nada para cozinhar na hora do almoço. O juiz fica constrangido quando não consegue achar uma solução para o problema proposto por Sócrates (“O que é a justiça?”) e se envergonha quando deixa claro que a sabedoria só está casada com ele de papel passado, mas que se diverte com o filósofo nas horas vagas. Sócrates sente orgulho de “saber que nada sabe” e sua grande curtição é ficar procurando sua amante pelas ruas, esperando a hora em que ela resolva dar uma “rapidinha” antes de voltar para o templo, para o fórum, ou para o palácio real prestar expediente. Saber porquê algumas pessoas preferem ser juizes ao invés de filósofos é algo difícil, especialmente quando você não faz uma comparação dos contracheques. Nos próximos artigos vamos tentar compreender um pouco mais a natureza dessa estranha relação que os homens mantêm com essa tal “sabedoria”.