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Ignorância e Poder – por Angela Merice Lemos Sales

Vejo muitas pessoas comentando sobre a ignorância do povo que, de acordo com as pesquisas, votaria em Lula, se a eleição fosse hoje. Penso que a resposta das pesquisas de opinião são respostas a uma questão maior, mais ampla. Na verdade, não se trata de escolher uma pessoa para "governar" o País. A nossa questão é a cegueira em relação ao fato de sermos todos um. Não ficamos reféns da ignorância. Somos parte dela, apenas o lado leitor, informado, da ignorância. Quando reafirmamos a nossa crença de que a escolha de um presidente, seja a escolha feita por "consciência", "informação", "seriedade", "ignorância", "indiferença", vai mudar o País, esta é apenas uma crença, sem respaldo nos fatos. A máquina do Poder, tal como está construída, está pronta para absorver qualquer um que pouse por lá. Os mecanismos desta máquina já estão programados para a corrupção.
Por outro lado, a educação está falida. Não é só um problema de corrupção, de falta de investimento em salários de professores ou em escolas. O currículo do ensino é completamente esquizofrênico. Seja nas escolas públicas ou nas particulares, há um acúmulo de conteúdos que se tem que aprender, engolir, para conseguir os diplomas certos e "progredir" na vida.
Será que aprender a extrair uma raiz quadrada aos onze anos nos torna pessoas melhores? E equações de segundo grau aos quatorze anos nos dá mais sabedoria? O ensino é uma massa de conteúdos descontextualizados, que são um desrespeito à inteligência de nossos filhos. Não se desenvolvem as capacidades de refletir, criar, intuir, construir o próprio pensamento. O importante é dar as respostas certas. Não se valoriza os potenciais criativos e imaginativos individuais, mas o quanto o sujeito se adapta ao esquema escolar.
Para a classe média, o importante é passar no vestibular. Depois, fazer especializações, mestrados, doutorados, saber tudo sobre um nada, super-especialistas de nada. Não aprendemos a ser humanos. Não aprendemos a ser solidários. Não valorizamos a verdade, a justiça, o amor, a criatividade, o respeito ao outro (seja ele quem for), a gentileza, o discernimento, a intuição, como bens humanos básicos a serem estimulados e desenvolvidos em casa e na escola. Isto não é importante. O importante é dar as respostas certas, ser treinado ou adestrado para o mercado de trabalho, seja em que nível for (lixeiro, torneiro mecânico, médico, juiz).
Não vejo mais sabedoria no diretor de uma instituição financeira, com mestrado em finanças, que no jornaleiro da minha rua. Qual dos dois vai votar melhor? Não importa, não é a questão. Que importa morar numa casa de quinhentos metros quadrados, sair à rua num carro blindado, sem olhar para os lados, sem saber o que sentem e pensam os outros seres humanos que estão nas ruas? Eles só têm valor como voto, que pode eleger um Lula ou um Alckmin.
E aí o círculo se fecha sobre si mesmo. A ignorância e insensibilidade de uns em relação ao estado de outros se junta à ignorância e insensibilidade de outros em relação ao que se passa nos altos círculos do poder. Um litro de leite a mais no fim do mês está muito mais próximo e é mais vital do que uma raiz quadrada. Eles estão certos. Não são loucos. A situação que vivemos tem uma lógica muito mais complexa (do ponto de vista do sistema) ou muito mais simples (do ponto de vista do povo "ignorante") do que imaginamos. Quem é o sujeito mais miserável: aquele que alimenta a família catando lixo ou aquele que, tendo feito uma carreira acadêmica completa, tendo todas as necessidades básicas e secundárias satisfeitas, rouba, enche cofres de dinheiro no exterior? Quem é mais humano? Quem é mais louco? Quem é mais "pé-no-chão"? O que foi ensinado ao catador, e o que foi ensinado ao Doutor? O que aprenderam? Quem é mais "humano"?
Só consigo pensar numa saída para estas situações numa mudança em cada indivíduo. Sensibilidade, se importar com quem está em volta. Família, vizinhos, o faxineiro do prédio, o menino que vive na esquina, olhar em volta e lidar com gentileza com um mar de seres humanos que nem vemos, que não olhamos nos olhos, a quem nunca damos um sorriso. Agradecer ao menino, com um sorriso e umas moedas pelo serviço prestado de limpar o vidro do carro no sinal. Você vai dizer que está errado, que este menino não deveria estar ali, que não quer estimular este tipo de situação, já sei. O problema é que, na REALIDADE, ele está ali, e com fome. E precisa ser tratado como ser humano, precisa ser olhado como ser humano JÁ, não quando acabar a corrupção, não quando todos forem alfabetizados.
Se olharmos as pessoas teoricamente, alimentamos a esquizofrenia da nossa sociedade, levando uma vida virtual, entre os que passam necessidades reais e os que roubam de verdade. Proponho uma revolução pelo olhar, pela sensibilidade, pela gentileza, pelo sorriso, pela boa vontade, silenciosa, nas vizinhanças, sem preocupação de levantar bandeiras, passeatas. Proponho uma revolução silenciosa só com quem cruzar o nosso caminho, no cotidiano. Um olhar sorridente e gentil tem um poder de transformação e contágio tão grande que até dá para entender porque não está nos currículos escolares. Como seria possível controlar e dizer o que deveria pensar um Ser Humano com todas as suas capacidades desenvolvidas? Proponho que nos aceitemos mais, que nos amemos mais, que sejamos mais humanos JÁ!

