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DEMOCRACIA ON LINE – por Pablo Capistrano


Depois dessa eleição presidencial ninguém vai mais negar a força da rede mundial de computadores. Quando o primeiro turno acabou, a impressão que se tinha era que a candidatura do tucano Geraldo Alkimin iria decolar. Os opositores do presidente Lula se encheram de esperança e invadiram as ruas com uma seqüência azul e amarela de adesivos do PSDB. Parecia que agora, o mito do operário mutilado, do retirante sertanejo que sobreviveu ao teste da fome e se tornou presidente iria acabar definitivamente. Embalado pela revolta cidadã de alguns setores da classe média que, ainda no dia da eleição do segundo turno, andavam ameaçando: “se Lula ganhar o governo acaba antes de começar”.
Passado o segundo turno a surpresa prevista nas pesquisas: Alkimin teve dois milhões de votos à menos. Não chego a pensar que a derrota tenha sido humilhante porque há sempre dignidade na derrota assim como há sempre dignidade quando o combate é justo. Mas a derrota do Alkimin foi no mínimo desconcertante. Como explicar que um governo desgastado por quase dois anos de uma inexorável e sistemática campanha da grande mídia tenha conseguido impor uma vitória com margem tão larga?
São vários os fatores que podem explicar o resultado da última eleição presidencial, alguns políticos, alguns econômicos, alguns estratégicos. Politicamente o PSDB não conseguiu pagar o tributo necessário para eleger Alkimin presidente. Esse tributo era o sacrifico de Serra ou de Aécio Neves. Um dos dois deveria ser imolado no altar dos deuses da política para que Alkimin tivesse alguma chance. Isso não ocorreu. Em nenhum momento, nem do primeiro turno nem do segundo, o PSDB teve a coragem de lançar um dos seus dois presidenciáveis de 2010 na fogueira. Entre Serra e Aécio, o PSDB acabou optando por sacrificar Alkimin e deixou-o patinar para ver se um milagre poderia ocorrer, com todas as penitências, jejuns e orações da opus dei. Do ponto de vista econômico não houve escapatória. Alkimin teve que pagar o ônus dos últimos quatro anos do governo Fernando Henrique e não teve fôlego para impor uma agenda positiva que invertesse o teor da campanha nas últimas semanas, ficando nas cordas, sem força párea reagir quando o tema das privatizações entrou na pauta.
Por fim, a estratégia. Contra toda a mídia televisada, a Internet foi uma arma poderosa. Um cérebro autônomo de informação e fofoca, que marcou definitivamente o segundo turno. O PSDB não soube como potencializar o poder da rede mundial de computadores no sentido de pautar a opinião pública. Os E-mails pro-Alkimin pareciam mais uma descarga voificerante de um ódio classista. Apontavam a ignorância do presidente Lula, chamava-no de marginal, ladrão, alcoólatra. Mas não conseguiam puxar um debate que pudesse desmontar o discurso do governo. Contra os impropérios morais e sociais, os cybermilitantes petistas lançaram on-line uma lista de comparações dos números do governo Lula e do FHC que, a despeito de serem ou não verdadeiras, caiu como uma bomba e calou a boca de muita gente que não conseguia encontrar argumentos e apelava para um discurso emocional de uma tecla só. Alkimin patinou nas estratégias políticas no segundo turno. Foi um desastre no primeiro debate da Rede Bandeirantes (apesar da imparcialíssima imprensa brasileira ter dado sua “vitória” por pontos) e depois começou a se afogar numa imensa dificuldade de encontrar um discurso próprio que o diferenciasse de si mesmo e desse esperança para sua militância. Mas o fato é que, depois dessa eleição o impacto da Internet nunca mais vai deixar de ser medido numa eleição presidencial. Lógico que não foi apenas a cybermilitância que definiu essa eleição, mas ela foi fundamental para que Alkimin tenha saído do segundo turno numa situação pior do que a que entrou. Se Lula ganhou pelos méritos de seus acertos, talvez o pobre Alkimin (imolado no altar sagrado da política) tenha mesmo perdido pelos ônus de seus erros.

Pablo Capistrano é escritor e professor de filosofia, colunista do Miolo de Pote às segundas.
Site do autor: www.pablocapistrano.com.br
Imagem: http://www.vermelho.org.br/museu/classe/217/capa-F1.jpg

Professor,

O nome correto é Alckmin.

-"Mas não conseguiam puxar um debate que pudesse desmontar o discurso do governo"-
Professor , o senhor deve ter percebido ,que se o Lula fosse ao debate de bermuda e camiseta de física (sem mangas), teria se elegido da mesma forma.Os debates não decidiram nada porque a maioria dos seus eleitores não tem conhecimento político para entender o que se passou nos debates.Eles entendem , e muito bem , o recebimento do "Bolsa Família" Esta linguagem está mais ao alcance do eleitor em precária situação econômica.

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