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Quero ser salva do Complexo de Cinderela - Por Carol Montone


Quero ser salva dessa idéia tosca, que me incutiram, de que preciso ser salva. Eu sei me virar sozinha, apesar de não ter sido criada para isso. Cresci e já tenho altura para ascender a luz. Chega dessa dor de espera, que maculou minha inocência. Ninguém vai chegar. Tenho que cessar algumas buscas e traçar planos concretos para encontrar. Não há prêmios no fim da jornada, apenas merecimento. Meninas são criadas para achar que na exata hora em que bater o cansaço, medo, insegurança ou até simplesmente a preguiça, um príncipe surgirá no seu cavalo branco e tudo terá valido a pena. Parece um discurso ultrapassado, pré-feminista? Sim, mas atire a primeira pedra a moçoi-la, que possa gabar-se de nunca ter idealizado um “salvador”, nem que seja apenas para dar colo ou orgasmos, após um dia difícil. Essa expectativa não parece ser condenável, mas a dor está no verso dessa moeda, quando não há um homem momentaneamente na vida da “sofredora”, ou há, mas pode não estar disponível e aí a princesa acredita que é cocô do cavalo do bandido e paira resignada sobre sua psêudo-independência, lamentando gritos de silêncios, que só as células ouvem e para avisarem o mundo se organizam na construção de doenças psicossomáticas e outros males do século.

Os meninos são mesmo, ainda hoje, criados com mais assertividade no quesito autonomia, afinal é uma prova de masculinidade levantar rápido de um tombo no colégio, mesmo que os tempos de agora permitam uma choradinha básica. Já nós meninas devemos priorizar a feminilidade, a inteligência desenvolvida quase que unicamente para a sobrevivência através da sedução. Trata-se de tornar-se interessante e não auto-suficiente. Estudar, especializar-se numa profissão é o dote de hoje, digamos assim, para algumas mulheres, que na verdade só pensam no casamento e depois na aposentadoria. Onde estará o prazer pelas tão sonhadas independência e igualdade?
Parece não estar na cama, onde muitas de nós regalam-se com o sexo casual para depois chorar à manicure as agruras do telefonema que não veio ou do pai dos filhos planejados, que não chegou. Quem na noite passada poderia supor que aquela mulher inteligente, batalhadora, que entretia a todos com seu decote e sua retórica era um desiludida mascarada, uma fóbica, insegura quanto ao seu poder de sedução, inteligência e até com o tamanho dos seus seios????
Algumas mulheres contra-fóbicas, como classificou a psicóloga americana Colette Dowling, em seu livro o Complexo de Cinderela, gastam a vida para construir carreiras brilhantes, inclusive em áreas tipicamente masculinas, mas no fundo escondem uma marcante auto-estima distorcida e mal trabalhada, são menininhas assustadas e confusas, perturbadas com o fato de aparentemente ninguém saber ou se propor a cuidar delas. Sem contar aquelas companheiras, que ainda se valem da máxima de que atrás de um grande homem vem sempre uma grande mulher e exilam-se voluntariamente - muitas vezes depois de uma breve carreira ou pelo menos de garantirem seus diplomas pró-formes - na segurança de suas responsabilidades domésticas, principalmente de mães. Ainda vale destacar, como comentou a autora, as garotas, que sentem-se profundamente injustiçadas pelo mundo, quando obrigadas a trabalhar e cuidar de si mesmas por questões inerentes às suas vontades, como separação conjugal, viúves , necessidade de sustentar sua prole entre outras.
O livro vale a pena para que nós e eles entendamos que essas crenças e atitudes destrutivas nascem na infância e são cultivadas por um mecanismo de acomodação das meninas induzidas, desde o berço, a acreditarem que sempre haveria alguma pessoa mais forte para protegê-las.
Não é possível que a liberdade nos venha repleta de tristeza meninas. Mãos à obra. Nós podemos mais. O medo há de existir sempre. A cada desafio pensem nos versos de Clarice Lispector (Aprendendo a Viver) “Pelas plantas dos pés subia um estremecimento de medo, o sussurro de que a terra poderia aprofundar-se. E de dentro de mim erguiam-se certas borboletas batendo asas por todo o corpo”.

Concordo completamente com você. Eu nunca me identifiquei com essa passividade feminina e sempr epensei que era diferente, que eu era ativa, qeu corria atrás do meu objetivo, mas recentemente descobri que na verdade, inconscientemente eu também me iludi, esperando um "salvador" quando não me esforcei o suficiente paea alcançar meus objetivos...

Pois é Carol, vc abre as cortinas da alma feminina de uma forma bem legal. É certo que os meninos são criados para serem autônomos e as meninas "quase independentes" e que muitas e muitas vezes ficamos apenas no quase!
Mas a autonomia é adquirida e nunca é tarde para se fazer autônoma, sob todos os aspectos. Mas pra isso é preciso que se queira verdadeiramente. Acredito que a cada geração as meninas estão um pouco mais autônomas, mas fico achando que ainda levará tempo para que queiramos verdadeiramente nos despirmos do rótulo de sexo frágil, viu? É sempre mais cômodo deixar para o homem decidir sobre o que quebrará as nossas unhas ou o nosso frágil coraçãozinho!!!rs...
Adorei o texto! Especialmente o fechamento em Clarice Lispector, claro!!!
Foi um prazer ler você aqui, viu?
Beijos muitos.