Angela Merice é professora, formada em Comunicação Social pela UFRJ e em Consultoria Educacional pela UNIFAZ-BA, morando atualmente em Salvador/BA.

Imagem: Foto de Bart - http://www.olhares.com/

Se a revolução foi proposta após o questionamento do sistema educacional, devo supor que necessário será que este sistema seja o primeiro a passar por tal revolução. O que digo não é uma discordância sobre o lido, mas uma impressão. Compreendo que para transformar o olhar sobre o outro é preciso que a princípio seja despertado este olhar. Podemos esperar um aflorar espontâneo de tal comportamento ou EDUCAR tal comportamento; me parece que esta última seja uma maneira com maior chance de resultados positivos.
Parabéns pelo excelente texto.
P.S.: menina, seu nome não me é estranho...

Concordo plenamente com vc.O foco da nossa "batalha" , está errada.É claro q todos precisamos lutar pelo pão de cada dia. Mas estamos reagindo igual a experiência realizada , que mostra o que acontece com uma comunidade de ratos encarcerada com aumento de população e diminuição paulatina da ração . De um momento em diante , os ratos brigam entre si, e o perdedor passa a ser o alimento do dia. Ou mudamos ou estamos apenas inserindo na sociedade futuros " Ratos " ou "Drs. Ratos " que tbm sucumbirão em uma comunidade "encarcerada".
Foi um prazer ler vc !

Excelente o seu texto, Ângela. Sem dúvida, nós educadores sabemos o quanto o sistema educacional está falido, mas nem por isso precisamos nos conformar com a situação, acreditando que a solução está longe de nós. A sua proposta é, numa análise simplista, que retomemos nossa característica de humanidade. Concordo inteiramente com ela.
Beijos

Parabens pelo texto. Deixou-me muito reflexivo...

É um texto que mexe com a gente. Como o Do, saio reflexiva...

Ângela, caríssima! Sua reflexão tem como base a única saída para a sociedade humana, que seria a sua "humanização" . Como se conseguir isso? Com o desenvolvimento da sensibilidade que leva ao altruísmo, à compaixão( no sentido de Leonardo Boff: "sentir com"...),à solidariedade, à fraternidade( sem o sentido exatamente do Cristianismo...).
Outro dia, fiquei impressionada com o maestro Isaac Karabcheviski(não sei escrever )que dizia do sonho dele de aumentar os espaços para se ouvir música clássica, onde o povo, em massa, pudesse comparecer...Ele falava em " desenvolver a sensibilidade" das pessoas, dessa forma! Eis aí o que eu aplaudiria!
E, como escrevo poemas, fiquei me sentindo, nesse momento, uma "co-participante",( devido ao seu texto)..., mesmo em escala mínima, da reforma e da melhora dos meus compatriotas!
Muito bem pensado esse viés que vc explorou e analisou tão bem.
Parabéns.
E obrigada.
Dora.

