Quando o novo é antigo - por Dora Vilela

Hoje já concebemos o homem como um animal ereto. É bípede e, normalmente, usa os pés para se locomover. As crianças, mal completam poucos meses de nascidas, já tentam dar seus passinhos. Andar é um gesto tão automático que ninguém necessita calcular sua efetivação.
Mas, na época em que vivemos, após o surgimento da imensa variedade dos veículos que nos transportam, parece que essa automação ficou prejudicada.
Quando pequenina, eu andava, sem pensar sobre o fato, talvez quilômetros, por dia, ao me desincumbir de minhas atividades infantis, como ir à escola, correr no recreio entre as aulas, ir à padaria, ao catecismo da minha religião, à casa de amigos, enfim, andava e andava. Minha cidade era pequena e meus pais não possuíam carro.
Fico impressionada ao constatar que as pessoas, atualmente, são “instadas” a caminharem, a fazer uso dessa habilidade natural que, simplesmente, desaprenderam ou esqueceram.
Todos os conselhos médicos, após exames de prevenção ou detecção de moléstias, destacam o movimento de “andar”. A doença do século parece ser o sedentarismo ou, pelo menos, advir dele.
São sobejamente conhecidas essas minhas colocações, mas as repito devido ao espanto que me causam a louvação e a redescoberta de uma obviedade.
Já assisti a passagens até jocosas em casa de minha irmã, cujos filhos, já quase adolescentes, ficavam desnorteados quando a mãe se atrasava para levá-los, de carro, a cursos, que distavam alguns quarteirões de sua residência. Telefonavam-me em pânico, pedindo-me ajuda, e, quando eu dava a sugestão de irem “caminhando” pensavam que eu era de outro planeta. Andar? A pé? E esse fato se repete com minha neta, de sete anos, que não sabe ir à esquina do apartamento dela.
Há outros problemas em jogo, hoje em dia, como a violência nas ruas, o excesso de trânsito, o medo generalizado que paralisa todas as iniciativas nesse sentido.
Então, agora é comum a prática que julgo das mais bizarras: caminhadas em “locais próprios e adequados”. Aplainam-se faixas de terrenos, arranjam-se pisos convenientes, sinalizações, tudo artificialmente arrumado para o homem realizar seu “exercício” de andar.
As orlas de praias são repletas de caminhantes que, de tão numerosos, já necessitam de mão e contramão. Calçados são confeccionados_ os tênis_ de todas as marcas e tipos para facilitar a marcha. E as conversas recaem sempre sobre esse tema atualíssimo!!, de “fazer caminhadas”, nas quais é considerado “out” quem não pratica esse esporte importantíssimo para a saúde do corpo...e da mente.
Não sou contra nada do que exponho, mas o que me chama a atenção é a esquisita maneira de se colocar na ordem do dia, como uma novidade alvissareira, um elemento inerente ao ser humano saudável, que é andar com os próprios pés. É interessante observar as transformações do progresso que, ao criar suportes e facilidades para a vivência do homem, por outro lado, desfalca-o quase de sua própria identidade.
Receio que, mais dia menos dia, desaprendamos outros hábitos essenciais, como o de falar, ou sorrir, ou gesticular, já que sabemos de cor todos os símbolos gráficos da linguagem do computador, e, pelo jeito que as coisas andam, comunicarmo-nos por essa máquina já se tornou nosso costume primordial.
Dora Vilela é professora de língua portuguesa e francesa – São Paulo.