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Darklands - Por Pablo Capistrano

www.pablocapistrano.com.br

Esse ano eu faço 33. Pois então... aos 33 eu começo a perceber que andei perdendo tempo com algumas coisas inúteis. Que andei me preocupando com alguns problemas banais, criando algumas expeditivas falsas e que comprei um monte de CDs ruins (ou baixei muita coisa duvidosa esses últimos tempos da INTERNET) apenas para estar “atualizado”. Daí essa sensação de que eu preciso recuperar certas coisas que abandonei em alguma esquina dessas da minha própria vida. Retomar certas pérolas lançadas na estrada. Acertar as contas com o que passou porque, como afirma o Rabi Eliezer “arrepende-se um dia antes da tua morte”; para que o resto da eternidade você não tenha seu nome gravado à fogo no SPC da vida. Então ando meio interessado em recolher aquilo que um dia eu já tive, mas que, por displicência ou por falsos juízos de valor acabei perdendo. Darklands foi assim.
Eu já tive esse LP. Comprei em algum sebo por volta de 1989 ou 1992, não lembro bem. Eu já tinha numa K7 (para quem não sabe o que é, trata-se de um rolo de fita magnética que a rapaziada usava como uma espécie primitiva de IPOD) o Psychocandy o primeiro álbum do Jesus and The Mary Chain, uma banda cujo núcleo era formada por dois irmãos ingleses, Willian e Jimi Reid. A minha fita cassete rodou quase dois meses num aparelho de som “três em um” que eu tinha no quarto e a distorção era inevitável. O primeiro disco do J&MC era muito barulhento. Saído de um dos joelhos da banda novaiorquina Velvet Underground (1965-1970), o som explorava a distorção e os agudos altos das guitarras, com baterias secas e melodias vocais lentas e melancólicas. Tudo no melhor estilo dos oitenta e de sua escuridão contida e selvagem. Mas, quando eu cheguei em casa para ouvir o Darklands na vitrola, me assustei. O disco era bem diferente. Mas limpo, mas melódico, mas fácil de ser compreendido. Uma espécie de Beach Boys do mal. Na época eu não vivia clima para as facilidades. Queria coisas difíceis e desconcertantes, queria que um jato certeiro de distorção atravessasse a minha vida, cortando-a ao meio, explodindo seu centro e espalhando seus pedaços pela linha do horizonte. Talvez por isso tenha deixado Darklands meio de lado e passado boa parte do resto da minha vida atrás do Psychocandy que eu tinha gravado no tal rolo de fita magnética que a turma usava como IPOD. Acabei perdendo meus LPs em alguma festas dessas, entre o ano de 1989 e 1995, e a tal fita cassete acabou enrolando no gravador de modo que eu tive que parti-la em três pedaços (esse era um dos problemas de ser adolescente na era pré-IPOD).
O fato é que eu nunca consegui o disco. Até essa semana, um mês antes de completar 33 anos. Veja bem, completar 33 anos é marcante. Faz você pensar em todas aquelas baboseiras que eu disse no começo do artigo, então, quando eu vejo na prateleira da Velvet Discos, juntinhos, Psychocandy e Darklands eu pensei rapidinho nas palavras do Rabi Eliezer: “arrepende-te um dia antes da tua morte”. Comprei os dois. No carro, fiquei um tempo na dúvida de qual deles ouviria primeiro. Não sei porque escolhi Darklands: “and we tried so hard/ and we looked so good/ and we lived our lives in black/ but something about you felt like pain/ you were my sunny day rain/ you were the clouds in the sky/ you were the darkest sky/ but your lips spoke gold and honey/ that´s why I´m happy when it rains”. Era a faixa três. Happy when it rains. A música da propaganda de automóveis. Quem imaginaria, em 1992, que eu iria passar o resto da semana encantado por uma música de propaganda de automóveis! 33 anos é uma ótima oportunidade para você se arrepender das coisas que perdeu. Quando o Rabi Eliezer disse o que disse um aluno esperto interpelou: “mas como podemos saber o dia de nossa morte para nos arrependermos um dia antes?”. O rabi sorriu e respondeu: “é justamente por isso que você deve se arrepender todos os dias”. Pois é amigo velho, There´s something warm about the rain.

É a máxima Schopenhaueriana: ler (e isso se aplica a qualquer verbo) é tão fundamental quanto não ler.

'Também acabo de fazer 33 anos e portanto sem mais palavramas solidarizo-me com as suas confissões...e como perdi entes (não dentes pois ainda somos flor da idade como dizem os vovôs...) nessas tais esquinas da vida...
bacana seu texto...deu vontade de ouvir seus CDs...beijão e vamos agitar esse miolo com a nossa diversidade reunida sem censura
beijão da vizinha de página
Carol Montone

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