Vc não tem noção como esse texto mexeu comigo. Sim, tenho isso em minha vida, acho que podemos ser melhores e por causa disso já fui muito criticada. Já fui criticada por falar com Sra. Ivanilda, a faxineira da empresa, já fui criticada por dar Bom dia ao jardineiro, e ele até estranhou na primeira vez, por abraçar as pessoas amigas que eu amo e que convivem comigo... Porque posso? O que há de errado... mas apesar das críticas não paro de ser eu...Poque sei quem está errado é o mundo e não minha pessoa. Adorei seu texto!

Angela, estou contente de ver seu texto no Miolo, através da Euza, o que corrobora a tese do olhar novo, de que vc fala tão bem, como essencial na educação. Aliás, essencial na vida, portanto em todas as ações humanas, nos programas políticos, no exercício profissional, em toda parte. Quando eu estava dando aulas em turmas de adolescentes em escolas públicas, eu considerava o olhar como ponto de partida, não havia horário nem nada escrito no quadro, enquanto os olhos não se movessem entre nós.Embora as críticas quisessem me derrubar, o amor dos meninos me sustentava na prática diversa. Tomara que esta revolução tome conta das salas de aula, das casas, dos ambientes de trabalho, das repartições, e alcance os centros de poder. Meu abraço solidário.

Concordo em quase tudo com o seu texto. Mas não acredito em milagres do tipo abertura da caixa de pandora inversa que nos dará mais humanidade só pelo fato de termos sido alertados. Não existe desenvolvimento humano, desenvolvimento das virtudes humanas. Isso se aprende em casa. São passados pelos nossos pais. O sistema tem muito mais força com seus apelos meramente consumistas do que toda moral "antiquada" dos nossos pais ou das igrejas - essas últimas usam o mesmo apelo milagroso do consumo. Penso que tudo se resume em educação, de berço.

A Euza indicou-me seu texto e fico grata pela boa indicação de leitura. Li também os comentários anteriores para sentir o nível do debate. Muito bom. Da minha parte tenho a comentar que concordo que o que se ensina deva ser repensado e reconstruído nas bases que vc sugere, mas também concordo com Erly quando diz que a família é a base de toda a educação. Portanto, façamos cada um de nós a sua parte, como vc também sugere. Ray

A sua crónica é arrasadora.
Nada fica de pé.
Infelizmente poderá repeti-la daqui a 10, 20, 30 ou mais anos. Estou céptico quanto às mudanças que tornem o seu país e o mundo em geral mais humano. Nem sequer conseguimos humanizar a nossa rua, muito menos todos os condóminos do nosso prédio... as excepções, de tão poucas, confirmam a regra.

Quanto ao saber, da raíz quadrada a outras coisas do género, ele não impede, antes facilita, a "aprendizagem" do humanismo que fala. Aliás eu penso que o Brasil é um dos países mais humanos do mundo. É o que sentem, pelo menos, todos os portugueses que aí vão, onde o calor humano de que são rodeados é inigualável.

De qualquer modo, subscrevo o essencial da sua "proposta afectiva".
Um beijo.

Foi um prazer aceitar o convite da Euza para ler um texto tão claro e contundente quanto o seu. Ele nos leva a vários olhares sobre a sociedade em que vivemos e nossas atitudes diante dessa mesma vida. O afeto anda em baixa, o medo impera. É preciso encontrar um modo de inverter essa situação.

Oi, Ângela.
Bom dia.
Eu sempre sigo os conselhos da Euza e sempre me dou bem.
Que maravilha de raciocícion, Ângela. Eu, também, fico me questionando sobre o fato de ter aprendido equação do segundo grau até hoje. Não consigo entender porque não ensinam noções de cidadania, ecologia, amizade, fidelidade, sei lá, coisas assim. No entanto nos ensinam que a aranha tal-assim-assim, habitante lá das estepes de não-sei-onde é hermafrodita. Pô. Fala sério.
Aí, quando a gente lê as explicações sobre as razões de o círculo se fechar sobre si mesmo, a coisa fica mais clara.
Moça, parabéns.
Todos nós estamos de parabéns pelo seu texto.
Pra você eu deixo doces.
Vicente

Que texto lindo, que reflexão procedente! Se todos fossem no mundo, como Santa Thereza d´Avila, tão humana e toda de Deus tudo seria diferente, afinal a humanização e a espiritualidade caminham de mãos dadas...Querida Angela, você terá estudado no colégio Santa Ursula? Se a resposta for sim, bons tempos aqueles e maravilhosas amizades...Saudades, Denise Ferracciu

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