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A mãe de Brecht – por Pablo Capistrano



Para quem só conhece o camarada Bertold Brecht (poeta e dramaturgo alemão) pelo mais famoso poema dos livros didáticos de história do ensino fundamental que fala do tal analfabeto político, deve se assustar em saber que nem só de cartilhas ideológicas e militâncias políticas vivem os poetas. Brecht também teve uma mãe. Real ou poética, e entre 1913 e 1926 escreveu uma série de “salmos” (pois é amigo leitor, salmos... quem diria) nos quais as imagens de mulheres passeiam no meio da dor do poeta pela perda da mãe (real ou imaginária). Num dos poemas mais belos, traduzido para o português por Paulo César de Souza, ele diz: “Eu sei, amada: agora que me caem os cabelos, nessa vida dissoluta, e eu tenho que deitar nas pedras. Vocês me vêem bebendo as cachaças mais baratas, e eu ando nu no vento/ Mas houve um tempo, amada, em que era puro./ Eu tinha uma mulher que era mais forte do que eu, como o capim é mais forte do que o touro: ele se levanta de novo./ Ela via que eu era mau, e me amou./ Ela não perguntava para onde ia o caminho que era seu, e talvez ele fosse para baixo. Ao me dar seu corpo ela me disse: Isso é tudo. E seu corpo se tornou meu corpo./ Agora ela não está mais em lugar nenhum, desapareceu como uma nuvem após a chuva, eu a deixei, ela caiu, pois este era seu caminho./ Mas à noite, às vezes, quando me vêem bebendo, vejo o rosto dela, pálido no vento, forte, voltando para mim, e me inclino no vento”.Se as primeiras formas de religiosidade humana prestam ou não reverência a deusa com cara de mãe eu não sei. Há sinais de que essa mulher que aparece com sua face no vento está na base de boa parte dos cultos humanos que floresceram a partir do leito dos grandes rios da Ásia e que seu culto se espalhou pelo ocidente. Ísis, Tiamat, Ishtar, Ceres. Faces de uma mesma e absoluta mulher. Junto com seu culto ocultado pela força masculina do YHWH judaico, muita poesia se escreveu para nosso júbilo. Um dos registros mais antigos escritos em galego-português são as Cantigas de Santa Maria, compiladas durante o reinado de Afonso X e que se disseminaram a partir do norte de Portugal e da Espanha pela resistência celta à influência berbere na península ibérica. As Cantigas ganharam versões modernas e estão à disposição pela Internet. Alguns cristãos reformistas podem até não concordar, mas a base fundamental do culto a Maria na península ibérica, a partir dessas influências celtas, parece mesmo fazer referência ao nosso primeiro grande amor. Um amor cantado nas trovas medievais, no lirismo das musas românticas, nas imagens de olhos oblíquos e dissimulados das Capitus, nas tragédias das madames de Flaubert, na indefinição elouquecedora da Carlota de Werther, na louca morta no hospício do Kadish de Ginsberg, ou mesmo nas mamães coragem de Brecht e Torquato Neto.

Pablo Capistrano é escritor e professor de Filosofia. Escreve às segundas, no Miolo de Pote.

Camarada Pablo, vc tem razao quando diz que Ísis, Tiamat, Ishtar, Ceres sao faces de uma mesma e absoluta mulher. Acredito na força indestrivel do poetico feminino e sei que ela resistira ainda mais atraves dos tempos. Qual de nós vive sem a magia do sagrado feminino em torno de nós? Nao é à toa que a literatura dá provas de como a Deusa nos influencia e nos inquieta... Ponto para Brecht, Neruda, Vinicius, e tantos que resgataram das entranhas a força da Deusa-Mae em alto grau nos seus poemas...

Ola! Para uma postagem assim cheia de boas citaçoes eu so posso acrescentar mais uma, do previsivel Nietsche ' A mulher entende mais a criança que o homem mas o homem e mais criança que a mulher'. Viva Hamlet que fingia sofrer pelo pai quando adimirava o feito do tio, que ele mesmo nao podia executar. Freud explica... Shakespeare explicou melhor. Mae so tem uma...e em todas ela nos mantem regredidos, creio eu, vou perguntar pra mamae. Bela postagem, grande abraço!

nAO DÁ PARA FUGIR DESSA PRESENÇA PODEROSA:A MULHER,A MÁE (É FORÇA,INSTINTO,CRIAÇAO)O HOMEM AMA E TEME ESTA PRESENÇA(TRATAMOS DE DIMINUIR SUA IMPORTANCIA PORQUE SABEMOS DA SUA POTENCIA E QUANDO ELA DSPERTAR COM TODA FORÇA,SEREMOS POSTOS DE LADO E TEREMOS QUE REVER POSIÇOES DE COMANDO.eNFIM...qUEREMOS O QUE TEMEMEMOS E NAO SABEMOS:NEGAMOS A FORÇA,MAS QUEREMOS O DESEJO QUE NOS DESPRTA,SÓ ATÉ ONDE ACHAMOS QUE PODEMOS TOCA-LAS OU DOMINA-LAS.bRECHT PODIA TER ATE UMA ADORAÇAO ALÉM DO NORMAL PELA MAE,MAS TRADUZIU ESSE ENCANTO E ESPANTO POR ELA DE FORMA MAGISTRAL(MAE CORAGEM);LORCA SOUBE DIGNIFICAR A MULHER,ONDE ANTES A HUMILHAVAM.tENHO ADMIRAÇAO PROFUNDA PELA ALMA FEMININA E QUE ELA TAMBEM SE REVELE EM NÓS,HOMENS!

Li seu texto, e vim agradecer a beleza dos versos da mulher ao vento, da mãe eterna e bela, aquela que dorme enquanto os olhos passeiam na alma dos filhos. Obrigada de novo.

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