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O Rio da Minha Aldeia - por Pablo Capistrano


Sempre fui fanático por mapas. Uma das imagens mais recorrentes da minha primeira infância são os mapas de um imenso Atlas branco que minha mãe ganhou após ter comprado todos os fascículos da Enciclopédia Barsa. Talvez por ter nascido numa cidade litorânea sempre desconfiei do horizonte. Sempre desconfiei que, depois do horizonte, não poderia haver um abismo, um buraco, uma linha divisória onde se lê uma placa com os dizeres: “aqui acaba o mundo”.Então eu passava um bom tempo da minha vida de criança olhando os mapas de lugares estranhos e distantes. Foi assim que eu aprendi o nome de quase todas as capitais, os nomes dos desertos, dos oceanos e das cadeias de montanhas. Lembro que tinha medo da Ásia. Não sei porque, mas eu tinha medo da Ásia. Ela era muito grande, muito estranha e muito distante. A África também me assustava, mas, talvez devido algum impulso genético também me deixava fascinado. Especialmente a costa oriental. Sempre que eu olhava o mar meu pai dizia: “Do outro lado é a África”. Por causa do meu bisavô escravo (Antônio Fernandes de Macedo, negro alforriado pela lei da princesinha brasileira) sabia que a África guardava algo meu, assim como sabia também que algo meu estava em Portugal.
Foi olhando o mapa de Portugal que eu vi o nome daquele rio.
Não sei qual é seu sobrenome, amigo leitor, mas deve ser estranho para você também ter no seu nome, o nome de um rio. O meu rio é o rio Paiva. Afluente do rio Douro, nos limites entre a região das Beiras e a região Norte de Portugal. Tem gente que tem nome de árvore, outros de bicho, eu, tinha o nome de um rio. Mas esse deveria ser um rio muito pequeno porque ninguém no Brasil sabia que ele existia. Conheciam o Tejo, alguns conheciam o Douro, mas o Paiva... nem minha avó que me respondia: “nossa família veio de Portugal”; de onde? “não sei... só sei que é de Portugal”; quando? “Não sei... só sei que faz tempo”.
Na verdade a região de Paiva parece ser uma importante região desconhecida de Portugal. Isso porque ela não aparece no meu guia de viagens publicado pela Folha de São Paulo e porque ninguém que eu tenha perguntado em Lisboa sabia onde ela ficava. Se a Folha não sabia que a região de Paiva existia e ninguém em Lisboa também sabia, é porque, talvez, de um modo ou de outro, ela não existisse mesmo.Na Internet, num site de famílias portuguesas o rio de Paiva não é citado. Sobre a família e o brasão eles dizem apenas: “o seu nome é de raízes toponímicas, pois deriva do nome da terra de Paiva”. O nome da família parece ter surgido como apelido com um tal João Soares de Paiva. Um trovador que viveu entre 1275 e 1325. Nascido setecentos anos antes de mim, João Soares de Paiva parece ser o primeiro Paiva registrado na história. Nesses setecentos anos, o nome desse rio atravessou o mar e foi parar na Serra do Martins, no oeste de um estado minúsculo do nordeste do Brasil. Como isso pode ter acontecido é um mistério dos mais densos. Mas o fato de não se saber muito sobre a existência desse rio não implica que, de um modo ou de outro, essa não seja uma região importante.
Afirma a Internet (essa grande matrix cheia de porcarias geniais) que a região de Paiva teria refugiado as primeiras tribos celtas que habitavam Portugal antes mesmo da invasão romana. Esses celtas adoradores da virgem teriam ido parar lá depois da invasão moura, e teriam formado um núcleo de resistência cristã, contra a influência semítica. Paiva seria então uma região de fronteira. Um limite que separava os mundos.
Comprei um mapa mais detalhado e teci um plano de viagem até um lugar chamado Castelo de Paiva. Atravessaríamos o Porto e pegaríamos uma estrada pela margem norte do rio Douro. Uma hora de viagem ou um pouco mais e chegaríamos no castelo. Ele fica bem na confluência do Douro com o Paiva. Lá eu encontraria meu rio, meu castelo e um bocado de parentes que me receberiam com festa e poderiam me responder a estranha questão: “como eu fui parar em Natal?”. (Continua na próxima semana)

Salve equipe Miolo-de-Pote. Abs para todos, especial para Euza e Helena. Jarbas do Aparte.

Pablo,
Temos uma novidade!
A novidade é que já estamos com um espaço próprio para nosso laboratório. Conseguimos graças ao apoio e o incentivo de todos. Não desistimos. Um abraço.
Willam & Odilene

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