Essa é minha maninha!!!! Que orgulho sinto dela ;o)

Esse texto ficou bem legal, Carol, parabéns!!!!! Esse é o caminho...

beijos, saudades, te amo

MM

Oi Cris
Obrigada por ter passado por aqui. Desconstruir o que nos ensinaram não é simples. Falo por experiência própria. Sou mais uma cinderela assustada nesse mundo grande e cheio de possibilidades, mas nós estamos atentas Cris e isso vai fazer a diferença. Passe sempre por aqui querida. Será um prazer te ouvir. Essa troca de idéias é alimento essencial para alma
abraços
Carol Montone

Querida Euza
Obrigada pelas palavras e mais ainda por esta prazerosa oportunidade.
"Liberdade não se mendiga se conquista", como disse Che Guevara e é preciso mesmo querer muito.
Concordo com você, que a cada nova fornada de meninas vai ficando longe esse ranço de medo e inferioridade que nos encutiram.
E quanto ao nosso coração...ele é o melhor do nosso miolo.....'(rs)
Um grande beijo para você!!!!!!
mais uma vez obrigada
Carol Montone

Querida Mônica Montone
Quando eu crescer quero ser igual a você (rs)...obrigada pelas palavras...por tudo! Você é miha amiga de todas as vidas, a mais bela flor do meu jardim, aquela que me inspira só de olhar e faz minha alma dançar à toa só pela alegria de brincar
beijos fina flor
saudades
tb te amo, amarei e amaria porque gerúndio de amor é o único que define nosso caso
maninha Carol

Carol, gostaria de parabenizar você pelo texto. Te peço permissão para eu e meus colegas de turma da disciplina "Literatura Contemporânea e Mulher" possamos ler e comentar sobre o seu post, pois descreve muito bem as reflexôes femininas assim como os dilemas que as novas gerações de mulheres decidiram se irão herdar ou não. Achei também muito legal, Carol, a combinação do titulo que você escolheu: "Quero ser salva..." paradoxalmente usando esta expressão numa temática de total independência.

Obrigada pelas palavras invisigoth
É motivo de felicidade saber que estas tímidas reflexões servirão para debates mais amplos. Escrever é um ato talvez paradoxal...tão solitário quanto social e compartilhar é maravilhoso.
O título é síntese da contradição da mente feminina e também a confissão pessoal de integração nessa realidade, que assola não somente as mulheres que vejo mas as que existem em mim.
Abraços
Carol Montone

Sempre insisti que a chave para grandes mudanças no contexto homem/mulher se encontram na quebra da dependencia e pseudo-fraqueza que as mulheres têm ou foram criadas para ter. Seu sucesso profissional e independência econômica talvez sejam os grandes alavancadores que culminariam na independencia de um salvador, encontrando-o dentro de si propria. Do outro lado, o masculino, que se esconde atrás de seu poder em resolver problemas, teria que se virar para impressionar suas muheres de outras maneiras, por conseguinte, valorizando-as muito mais.

Obrigada pela visita e pelo comentário Ochucci
Essa sua insistência certamente é corajosa e deve ter gerado interpretações erradas de desamor na cabeça de muitas cinderelas. É inquestionável que o sucesso profissional é importante, mas não sei se decisivo. No universo cor-de-rosa parece que a dependência emocional é a mais dolorosa e paralisante e depende de traumas e referências, assim como de experiências negativas nos relacionamentos afetivos , por exemplo. O medo de não ser boa o bastante para ser amada, por vezes ,independe do salário que se ganha. É inquestionável, no entanto, que as amarras são maiores num contexto social, onde mulheres ainda recebem menos que homens por funções identicas e por vezes a despeito do fato de terem maior escolaridade ou pior que isso são simplesmente preteridas por serem pessoas que geram outras vidas, entre outros absurdos.
Concordo que nenhum homem deva ficardo outro aldo da moeda resignado ao fardo de ser salvador de outrem....no mundo de hoje vale o "salve-se quem puder" e acho que os homens estão tentando se encontrar e adpatar a novos papéis...mas fica só um apelo para que ninguém confunda cavalheirismo, gentileza, generosidade, romantismo e outros predicados fudamentais como ações protecionistas ou desnecessária....mulheres serão sempre mulheres.....
abraços
Carol

Carol:
Muito bom seu texto, gostei bastante!!
É realmente uma batalha diária libertar- nos dos padrões aos quais aprendemos a obedecer!!
Podemos mais sempre!!! Com certeza!!!
Adorei te conhecer!!!
Vou ver se entro sempre por aqui!

Bjo gde,
Érica

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